10/18/2018

Ronald de Carvalho: A poesia e as lendas populares no Brasil

 

A POESIA E AS LENDAS POPULARES NO BRASIL

I - A POESIA

A verdadeira poesia nasce da boca do povo como a planta do solo agreste e virgem. É ele o grande criador, sincero e espontâneo, das epopeias nacionais, aquele que inspira os artistas, anima os guerreiros e dirige os destinos da pátria.

Dos pastores do Himalaia aos bardos gregos e romanos, no mundo antigo, dos trovadores e jograis, na idade-média, aos poetas das cortes e dos salões senhoriais, no Renascimento, não variou o sentimento poético. Somente as formas se modificaram. O sutil Montaigne, ao revés dos seus contemporâneos imitadores de Píndaro e Teócrito, muito justamente compreendeu que "Ia poésie populaire et purement naturelle, a des naifvetés et des grâces par ou elle se compare à Ia principale beauté de Ia poésie parfaicte selon l'art; comme il se voit ès villanelles de Goscoigne, et aux chansons qu'on nous raporte des nations qui n'ont congnoissance d'aucune cience n'y mesmes d'escriture. La poésie médiocre qui s'arrête entre deus est desdeignée, sans honeur et sans prix".

E que é a poesia senão um esforço da alma para entender certas verdades superiores e eternas que estão acima de todos os raciocínios? Os cientistas investigam, medem, pensam e verificam; a natureza, para eles, é um teorema, um cálculo, uma hipótese; é, em suma, simples função da inteligência e da experimentação. O povo, ao contrário, é ingênuo, acredita mais depressa no impossível que no possível, não pensa, não indaga e não resolve: sonha, sonha apenas com a  felicidade imediata ou futura, e põe, diante de cada interrogação ameaçadora, o sorriso da trova brejeira ou a lágrima da canção dolente.

À filosofia popular repugnam as ideias abstratas, os problemas áridos, as construções metafisicas; ela é profundamente imaginosa e fantasista, porque fantasiar ou imaginar é para o povo mais que uma necessidade, quase um hábito.

Quem folhear qualquer cancioneiro oriental ou Ocidental verá que a vida se resume, no conceito da musa popular, em alguns jogos tristes ou alegres, num, pouco de vinho transparente e leve, diria o epicurista Ornar Khayyam, num momento fugaz de mágoa ou de prazer. Já o festivo Anacreonte cantara, na "Vida Agradável":

Para que torturar-me
Com as lições da tua retorica?
Lindas palavras ou grandes discursos
Não tornam mais bela a vida...

Aprende, antes, a beber
O doce licor de Dionisos;
Põe tua maior ventura
No servir a loura Afrodite.

Os cabelos brancos enchem-me a cabeça;
Escansão! dá-me um vinho puro. Prepara
A água que deve refrescá-lo,

Pois, em breve, no seio da terra,
Minha poeira deixarás,
E aí os mortos não desejam mais...

Assim faz a gente rude e boa da terra. Nem por diverso modo julgavam os homens primitivos e julgarão os vindouros as graças e os dissabores do mundo. "Gaudeamus igitur, juvenes dum sumus", diz a velha cantiga universitária de Heidelberg. O mesmo repetem todos os homens, o mesmo parece repetir a própria natureza que nos rodeia, na sua ânsia infinita de renovação, na sua pressa de se mostrar sempre jovem e engalanada.

Entretanto, nem sempre é jovial a nossa poesia vulgar. Antes, diremos, como o padre Anchieta escreveu da terra, que a nossa musa sertaneja "é algo melancólica". O brasileiro é naturalmente triste, porque tristes são as três raças que contribuíram para a sua formação. O português é nostálgico como a lânguida toada dos seus fados; o africano é um abatido, suas revoltas são gritos de dor contra as agruras do exílio em que o puseram; o índio é um sofredor, tem na alma a resignada queixa dos rios e o murmúrio das selvas misteriosas. Daí esse aspecto de melancolia que há em quase todas as produções da poesia brasileira, cujas peças mais formosas e amadas, desde o episódio da Lindoia, de Basílio da Gama, às "Pombas", de Raimundo Correia, são imprecações de desespero contra o destino impassível. Se algumas vezes se encontram quadras de ligeiro chiste como as que seguem:

Alfaiate quer tesoura;
Sapateiro quer tripeça;
Moça bonita quer ouro;
Moça velha quer conversa.

Eu não fio na mulher
Nem que ela esteja dormindo;
Os olhos estão fechados,
Sobrancelha está bulindo.

ou, então,

A menina que eu namoro
E que me quer muito bem,
Tem um sorriso que encanta
E vinte contos também.

por via de regra, as mais comuns são as que reçumam desengano e amargor.

Sobre as variações da fortuna, motivo tão velho como a vida humana, ou a divina, se os deuses da Teogonia ainda existem porventura, corre uma pequena e luminosa joia:

A sorte, nós bem sabemos,
É tal qual uma mulher,
Que quer quando não queremos,
Quando queremos não quer...

Que sensibilidade, extreme de artifícios mais ou menos engenhosos, reponta nas seguintes estrofes:

Alma no corpo não tenho,
Minha existência é fingida,
Sou como um tronco quebrado
Que dá sombra sem ter vida.

As rosas é que são belas,
Os espinhos é que picam:
Mas são as rosas que caem,
São os espinhos que ficam.

Parece troça, parece,
Mas é verdade patente,
Que a gente nunca se esquece
De quem se esquece da gente.

Mente quem diz nesta vida
Muitos males ter sofrido.
Só de um mal a gente sofre
É o mal de ter nascido.

De espaço a espaço, surge um verdadeiro clarão de "humor", que mal encobre, no sorriso de mofa e zombaria, um laivo de travor pessimista:

Meu mano, meu camarada,
Tudo no mundo é assim:
Comigo ocê fala de outros,
C'outros ‘cê fala de mim...

O porco há de ser porco
Inda que o rei dos bichos
Por seus belos caprichos
O queira fazer cortezão.

Frequentemente também aparecem estrofes onde a língua portuguesa, a tupi e os dialetos africanos se combinam. Couto de Magalhães, Sílvio Romero e Pereira da Costa coligiram algumas canções muito curiosas, em que aqueles idiomas andam confundidos, como se vê das abaixo transcritas:

(PORTUGUÊS-TUPI)

Te mandei um passarinho,
Patuá miri pupé;
Pintadinho de amarelo
Iporanga ne iaué.

Vamos dar a despedida,
Mandu sarará
Como deu o passarinho
Mandu sarará.

Bateu asa, e foi-se embora
Mandu sarará
Deixou a pena no ninho
Mandu sarará.


(PORTUGUÊS-AFRICANO)

Turuê turuô,
Fala capitanga, turuê.
"Aio cá, turuê,
Capitanga ouê,
Aioê, minha gana ouê"

— Zambi lê lê camundê,
Pruquê tu era congo, jacombê:
"Andaraê, anderoê"

— Nosso todo já tá pronto,
P'ra cum perna trocá,
Hoje branco há de fica.
Olé, lê lê, olé,
De boca pero o á
Asassá.

Convém notar, de passagem, como já se mostra diversa da genuinamente portuguesa a linguagem do nosso povo em seus cantares anônimos. O emprego da variação pronominal, como no verso,

Te mandei um passarinho,

profundamente aberrante das regras mais comezinhas da sintaxe portuguesa, é, quase, de uso regular na conversa doméstica, mesmo entre as classes polidas e ilustradas.


II -  AS LENDAS E OS MITOS

Nosso povo não se recreia somente com os encantos do verso alado e sonoro; é também um grande criador de fábulas e histórias, geralmente de tendências morais e corretivas. A imaginação popular não tem, no Brasil, aquele fausto nem aquela pompa do gênio oriental. Em nossos contos indígenas não há palácios magníficos, nem castelos sumptuosos, forrados de pedraria custosa, como nas Mil e uma Noites.

A Sherazade brasileira é mais conceituosa que opulenta, educa mais que deslumbra. Nas lendas selvagens a natureza domina o homem, e, como nas fábulas de Esopo e La Fontaine, são os animais que se encarregam de revelar as virtudes e os defeitos da vida, por meio das suas engenhosas artimanhas.

As lendas de origem europeia, como A Madrasta, A Moura Torta, Maria Borralheira, O Bicho Manjaléu, A lebre encantada, O Rei Caçador, etc., são apenas variantes mais ou menos mascaradas do extenso fabulário medieval, e estão, por isso, fora da nossa verdadeira índole. As de procedência africana são, nesse particular, mais características, aproximam-se mais de nossa alma.

Para o indígena, segundo se apura nos seus contos mais famosos, era a esperteza arma seguramente melhor que a força, o instinto da raposa vencia a violência da onça, a agilidade dos macacos, a bruteza das antas. Observe-se, como exemplo, a história abaixo transcrita:

O CÁGADO E A FRUTA

Diz que foi um dia, havia no mato uma fruta que todos os bichos tinham vontade de comer; mas era proibido comer tal fruta sem primeiro saber o nome dela. Todos os animais iam a casa de uma mulher que morava nas paragens onde estava o pé da fruta, perguntavam a ela o nome, e voltavam para comer; mas quando chegavam lá não se lembravam mais do nome. Assim aconteceu com todos os bichos que iam e voltavam, e nada de acertar com o nome.

Faltava somente o amigo cágado; os outros foram chamar ele para ir por sua vez. Alguns caçoavam muito: "Quando os outros não acertaram, quanto mais ele"! Amigo cágado partiu munido de uma violinha; quando chegou na casa da mulher perguntou o nome da fruta. Ela disse: "Boiôiô-boiôiô-quizama-quizu; boiôiô-boiôiô-quizama-quizu". Mas a mulher, depois que cada bicho ia-se retirando já em alguma distancia, punha-se de lá a bradar: "Oh, amigo tal, o nome não é esse, não". E dizia outros nomes; o bicho se atrapalhava e quando chegava ao pé da fruta não sabia mais o nome. Com o cágado não foi assim, porque ele deu de mão à sua violinha, e pôs-se a cantar o nome até o lugar da árvore, e venceu a todos. Mas, amiga onça que já lá estava à sua espera, disse-lhe: "Amigo cágado, você como não pode trepar, deixe que eu trepe para tirar as frutas, e você em paga me dá algumas".

O cágado consentiu; ela encheu o seu saco e largou-se atrás. Chegando a um rio ele disse à onça: "Amiga onça, aqui você me dê o saco para eu passar, que sou melhor nadador, e você passa depois". A onça concordou, mas o sabido, quando se viu da outra banda, sumiu-se ficando a onça lograda.

Esta formou o plano de o matar; ele soube, e meteu-se debaixo de uma raiz de grande árvore onde ela costumava descansar. Aí chegada, pôs-se ela a gritar: "Amigo cágado, amigo cágado!". O sabido respondia ali de pertinho: "Oi". A onça olhava de uma banda e de outra, e não via ninguém. Ficou muito espantada, e pensou que era o seu traseiro que respondia. Pôs-se, de novo, a gritar, e sempre o cágado respondendo: "Oi", e ela: "Cala a boca, oveiro!" e sempre a cousa para diante. Amigo macaco veio passando, e a onça lhe contou o caso da desobediência de seu traseiro e lhe pediu que o açoitasse. O macaco tanto executou a obra que a matou.

Não temos dúvida que o bom La Fontaine poria ao fim desta fábula, à guisa de moralidade, aqueles mesmos versos com que arrematou a sua história da rã e do rato:

La ruse Ia mieux ourdie
Peut nuire à son inventeur
Et souvewt Ia perfidie
Betourne sur son auteur.

O animal preferido pelos indígenas é o jaboti. Suas espertezas são tão notáveis que nem o Caipora consegue evitá-lo. Os animais ferozes são dominados por ele, e há nas suas façanhas sempre um ensinamento a colher, sempre um exemplo a imitar. A raposa de Esopo encontra no nosso jaboti um emulo brilhante, senão até um mestre ainda mais sutil na arte de viver.

Entre as de origem africana, merece especial menção a pequena lenda: A onça e o gato.

A onça pediu ao gato para lhe ensinar a pular, e o gato prontamente lhe ensinou. Depois, indo juntos  para a fonte beber água, fizeram uma aposta para ver quem pulava mais.

Chegando à fonte encontraram lá o calango, e então disse a onça para o gato: "Compadre, vamos ver quem de nós de um só pulo pega o camarada calango"? "Vamos", disse o gato. "Só você pulando adiante", disse a onça. O gato pulou em cima do calango, a onça pulou em cima do gato. Então, o gato pulou de banda e se escapou. A onça ficou desapontada e disse: "Assim   compadre gato, é que você me ensinou?! Principiou e não acabou..." O gato respondeu: "Nem tudo os mestres ensinam aos seus aprendizes...

Nesta curta, mas admirável lição, está uma das mais sabias páginas que a inteligência humana poderá conceber. Na sua singeleza, na sua ingenuidade, transparece uma grande compreensão das cousas deste mundo; e o gato, que sempre foi tido por indiferente e preguiçoso, perde, aqui, as suas virtudes mais gabadas para se converter num matreiro e ladiníssimo político. Machiavel não a desprezaria, porque todos os seus conselhos se resumem, afinal, naquele pulo do gato...

É pena, entretanto, que o folclore africano seja ainda tão escassamente procurado e estudado. Não só no Brasil, senão principalmente na África, o gênio do negro constitui um filão precioso, que, infelizmente, permanece na sombra inexplorado.

A julgar pela formosura de alguns contos recolhidos por Fairbridge e Cripps a imaginação africana emparelha em riqueza, com a dos mais ilustres povos asiáticos e europeus. No Zambezi vamos encontrar, por exemplo, no herói Makoma (o maior de todos), o destruidor dos gigantes e das feras, aquele que desviava o curso dos rios e derrubava montanhas, quase uma réplica de Hércules da mitologia grega ou do Thor das lendas escandinavas. Não lhe faltam nem os músculos do primeiro, nem o martelo temível do segundo. Apenas Makoma é filho da terra, é humano e justo.

A superstição, velha companheira do homem, forneceu grande cópia de motivos para o "folclore" nacional. A "anima rerum", com todos os seus mistérios fascinantes, suas nebulosidades estranhas e suas inexplicáveis trajetórias, influiu muito poderosamente no caráter da raça.

O caboclo é bravo, arrojado quando é necessário, calmo na luta, mesmo que todas as probabilidades de êxito estejam de lado contrário ao seu. O número não o intimida, a vantagem de posição ou de arma não o abate. Se, entretanto, depois de uma formidável refrega em que sua coragem fez prodígios e operou maravilhas, ele topa no caminho deserto com uma réstea de luz imprevista, ou percebe um estalido súbito na mata, perde logo o aprumo varonil, um arrepio de pavor corre-lhe a espinha aceleradamente, e, sem mais vacilações, desata numa vertiginosa carreira por macegas e capoeirões, salta valos e vadeia rios, até cair no chão, prostrado pela fadiga e pelo terror pânico.

As abusões, as tradições orais, as histórias terríveis de fantasmas e alucinações entram, em grande parte, na sua psique. Quem não tremeu, quando criança, com as risadas do Caipora, com as perversidades da "Mãe d'Água" e os olhos de fogo dos lobisomens.

Aqui estão, portanto, os elos que nos ligam uns aos outros. Todos nós, das mais diferentes classes sociais, somos um reflexo dessa grande alma popular, feita, ao mesmo tempo, de melancolia e esplendor, de timidez e desempenho. Nosso "folclore" serve para mostrar que a raça brasileira, apesar de melancólica e sentimental, guarda no fundo uma clara compreensão da vida e uma sã e admirável energia interior, que, ao primeiro toque, aflora indomável e inesperadamente.


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Fonte:

Ronald de Carvalho: Pequena História da Literatura Brasileira. F. Briguiet & Cia. Editores. Rio de Janeiro, 1937.

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