quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O sineiro de Canudos (Conto), de Escragnolle Dória



O sineiro de Canudos

Salvador Mocambo tinha na cabeça, a palmos, o sertão de Canudos, onde tanta gente suou sangue na revolta de Antônio Conselheiro. Nascera na caatinga, quase dela se não afastara. Vaqueiro fora o pai de Salvador Mocambo, o filho seguiu-lhe a profissão. Na mocidade destemperara vazante. Serenando na dança, ralhara na viola cantigas sem fim; pusera às tontas, com artifícios e denguices, muita cabocla bonita, tornando-se figura obrigatória de quanta encarniçada havia.

Destro, forçudo, valente, um galalão, não se repassava de sol ou chuva. Sabia das manhas das boiadas, conhecia pelo volume da barriga a segurança das éguas, conservando sem falha de memória os ferros de gado do patrão e os marcos das fazendas vizinhas. O vaqueiro Salvador, tal a melhor joia da fazenda do capitão Jonas Lebre, ignorante às posses próprias, pois vivia à larga na capital baiana. Solteirão, impertinente, gastava dinheiro com as mulheres damas, só de cor duvidosa. No fim do inverno o capitão Jonas recebia o produto da venda do gado, honestissimamente vendido pela jagunçada. O boiame do capitão progredia de ano em ano; as epizootias do rengue e do mal triste não pareciam feitas para os seus touros ou garrotes.

Salvador Mocambo constituíra-se o vigilante-mor da bicharada do capitão Jonas cuja única obrigação era, consoante o hábito sertanejo, conceder ao vaqueiro o quarto dos produtos da fazenda. Salvador não desejava riquezas. Bastava-lhe o sertão, os seus tesouros quando respeitados pelo vento da seca. Era dono dos juazeiros, de folhas muito verdes e flores amarelas, como vestidos de esmeralda e ouro; sem empecilhos possuía os mundurucus isolados e muito altos no centro da vegetação rasteira, torres de catedral sobre cidade pequena; os chiques-chiques, abrindo a neve em perfumes de folhas alvinitentes, defendidas pela ponta de agudos espinhos, os saxáteis cabeça de frade, os canudos de pito, que, quando juntos, pelas flores em espigas e penachos, lembram um exército só de oficiais.

Salvador Mocambo adorava os sertões, amor forte, singelo, bom. Desgracioso como todo tabaréu, nervos afogados em preguiça, Salvador era o homem de luta que são todos os matutos nortistas quando um obstáculo qualquer lhes fustiga a alma adormecida, os músculos afrouxados, de nativo ócio, moles como a fruta sorva, ou inquebráveis qual ferro resistente. "Eu só tenho medo do sol" — dizia Salvador rindo; realmente o sol é o tirano do sertão e o carrasco do sertanejo. Quando os céus choram apenas em outubro as chuvas do caju, será de lágrimas o verão sertanejo. Até as aves emigram na rápida trajetória da fuga.

Um dia Salvador teve a vida povoada pela paixão. Amou e sofreu. Quis casar e a noiva acabou raptada por um moço da cidade. O tabaréu sentiu a raiva, o ciúme, a afronta bater-lhe às portas do coração pedindo agasalho eterno. Travou-lhe a boca o gosto do sangue; na mente enterrou-se-lhe, à moda de prego, a terrível justiça da vingança. Montou a cavalo, atirou-se pela caatinga como no encalço da boiada em disparo. Alcançou o par fugitivo num sítio onde os mulungus e as quixabeiras vicejavam luxuriantes à beira das cacimbas. Matou o rival, pôs nua a mulher e tocou para traz. Deixou a antiga noiva com o cadáver do amante e raptor junto dos mulungus e quixabeiras, aqueles de flores vermelhas, o sangue do assassinado, estes de frutos negros, como o luto da miséria desamparada.

Correram vozes pelo sertão acerca do crime. As autoridades não se moveram, nem os matutos culparam o autor do desagravo pundonoroso. Salvador Mocambo tornou-se, porém, insociável, taciturno, gelado em silêncio torvo. Já nem escrevia ao capitão Jonas, deixando a um jagunçote a tarefa de comunicar-se com o senhor da fazenda. O capitão Jonas mostrava-se cada vez mais amigo das crioulas de baraugandau. Contribuía, com o áspero labor dos vaqueiros, para a compra daqueles vistosos ornamentos de prata que, sobre as camisas de bicão, as crioulas colocam à cinta nos dias de festança do Bonfim. As Vênus de chamusco davam-lhe em troca a gama variada de suas ambrosias e dos seus néctares, o vatapá, o caruru; o acaçá de leite, o agurá laranjiforme de arroz fermentado, moído em pedra e água adoçada, sem esquecer a misturada do bobó, com os seus ingredientes vários: o feijão mendubi, água, sal e banana da terra. O velhão do Jonas preferia tais comedorias aos umbigos-de-freira, biscoitos que as mãos das sinhazinhas lhe ofereciam à hora do chá nalguma casa de cabedais, dotes e heranças. A pesca do marido à moda do tarraxo, atraindo o peixe coma luz, era infrutífera com o ricaço do Jonas, cujo estômago amoroso só admitia jabá de gado preto. Para este pândego negreiro suavam a mais não poder o Salvador Mocambo e os companheiros no sertão, agachados à beira das cacimbas ou correndo atrás das boiadas soltas, enquanto a jia do capitão Jonas, aliás bem branco, se enlodava no charco dos amores africanos, alguns cheirosos à maritacaca.

Salvador deixara de escrever ao patrão depois do assassinato cometido por ele, receoso como desconfiado matuto, que o viessem incomodar. Chegada a época do verde, a feliz quadra chuvosa, Salvador sentia-se rei na caatinga onde a bicharada fervia, desde as seriemas chorosas até as suçuaranas ferozes de garras prontas a pôr qualquer vivente em um bolo de carnes. Salvador conhecia igualmente os dias de aragem, as horas da medonha seca quando só o ouricuri fornece a padaria sinistra dos pães de bró, pondo os ventres em forma de tambor sem saciar a fome. Salvador não arredara pé, quase morrera, ao grunhir do vento da seca, o flagelante nordeste.

Não tinha mais um boi, nem mais um cavalo para açoitar a manguá de couro! Alimentava-se com um nada, sem o recurso da caça. Lá se armasse mundéus para muçununga. Ah! se ainda houvesse uma castanha de muturi nos cajueiros! Pretendê-lo era querer a pititinga miúda, que nada em águas fartas, a rastejar pelo solo ressequido... Uma porcelana cheia d'água valeria um tesouro. Salvador rapou rente as crinas do cavalo, pôs-lhe àás ancas esqueléticas o sino, outrora cheio de provisões e demandou a serra longínqua onde a mulher do compadre João Mindo sevava mandioca no tijupá hospitaleiro. O cavalo custou a subir o tombador íngreme, mas afinal sempre atingiu o suspirado sítio do Mindo.

Dissipada por completo a medonha catástrofe da seca, Salvador regressou ao sertão, voltando por pequenas jornadas, saudando uma por uma, com indizível emoção, as plantas surgindo aos olhos saudosos: as baranas oferecendo ao viajante o presente das suas flores em cacho, os juás apertados em moitas e os marpeiros disseminadíssimos, o roxo dolente da casca das mubusanas, um mundo de ramos a ocultar uma fauna das mais ricas. O canto da primeira saracura trouxe lágrimas aos olhos rudes de Salvador. Sentiu, pela primeira vez na vida, uma sensação indefinível, agridoce, a saudade, o divino travo-gozo.

Dispunha-se Salvador a voltar de novo às antigas lidas de vaqueiro, quando vozes de amigos entraram a contar-lhe as proezas do famoso asceta sertanejo, Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, que, mercê da dor, pregava pelos sertões afora a redenção dos homens. No ânimo do vaqueiro havia ainda restos do temor pelo crime de morte praticado no desafogo do ódio e do ciúme, o grande espinho dos corações humanos. Começou a ruminar a ideia de limpar pelo perdão a escorralha sanguínea de sua vida. Hora a hora cresceu-lhe o desejo de juntar-se ao Antônio Conselheiro, cujos devotos alcançavam o céu.  

Um dia entendeu partir para Canudos, a implorar os favores do Alto pela sua salvação. Partiu. Achou em caminho gente de todos os pontos e laias, gente de Alagoinhas, Feira de Santana Jeremoabo, Bom Conselho, Simão Dias. Era mescla de tudo a peregrinação e os peregrinos. Salvador passava de contínuo por patrícios simplórios e bons. Acotovelava nas estradas as mais despejadas solteiras, vestidas de vícios, mas despidas de vergonha, e os mais terríveis clavinoteiros, réus de muitas mortes.

Chegado a Canudos, quedou assombrado ante a beleza da igreja nova, mole assombrosa, protesto formidável contra a arquitetura e a estética, à margem do Vaza-barris.

Salvador foi acolhido em Canudos com satisfação e aplauso. Não tardou em ser querido na grei de Conselheiro e de seus temerosos asseclas: Chico Ema Quinquim de Coiqui, João Abade, Pajeú, Lalau, José Gamo e tantos outros. Privou logo com Antônio Bentinho, mulato que era osso e ronha, trazendo o Conselheiro a par de quanto se dizia e pensava em Canudos; não faltou a um só beija, cerimônia na qual os santos, verônicas e cruzes eram osculados, de boca em boca, pela multidão dos jagunços fanatizados, desencardindo a consciência de crimes no beatério histero-iluminado da religião do Conselheiro.

Salvador admirava o Conselheiro com todas as forças d'alma. Acompanhara-o de longe, respeitoso, na sombra; quando o Conselheiro, por indicação de Antônio Beatinho, dirigiu-lhe a palavra, Salvador sentiu uma zonzeira na cabeça, quase perdeu os sentidos...

O Conselheiro falou-lhe, duas ou três palavras apenas, e afastou-se caxingando um pouco, vestido de azulão, a cabeça nua, as mãos grosseiras sustendo um cajado, os ombros varridos pela grenha hirsuta, o peito invadido pelas barbas grisalhas tirante a brancas, os olhos pretos nas covas das órbitas em o rosto macerado, o rosto comprido, pálido, a palidez dos desenterrados.

Salvador nem teve tempo de responder-lhe, confessar-lhe o seu antigo crime, expor-lhe o sangue oxidado da velha culpa. Salvador raro o via a não ser nas cerimônias do santuário, nem havia muito quem visse o Conselheiro no arraial dos bequinhos e das casas de taipa.

Depois chegaram os dias aziagos de Canudos. Cresciam as desgraças à maneira de fértil língua de vaca, que todos têm e ninguém cultiva. A paisagem triste entrou a só ter ecos para tiros e lutas; Antônio Conselheiro queimara em 1893, no Bom Conselho, as tábuas que na localidade recebiam os editais para a cobrança dos impostos decretados pelas câmaras recém-autônomas da Bahia. Em Maceté, Uaná, no Cambaio, em mil encontros, cada vez mais renhidos, a jagunçada habituou-se a derrotar a fraqueza do governo, isto é, as forças comandadas por chefes cuja hierarquia vencida ia mostrando a importância das derrotas legais, o tenente Pires Ferreira, o major Febrônio, o coronel Moreira César, o general Artur Oscar. Salvador prestou relevantes serviços na caatinga. A princípio a voz do canhão o intimidou bastante, mas dissipou-se célere a pávida impressão. Nas gargantas do Cambaio obrara proezas contra as forças do major Febrônio, atirando enormes lascas de pedra "que passavam como balas rasas monstruosas sobre as tropas apavoradas."

Quando Salvador voltava a Canudos não era mais o herói, mas o candidato a salvação, jejuava, rezava à semelhança da beata mais débil e histérica...

Por fim a batalha foi apenas em torno de Canudos bloqueado. Salvador Mocambo assumiu então as funções de sineiro efetivo da igreja velha, funções desempenhadas com uma pontualidade fervorosa. Canudos tinha diante de si um exército de quase 6.000 homens, recebendo diariamente a visita incômoda das balas de um Withorth 32, a matadeira dos jagunços. Desde a madrugada pelo correr do dia, o duelo de morte se travava, enchendo de ecos sinistros os ermos onde as árvores eram a exceção da regra triste de uma esterilidade infinita, a esterilidade das maldições bíblicas. Quando a balaria da fraqueza do governo se tornava mais densa, Salvador ia para a torre da igreja velha. O sino badalava furioso, com impaciências e cóleras, vibrante, falando de ódios surdos pôr todas as moléculas vibrantes do metal. Assistira Salvador ao encontro da jagunçada contra as tropas de Moreira César, sempre de corda na mão, sempre puxando o velho sino para o clamor da vingança, o berreiro da revide. A casaria de Canudos fora invadida pela gente de Moreira César, o Coronel Corta-Cabeças, e o combate se travara imenso, disperso, brutal, implacável, até as tropas legais ficarem em pavoroso desbarato.

No meio das sangreiras vinham caindo os crepúsculos, véu de pudor sobre os mistérios da morte. Salvador trepava à torre, diluía-se no espaço o som da Ave Maria, o sino entrava a tocar umas notas doces, plangentes, pacíficas. Os jagunços cessavam o fogo.

Assim foi sempre, até nos dias de completo cerco do arraial. O toque da Ave Maria era infalível. Contraste singular, os canhões da Favela pareciam esperar aquele momento para despejar sobre Canudos a mais dura cólera. As pausas da Ave Maria marcavam-se a estouro de granadas e shrapnels.

Na descaída da noite serena o sineiro punha a faceirice trágica de não perder uma só nota da voz religiosa do bronze até transformar a mística Ave Maria num sinal de alarme, feroz, contínuo, animando a fuzilaria dos jagunços nas crinalhas das igrejas.

Toda a alma de Canudos vivia no sino e no sineiro da igreja velha. A jagunçada, rija de bronze, rezava e matava, matava quando lhe cortavam o caminho do céu alcançado nas preces e jejuns. A igreja velha, ao peso de tanta bala, mostrava enorme ventre aberto. Aluído o madeiramento, o campanário a cair, Salvador nele subia para o toque vespertino.

Um dia, porém, monstruoso shrapnel alargou ainda mais o escancarado ventre de ruínas do templo. O teto saltou em estilhas, a torre desceu numa queda violenta. O sino, o sino de Salvador, voou pelos ares, badalando ainda, chegando ao solo a tinir de raiva.

Salvador Mocambo compreendeu o fim da missão própria. Contemplou longamente o instrumento, o fiel companheiro, inerte na terra, rezou um Padre Nosso e dirigiu-se a desaparecer.

De tarde, na linha de fogo, à hora da Ave Maria, um tiro de Mauser varou-lhe os intestinos. Salvador veio se arrastando gemendo até alcançar o sino da igreja velha. Apalpou-o, cingiu-o, agonizou e morreu, abraçando sempre o velho sino, posto ao chão, entregado ao rigor de todos os silêncios.
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Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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