quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O nascimento de Issa (Conto de Natal), por: Guillen Robles


O nascimento de Issa
(Conto de Natal dos mouros da Espanha)

Em nome de Deus e de Mafamede o Honrado. Alhassan, filho de Abilhassan Albocrio, faz-nos saber pelo contador Marcatil, filho de Suleiman, que Imram, pai de Maria, era casado com Hana, senhora entre as mulheres. Quando ela sentiu que ia ter um filho de seu marido, levantou os olhos para o céu e disse:

— Senhor, ofereço para teu divino serviço aquele que vai nascer, homem ou mulher; para teu santo serviço, Todo Poderoso!

Naquele dia, serviam no Templo três pessoas: Zacarias e dois outros. A mulher de Zacarias era irmã de Hana e esta veio dizer-lhe:

— Ó Zacarias, prometi o filho que hei de ter ao Templo, ao serviço da Casa Santa.

Deus quis que tivesse uma filha e nasceu Maria. A mãe disse, então, a Zacarias.

— Prometido o que nascesse ao Templo. É uma menina, quero cumprir a promessa.

Zacarias respondeu:

— As mulheres não servem para a Casa do Senhor, porém faz com que tua filha seja boa até que Deus olhe para ela.

Como quisesse voltar para casa, ele pediu para ver o rosto da criança. A mãe a descobriu e era linda como a lua cheia! Deus fez com que Zacarias quisesse muito bem a Maria. E nesse ano todas as plantações cresceram vigorosamente. Zacarias quis ficar com a menina em seu poder, tão bela a achava. Hana lha deu e os companheiros dele no Templo prometeram guiá-la, educá-la e doutriná-la. Mas ele achou que os três não poderiam realizar bem essa tarefa e que era necessário tirar por sorte aquele que deveria ser o seu tutor. A sorte deu-a a Zacarias, que ficou com ela e a criou. Quando ela ficou mulher, ele a mandou para casa de sua tia, voltando dias depois para o Templo, onde um dia viu o anjo Jibrael que lhe mandava o Senhor. Trazia nas mãos os lindos frutos do Jardim da Glória. Parou diante dela, que voltou o rosto com temor, e disse-lhe:

— Maria, sou o Mensageiro de Deus e trago-te a notícia de que terás um filho puro, alimentado por Deus, que te escolheu para alta missão entre todas as mulheres do mundo. Humilha-te, Maria, diante do Senhor!

Ela replicou:

— Meu querido anjo Gabriel, como hei de ter um filho se não conheço nenhum homem?

E Gabriel:

— Mas Deus assim o quer e será a maravilha das maravilhas!

O anjo partiu e o coração da Virgem quedou sossegado até o dia em que sentiu que a criança divina tinha de nascer. Então, com medo que Zacarias e os servos do Templo a acusassem, fugiu para o deserto, onde caiu ao pé duma tamareira seca, perdida de dores. E ali teve o Menino Jesus, louvado seja Deus, em boa paz!

Nesse momento, segundo narra Ibnu Abec, Alah abriu todas as portas do céu e baixaram sobre a terra sete “assafés de almalaques”, isto é, sete filas de anjos, cantando: — Deus é um só e Jesus é o espirito do seu Verbo!

Zacarias foi à procura de Maria com todos os Beni-Yssrailo, filhos de Israel, guiados por Iblis, o Diabo. Encontraram um pastor assombrado, que lhes disse ter visto abertas as portas do céu e as filas de anjos que desciam e a claridade ofuscante que delas jorrava.

Aqueles furiosos encontraram Maria e o Espirito do Verbo. Logo disseram que o menino era filho do pastor e juraram lapidá-la. Chegaram onde estavam, ao pé da tamareira, com cacetes e calhaus na mão. Jesus estava em pé diante dela.

— Maria, vieste aqui ocultar a tua maldade! gritavam.

— Não. Não vim esconder maldade alguma. O menino vos dirá à verdade.

Todos riram.

— Como há de falar quem acaba de nascer?

E o pequenino Jesus disse-lhes:

— Eu sou servo de Deus e Deus foi quem me mandou a este mundo para servi-lo.

Mas os furiosos levantaram os paus e atiraram as pedras. As pedras e os paus voltaram-se contra eles próprios e os feriram. Jesus falou:

— Venham a mim os que estão feridos!

Eles foram e ele os curou. Assim, o deixaram partir com sua mãe para os trabalhos e obras a que Deus o destinara.

***

Que Deus derrame suas bênçãos sobre Mafoma o Honrado e sobre os que nele creem, os de seu povo amado, emin! emin!


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Guillen Robles – “Leyendas Moriscas".
Tradução anônima, in: Revista Fon-Fon, dezembro de 1922.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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