11/15/2018

A santa (Conto), de Iba Mendes



A SANTA 

Era uma mulher triste...

Tinha por hábito rezar pontualmente todos os dias às dezoito horas da tarde, quando tocava no seu velho Telefunken a “Ave-Maria”.

Nesse dia, porém, ela não rezou, não pensou em Deus nem em Nossa Senhora...

Havia quinze anos que não falhara um só dia sua prática habitual de devoção. Aliás, orgulhava-se disso e muitos lhe teciam elogios por esse seu piedoso comportamento.

Se a causa de tão grave apatia fora o simples esquecimento, este deveria ter vindo acompanhado por alguma doença grave, posto que prometesse a Deus, por meio de um solene voto, que manteria este hábito todos os dias até o último dia de sua vida...

Entretanto, no dia seguinte nada havia em seu semblante que pudesse indicar sintoma de alguma moléstia; tampouco se notava alguma alteração na sua maneira de conduzir os afazeres domésticos, bem como no modo de cumprir seus deveres para com a velha mãe enferma. Tudo corria exatamente como dantes, exceto o seu compromisso com a “Ave-Maria”.

Transcorreram-se assim duas semanas, período este em que ela não rezou, nem praticou qualquer outro ato que pudesse apontar para um retorno à antiga devoção religiosa.

No horário em que outrora praticava suas orações, ligava o rádio mas apenas para ouvir Roberto Carlos, enquanto ia preparando o jantar para a mãe, há muito debilitada numa cama. A velha, embora houvesse percebido a mudança na vida da filha, não se atrevia a perguntar-lhe a razão, temendo alguma reação que a deixasse irritada ou que a fizesse sofrer: “Vai ver arrumou um homem”, pensava a padecente.

Não se sabia, entretanto, de nenhum homem; e se tal houvesse, tratava-se de um romance muito bem dissimulado, uma vez que ela jamais fora vista em circunstâncias que pudessem denunciar um caso amoroso. Ao contrário, fazia questão de mostrar sua aversão ao sexo masculino, e até sentia repugnância dos galanteios indecorosos dos mais afoitos, chegando ao ponto de cuspir no rosto de um sexagenário que tentou assediá-la num banco da praça.

O fato é que já se havia passado um ano desde a sua última reza, sem que se soubesse de absolutamente nada que respondesse a tão súbita transformação.

Aproximando-se o dia de seu aniversário, a enfermidade da mãe agravou-se sobremaneira. Era caso certo de morte. Restavam-lhe alguns dias, talvez dois, três ou no máximo uma semana, diziam os médicos.

— Filha – balbuciava a velha entre gemidos: – você deve estar ciente que estou indo dessa pra melhor... Faz um ano que algo atormenta minha cabeça; uma pergunta a qual, por receio, sempre evitei fazer-te, mas creio que agora é chegado o momento propício.

— Pergunte minha mãezinha, pergunte! respondeu a moça em visível estado de excitação.

— Há quinze anos – continuou a moribunda — há quinze anos que você fez um voto a Deus, filha, lembra-te, não te lembras?

— Sim, minha mãe – replicou com voz trêmula e os olhos lacrimejantes.

— Então, há um ano que você não cumpre mais o seu voto. Por que isso filhinha?

Naquele mesmo instante a enferma fora acometida de uma violenta convulsão, vindo a falecer em seu colo. A moça, desesperada, aproxima bem seu rosto do ouvido da defunta e diz:

— É que nunca acreditei em Deus, minha mãezinha!... e chora copiosamente...

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