sábado, 12 de janeiro de 2019

A Cruz da Estrada (Trovas, 1929)


A Cruz da Estrada
(1929)

Caminheiro que a bonança
Em sonhos de ouro seduz,
Vela o sorrir da esperança
Quando o olhar de longo alcança
O vulto negro da cruz.

Junto a via bifurcada
Plantou a piedosa mão
Para chamar na jornada
Dos que passam pela estrada
A distraída atenção.

E o viajante aparece,
Para, desmonta e afinal
Pelo morto ergue uma prece,
Nunca o viu, não no conhece
Tanto a morte é fraternal!

Depois um seixo procura
E aos pés da cruz vai deixar,
Para que zumbe segura
Do vento que vezes dura,
Da chuva que o céu mandar.

E sobre o lúgubre outeiro,
Que as pedras formando vão,
Descansa o velho madeiro
Como fantasma agoureiro
Deste remoto sertão.

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