sábado, 19 de janeiro de 2019

Dr. Moitinho (Emilianas)



Dr. Moitinho

O Dr. Moitinho era subdiretor da Secretaria do Gabinete do Prefeito, ao tempo que governou a cidade o professor Azevedo Sodré. Sergipano de origem, magro, seco, enfezado, o Dr. Moitinho não se pode dizer que fosse um homem simpático. Ao contrário, era áspero, irritante, não raro intratável. Mas era também um homem de bem, funcionário zeloso e ativo, severo cumpridor dos deveres.

Emílio de Menezes não gostava dele. E não gostava porque, amigo de Sodré, frequentando diariamente o Gabinete, tinha sempre pedidos a fazer-lhe. Na maioria dos casos, coisas absurdas, que o prefeito, para se safar, não querendo recusar logo, empurrava para o Moitinho, de quem solicitava informações. Estas, é claro, eram geralmente desfavoráveis ao lírico dos “Poemas da Morte". Entendia-se assim o ódio irresistível que o poeta lhe votava.

Aconteceu que uma vez, procurando Emílio amparar um credor qualquer da Municipalidade, aliás, sem interesse no recebimento da conta, pois tratava-se de um seu amigo íntimo, dono de uma confeitaria, onde ele bebericava, Moitinho repelia a pretensão.... O velho boêmio ficou furioso. Mas, conteve-se, como era de seu costume.

No dia seguinte, voltou à Prefeitura. Percorreu várias diretorias. Falava aos empregados, que o festejavam. E dizia, como se nada houvesse entre ele e o subdiretor do Secretaria:

— O Passos era camarada do Moitinho, que foi seu auxiliar de Gabinete. Foi quem o pôs no cargo onde se achava. Isso às vésperas de deixar a Prefeitura. Passos saiu daqui cheio de aborrecimentos. Queixava-se muito do funcionalismo. A mim, explicou-me ele que nomearia o Moitinho para um lugar vitalício só para castigo da vocês, que o iriam aturar pelo resto da existência...

Sorria gostosamente, afagando os vastos bigodes. E passava adiante, de mesa em mesa, repetindo a mesma história. Toda gente acreditava, embora o Passos nunca houvesse feito semelhante afirmação.


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Correio da Manhã, 3 de julho de 1937, por: João Paraguaçu.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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