sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O Baile dos Artistas (Paródia ao “Baile das Múmias”, de Carlos Ferreira)


A PARÓDIA

O Baile dos Artistas
 (Paródia ao “Baile das Múmias”, de Carlos Ferreira)

Meia noite! Hora terrível!
O circo fechou-se já,
Além as portas rangeram,
Foi-se o povo! Para onde irá?
E o fatal itinerário
Vai o grêmio perdulário,
Seguindo sem reflexão!
E os tipos se aproximando,
Viu alegres se entranhado
Nos abismos do “pifão”.

Tudo é silencio! Nas mesas
Muito copo se virou,
São gritos, geme o eco
Como um crânio que estalou!
Quem é? quem sofre a esta hora?
Qual o borracho que chora?
Serão fantasmas de horror?
Serão mulheres amadas,
Dos bordéis afugentadas
Com lampejos de pudor?

Somem-se os copos vazios,
Reina então a embriaguez;
Surgem espectros de “artistas”
De horrorosa palidez.
Carrancas tristes, funéreas.
O olhar de chamas aéreas,
Atiram ao lodaçal
Onde o ruído dos ventos
Despertam roucos lamentos
De uma lascívia infernal.

Meia noite! Hora dos “planos!”
Hora de orgias fatais!
Hora que estoura o champanhe,
Enfumaçando os cristais!
Quando os “canteiros” contritos
Requeimam os lábios malditos
Nas taças do negro fel,
Quando a boca das “cocottes”
Repete devassos motes
Pedindo vinho ao bordel.

Silêncio! A festa dos “tipos”
Vai agora começar!
Dos antros surgem bacantes
Para o tremendo valsar!
Soberbo! Já se agitaram
Homens que já se portaram
Mais sérios inda que nós!
Por seus cabelos sebentos,
Os vermes passeiam lentos,
Requintado adorno atroz!

Em torno ao hotel das “ditas”
Onde impera o garrafão,
Negreja o bando agourento
Dos amigos do “pifão”,
Erguidos, ébrios, sedentos,
Os “artistas” macilentos
Arrastam trêmulos os pés...
As mulheres comem brasas,
Cortam-se muitas vasas,
Como arcanjos do revés.

Rompe a orquestrou! o baile rompe!
A capangada assobia!
Giram nas valsas os vultos,
Arde a febre, viva a orgia!
Bem como um bando de gralhas,
Como bestas em cangalhas
Vão-se todos ao festim!
E as “cocottes” desgrenhadas
Respondem com gargalhadas
Ao som da orgia sem fim.

Avante! avante! canteiros!
Gênios da orgia, dançai!
Bebei em vidros opacos
Rubro licor e folgai!
E então num samba enorme,
Vê-se a doida massa informe
Dos soberbos profissionais;
Ressoam, sobem os gritos,
Fumegam charutos malditos
Entre as arcadas queixais.

Dança a hoste dos gênios!
O Reis dança, o colossal,
Gigante das tempestades
No sarilho sem rival.
Imenso, grande, redivivo,
Cajueiro dança altivo,
Enchendo a vasta amplidão;
De lunetas orgulhoso
Dança também o Veloso
Abrindo as suíças com a mão.

E o Lima! pálido, imenso,
Rasgando as cartas com os pés,
Pelos bigodes sacode
Do jogo as noites cruéis!
E depois! funéreos, ingente,
Salta o Góes, onipotente,
Com mais dois “tipos” além.
Silêncio! canalhas! são eles!
É o Rego, que vem sem “peles”
E o Pedro Paulo também.

E as damas pífias dançam,
Dança o João com a Melanie,
Com Matoso dança Elvira,
Com Queirós a Leonie.
O Lulu a Ester conduzindo;
E com o Luís Gomes sorrindo,
Vem a Matilde ao festim!
E sobre as lindas alfombras,
Passam ainda mil sombras
Destas falanges sem fim!

Arde a orgia! tristes, graves,
E dando “planos” sem dó,
O Reis-barbado e Missick
Não dançam! não! jogam só!
E depois! grandes, risonhos,
Em negros planos, medonhos,
Puxando as “peles” azuis,
Ambos eles transportados
Vão como que arrebatados,
Soltarem “doublés de truz!


Bravo! bravo! diz o Barros,
E o Bastinhos — muito bem!
E os criados batem palmas,
Como aplaudindo também.
Grande mona, a festa aumenta,
O Macedo se apresenta,
Com Marta para dançar,
Tinem os copos vazios,
Ouve-se mil assobios,
Arde em fogo o lupanar!

E as mulheres de “touca”
Saem depressa a correr,
E os convivas monados,
Não tardam adormecer.
Os “urbanos” espantados
Correm, fogem, dispersados,
Numa carreira sem fim;
Mas no largo do Rocio,
No gradil empoleirados,
Contemplam horrorizados
Os destroços do chinfrim!

Autor Anônimo
Revista “Corsário”, 1881.



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O ORIGINAL


O Baile das Múmias
 (Impressões da Meia-Noite)

Meia-noite!... O triste bronze
Suspirou saudoso já...
Além rangeram as campas,
Alguém gemeu... Quem será?
Na ogiva do campanário
Negro macho solitário
Soltou sangrenta canção...
E a brisa os ares rasgando
Crava os lábios, blasfemando
Nas entranhas d'amplidão!...

Tudo é silêncio... Nos ares
Feio inseto perpassou;
Soam gritos, geme o eco
Como um crânio que estalou!
Quem é? quem sofre a esta hora?
Que condenado é que implora?
Serão fantasmas de horror?
Serão almas dispersadas
Das tumbas afugentadas
Inda nas febres do amor?

Somem-se os astros nublados,
Vela-se a face dos céus,
Surgem caveiras de múmias
Das fendas dos mausoléus!
Como alâmpadas funéreas
Refulgem chamas aéreas
pendentes do salgueiral...
No rouco clarim dos ventos
Tremem profundos lamentos
De uma lascívia infernal!

Meia-noite! hora de sangue,
Hora de febres fatais,
Hora em que gemem saudades
Dos tempos que não vêm mais;
Quando os pálidos precitos
Requeimam lábios malditos
Em taças negras de fel!
Quando as bocas dos finados
Soltam gritos compassados
Pedindo sangue ao bordel!...

Silêncio! O baile dos mortos
Vai agora começar!
Das tumbas surgem gigantes
Para o tremendo valsar...
Já soberbos se agitaram
Gênios que outrora habitaram
Neste mundo como nós;
Por seus cabelos poeirentos
Os vermes passeiam lentos
— Requintado adorno atroz!... -

Em torno à torre da igreja
Onde reza o furacão,
Negreja o bando agoirento
Das aves da escuridão.
Erguidos, ébrios, sedentos
Os fantasmas macilentos
Arrastam trêmulos pés...
E o morcego agita as asas
Por sobre as lápides raras
Como o arcanjo do revés!...

Rompe a orquestra, o baile rompe,
A tempestade assobia;
Giram nas valsas os vultos,
Arde a febre, vive a orgia!
Bem como um bando de gralhas
Passam nas brancas mortalhas
Os convivas do festim;
E as grutas fundas, rasgadas
Respondem com gargalhadas
Ao som da orgia sem fim!...

"Avante! avante consócios!
Gênio das trevas, dançai!
Bebei nos crânios quebrados
Rubro licor, e folgai!"
Então, num vértice enorme
Gira doida a massa informe
dos convivas sepulcrais...
Reboam, sobem os gritos,
Fumegam lumes malditos
Nas grimpas dos pinheirais!

Dançam as hostes dos gênios...
Byron dança — o colossal
Gigante das tempestades
Segredando ao vendaval!
Grande, imenso, redivivo
Shakespeare dança altivo
Enchendo a vasta amplidão...
Do mar ao surdo ribombo
Dança orgulhoso Colombo
Partindo os raios com a mão!

E o Dante — pálido, imenso -
Quebrando as campas com os pés,
Pelos cabelos sacode
Do inferno as fúrias cruéis!...
E depois, funéreo... ingente
Salta Goethe onipotente
Com mais dois vultos além...
Silêncios, abismos! — são eles...
— Ó Fausto e Mefistófeles
Que ao baile voam também!...

E as damas fúnebres dançam
Com redobrado fragor!
Com Petrarca dança Laura,
Com Tasso dança Eleonor!
Romeu conduz Julieta...
Com Camões — laureado atleta,
Vem Catarina ao festim...
E sobre as frias alfombras
Saltam ainda mil sombras
Dessas falanges sem fim!

Ruge a orgia. Tristes, graves,
Fendendo as ondas de pé,
Homero e Milton — dois cegos -
Não dançam, não, surgem só!
E depois, grandes, risonhos,
Em negros corcéis medonhos
Dos séculos rompendo o véu,
Ambos eles transportados
Vão como que arrebatados
Cravar estrofes no céu!...

Redobra o baile das múmias,
Gritam as ondas além...
Passam, repassam as sombras
Em furibundo vaivém!
Soam lúgubres trombetas...
Debatem-se as nuvens pretas
— Feras do espaço a rugir! -
Das fauces rubras do abismo
Rompe, salta o cataclismo
Que ameaça o baile extinguir!

"Bravo! Bravo!" diz o vento;
Grita o trovão — "muito bem!"
Os ciprestes batem palmas
Como aplaudindo também...
Soa o rufo... A festa aumenta...
Deus sobre um raio se assenta
E vem nas tumbas pousar!
Batem nas loisas os crânios,
Somem-se os vultos titânios
Arde em fogo o lupanar!...

......................................

E as nuvens pávidas, trêmulas,
Deitam depressa a correr...
Medroso o trovão ao longe
Vai gaguejando morrer...
E os morcegos espantados
Fogem, correm dispersados
Numa carreira sem fim;
E sobre as torres pousadas
As corujas debruçadas
Espreitam esfomeadas
Os destroços do festim!...

CARLOS FERREIRA

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