sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Quem dá ao Russinho empresta ao Chefe (Paródia de "Quem dá aos pobres, empresta a Deus”, de Castro Alves)


A PARÓDIA

Quem dá ao Russinho empresta ao Chefe
 (Paródia de "Quem dá aos pobres, empresta a Deus”, de Castro Alves)

Eu, que das grades de um xadrez medonho
Pude uma noite me evadir por fim;
Eu, que fitava da polícia o vulto
Com magos olhos suspirar por mim:
Zombo nesta hora, vagabundo, errante,
Destes que clamam contra mim em vão;
E vou gozando a proteção do chefe,
Da vasta Corte sobre o imenso chão!

Duas grandes nuvens este espaço obumbram!...
Dois astros fulgem neste céu nublado!...
Um é o chefe a proteger capangas;
Outro é o Russinho — o assassino ousado!
Nem treme o Russo ao contemplar o chefe,
Nem cora o chefe de apertar-lhe a mão,
Quando se encontram nos bordeis imundos
Da vasta Corte sobro o imenso chão!

Como são pífios teus heróis, polícia,
Capas do crime a proteger tratantes!
E tu prossegues nesta senda infame
Sem escutar reclamações constantes!
E qual Vesúvio derramando lavas,
Ou como fúrias de infernal mansão
Ei-los que passam massacrando as leis,
Da vasta Corte sobre o imenso chão!

E estes Correias de eternal memória
Se escorregaram foi nas bebedeiras...
Se tropeçaram foi nas espeluncas...
Se se afogaram foi nas bandalheiras...
Depois ... que resta?... “Uma touca enorme”...
Junto a Susane a implorar perdão;
O rir do escárnio, a maldição das turbas,
Da vasta Corte sobre o imenso chão!

Ai quantas vezes prostitutas pálidas
Buscam nas ruas este tal Correia!
E ele tira da — “secreta verba”—
O gordo cobro para lhes pagar a ceia!...
E vai até de madrugada a orgia,
Indo para casa em colossal pifão
E aqui tendes da Polícia o chefe,
Da vasta Corte sobre o imenso chão!

Mas quando o sol o horizonte aclara
E o céu se tinge de formoso anil:
Ei-lo sentado na secretaria
Mandando ofícios, portarias mil...
E para aqueles, que no labor constante,
Comem na enxerga da pobreza o pão,
É ele o algoz que os encarcera e esmaga,
Da vasta Corte sobre o imenso chão!

Há duas coisas, nesta Corte, novas:
Do Russo a fuga, do Correia as “mofas”...
Aquele, o abutre a devorar “morcegos”...
Este é o odre a esvaziar garrafas!...
E o chefe ao Russo brada sempre:—Avante!
Sou protetor dos que matando vão!...
Caem as vítimas da navalha aos golpes,
Da vasta Corte sobre o imenso chão!

E as manoplas destes dois gigantes,
Que tudo oprimem da torpeza ao grito,
Prendem-se aos elos de cadeia infame,
Espalham luto em seu trilho maldito!
Mas se algum dia, um ministério novo
Quebrar os laços desta comunhão:
Chefe e Russinho num final abraço
Rolam da Corte sobre o imenso chão!

F. MALLI
Revista “Corsário”, 1881.



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O ORIGINAL

Quem dá aos pobres, empresta a Deus

Eu, que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes -,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesta hora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão...

Duas grandezas neste instante cruzam-se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!...
Uma — é um livro laureado em luzes...
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam.
Nem cora o livro de ombrear com o sabre...
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão...
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.

E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos -,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravos!"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.

E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram — foi no chão da história...
Se tropeçaram — foi na eternidade...
Se naufragaram — foi no mar da glória...
E hoje o que resta dos heróis gigantes?...
Aqui — os filhos que vos pedem pão...
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.

Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando com o vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro -
Do vasto pampa no funéreo chão.

Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos d'águias o Poder esquece...
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que, do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.

Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissestes para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.

É santo o laço, que hoje aqui se estreitam
De heroicos troncos — os rebentos novos -!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesta hora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão!... 

CASTRO ALVES

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