terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O noivo de Aurélia (Conto), de Mark Twain



O noivo de Aurélia

Os fatos que vou relatar acham-se consignados numa carta que me dirigiu certa senhora residente na formosa cidade de São José. Não tenho o prazer de conhecer a autora da missiva. Assina Aurélia Maria, o que bem pode ser um pseudônimo. Entretanto, como esse é um pormenor que em nada importa ao interesse do relato, não paro com ele e abordo em cheio o assunto.

Segundo pude coligir pela simples leitura do documento, a jovem Aurélia tem sofrido muito neste mundo, e encontra-se agora sem saber o que deva fazer num momento decisivo de sua vida. Quer contrair matrimônio, porém de uma parte impedem-lho conselhos mais ou menos interessados de amigos e parentes, e de outra, dificuldades de um gênero absolutamente novo. Apesar dos pesares, insiste em casar-se e, acreditando que minha opinião possa tirá-la do aperto, escreve para ma solicitar, com uma eloquência capaz de comover uma estátua.

Saiba-se agora a triste história de Aurélia.

Acabava de completar dezesseis anos quando encontrou em seu caminho um guapo mocetão de Nova Jersey, chamado Guilherme Caruthers. Viu-o e amou-o com todo o ardor de que é capaz um coração meridional, tendo a fortuna de ser correspondida. Juraram ser um do outro, com o consentimento das respectivas famílias. Durante algum tempo foram felizes: sua existência parecia caracterizar-se por uma imunidade à desgraça bastante superior à que possuem ordinariamente os entes humanos. De repente, a sorte mudou. O belo Caruthers foi atacado pela varíola negra, das mais violentas e destruidoras. De modo que quando o nosso homem recuperou a saúde, parecia sua cara um verdadeiro plano em relevo das Montanhas Rochosas. Desventurado Guilherme!... Sua formosura havia desaparecido para sempre!

Aurélia pensou de começo em romper o compromisso, mas levada pela compaixão, limitou-se a adiar de uns meses o casamento, deixando o pobre Caruthers tranquilo e cheio de ilusões.

Na véspera do dia fixado para a cerimônia nupcial, Guilherme, que contemplava distraidamente o voo de um cometa, caiu num poço e quebrou uma perna. Foi preciso amputá-la acima do joelho.

Pela segunda vez, Aurélia tentou libertar-se da palavra empenhada, mas o amor voltou a triunfar, ficando suspensas as bodas até que o noivo estivesse completamente restabelecido.

Novo infortúnio, que não era mais leve que os anteriores, impediu a celebração do enlace. Assistia Caruthers às salvas de artilharia comemorativas da Independência Americana, quando o imprevisto disparo de um canhão lhe arrebatou um braço. Três meses depois levavam o outro as estrias de uma máquina cardadora.

Aurélia, ao saber desta nova serie de desgraças, acreditou que morreria de desespero. Afligia-se ao ver que seu noivo a ia abandonando pedaço traz pedaço e pensava que, a seguir nesse sistema de redução, muito  depressa não lhe sobraria grande cousa de Guilherme, pois ela carecia de meios capazes de o deter nesse funesto caminho.

Em seu profundo sofrimento chegava quase a lamentar, como o negociante que se obstina em seguir uma empresa em que perde cada vez mais dinheiro, o não haver aceito a Caruthers antes que ele houvesse passado por tão alarmante diminuição. Entretanto sobrepôs-se, de novo, o afeto, e Aurélia decidiu por fim fazer frente, a todo custo, às deploráveis disposições redutoras de seu prometido.

De novo se aproximou o dia do casamento e de novo se amontoaram as nuvens da desilusão. O incorrigível Caruthers enfermou de erisipela e perdeu completamente o olho direito. A família e os amigos da moça, considerando que ela havia demonstrado muito maior obstinação generosa do que racionalmente se lhe poderia haver exigido, intervieram pela terceira ou quarta vez e quase lograram que ela desistisse de seu compromisso. Digo quase, porque o rompimento não chegou a ser um fato. Aurélia disse que sim, ao escutar as razões de seus conselheiros, porem logo volveu atrás, refletiu uns instantes e declarou, que, apesar de tudo, Guilherme não havia dado nenhum motivo de censura. Em consequência dessa atitude, marcou-se a data do matrimônio e, nesse meio tempo, Caruthers quebrou a outra perna.

Foi um dia negro para a generosa menina aquele em que viu os médicos levarem em um saco o quarto pedaço de Guilherme. Chorou como a Madalena, pensando que dia a dia ia diminuindo o campo de seus afetos; porem, com tenacidade de mártir, resistiu às súplicas da família e reiterou a Caruthers a sua promessa de casamento.

Poucos dias antes do termo aprazado para a cerimônia, aconteceu a última desdita. Em todo esse ano só houve um homem que caísse nas mãos dos índios de Owen River; esse homem foi Guilherme Caruthers, de Nova Jersey. O infortunado amante acudia à casa de sua noiva, entregue a doces sonhos de amor, quando foi caçado pelos peles-vermelhas, que lhe descascaram o crânio. Os cruéis colecionadores de cabeleiras deixaram a cabeça de Caruthers como um queijo do Reino completamente raspado.

Tal é a situação do prometido de Aurélia na atualidade. A abnegada donzela continua a querer-lhe, apesar de tudo, e é por isso que me dirige a consulta.

"Que devo fazer? diz no final de sua prezada carta. Eu amo Guilherme ou pelo menos ao que resta de Guilherme. Minha família se opõe com todas as suas forças a que o matrimônio se realize, porque meu noivo, além de estar impossibilitado de ganhar o pão, é mais pobre do que eu e eu não sei o que sejam cinco dólares reunidos. Rogo encarecidamente a vossa senhoria que me tire destas dúvidas. à espera de resposta etc..."

Responder categoricamente a uma pergunta dessa ordem é bem mais difícil do que parece. Trata-se de dar uma resposta clara, terminante, sem ambiguidades. Vai nisso a sorte e talvez a vida de uma mulher e de quase as duas terças partes de um homem. Ao meu ver seria assumir uma enorme responsabilidade responder com uma indicação vaga e no único intuito de sair da dificuldade.

Vamos ver: custaria muito a reconstrução completa de Guilherme? Porque se for coisa barata, poderíamos tentar alguma coisa nesse sentido, destinando parte de minhas economias à compra de dois braços, duas pernas, uma cabeleira e um olho de vidro, para o infeliz noivo. Penso que sairíamos ganhando todos: ele ficaria muito apresentável, a noiva muito contente e eu satisfeito por ter contribuído à felicidade de dois seres que se amam.

Feita a reconstrução, conceda Aurélia a seu adorado um prazo improrrogável de noventa dias, no intuito de que se habitue às suas novas aquisições e se nesse termo Guilherme não deixa os miolos em qualquer parte, que se casem abençoados por Deus.

Assim, pois, pesadíssima senhorita Aurélia, se seu noivo não resistir a essa estranha tentação de fraturar-se algo toda a vez que encontra oportunidade favorável, sua próxima experiência vai-lhe ser seguramente fatal e nesse caso vossa senhoria ficará tranquila para sempre. Supondo que se hajam casado ao ocorrer a nova catástrofe, herdará vossa senhoria, por direito próprio, as pernas, os braços e outras miudezas do defunto. E então, na realidade, só teria vossa senhoria perdido o último pedaço vivente de um marido honrado e desgraçadíssimo que dedicou sua vida a satisfazer incompreensíveis instintos de destruição.

Tente a prova, senhorita. Meditei longamente sobre o assunto e acredite que essa é a única solução razoável. Claro está que Guilherme Caruthers teria procedido avisadamente se houvera começado por estalar os miolos. Porém, desde que escolheu um outro sistema, querendo sem dúvida prolongar-se o mais possível, não temos o direito de nos imiscuir em questões íntimas.

Tire a senhorita o melhor partido das circunstâncias e pense que talvez a felicidade conjugal está em que um dos consortes se encontre nas condições em que se acha Guilherme Caruthers.

---
Tradutor desconhecido.
Revista "O Arlequim", novembro de 1927.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...