domingo, 20 de janeiro de 2019

Ceias do Senhor (Emilianas)



Ceias do Senhor


Emílio de Menezes fora convidado a visitar, num estúdio de uma valiosa galeria de quadros, uma senhora de rara beleza, a qual tinha orgulho em gastar à larga o dinheiro que lhe dava um velho e rico protetor.

O poeta, amante da arte, não se fez de rogado e apresentou-se em casa da tal dama disposto a apreciar as raridades de coleção tão afamada. A senhora recebeu-o sorrindo, embrulhada num vestido transparente e provocante, que lhe deixava à mostra os belos seios, rígidos e formosos.

Emílio, sagaz e humano, desde a entrada, tinha posto o seu indiscreto olhar no interior daquele paraíso de amores. Embevecido pelas curvas harmoniosas do colo da ilustre dama, ele, enquanto percorria a coleção, nem sequer arriscava um olhar atento sobre as preciosidades pendentes da parede. Ele encantado e ela um tanto encabulada haviam chegado em frente a umas Ceias do Senhor.

— Que me diz dessas Ceias, seu Emílio? Magníficas, não?

O poeta, porém, estarrecido ante o maravilhoso espetáculo, manteve-se imprudentemente calado, sem dizer uma só palavra.

E a senhora visivelmente incomodada, ataca:

— O senhor parece um tolo... um idiota... Não diz uma palavra... Por acaso não aprecia, também, essas Ceias do Senhor?!

Emílio, afagando os vastos bigodes, sorriu desdenho para as cópias do quadro de Leonardo e depois de passear, mais uma vez o seu olhar pelas amenas regiões da mulher, respondeu:

— Com franqueza: eu prefiro a essas "Ceias do Senhor" os seios da senhora...

E saiu, aborrecido de alma, mas satisfeito dos olhos, enquanto, a dama incrédula com o que havia escutado, procurava reduziu inutilmente o seu decote extravagante.


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Revista "Máscara", 1919.
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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