domingo, 20 de janeiro de 2019


O guarda-chuva do Padre Severiano

De regresso de Paris, onde deixara a batina, o padre Severiano de Rezende surgia, uma tarde, à rua Gonçalves Dias, trajando jaquetão claro, chapéu de palha, flor à lapela, mas tendo à mão, em conflito com aquela meia elegância, um guarda-chuva de cabo torcido. Ao encontrá-lo à porta da Confeitaria Colombo, Emílio de Menezes abriu os braços para estreitá-lo:

— Estás belo, padre, assim à paisana!

— Achas?

— Decerto.

E olhando melhor:

— Agora, é só a bengala que traja à clerical.

— Que bengala? - estranhou o ex-sacerdote. - Isto é um guarda-chuva...

E Emílio:

— Pois é isso mesmo: que é um guarda-chuva senão uma bengala de batina?


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Humberto de Campos: O Brasil anedótico, ano 1927.

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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