sábado, 12 de janeiro de 2019

Vi-te apanhar uma rosa... (Trovas, 1932)


Vi-te apanhar uma rosa...
(1932)

Vi-te apanhar uma rosa
Que desfolhaste em segredo;
E ao dar-te o meu coração,
Soledade, ai, mal de mim!
E ao dar-te o meu coração
Senti-o bater de medo.

A formosura dos céus
Quando o Criador a deu
Não andavas muito longe,
Alegria dos meus olhos!
Não andavas muito longe,
Que tanta te pertenceu.

Eu andei, no cemitério,
Ao coveiro perguntando
Se tem lugar reservado,
Soledade, ai, soledade!
Se tem sítio reservado
Para quem morreu amando.

Sou aquele pobrezinho
Que à tua porta bateu,
Que uma esmola te pediu,
Meu desejo de ventura!
Que uma esmola te pediu
E que nunca a recebeu.

Podes tirar-me, se queres,
Hoje, com essa boquinha,
Os beijos que ontem me deste,
Ó prenda dos meus afetos!
Os que ontem me deste
Indo comigo sozinha.

Esses teus olhos, morena,
Têm um olhar desumano,
Pois matam mais num minuto.
Encantos da minha vista!
Pois matam mais num minuto
Que a morte mata num ano.

Uns olhos pretos que vi
Deram-me penas mortais;
Não quero mais olhos pretos.
Meu constante pensamento!
Não quero mais olhos pretos,
Que matam como punhais.

Meus olhos não sei que têm
Desde o dia em que te vi
Que em tudo, tudo o que veem,
Ó prenda dos meus carinhos!
Que em tudo, tudo o que veem
Somente te veem a ti.

Minha mãe, a um Santo Cristo,
As minhas penas contou:
Que penas tão grandes eram
Que o Santo Cristo chorou.

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