sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O lundum (Conto), de José Veríssimo



O lundum
A moldura é uma casa de sítio.
Paredes de barro, esteios amarrados com cipó, teto de palha.
Na frente da casa um mastro, coberto de folhas, ornado com frutos: ananases, bananas e outros.
No topo do mastro uma bandeira.
Na bandeira, pintada por um Pedro Américo campestre, uma pomba.
É o Espírito Santo.
***
É dia de festa.
A festa do Divino ou do Senhor Divino Espírito Santo, como chamam.
É uma festa muito popular na Amazônia.
Durante muitos dias andam as canoas, cheias de devotos, a tirar, esmolas pelos sítios.
Estes pedintes aceitam tudo. Frutas, doces, vinhos, cachaça carneiros, vitelas, tudo lhes serve.
Preferem dinheiro.
O dia da festa chega.
Então, ao menos em aparência, o Senhor Divino Espírito Santo é substituído por Baco.
***
Na sala da casa estão reunidos todos.
Há redes atadas aos cantos.
O resto da mobília compõe-se de baús de matupá pintados de verde, um ou dois bancos e peitos de jacaré.
Em uma das redes o dono da casa fuma tranquilamente no seu cachimbo.
É um velho tapuio de cara alegre e cabelos grisalhos. Veste a sua melhor calça de pano americano riscado e camisa branca.
Em uma rede a dona da casa, sentada de um lado, conversa com uma comadre que senta-se no outro. Na cabeça de ambas dois formidáveis pentes erguem-se como os montes do Almeirim.
Em outra, três moças — que eu chamaria as três Graças, não fosse tão cediça a comparação — duas de um lado e outra do outro, reclinando-se a meio, deixando ostensivamente ver os pés nus meio calçados em chinelas encarnadas, e um trecho das pernas bem-feitas, aos namorados que olham-nas cobiçosos, sentados nos baús ou nos bancos.
Nos outros assentos amontoavam-se homens, e mulheres, moços, velhos e crianças.
Vestidos encarnados, camisas de rendas, grandes brincos de ouro velho, cabeças cheias de flores, lábios cheios de risos, seios cheios de desejos, olhos cheios de amor — tudo há aí.
Os moços fumam o perfumado tabaco do Rio Preto em seus longos cigarros de taquari, e os velhos nos cachimbos de barro, por longos e enfeitados taquaris.
Em uma mesa, coberta com uma colcha de chita, está a coroa do Divino Espírito Santo, cheia de fitas e flores.
Dos lados da mesa ficam encostadas à parede as bandeiras.
Em dois castiçais de prata de forma antiga — pedidos para esse fim ao vizinho rico — ardem duas velas de cera.
Aos pés da coroa amontoam-se maços de velas, dadas de esmola ou em cumprimento de promessas.
Há poucos momentos distribuiu-se o caxiri.
A alegria reina.
***
Há uma orquestra.
Uma flauta e uma viola.
A flauta toca, a viola acompanha.
De vez em quando a viola briga com a flauta. Há então um desconcerto.
Mas os "dilettanti" são nimiamente condescendentes. Não havia pateada. De ora em quando davam palmas.
Era quando a viola e a flauta tocavam os limites do sublime.
Isso não era raro.
Os músicos são cantores, acompanham-se. Têm o defeito de não serem originais. Cantam o "Não te esqueças meu anjo, de mim" — música e letra velhas, que tornavam novas com uns requebros langorosos de olhos para as eleitas de seu coração, que faziam ás vezes, um mau modo e diziam:
— Axi!...
Este — axi!... era um chumbo. Cortava as asas ao sabiá que errava a última nota e caia estatelado no chão da sua desdita.
Os ouvidos dos circunstantes lucravam.
***
Lembraram-se de aproveitar a música para dançar.
Dançaram.
Eram polcas, quadrilhas, valsas, lanceiros — todo o cortejo das insípidas danças civilizadas.
Depois pararam. Um então gritou:
— O lundum, venha o lundum!...
A viola e a flauta puseram-se de acordo e tocaram o lundum.
Nápoles tem a tarantela; o Aragão tem a jota; a França tem o cancã; a Espanha tem o bolero; Portugal tem o fado; Montevidéu tem o fandango; o Brasil tem o lundum.
O lundum, creio, nos veio pela Bahia. Tem o seu tanto de africano. Depois espalhou-se no Brasil. O "cateretê", a "chula" e outras danças são suas filhas.
O lundum é uma dança que admite todas as outras.
As castanholas da jota, a morbideza da tarantela, os passos sedutores do bolero, os passos insípidos da quadrilha, as voltas rápidas da valsa, o sapateado do cateretê, o requebro lascivo do fandango, a arrogância do fado.
E a flauta e a viola tocaram um lundum. E dançaram o lundum.
A flauta e a viola gritaram.
— Ninguém mais vem!...
Passaram-se alguns minutos.
Alguém apareceu na arena.
***
Fez-se profundo silêncio.
Todos os olhos se fitaram "nela".
"Ela" deu os primeiros passos e as primeiras voltas.
Um cheiro ativo de periperioca espalhou-se na sala, de mistura com o perfume do jasmim e do molongó.
"Ela" começou por passinhos curtos: um pé para diante, outro para traz. Os dedos afilados batiam com preguiça as castanholas. Nos lábios de um vermelho arroxado brincava um sorriso provocador...
Deu assim três voltas: ninguém lhe saiu ao encontro.
Temiam todos.
Então dos lábios purpurinos, no meio de um frouxo de riso zombeteiro, saiu-lhe esta admiração e esta pergunta.
— Iá!!... Ninguém?...
Os homens, principalmente os rapazes, entreolharam-se e abaixaram os olhos envergonhados. Passaram-se alguns momentos.
"Ela" esperava no meio da sala com um sorriso de mofa nos lábios.
 Alguém saltou.
***
Era um rapaz desse belo tipo mameluco, alto, esbelto, vaqueiro, de calça branca, camisa branca bordada, botões de moedas de ouro nos punhos e no peito, lenço beira de chita no pescoço cobrindo o colarinho. Apesar de todo o seu garbo, via-se-lhe receio no semblante.
A música começou.
Ele deu princípio à dança.
O corpo esbelto requebrou-se e torceu-se, os pés giraram no chão.
"Ela" compreendeu que ele era digno de si.
Começou.
Os pesinhos, a meio mentidos nas chinelas encamadas, correram ligeiros no chão, os dedos bateram as castanholas com força.
A luta principiou.
"Ela" deixava-o, aproximar-se e fugia rápida quando ia tocá-la, ou então procurava-o e quando ele pensava que ela ia render-se-lhe, enganava-o fugindo.
Depois, nas mil voltas que davam, ele procurando-a, "ela" esquivando-se, quando ele estendia os braços, "ela" passava-lhes por baixo soltando uma grande gargalhada.
O rapaz suava, "ela" estava calma.
Corriam, gritavam, fugiam, iam, vinham, tornavam, chegavam quase a abraçar-se e estavam apartados, dir-se-ia que iam beijar-se e afastavam-se.
"Ela" mostrava-lhe os lábios rubros, apertando-os para não rir, ele lançava-lhe olhares amorosos no meio de sorrisos.
Ele procurava-a, "ela" fugia; ele suplicava, "ela" ria-se.
A dança era um duelo.
***
As outras mulheres estavam arrufada, ninguém mais as olhava, seus namorados mesmo tinham os olhos fixos "nela".
Se pudessem teriam gritado: — fora!...
Os homens, esses, estavam contentes. O mais corajoso de entre eles ia ser vencido. Não gritavam — Bravo! porque a comoção embargava-lhes a voz.
Contradição lógica.
O velho, pai “dela", sentou-se melhor na rede, deitou de manso o cachimbo no chão, fincou os cotovelos nos joelhos, encostou as faces nas mãos e olhou-a muito atento.
Por seus lábios passou um sorriso de ufania.
A mãe deixou a conversa da comadre, que não gostou nada, pois via uma sua filha ficar para o canto, e pôs-se a mirá-las.
A comadre disse suspirando:
— Ah! meu tempo...
O marido da comadre olhou-a com ironia.
Esse olhar era um desmentido formal aquela lembrança do seu tempo.
O lundum continuava.
A viola e a flauta compreenderam agora a sua elevada missão e, de mãos dadas, redobraram de esforços e de notas desafinadas.
***
De súbito "ela" parou.
A alegria reapareceu no campo feminino.
Foi um momento.
Quando um sorriso de triunfo assomou os lábios do vaqueiro — "ela" recomeçou.
O que se passou então eu não posso pintar.
Os pés correram mais velozes, os dedos bateram as castanholas com mais força, os requebros foram mais gentis, nos olhos mortos pelo cansaço houve mais langor, no sorriso mais zombaria, os seios tremeram mais fortes, o coração bateu mais precipite.
Ora dançava com uma rapidez vertiginosa, ora os pés corriam lentos.
Depois dava ao corpo, flexível como o junco, mil jeitos cheios dessa coisa que os italianos chamam "morbideza" e dessa, outra coisa que nós chamamos "denguice".
Em uma das voltas os seus cabelos desprenderam-se e caíram longos, espreguiçando-se sobre as espáduas e impregnando o ar com o aroma rescendente da baunilha.
As flores que estavam enlaçadas neles caíram; "ela" pisou-as.
Só uma rosa ficou. O vaqueiro foi apanhá-la; como a veada das campinas "ela" abaixou-se e levantou-a.
Ele ficou de joelhos, palpitante, suplicando, com as lágrimas quase nos olhos, um pedido quase na boca.
"Ela" girava.
Parou, estendeu-lhe os braços, o vaqueiro apoiou-se-lhe nas suas lindas mãos e ergueu-se.
"Ela" retirou as mãos e a dança continuou.
***
Os negros cabelos voavam-lhe nos ares, tremiam-lhe as narinas, o colo arfava, os seios túmidos pulavam sob a fina cambraia do vestido, o peito ofegava, o coração parecia querer saltar-lhe.
Nos olhos negros havia um mar de volúpia, nos lábios roxos ondas de desejos.
Os cabelos soltos volitavam-lhe ao redor da cabeça e ombros, enroscavam-se-lhe no colo airoso, introduzindo-se-lhe no seio.
A boca semiaberta, úmida, mostrava os dentes brancos e afiados, que pareciam querer morder.
As faces estavam vermelhas como a tinta, do urutu.
E "ela" girava.
O furor da dança se apossara “dela".
Não podia parar.
Na sala, além da música, só se ouvia o sapateado de suas chinelas encarnadas.
***
A viola e a flauta cansaram.
Cansar é uma fatalidade.
A cara dos tocadores metia dó.
Rubros, suados, com os cabelos espetados úmidos, olhos e bocas abertas, estavam grotescos.
Pararam.
Último som e nota, como diz o poeta.
O lundum cessou.
Houve uma chuva de bravos.
Os homens à mulher, as mulheres ao homem.
***
"Ela'' foi cair exausta em uma das redes.
Dizem que foi aquele o seu último lundum.
Depois de mulher do vaqueiro, teve de cuidar dos filhos e ninguém mais a viu nas festas do Divino.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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