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7/04/2019

Lenda de Natal (Conto), de Júlio Brandão



Lenda de Natal

Certo homem, já velho, viu chegar o Natal, e pôs-se a pensar na melancolia, no desamparo da sua vida. Dos filhos, uns tinham-lhe morrido, outros tinham-no abandonado... Estava só no mundo, com os pés para a cova, e cheio de desilusões, de ingratidões e de pobreza. Entretanto não havia ambições vis nem rancores no seu coração. Tinha saudades. Por esse lento caminho da vida, hoje ermo de afetos, algumas consolações tivera a sua alma. Recordava-se, às vezes com os olhos orvalhados, postos no horizonte esfumado do dia triste. Agora era um farrapo, que tinham de levar os redemoinhos da morte.

À noite (era a nostálgica noite de Consoada) sentiu duas longas lágrimas a molharem-lhe o rosto. Ele mesmo foi fazer um caldo para a ceia. Os piornos ardiam na lareira do casebre esburacado. O velho encolheu-se ao lume, com os olhos muito fitos na labareda avermelhada.

Todos estavam, àquela hora, nos lares amoráveis. Ele alembrava-se do riso das crianças, desse amoroso e cândido florir de venturas; avivava-se-lhe o passado, claro e benéfico, cuja árvore do Natal era cheia de estrelas, cantada de esperanças, e agora, há quantos anos, um negro e frio cipreste! Para ali estava, sem uma fala amiga, sem um rosto amado, ouvindo a ventania nos soutos. E pensava que era como esses troncos velhos e partidos, por cima dos quais o enxurro espumava, e onde nunca mais nasceria flor, ou cantaria ave...

Fez um exame de consciência: fora bom, fora simples. A mulher morrera-lhe ainda na flor da vida; a filha fugira-lhe para a mãe, quando estava noiva. Antes assim, pensava. A filha era uma santa, e o mundo era ruim... Mais tarde, já trôpego, dois filhos roubaram-no, e nunca mais apareceram. Como ele se lembrava! Fora numa noite como aquela, negra e ventosa. Os dois, quando ele dormia, arrombaram-lhe a arca, e levaram-lhe a meia dúzia de peças que tinha guardadas no escaninho, para algum ano sáfaro, de mais negra fome. Afinal tudo era para os filhos, dizia consigo; os filhos lho levaram... Mas nem roupa lhe deixaram, no Inverno impiedoso, para o cobrir. Tinham sido perversos, os filhos que ele tanto amara! Depois começou de entrevecer; os braços não podiam; e onde o trabalho míngua, vai crescendo a miséria. Ficou com uma horta, donde comia o caldo, onde colhia uma cesta de fruta. Pouco lhe bastava, afinal. O compadre, a quem ele tanto ajudara, por quem tantos sacrifícios fizera, fora para o Brasil. Por lá acabara, certamente...

Estava escorraçado como um cão, pobre como Jó. Apesar disso, na consciência não se apagara a claridade que sempre lha iluminara. Ela era semelhante a um suave rio bucólico, cuja transparência deixa ver na areia loira a sombra de um cardume prateado. Ele sentia-se bem naquela miséria, naquele abandono — com essa leveza e essa graça dos que olhando para a vida inteira não têm nunca a desviar os olhos de uma torpeza ou de uma mentira.

Curvado sobre as brasas crepitantes, o velho lançou os olhos para o banco chamuscado, que lhe ficava em frente. E de repente ficou extático. O queixo tremia-lhe fortemente. Santo Deus! Que via ele?! Era inacreditável! A filha e a mulher, a fiarem nas suas rocas, com um sorriso tão suave, uma serenidade tão bela! Jesus, Jesus, eram elas! Que alegria a sua! O velho estremeceu, o coração bateu-lhe como quando era jovem, balbuciou:

— Ó Maria, ó Luísa, vocês vieram?!

Elas sorriram-se mais docemente, sempre a fiar nas suas rocas. E o velho, com os olhos pregados nelas, sentia as pálpebras umedecidas de uma felicidade extra-humana.

— Ó Maria, ó Luísa!... 

Assim correram alguns instantes celestes. Ele olhava-as embevecido. Elas resplandeciam, como envoltas num vago luar. Nunca as vira tão lindas, com mais lindo sorriso. E como não falavam, o velho calou-se também num êxtase.

Elas continuavam a sorrir, continuavam a fiar. O vento, fora, soprava rijo nos sobros, assobiava. A noite ia passando a uivar, feia e longa; mas as horas voavam para aquele velho embelezado nas visões.

As duas já tinham espiado as rocas. À porta ouviram-se três pancadas.

Truz, truz, truz!

— Quem me procura?! — tartamudeou o velho, como despertando de um sonho imenso.

Truz, truz, truz!

Arrastou-se trôpego, abriu a porta. As duas tinham desaparecido. Na treva espessa e lúgubre, distinguiu a figura doutro velho de grandes barbas, com uma sacola ao ombro.

— Sou eu, compadre, sou eu!

— Será possível! Que felicidade!

E abraçaram-se, num antigo e comovente abraço.

O viandante pousou a sacola, sacudiu a neve do capote, e foi-se aquentar ao lume.

— Hás de vir gelado, Manuel!

Vinha, na verdade. Tinha andado muito, a noite estava má, nevava. Mas há quantos anos ele tinha querido vir passar ali o Natal! E contou, ao estalar das raízes secas no lume, naquela paz religiosa e bíblica, a sua crua sorte.

Os velhos sentaram-se um em frente do outro. Enquanto o caminheiro espalmava as mãos sobre o brasido, ia narrando a sua vida dura, por terras longínquas e ásperas, à busca de fortuna. Trabalhara muito, sofrera muito. E sempre, através de tormentos, a saudade do seu velho amigo lhe aparecia... A vida tinha-lhe ensinado muitas coisas; mas sobretudo que a felicidade está dentro de nós, vive conosco, e que todo aquele que semeia o bem, há de colher o bem...

O outro escutava-o silencioso, com a vista úmida.

— Acredita que toda a minha pena, compadre, era não poder abraçar-te!

— E eu julgava que tu, por tão longe, nunca mais te lembrarias...

— Pode lá esquecer quem é santo, compadre!

E contou que na volta, mar alto, começou, em pleno dia, a escurecer o céu. A maruja adivinhara a tormenta. Amainaram as velas, fecharam escotilhas, preveniram tudo. Minutos depois o vento rugia, o mar bramia. O navio dançava nos abismos revoltos, fulgentes de relâmpagos. Andaram perdidos, com o leme despedaçado, na água brava. Tiveram fome e sede — e a tempestade a jogar com eles, como com um grão de areia. Nos lábios das crianças, das mulheres, de todos, abrira a flor divina de uma oração. E a dele pedia a Deus que o deixasse vir à sua terra, para ver ainda o seu velho companheiro sem arrimo.

— E Deus ouviu-me. Aqui estou.

O velho atiçou o braseiro, deitou mais lenha ao fogo. O viajante ergueu-se, abriu a sacola, e foi tirando, para cima da masseira velha e carunchosa, as vitualhas que trazia, as ameixas, as passas, uma garrafa de vinho loiro.

— Não me esqueci da ceia, compadre.

— Assim vejo, Manuel. Deus to pague!

E cearam, como tantos anos antes, quando na aldeia havia alegria e fartura. Foram conversando, pela noite dentro, com a alma abrindo numa inflorescência misteriosa. Depois o viandante perguntou por todos, por tudo. E vieram as tristezas, as recordações pungentes: os filhos maus, a filha amada, a mulher morta!...

De novo o velho olhou para o banco da lareira, e manteve-se extático, com os olhos iluminados.

— Que tens, compadre?

— Olha, estão ali!

— Ah!... — disse o outro, sem surpresa, olhando em torno.

— Também vieram, Manuel, também vieram!...

De feito, o velho lá via de novo as duas, sorrindo-lhe angelicamente, cheias de graça. Uma trança de lírios luminosos toucava-as, o mesmo luar de há pouco as envolvia, como se emergissem, pálidas, de um grande sonho místico.

— A Maria, a Luísa, tão lindas!... — balbuciou o velho. O viandante respondeu simplesmente:

— Os que se amam nunca nos abandonam. Estão dentro de nós, vivem conosco.

O velho nem comia, enlevado nas aparições suaves. Via os cabelos loiros da filha, o seu ar virgem e esbelto; a mulher, como no dia em que partira, com os fundos olhos tristes, a boca airosa, onde jamais houvera o veneno da mentira.

— Vê tu que de mais longe vieram elas fazer-te companhia; não fui eu só, compadre.

A cara do viandante estava aureolada agora de uma irradiação magnética.

Seguiu-se um diálogo de velhos que padeceram, que nobremente souberam amar, e que em certa hora suprema dizem, num murmúrio de almas, as suas confissões. Parábolas que lembram o mar, lembram estrelas... Belas e tristes como sepulcros, onde puseram flores, à lua cheia. É a lenda dos homens — sombras vagas, que uma luz vaga para sempre desfaz...

— Agora, compadre, vamos descansar. Venho quebrado de fadiga. Dormiremos juntos.

— Pois sim, eu não tenho outra enxerga.

As visões tinham fugido. E os dois adormeceram, noite alta, quando um galo cantava, como arauto da luz.

***

Mas de madrugada, quando pelas frestas entrava um fulgor dourado, o velho perguntou:

— Onde estás, compadre?

Ninguém respondeu. Uma grande paz enchia a casa. O velho procurou com os olhos, sentou-se na cama. Ninguém! Apenas na enxerga e no travesseiro de estopa ficara resplandecendo docemente a figura do compadre, como se fosse um brilho de nebulosas...

O velho ergueu-se, rezou de mãos postas. O dia de festa alvoreceu sem nuvens. Um sol pálido e terno enchia toda a terra de ouro. Da horta emperlada de orvalho reluzente, o velho veio ainda contemplar longamente a concha azul do céu misterioso e plácido...

A prenda de Natal (Conto), de Carlos Malheiro Dias



A prenda de Natal

— As argolas, mãe? — perguntou, do catrezinho de bancos, a voz estremunhada da criança, que acordara ao rangido da porta.

— Dorme; rapariga... Não ficas sem a consoada... O teu pai ainda não chegou da feira.

A criança voltou-se no catre, ficou com os olhos abertos, encolhida e emudecida, fitando o fogo da caruma, quase extinto no lar, onde requentava a ceia do Natal.

Acocorada na soleira da porta, a mãe, embrulhada num xale, está à espreita, atenta ao menor rumor que vem da estrada.

Já por duas vezes, com o ramalhar das carvalhas ao vento, ela pensou ouvir tropear ao longe a carruagem.

Não se enxerga um palmo na escuridão da noite de lua nova. Um mar de nuvens cobrira os céus, ao fim da tarde. Nem um luzeiro de estrela trespassa agora aquele negrume denso que enche os espaços e por onde o vento anda à solta, varejando as carvalheiras das bouças e assobiando nas agulhas dos pinhais como uma orquestra de flautas.

— Valha-me Deus! O que retêm lá por fora aquele homem, a estas horas da noite! — murmura a mulher, sucumbida.

— Ó mãe, não haveria argolas na feira e terá o pai ido por elas à vila...

— Dorme, rapariga! Amanhã já tens as argolas nas orelhas... Por amor delas desandou o teu pai, sozinho na égua, por essa serra, que mete medo!

Eram a consoada da filha. A colheita em pão e vinho fora de dar graças a Deus. Não havia a pequena de ficar sem as argolas por mais tempo. Logo ao clarear da manhã, o Manuel da Eira selara a égua, entalara o varapau debaixo da coxa, lembrado da quadrilha de Redemoinhos, e pusera-se a caminho para a feira de Lanhoso, prometendo estar de volta ao amortecer do sol, para consoar.

Ainda a mulher advertira, receosa:

— Mete-te a caminho cedo. Toma tento com a ladroagem de Redemoinhos!

E o Manuel da Eira, destemido, voltara-se no selim:

— Hoje é o dia em que nasceu o Salvador. Os ladrões também são gente cristã!

E picando a égua com a espora, abalara, afoito, pela estrada.

Já ao longe, na igreja da freguesia, os sinos tinham tocado para a missa do galo. Rajadas mais fortes de vento enchiam os céus de um burburinho sibilante e agitavam no alpendre os sarmentos das vides ainda por podar.

Súbito, a criança e a mãe erguem-se no catre e no poial da porta.

Uma voz chama, de entre o negrume da noite:

— Ó Maria da Eira!

Sobre as traves, o vento parece que arrasta as telhas. Na corte, os porcos grunhem. Uma nuvem de cinzas ergue-se e rodopia no lar, sobre a caruma.

Sem pinga de sangue, a mulher grita, numa ansiedade aflita, empurrando a cancela:

— Quem me chama?

E entre o rumor do vento distingue a tropeada da égua, os passos vagarosos de dois homens.

— Traga a candeia... — diz a voz, na estrada.

A criança está já fora do catre, à espera das argolas, esfregando nas costas da mão os olhos piscos de sono.

Tropeçando na saia, a mulher desengancha a candeia da parede, e à luz mortiça, saindo ao terreiro, vê o seu homem, trazido a braços, como morto. Atrás do grupo fúnebre avança a égua trôpega.

Os homens param. O da frente, encarando com o desatino da mulher, resmoneia, esbaforido:

— Tome conta na luz! Não vamos agora aqui ficar neste negrume! O seu homem vem vivo.

Só então ela parece acordar do seu doloroso espanto e soluça, erguendo para o céu ventoso os braços, deixando fugir o xale.

— Nossa Senhora! Divino amor de Deus, que estou desgraçada!

— Cale-se, mulher! Derreados vimos nós com este peso! Demos com ele numa vala, caído ao pé da égua. Foi pancada que lhe atiraram à falsa fé para o roubar.

Em altos gritos, ela empurra a porta, ajuda a deitar o seu homem no catre. A criança soluça, refugiada a um canto, sufocada pelo medo, e enquanto a mulher rasga, com a violência do terror, uma camisa de linho para ligaduras, os dois homens lavam as mãos ensanguentadas num alguidar e atiçam o lume da lareira com um graveto de tojo.

Debalde a mulher agora esparge de vinagre o rosto desfigurado do ferido. Com o braço pendente e as unhas cravadas na palma da mão direita, enlameado e lívido, o Manuel da Eira parece morto, estendido no catre.

— Ele já não tem vida! — clama, num alarido de lágrimas, a viúva, desanimando de abrir aquela mão crispada de defunto.

Os homens deixam de atiçar o braseiro, amparam-na e erguem-na do chão, onde ela se deixou cair desanimada, arrancando os cabelos, com um escarcéu de gritos e soluços.

— Os mortos não fecham as mãos. Isto é coisa que ele tem escondida.

Então, novamente, reconfortada por uma última esperança, ela se esforça, mais do que em estancar o sangue das feridas, em abrir o punho obstinadamente fechado do seu homem.

Mas desfalece depressa e de novo abate, com a voz estrangulada de soluços maiores.

Por sua vez, os dois homens tentam, inutilmente, desunir da palma sangrenta os dedos inflexíveis.

— Pai, abre a mão! — geme também a criança, aterrada e aflita.

As suas mãozinhas molhadas de lágrimas imaginam ter a força, que aos outros falta, para despegar aquela garra.

— Abre a mão, pai!

E de repente, obedecendo à vozita implorante, a mão abre-se e duas argolas de ouro, pequeninas, aparecem, reluzem e tilintam no soalho. 

11/26/2018

O Pai Natal (Conto Natalino), de Pina de Morais



O Pai Natal


O Pai Natal andava atarefadíssimo. E compreendia-se muito bem. Tratava-se da viagem à Terra e da distribuição de bilhões de presentes a todos os mortais deste heroico planeta. O suor caía-lhe às bagadas e o lenço de Alcobaça que levara da visita do ano anterior, estava todo molhado das contínuas limpezas à sua respeitável calva.

O Menino Jesus tolhia-lhe os movimentos, constantemente a mexericar nos brinquedos mais vistosos, que o pobre Menino Jesus também quereria para si. Já lhe tinha dado algumas sapatadas nas mãozinhas, mas isso nenhum resultado deu em benefício da ordem.

Gostava de ser pontual; era uma das suas glórias, essa, de em milhares de anos chegar à Terra à meia-noite, ouvir os si nos de todo o planeta tocar festivos e os salmos elevarem se das sombras das catedrais. Continuadamente arredava as barbas imensas com a mão de fortes cordoveias, e pela abertura do gibão vermelho, orlado de branco, procurava o grande relógio de ouro que consultava numa justificada inquietação. As impertinências infantis e adoráveis do Menino não eram nada, não o incomodavam. Havia outros embaraços e, estes sim, de certa importância. É que o Pai Natal era assediado com incríveis pedidos, de uma insistência que lhe fazia perder a bonomia.

Imensa gente queria ir com ele. S. Francisco de Assis lamentava-se profundamente, com humildade enternecedora, servindo-se da sua voz mais comovente. Com suavidade, pousando a mão de longos dedos descarnados sobre a manga farta do gibão vermelho do Pai Natal, ia dizendo:

Sabes lá que saudades eu tenho da Terra! Aqui, bem vês, a minha alma não tem violências a combater, nem ódios a aplacar. Que queres que eu faça no infinito da bem-aventurança? Não tenho feras a quem arranque os abrolhos, não posso continuar a minha sina de fazer os corações tão puros que se pudessem irmanar todos, como um só coração, para o mundo. Bem sei que não tenho irmão lobo para afagar — ai de mim! Também não tenho a gratidão infinita dos homens, dos animais e das coisas.

A medo, vagamente esperançado que as suas palavras lhe tivessem tocado na alma, insistiu ciciando:

— Tu podias deixar-me ir! Bem sabes que quero a minha pobreza, quero vê-la com a mesma alegria do avarento pelo seu ouro. Bem sei que a ordem é terminante, mas a minha graça e a tua podem bem com um pequeno contrabando. Deixa-me ir no fundo do saco, o S. Pedro de ti não desconfia — acrescentou inclinando-se ao ouvido do Barbaças, convidando-o à cumplicidade.

A palavras loucas, orelhas moucas, isso é o que se diz lá na minha terra, lá em Portugal — respondeu o barba branca, impassível, enchendo, apressado, de brinquedos o saco infinito.

— Olha, não sejas impiedoso, bem vês, que houve uma grande injustiça que felizmente não creio irremediável, mas isto de não deixar vir os animais para aqui, é imperdoável.

E, com ar desolado, abrindo os braços.

— Nem sequer as avezinhas! Deixa-me ir ver a minha rica bicharada...

— Não há filosofia que me faça sair dos meus deveres — volveu o Pai Natal, um pouco agastado. E suspendendo um momento a sua fala para tomar o ar concentrado de quem espevita a memória:

— Já aqui há pouco tempo, coisa de uns mil anos, gastaste uma cera enorme sem resultado aliás, com aquela tua ideia de que no céu a bem-aventurança era um prêmio excessivo para tão pequeno sacrifício feito lá em baixo; quase que me ias convencendo, mas desta vez não há pão quente. Está dito, está dito — rematou o Pai Natal terminante.

S. Francisco lança mão de mais um apelo, como quem queima o último cartucho. E como se não tivesse ouvido a ordem terminante do Pai Natal, largou com insistência e energia:

— Os homens não me chegaram a entender. Entenderam-me, sim, na sua bondade amada, a irmã Lua, a irmã Água e o irmão Fogo, mas os homens nunca se me entregaram totalmente. E contudo o meu misticismo era mais doce e forte que a mais sólida razão, e abarcava tudo até o próprio infinito. Chegava até aqui onde nos encontramos porque é feito de almas e consciências.

O Pai Natal pôs as barbas em riste, o que era sinal da maior impaciência.

Porém S. Francisco, sem se dar por achado, continuou:

— Pensas que quero ir fazer milagres? Isso não me interessa, acredita meu amigo. O milagre não chega para resolver o meu problema. O que eu quero, bondoso amigo, é espalhar a minha mística e a minha alegria por todo o mundo. Oh! Era por isso que eu tanto falava às aves como aos homens, às fragas como aos deuses. Tudo tem alma, a alma imensa que dá a luz universal e liga os mundos.

O Barbaçanas suspendeu o serviço e, com surpresa do santo, atirou-lhe à queima-roupa:

— Então tu estiveste outro dia ao serão a contar os sofrimentos que te magoaram quando te deu, com o delírio deambulatório, para meteres a eito e só, por umas serranias fora, onde ias deixando a pele... E também encareceste as dores que te afligiram na tua doença e ainda querias voltar para tal peste...

Hã?!

São Francisco ia a falar, mas o Barbaçanas, rematou em voz mais alta:

— Já sei o que me vais dizer. Vais dizer que a carne é um embaraço terrível, que nos diminui e perde, vais dizer que agora desprezarias totalmente a carne... Mas para cá vens de carrinho!

São Francisco tem o ar mais doloroso que se pode imaginar. Nos seus olhos cintilam lágrimas amargas e numa voz sombria e ardente, magoada de soluços, disse ainda:

— Peço-te que me acudas, porque de contrário acaba para mim a bem-aventurança. Porque o que me aflige — é esta consciência a clamar dentro de mim, sem se fatigar como um oceano, a clamar imperiosa e irrespondível contra esta quietação, contra esta minha dolorosa inutilidade, contra a minha trágica, condenada e desprezível inércia.

O Pai Natal comoveu-se por momentos mas... Nada disse.

Em face desta teimosia, quem teria o ousio de insistir? Calado, ali se ficou o S. Francisco, as mãos que as feras não podiam mais lamber carinhosamente, metidas nas largas mangas do hábito sombrio, com que o vestiu El Greco, assistindo triste aos preparativos da viagem. Porém, a bondade infinita com que conseguia meter as mãos nos colmilhos indefesos das feras perdurava no seu coração e, lançando recurso da sua última possibilidade, com uma voz de rosas, foi dizendo, como se fora a monologar.

— É para sofrer ainda que quero ir! As chagas de Cristo que se abriram no meu corpo já me não doem e quero vê-las sangrar de novo!

O Pai Natal suspendeu o seu trabalho visivelmente comovido. Mas, de repente, como quem tem uma ideia inesperada, bate na testa com força e exclama:

— E se queres ficar lá em baixo? Hem? Quem é que te arranca outra vez para o céu? Nada! Isso são responsabilidades de mais. Aqui não se pode mentir, como tu sabes, isso seria um cúmulo nestes santos lugares, pensa nisto por amor de Deus!

E rematou inflexível:

— Não me comprometas!

Quando ia a meter no saco um comboio, a que nada faltava, locomotiva a trabalhar, passageiros, gares, sinaleiros, etc., ouve-se o Pai Natal resmungar.

— Lá vem outro! E então aquele que é todo efes-e-erres. Era S. Jorge: armadura reluzente, lança primorosa.

— Deixa-me ir contigo! Tenho saudades dos dias de batalha. Esta lança é que disse as minhas melhores orações. Sabes lá a alegria de esquartejar dragões e, na noite silente, cavalgar no próprio campo de batalha onde o inimigo jaz destroçado para sempre! A Bem-aventurança — disse-lhe baixinho, curvando-se para o ouvido, receoso de que alguém ouvisse não é nada ao lado do triunfo deslumbrante com que a multidão me recebia quando regressava vitorioso no meu ginete de sangue ardente, galopando... Para que quero eu este elmo brilhante, esta viseira inútil e este peitoral recamado de glória e alegorias, onde resvalaram milhares de lanças? — disse o santo, batendo com o guante nas abas do volante, que tocou como um sino. Para quê a minha espada de aço de Livorno?

— O São Francisco tem mais vagar que eu para te responder, vês ainda o que tenho para meter no saco? — e apontou com o braço ilimitados quilômetros de brinquedos, que às braçadas ia engolfando no saco sem fim.

São Jorge manteve-se absorto, envolvido na luz dourada, onde a sua armadura brilhava como fogo. Parecia pensar. Subitamente, como quem toma uma decisão, puxa o braço do Pai Natal e diz-lhe à orelha:

— Já que me não deixas ir, queria pedir-te um grande favor.

— Às tuas ordens! — exclamou o Pai Natal desembaraçado.

— Podias trazer o meu retrato que Ticiano fez de uma maneira assombrosa. Não há cores mais ricas, nem sonho mais profundo. Avalias a alegria que me daria ao ver o meu cavalo de guerra, nobre como se lhe girasse nas veias sangue azul. Este teu criado cavalgando, nimbado de luz, jovem e amado! Que bem ficava aqui tamanha obra de arte! Ficaria a ser o teu escravo para sempre!

O Pai Natal passou a mão pela barba branca e, em seguida, cruzando os braços como quem tira satisfações:

— Ora o menino! Pensas que nasci ontem? Querias meter-me em boa! Querias que eu roubasse? Essa nem parece tua, a pequenada à espera dos brinquedos e eu pela tua causa às voltas com a polícia!

E rematou, com desdém:

— Juízo, meu amigo, juízo! — e batia com o indicador na cara, liquidando enérgico:

— A lei é a lei! Já sabes que não vais!

O Pai Natal vendo muitos santos da Corte Celestial assistindo impassíveis ao seu trabalho, irritou-se e exclamou, censurando com ironia:

— Mãos à obra, amigos! Ajudem-me! Se eu mandasse, vocês tinham de saber quanto custa o suor que se perde a ganhar o pão de cada dia!

Os santos começaram logo afanosamente a encher o saco milagroso, e a montanha de brinquedos diminuía a olhos vistos. O S. Roque com aquela solenidade que toda a gente lhe conhecia, aproximou se do Pai Natal e ciciou:

— Estás arranjado! Vem ali a linda Maria Madalena!

— Deus me acuda! Isto com mulheres é mil vezes pior; o ano passado tive que me zangar a valer.

Maria Madalena aproximava-se naquele seu passo divino, tão leve, tão leve, que nem roçava nas tapeçarias, o cabelo negro como a noite, solto em onda que se dispersava nos ombros e depois em catadupa caía descendo das espáduas, vestiu do a cintura e rodando os quadris. O vestido de luar tecido, revelava desde o galho da perna à beleza do seio. De mãos cruzadas e de olhar imenso, belo da ternura humana com que chorou as dores de Jesus, parou junto do homem do gibão, com os lábios finos emudecidos num beijo eterno. O do gibão fez de conta que não era nada com ele e continuou a engolfar a sua preciosa mercadoria, deitando o rabo do olho suspicaz a espiar a visita.

Até que, numa voz onde à doçura da vida eterna se misturava ainda o fluxo ardente da paixão terrena, fluiu:

— Caridade sem amor; ofende. Os mártires morrem hoje sem compaixão e sem glória. Os crucificados não têm lágrimas ardentes, nem beijos sagrados para lhe caírem como joias sobre os pés doloridos e chagados. Morrem no seio da multidão como num deserto. Não chega nenhum soluçar ao seu ouvido a dizer-lhe amor, nem sequer os embalam como a crianças, as palavras magoadas e exangues que a dor vai esmagando nos meus lábios feridos. Não há linho mais fino que o das minhas tranças, o linho é inerte e nas minhas tranças corre impetuosa a vida da minha alma, que faz esquecer todos os sofrimentos. A cruz do Nazareno era tão alta e os meus pecados levaram-me para tão fundo, que não havia milagre que me deixasse aproximar das chagas das mãos e do rosto divino e sentir o travor do fel que os fariseus lhe tinham deixado nos lábios. Mas foi melhor assim, pois foi a derradeira das humildades para uma pecadora, enxugar de rojo aos pés da cruz o sangue divino com as minhas tranças e beijar os seus santíssimos pés.

— Quero ir, ouviste! — disse a santa inesperadamente e com energia.

O Pai Natal, delicadamente, tirou da cabeça o barrete pontiagudo de lã vermelha, gentileza raríssima no Barbaçana e, confuso, desculpou-se. Que não podia ser, que seria um desgosto inconsolável ter naquela idade de ser repreendido, que pensasse bem e que lhe perdoasse.

Na imensidade reboavam moldando-se pelo infinito os acordes da 5ª Sinfonia de Beethoven, desdobrando o clamar angustioso do homem no céu imenso, angustioso e trágico, mas ao mesmo tempo heroico na sua afirmação de vida — viver! Oh! Viver mesmo no mistério. Dá vontade de fechar os ouvidos para não sofrer com aquela interrogação mortificada a que ninguém responde e que penso ser um protesto contra a limitação que Deus impôs ao homem. Certas voltas de som parecem erguer o calvário de Apoio... Onde a beleza fosse crucificada... E o som foi-se pouco a pouco perdendo...

Santa Maria Madalena retirou-se suavemente como tinha chegado, mas com os olhos cheios de lágrimas.

O Pai Natal encolhia os ombros com pena, mas ia resmungando:

— Uma tragédia! Sempre estes incômodos!

E, depois, aborrecido, olhando em redor com receio de ser ouvido, exclamou:

— Mas que grandíssimo canudo!

Depois, ao longe, um vulto solene, mitrado, as longas vestes do seu hábito caindo majestosas, as longas barbas alvíssimas, o olhar de uma profundidade sem limites, como se abandonasse por momentos o quadro de Vieira Portuense, vem caminhando nimbado de luz, em direção ao burburinho que cerca o Pai Natal.

Este, que o declina ainda longe, exclama sentencioso: 

— Respeito meus amigos, muito respeito! Reparem só quem ali vem — Aurelianus Augustinus — disse com ar superior dos seus conhecimentos de latim.

Todos olharam e emudeceram.

Santo Agostinho aproveitou este silêncio e disse ao Pai Natal, que tirara o barrete pontiagudo com humildade e interrompera o serviço:

— Ando muito triste — disse o maior doutor da cristandade —, ando muito triste porque o mundo se desligou das virtudes platônicas que criam a vida moral que são a própria vida. Os Estados transformaram-se em máquinas ferozes e atuam como monstros esmagando tudo, triturando tudo implacavelmente, no desprezo total das ideias vivas e eternas que dão alma ao mundo. Com o desprezo da razão, perde-se a lei e a moral, que servem de única estrutura à República das gentes. — E depois, num desabafo:

— A consciência e o Estado só podem viver felizes sob a mesma lei moral. Compreendes agora como o vasto mundo é triste!

As mãos do santo estremeciam e o seu olhar profundo tomou uma amargura tão impressionante, que o Barbaças se comoveu, embora não entendesse o que o santo lhe queria dizer.

Com respeito, continuou a ouvir:

— Convidei Platão e Descartes para virem comigo, para nos levares, mas estão descrentes da cruzada que procuro empreender... Disseram-me que não valia a pena, o que me magoou. Bem lhes disse que o idealismo e o espiritualismo rolam na tempestade brutal que é a vida de cada um e de milhões, que as almas endurecem e se perdem inexoravelmente, num mar de agrores ilimitado. Platão ainda me disse: Os homens acabarão por me entender e amar — resposta dolorosa como vês. O resgate das almas mal começa. É preciso resgatar as almas para que o Estado as não devore. Entretanto devora-lhes a vida.

Nesta altura é que o Pai Natal atingiu onde queriam chegar as filosofias e sem perder o respeito, continuando de cabeça descoberta, audacioso, mas sem ocultar de todo a sua rebentina, foi dizendo:

— Divino santo perdoai-me! Mas a viagem é arriscada e a vossa idade merece todos os cuidados. Como vós sabeis, santo e sábio, logo se daria conta da vossa ausência e que havia de ser de mim, meu augusto santo?

O Pai Natal convencido de que estava a ganhar a partida, pediu licença para dizer:

— Se me permitis, meu senhor, um conselho de ignorante, rogava de joelhos, que espereis um momento, coisa de mil anos e se então — o que não creio — ainda não tiver aparecido a tal lei ou razão, ireis comigo, dar-me-eis essa honra.

O santo pareceu aquiescer e o Barba Branca recomeçou de gibão arremangado a encher a sacaria. Quando S. Agostinho já ia longe disse para S. Tomás que estava ao lado e ouvira parte da conversa:

— Deus me perdoe, mas não há nada mais simples do que intrujar um sábio. E era com estas que ele queria ir? Estava bem arranjado, bem se vê que não sabe onde se ia meter... Aquilo só por a chaminé como eu!

Continuou a encher os sacos e resmungou:

— Estou mas é para aqui a encher-me de pecados por causa destes senhores... Arranjo-a fresca!

Já tinha tudo pronto e passava a última inspeção com o olhar, quando S.

Francisco de Assis chegou correndo, com um grande saco.

— Que temos — disse o Pai Natal, intrigado — hã?

— Já que me dão deixas ir, queria pedir-te para levares esta encomendinha. O Pai Natal relanceou os olhos pelo saco e cofiando a barba:

— Encomendinha lhe chamas tu a essa bizarma! 

— Toma-lhe o peso — disse o santo confundido com o receio de não lhe fazerem a vontade.

O Pai Natal deu o chão ao saco e verificou que pesava tanto como uma pluma.

— É extraordinário, S. Francisco, estou admirado para a minha vida, não pesa nada! Olha, S. Francisco, já agora desculpa, mas diz-me o que leva o saco, gostava de saber.

S. Francisco, compungido, explicou:

— É muito grande, pois é para deitares à terra inteira essas sementes que levas. Não tens nada que te enganar, porque eu escrevi aqui o que o saco guarda.

E apontou com o dedo longo e marfinado para os grandes caracteres da palavra «Bondade».

— Boa ideia, oxalá germine — disse o Barbaçana.

Como não havia tempo a perder, pegou na mão do Menino Jesus e meteu-se a caminho com grande inveja da Corte Celestial, que viera em peso ao bota-fora. Acenavam com os lenços enquanto se avistou o Pai Natal, com o Menino a reboque, até dobrar o ramo da parábola no espaço sem fim. Logo as estrelas se afastaram com donaire e a Via Láctea, como passadeira sideral, começou a desdobrar-se diante dos passos do Pai Natal, ajoujado de brinquedos e sorridente de ilimitada felicidade. O Menino Jesus tinha de correr a bom correr pela galáxia fora, para acompanhar o Pai Natal que, finalmente, deixara de responder à infinidade de perguntas que o Menino lhe ia formulando sem descanso.

O espetáculo era assombroso. Embora o visse todos os anos, o Pai Natal estacava sempre dominado por este prodígio sem nome. A Terra rolava com uma velocidade incalculável e as grandes cidades com miríades de luzes voltejavam num enxame loiro de endoidecer. A água dos oceanos refletia o céu estrelado, lucilando milhões e milhões de sóis em superfícies imensas que, já de si, eram brilhantes. Os rios arqueavam de prata fundida os continentes como belas cinturas. Um Sol maior, o nosso, de todos os dias, envolvia meia Terra lanceolando-lhe um meridiano fantástico de golpes de luz que se perdiam no infinito.

O Menino Jesus espetou o dedinho e perguntou que bola era aquela.

O Barbaças, visivelmente arreliado com a dificuldade da resposta, disse-lhe:

— Que há de ser? Um girassol cá do jardim, tu não vês?

Tudo isto se passava num silêncio verdadeiramente infinito, irreal. Mundos que se moviam nas trajetórias mais fantásticas, sem contudo perderem o sincronismo no espaço inacreditável e com velocidades astronômicas. Só as sapatorras do Pai Natal faziam, no pasmoso silêncio astral, um barulho dos diabos, que ele não podia remediar.

— Esta chiadeira dos borzeguins é que me pode comprometer!

O Menino Jesus não deu conta da observação. Pestanejava quando mais cerca, no silêncio eterno, algum cometa passava inundando tudo de uma luz ardente e tão veloz que a vista não o podia acompanhar. A lua branca e serena era a única nota de ternura calma naquela fantasmagoria sem nome. O silêncio transformava-se numa angústia, como se fora a alma inacessível da misteriosa imensidade.

Quando chegaram, caíam as doze badaladas na torre dos Clérigos. Quem se afirmasse bem, veria pelos telhados da cidade passar o gibão vermelho do Pai Natal, apressado, levando a reboque o Menino Jesus. De longe o gibão era uma nuvem rosada, que a brisa fosse rolando, como vela de barco, no mar ondulado dos telhados.

A alegria do Pai Natal! Ele sabia que os seus presentes realizavam o sonho — o sonho que só a divindade podia milagrosamente tocar — de tantos corações! Para os pequeninos, ao menos, naquele dia dava-lhes a certeza de que não havia sonhos vãos e que a existência é plena quando a um sonho se segue outro sonho, e das cinzas de um se erguem as asas para outro e sempre assim.

— É tão barato, afinal — verificava o santo com os seus botões.

O saco tinha de tudo: globos brilhantes, bonecos de mil formas, o mais vasto e fantástico jardim zoológico feito de peluches, tecidos e cartolina; comboios e aeroplanos, gramofones e relógios, lanternas mágicas e guizos prateados; pontes e viadutos, móveis de meio palmo e flores de papel; chocolates e caixas de música; polichinelos sempre gentis de cara de alvaiade e pierrôs de alma apaixonada e face dolorida; joias de belo ouro, pulseiras e ocarinas; livros com as mais belas histórias do mundo e bailarinas leves como borboletas. E tão barato afinal!

O Menino Jesus ajudava como podia, acumulando os sapatos mais pequeninos que eram os da forma do seu pé.

Quando chegaram ao Barredo, desceram por uma chaminé a prumo e com dificuldade. O Pai Natal pôs-se a coçar a barba, intrigado, pois não via sapatos, nem presépio, nem árvore do Natal. O fogão, apagado, de tijolos desconjuntados, era como uma chaga. Há muito não queimara lenha. Em pregos, pendurada, roupa pobre e rota e as paredes escorrendo negra umidade.

O Pai Natal ficou angustiado, de mãos cheias de brinquedos rutilantes e as longas barbas trémulas de comoção, com tanta miséria. Relanceou os olhos pela pobre quadra, para os abrir desmesuradamente ao dar com um berço feito de duas tábuas em meia lua, onde a roupa desenhava o pequenino volume de um corpo de criança.

O Menino Jesus ia a correr para o berço, mas o Pai Natal, pondo o indicador sobre o nariz, disse-lhe baixinho:

— Chiu! Não o acordes! 

E foi ele, aliviado dos brinquedos, pé ante pé, até junto do berço. Desviou carinhosamente, com mil cuidados, o cobertor velhíssimo que cobria a criança. E apareceu-lhe, linda como os anjos, a figurinha doce de um menino de anéis loiros, profusos em toda a cabeça, invadindo as fontes até se espalharem um pouco pelo rosto, as pálpebras descidas sobre olheiras fundas e a boquinha exangue e impassível. Passa a sua larga mão a afastar o cabelo dourado do pequeno, para se afirmar melhor, e esta encontra a algidez do mármore nas breves feições.

A luz amanhecente desenha já os quadros da vidraça, são mais que horas de regresso. Mas o Pai Natal não cessa de soluçar, a alma alanceada por tanta desgraça, caído de rodo sobre o chão.

Ouve-se uma vozinha suave mas decidida.

— Fico eu e leva esse menino para o céu!

E dizendo isto o Menino Jesus bateu as mãozinhas de alegria e deitou-se no berço.

— Leva-o para o céu, eu fico na Terra de onde nunca devia ter saído.

Quando o Pai Natal chegou ao céu, ao abrir o saco, saiu um lindo querubim, batendo as asas brancas, hesitantes como as das aves quando ensaiam voo ao abandonar o ninho.

As Janeiras (Conto), de Brito Camacho




As Janeiras
(Conto natalino)


As Janeiras!

Se já restava pouco do madeiro do Natal, quando os ganhões chegavam do trabalho, arrumada a copa e a apeiragem, iam buscar um madeiro que o meu pai tinha escolhido no monturo da lenha grossa, e colocavam-no na chaminé, arrumado à parede. Este frete era geralmente pago com um copo de vinho, e bem o mereciam os desgraçados, porque alombavam com um madeiro pesando umas poucas de arrobas. Cozia-se sempre neste dia, e a última fornada de pão tirava-se já noite escura, às vezes com a ganharia à mesa para a ceia.

A cada janeireiro, homem ou mulher, dava-se um pão; aos jovens dava-se metade ou um quarto, conforme o seu tamanho, e às vezes, já no clarear da madrugada, havia necessidade de reduzir a esmola, pois não chegava para tanta gente o pão cozido. Tal havia que apanhava duas, três ou quatro esmolas, incorporando-se cm diferentes ranchos, e o mesmo rancho chegava a cantar duas vezes, mudando as vozes.

— São os mesmos que cantaram há bocadinho.

Quem ia levar a esmola, geralmente era uma criança, não se dispensava de dizer, mesmo que lhe não encomendassem o sermão:

— Vossemecês ainda não há nada de tempo que aqui estiveram. Se cá voltarem, não levam esmola.

Que não; vossemecê está enganada, a gente chegou agora mesmo da vila, e ainda não cantamos em mais monte nenhum. Se quer ver o que trazemos...

Nenhum rancho denunciava outro rancho, embora nem todos fizessem a mesma coisa, a muitos repugnando uma tão descarada fraude, tanto mais que nela se envolvia Deus Nosso Pai, invocado a cada instante:

Lá vai uma, lá vão duas
Por cima do seu telhado.
Deus lhe dê muita fortuna
Ao pão que tiver semeado.

Se a noite estava escura, não se distinguiam as caras, e se havia um luar discreto, os homens escondiam a cabeça na manta, as mulheres no xaile ou na mantilha, e assim realizavam a mistificação. Quando o criado que distribuía as esmolas avisava de que o pão, em menos de nada, estaria acabado, meu pai ordenava que dois ganhões dessem uma volta à roda do Monte, fiscalizando os ranchos, e era como se aparecessem guardas fiscais num campo onde manobrassem contrabandistas.

Lembro-me como se fosse ontem, e vão passadas umas poucas de dúzias de anos... 

O compadre Cara-Rota, que era o abegão da casa, deixara-se ficar no Monte, para cantar as janeiras, e como aparecessem, já noite cerrada, os vizinhos da Bispa, o compadre João Catarino, o primo Francisco Manuel, que era um grande tocador de viola, e o lavrador da Granja, que era um grande tocador... De garrafa, armou-se uma mesa de jogo, à pedida, perdendo-se, nominalmente, as melhores herdades do concelho.

A certa altura o maricas do Narciso, que andava no serviço das esmolas, declara que estavam cantando uns homens que já tinham cantado duas vezes, e como ele lhes dissesse que escusavam de cantar porque não apanhavam mais nada, eles ameaçaram-no de lhe bater, chegando um deles a atirar-lhe um sopapo, que por sorte o não apanhou.

— Estão bêbedos, com certeza.

Disse meu pai ao compadre Cara-Rota:

— Tenha paciência, compadre, dê uma voltinha lá por fora, a ver o que há.

O compadre Cara-Rota saiu, levando na mão um fueiro, e quando chegou à porta do Monte ainda os homens cantavam. Eram quatro, um já entrado em anos.

— Por os modos vocês tomaram as janeiras de empreitada, hem? Os homens ouviram, mas não fizeram caso, e continuaram a cantar.

É compadre Cara-Rota foi-se aproximando, e como vissem que ele não estava com as mãos abanando, calcularam que podia armar-se sarilho se continuassem a cantar, e que, em todo o caso, mais esmola não apanhavam. Um deles, o mais pimpão, desenrolando-se da manta, e pondo ao ombro o bordão, disse para os companheiros:

— O melhor é a gente ir-se embora. A esmola que nos tinham dar, que a metam...

Já fora da calçada do Monte, virando-se para trás, disse ao compadre Cara-

Rota, desafiando-o com insolência:

— O amigo não canta, mas pode ser que tenha as goelas secas. Se as quiser molhar, venha com a gente até ali à estrada, que ninguém lhe faz mal.

— Vão lá andando que eu já os apanho.

Entrou na casa dos ganhões, trocou o fueiro pelo cacete mais forte que lá encontrou, e ainda os janeireiros não tinham chegado à estrada, já ele lhes falava desta sorte:

— Qual de vocês é que tem a borracha?

— Somos nós todos — respondeu o que o desafiara.

Palavras não eram ditas, cai-lhe na cabeça uma bordoada que o fez ir a terra. Entraram todos na refrega, está bem de ver, mas o compadre Cara-Rota, ágil como um palhaço, não se deixava tocar, e das cacetadas que despedia nenhuma caía no chão. Durou a luta poucos minutos, saindo dela um dos janeireiros com a cabeça rachada, outro com braço partido, e os outros muito bem zurzidos, mas sem nada quebrado.

— Então os homens, compadre Francisco?

— Fui-lhes levar a esmola ali à estrada, e lá se foram na paz do Senhor.

***

Era uma figura original, o compadre Cara-Rota, meu compadre de verdade, compadre de águas-bentas. Ninguém era mais desembaraçado do que ele no seu ofício — nem mais desembaraçado nem mais perfeito. Por este motivo tinha uma grande freguesia, chamado para todos os Montes, e na Vila, trabalhando na sua casa ou na casa dos outros, nunca se lhe acabava que fazer.

Era alto, desempenado, forte como as armas, multiplicando a força pela agilidade, de uma rara agilidade, o que lhe permitia brincar numa praça, com os touros, que eram quase sempre vacas, por forma a entusiasmar a família. Tourada em que ele trabalhasse e o Esbandalha, era tourada de sucesso — como quando trabalhavam em Lisboa, na Praça de Sant’Ana, os manos Robertos. As vacas eram corridas desemboladas, e bandarilhas não se usavam no toureio da Província.

A sorte mestra, aquela em que o compadre Cara-Rota era exímio, na opinião de muitos inexcedível, era a do emplastro, que consistia em pegar à testa da rês, com mel, um quarto de papel, como se fosse um escrito num vidro. Corria como um gamo, e dava saltos como um ginasta de circo. Gostava da pândega, mas não era homem de bebedeiras, sempre lembrado de que tinha lá em casa uma filharada de que era o amparo e sustento. A sua grande paixão, dominante, avassaladora, era a caça.

Dizia o meu pai:

— Homem inviccionado na caça como o compadre Cara-Rota, não quero que haja outro.

Era muito rara a tarde em que ele não largava cedo o trabalho para ir matar um coelho, à espera, e pelo dia adiante, se ouvia tiros no Cabeço ou via passarem os caçadores, não se importava mais com o que estava fazendo; metia as ferramentas na alcofa, e às escondidas, se podia ser, tirava de casa a espingarda, e polvarinho, a patrona, e pernas para que vos quero, até se meter na linha.

— Ora compadre Francisco, tudo o que é de mais não presta. Então vossemecê vê que tenho aí uma parelha à boa vida, e abala prá caça deixando o trabalho em meio?...

— Não se apoquente o Sr. Compadre que tudo se há de fazer a tempo e horas.

E fazia. Um bocadinho de serão, um bocadinho de madrugada e o compadre Cara-Rota tinha o serviço feito como se tivesse trabalhado sem descontinuidade.

***

Quer fosse às perdizes, no ar, quer fosse às lebres, na terra limpa, quer fosse aos coelhos, na charneca, poucos se explicavam como ele — peça visada era peça morta. Gostava muito de caçar nas pontas, e ordinariamente, em jolda, as pontas eram feitas pelos melhores atiradores, sempre um bocadinho adiantadas, quase à espera da caça que se safava.

De uma vez, caçando na Daroeira, ia ele numa ponta e eu na sobreponta respetiva, pouco distante da orla do mato. Um mitra, empurrado pela linha, sai do mato, sorrateiramente, enfia para a terra limpa, correndo como um danado.

O compadre Cara-Rota desfecha-lhe um tiro, e o coelho, se muito corria, muito mais passou a correr, mudando de rumo, enfiando por uma vereda, que marginava o mato. Lobrigo o figurão lá muito longe, e largo-lhe um. Tiro, sem grande confiança em que o chumbo lá chegasse. Ouviu-se o tiro, e viu-se o coelho, ao mesmo tempo, enrolar as patinhas, morto no meio da vereda. Fui buscar o coelho, muito satisfeito, tanto mais que destas me aconteciam poucas.

— Bem feita, Sr. Compadre!... Se eu tivesse vergonha não voltava a pegar numa espingarda.

Estava eu a empiolar o mitra quando o compadre Cara-Rota, como se lhe desse uma veneta, avança para mim, e diz com o ar de quem procura responder a uma interrogação interior, ao mesmo tempo dolorosa e vexatória:

— Ó Sr. Compadre, faça favor, deixe-me ver uma coisa.

Pegou no coelho, olhou-o, voltou a olha-lo, apalpando-o muito bem apalpado, quase polegada por polegada, e com ele suspenso pelas orelhas, e espingarda encostada a uma carrasqueira, disse-me pausadamente, como se estivesse a desenvolver um raciocínio complicado:

— O Sr. Compadre atirou ao coelho um pouco de rabo, mas do lado esquerdo; eu atirei-lhe de atravessado, pelo lado direito, ia ele correndo, fora do mato, nesta direção... Só um podão que nunca tivesse pegado numa arma, erraria num caso destes. A verdade é que ele não ficou no meu tiro; meteu-se na vereda, e só quando o Sr. Compadre desfechou com ele, é que enrolou a copa e nunca mais se mexeu. Mas faça o Sr. Compadre favor de ver — o coelho não tem um bago de chumbo do seu lado e do meu lado tem uns poucos.

Era verdade. O coelho fora morto pelo compadre Cara-Rota e perante a evidência irrecusável eu dei sinais de mágoa embora não desabafasse em lamentações.

— Isto na caça, sucedem coisas que só vendo se acreditam. De uma vez, naquelas chapadas do Monte Grande que vão bater em Vale de Leitão, os cães ergueram uma lebre, muito adiante da linha de caçadores. Corria que parecia que tiniu asas nas patas, o bicho do diabo. Cada vez os cães lhe ficavam mais para trás, e quando ia chegando ao fim da ladeira, o João da Baroa larga-lhe um tiro, e a lebre fica estendida como uma pescada. O primeiro cão que lhe chega ao pé foi um podengo, atravessado de galgo, que tinha o Antônio Joaquim, do correio, e que era um barra para trazer à mão.

— Foi um bago de chumbo desgarrado, que lhe deu num sítio mortal. Passou-se vistoria ao bicho, e qual chumbo nem qual carapuça.

— Tinha morrido de susto?

— Não, senhor; tinha morrido de esfalfamento, com os bofes arrebentados.

***

A última vez que vi o compadre Cara-Rota já ele deitara os oitenta para trás das costas mas andava com desembaraço, aprumado como um rapaz. Recordei, mentalmente, os afastados tempos em que ele ia trabalhar ás Mesas, ainda novo e eu criança, e pareceu-me vê-lo de machado nas unhas, falquejando à esquina do Monte, largando tudo, a inchó ou o machado, se ouvia tiros no Cabeço.

Era muito alegre, muito divertido, sempre de bom humor, como se a vida lhe corresse em todos os momentos fácil e vantajosa.

Não era desordeiro, mas gostava de dar a sua castanha quando se lhe oferecia a ocasião.

De uma vez, logo no dia seguinte à feira de Santo Antônio, apareceu no Monte um maltês, homem forte, de meia-idade, surdo-mudo de nascença. Para estes desgraçados a esmola era sempre mais avultada, por expressa ordem da minha mãe. Dava-se-lhes umas sopas, se as pediam, e levavam sempre um pão e conduto, geralmente um queijinho ou azeitonas.

— É uma grande infelicidade não ver, mas não ouvir nem falar é infelicidade ainda maior.

Quando a criada dava a esmola ao pobrezinho, o compadre Cara-Rota apareceu, em mangas de camisa, porque era assim que ele, mesmo no inverno, trabalhava no ofício. Viu o maltês, estacou, e como ele se dispusesse, recebida a esmola, a ir-se embora, desfechou-lhe esta pergunta:

— Há quanto tempo é que você é mudo?

O homem não se deu por achado, e a criada, rindo, comenta a pergunta.

— O Sr. Francisco sempre tem cada uma! Se o homem ouvisse, e fosse capaz de responder não era surdo-mudo... O compadre Cara-Rota, não se importando com as filosofias da rapariga, repetiu a pergunta:

— Há quanto tempo é que você é mudo?

Ouvindo altercação à porta do Monte, acudiu minha mãe, a inquirir do que se passava.

— Não é nada, senhora comadre. Este desgraçado perdeu a fala, e eu vou-lha restituir com uma untura de marmelo no lombo.

Palavras não eram ditas, deita a mão a uma vara que estava ali peito, menos grossa que um bordão, e vá de zurzir o maltês, como se batesse em centeio verde. A minha mãe, espavorida, queria acudir ao infeliz, mas o compadre Cara-Rota, não atendia os seus rogos, e o maltês levava e encolhia-se, queixando-se por gestos e por guinchos.

— Ah ele é isso! Não queres falar?... Espera que eu já te arranjo.

Sacou da algibeira uma navalha, que abriu dando três estalinhos, e como fizesse aceno de avançar para o homem, disposto a cravar-lha no fole das migas, o maltês caiu de joelhos, a pedir misericórdia.

— Não me mate, pelo amor de Deus, que eu não fiz mal a ninguém.

— Ora esta! — dizia minha mãe, mal acreditando no que ouvia. — Quem havia de dizer...

— Dizia eu, senhora comadre, porque ainda ontem à noite vi este pardal numa barraca da feira, muito bêbado, ameaçando toda a gente, e desenrolando um palavreado que até envergonhava as pessoas.

***

Nos maus anos cerealíferos, todos os que eram capazes de perder uma noite, homens e mulheres, em romaria pelos Montes, saíam a cantar as janeiras, fazendo-se acompanhar dos miúdos pequenos, os que os tinham, para maior colheita.

Ou porque chovesse muito e as terras se encharcassem, afogando as sementes, ou porque chovesse pouco e as sementes murchassem, apenas salpicando a terra de manchas verdes punctiformes, quando o ano agrícola se mostrava assim, nada prometedor, dizia meu pai, nas vésperas do Ano Bom:

— Temos ano de Janeiras, a não ser que chova a cântaros.

Mesmo chovendo, e às vezes com um frio de bater o queixo, nos anos que se anunciavam maus, o gado a morrer de fome, a família sem trabalho, porque nem sequer havia erva nas searas, tornando necessária a monda, em anos tais, a concorrência de janeireiros era enorme, sobretudo não havendo barrancos a passar, que fossem cheios.

Os criados eram os primeiros a cantar as janeiras, à porta do Monte, e para eles a esmola era especial — pão alvo, chouriço para assar no espeto ou carne para uma friginada e vinho numa garrafa ou numa borracha, segundo o número.

Era quase certo que debutavam por esta cantiga:

Esta casa está caiada
Do telhado até ao chão;
Os senhores que nela moram
Deus lhes dê a salvação.

Também nós, eu e os meus irmãos, cantávamos as janeiras, e a minha mãe mandava-nos dar a esmola pelo postigo, como aos outros janeireiros, o que muito nos lisonjeava. Consistia a esmola em guloseimas, já divididas em porções, para evitar lutas fratricidas.

A gente de Messejana era a que chegava mais cedo, em ranchos, os homens enrolados nas suas mantas, as mulheres nas suas mantilhas, havendo geralmente em cada rancho uma cantadeira de fama, a Sofia, que era a mais pimpona de todas, a Bárbara Bonita, que por sinal era muito feia, mas trinava como um rouxinol... Que apitasse como os comboios.

A Sofia, que era poetisa a valer, repentista como o Bocage, não garganteava as habituais quadrinhas, de uma tão charra banalidade, a maior parte, que dificilmente se encontraria na grosseira urdidura de qualquer delas uma centelha de inspiração. Improvisava à porta dos Montes, de modo que cantava só, e isso fazia com que a esmola do seu rancho fosse mais avultada. No despique ninguém lhe ganhava, a cantar uma noite inteira, nos arraiais, às vezes tendo de bater-se ao mesmo tempo com dois e três cantadores de reputação concelhia, mestres na desgarrada.

Tenho pena de não ter escrito algumas das quadras e decimais que a Sofia arquitetava sobre mote, dizendo-as sem hesitação, como se as tirasse da memória. Instruída e educada, a Sofia de Messejana estou que marcaria na literatura feminina do nosso País um lugar de relevo e distinção.

***

A Musa popular alentejana é pouco imaginosa; falta-lhe geralmente elevação de pensamento; falta-lhe elegância na expressão; falta-lhe correção na forma. A inspirar os janeireiros, pelo menos os que iam cantar às Mezas, nunca entalhava na música arrastada dos seus cantares uma quadrinha que tivesse o recorte simples mas elegante do junquilho, a fragrância quase doce do mantrasto, a leveza pouco menos de imponderável da papoila. É ver por estas amostras:

Ó senhor lavrador Vestido de saragoça; Mande-me dar a esmola Pela sua filha mais moça.

Quando eu aqui cheguei
Dei um tope num cortiço:
Logo o coração me disse
Que me dariam um chouriço.

Venho-lhe dar os bons anos
Que as boas festas não pude;
Venho a fim de saber
Novas da sua saúde.

O Sr. Manuel de Brito
Cordão de ouro no chapéu;
Quando vai para a igreja
Parece um anjo do céu.

Era pequeno o rol das cantigas janeireiras, de modo que o rancho que chegava, às vezes sem lhe alterar a ordem, repetia as do rancho que imediatamente o antecedera. Esta monotonia só era quebrada pela variedade das vozes, cada rancho formando um coro desafinado, em que seria difícil, senão impossível, uma classificação.

Se o frio era dos que enregelam, chegava-nos à chaminé, onde havia um lume que enchia de calor a casa toda, a tremura das cantadeiras, mal enroupadas, parecendo que o seu delgado fio de voz coalharia no ar, se não se calassem depressa.

Acudia minha mãe:

— Vão levar a esmola, e digam que não cantem mais.

Obtinha sempre um grande sucesso o rancho que cantava os três do oriente — os três desorientes — diziam os janeireiros, lengalenga que eu sabia de cor, e que se me varreu, quase por completo, da memória.

Começava assim:

Quem são os três cavaleiros
Que fazem sombra no mar?
São os três desorientes
Que a Jesus vêm buscar.

Não procuram por pousada
Nem onde o irão achar;
Procuram o Deus menino
Que nasceu para nos salvar.

Foram-no achar em Roma
Revestido no altar;
Missa nova quer dizer,

Missa nova quer cantar,
São Pedro ajuda à missa,
São João muda o missal.


O tio Rosa explicava que os três cavaleiros eram os três reis do Oriente, uma terra lá para os fins do mundo, os quais tendo notícia de que nascera

Jesus, se puseram a caminho, para o adorarem. Como eram muito grandes, e montavam cavalos do tamanho de torres, faziam sombra no mar. Chegados à arramada onde Nossa Senhora dera à luz, aí souberam que o menino fora levado para Roma, porque Herodes era um grande malvado, e tinha dado ordens para o matarem. S. Pedro e S. João acompanhavam Jesus, e uma vez chegados a Roma perguntou-lhes o Papa o que desejavam. Vai então Jesus respondeu que desejava dizer missa na Igreja matriz, ao que o Papa anuiu, e como o sacristão tinha ido fazer um recado, S. Pedro e S. João ajudaram ao oficio divino. Veio Herodes a saber onde Jesus estava, e mandou lá buscá-lo, entregando-o aos judeus, que o levaram à presença de Pilatos, pedindo a sua morte. Pilatos disse-lhes que não havia motivo nem razão para semelhante feito, mas que se o quisessem matar, o matassem, que ele lavava daí as suas mãos. Foi o Senhor pregado numa cruz, entre dois ladrões, e ressuscitou ao terceiro dia depois da morte, para nos remir e salvar.

Sucesso ainda maior alcançava o rancho que cantava a chamada oração das almas, lamúria fúnebre que era entoa tia muito lentamente, nenhuma voz excedendo o regime médio, e no coro predominando o baixo profundo, dando a impressão de vir a cantoria do interior das sepulturas, a coar-se por entre túmulos.

Só me recordo do começo desta oração

Acordai, ó acordai,
Desse sono tão profundo;
Que vos estão batendo à porta
As almas do outro mundo.

Esta oração era sempre ouvida em religioso silêncio, e dizia meu pai que uns homens de Ervidel a cantavam tão bem e com tanto sentimento, que não era fácil ouvi-los sem chorar.

As Janeiras!

Até à meia-noite ainda estava tudo a pé, no Monte, para ouvir os janeireiros, contrariando o velho hábito, raramente interrompido, de ir tudo para a sossega, mal engolida a ceia, e engolia-se a ceia ao acender as luzes. O meu pai, nalgum dos filhos cabeceando, ordenava-lhe que se fosse deitar — na cama é que se dorme — o que punha logo o dorminhoco gazil como um furão.

De vez em quando vinha uma roda de café, um copinho de aguardente, um cálice de vinho abafado, para espertar, sendo estas bebidas acompanhadas de alguma trincadeira — bolos feitos naquele dia, nozes e figos comprados na feira de Castro, bolotas que tinham avelado numa alcofa, ao canto da chaminé, escolhidas umas no Poço Seco pelo compadre Rabino, escolhidas outras no Sabugueiro pelo compadre Bugado.

Amos e criados, destes os mais antigos na casa, os compadres, os afilhados, fraternizavam naquelas noites de festa; emparceiravam no jogo; comiam do mesmo prato; quase bebiam pelo mesmo copo; fumavam na mesma onça de tabaco. E não havia uma desatenção, uma falta de respeito, todos juntos e cada um. No seu lugar, a mesma alegria ingênua e franca iluminando todos os olhares, a mesma paz interior refletindo-se em todas as palavras e gestos.

Ficavam sempre dois criados de vela, até pela manhã, para darem as esmolas, e eu ficava com eles, rebelde ao sono, como se fosse atacado de espertina. Pela minha conta e risco — o risco era nenhum — cortava-se um chouriço já curado, e toca de o assar no espeto. Abria-se um pão alvo, pelo rebordo, e o pingo do chouriço ia embebendo o miolo, dando-lhe um gosto muito apreciável. A minha mãe, num descuido propositado, deixava algumas garrafas de vinho no armário aberto, e eu nenhuma hesitação tinha em ir buscar uma ou duas para que o pão e o chouriço não arranhassem as goelas dos meus convivas. La chamar alguns criados de quem era mais amigo, e durava o bródio enquanto havia de comer.

— A minha mãe é capaz de me ralhar...

— Ora! O Sr. Compadre diz que foram os ratos que beberam o vinho enquanto a gente estava a escutar os janeireiros...

Os dias que medeiam entre as Janeiras e os Reis passava-os eu num alvoroto, que me valia alguns puxões cie orelhas, pois nada ouvia do que me diziam, e nada fazia do que me mandavam fazer.

Nunca obtive licença para ir cantar as Janeiras ou os Reis à Bispa ou às Refroias. Montes próximos e de gente amiga, nem mesmo oferecendo-se o compadre Rosa, para ir à minha companhia, garantindo que muito antes da meia-noite estaríamos de volta.

— Fiquem os senhores compadres descansados que não há de haver novidade.

Morro com este desgosto, dos maiores da minha vida... De menino!

***

As Janeiras! Os Reis!

Poucos, muito poucos são os Montes em que ainda hoje se dá esmola aos janeireiros, e por isso mesmo, além de várias razões de outra ordem, são cada vez menos os janeireiros que passam uma noite de Monte em Monte, cantando aquelas tradicionais quadrinhas que o leitor já conhece, e outras de igual valor poético, que se me varreram da memória.

Os tempos andam tão mudados do que foram!
Eu sinto-me tão diferente do que fui! 

Estou a evocar estas recordações numa noite de janeiras, de vento fustigante e frio alpino, e precisamente quando suspendo a pena e fecho os olhos para que seja mais perfeita a evocação, a Otília, minha sobrinha, grita-me da porta do quarto, aos saltinhos, como uma rola na eira: — Tio! O chá está na mesa.

O chá, que naquelas eras, entre rurais pobres e abastados, só era tomado como remédio, para suar, e era de flores de sabugueiro!