sábado, 19 de janeiro de 2019

Elixir de Nogueira (Emilianas)


Elixir de Nogueira

Havia no Pará um seringueiro rico que amava o prazer de conviver com escritores e poetas. Era o coronel Avelino Chaves — um homenzinho pequenino e vivaz, que tinha na cara, como estigma da sífilis implacável, a cicatriz de uma goma que quase lhe devorara o nariz.

Tendo ido certa vez ao Rio, o coronel Avelino Chaves quis à força conhecer Emílio de Menezes.

Amigos comuns levaram-no, numa tarde, à Confeitaria Paschoal, à hora do aperitivo, para ver de perto o "grande poeta".

Apresentado a Emílio de Menezes, o coronel Avelino pagou-lhe imediatamente, com grande ostentação de generosidade, copiosos aperitivos.

Depois de ter ingerido vários grogues, o grande epigramatista que desde o começo ruminava a sua perfidiazinha, olhou de frente o seu mecenas, e tomando o ar mais amável deste mundo, exclamou:

— Eu já o conhecia muito, coronel.

— A mim, Dr. Emílio! respondeu, radiante, o seringueiro.

— Sim, senhor. Conhecia-o de fotografia.

— Mas, então?!... interrompeu o coronel Chaves, sentindo calafrios de orgulho ao contato daquela insuspeitada celeridade que Emílio lhe revelava.

— É exato. Vi muitas vezes a sua fotografia, coronel, em todos os jornais do Rio.

E, com gravidade, rematou:

— Nos anúncios do Elixir de Nogueira.


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Revista Careta, 14 de maio de 1932.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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