sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Tradução de 1906)


O Corvo, de Edgar Allan Poe
Tradução anônima de 1906.
Meia-noite. Distraidamente, eu revia ao acaso certos volumes esquecidos, ainda que bizarros e curiosos. Bateram de leve à minha porta.

Estávamos em dezembro; os tições, extinguindo-se no fogão, projetavam silhuetas vermelhas no ladrilho. Em vão, eu pedia a meus livros favoritos o esquecimento de minhas penas. Pensava sempre nela, a minha Leonor perdida, a jovem de beleza rara e deslumbrante cujo nome os anjos do céu repetem agora docemente: Leonor.

Tudo, até o sussurro das cortinas de seda, enchia-me de um terror melancólico. Para animar-me, disse comigo mesmo: É algum visitante retardatário, nada mais!

E gritei, sem hesitar: Senhor ou senhora, peço-vos perdão. Dormia quase, quando batestes. Não ouvi, a princípio, tão de leve o fizestes.

Então, abri a porta: mas não vi nada, senão as da noite. Olhei mais atentamente na sombra, porém sempre nada. Era, então, joguete de um sonho? Murmurei o nome de Leonor. O eco reenviou-me esse nome. E foi tudo.

Tornei a entrar no quarto; não tardou, porém, que ouvisse bater de novo, de um modo distinto.

Agora pensei, é na persiana da janela. Esclareçamos esse mistério que turba-me o coração, e saibamos, se não é senão o vento!

Abri o postigo; um soberbo corvo lançou-se no meu quarto, batendo graciosamente as asas. Não me cumprimentou. Entrou em minha casa como na dele, e veio pousar cheio de majestade, com porte de um lord ou de uma lady, num busto de Palas, acima da porta.

Não pude impedir-me de sorrir, diante do modo grave desse pássaro de ébano: Dize-me, gritei-lhe, qual é nome senhorial, na região noturna de Plutão? Ele respondeu: “Nunca mais!”

Essa resposta não tinha sentido algum. Era dado a qualquer um achar à meia-noite, acima de sua porta, sobre o busto de Palas, um pássaro chamado: Nunca Mais?

O corvo, porém, pronunciou somente estas duas palavras,  de modo que elas encerrassem toda sua alma. Então eu murmurei baixinho: “já outros amigos têm voado; amanhã ele deixar-me-á bem como as esperanças me deixaram, absolutamente só...

 E o pássaro repetia: “Nunca mais!”

Sem dúvida, pensei, ele aprendeu esses dois vocábulos com algum senhor infortunado, tão constantemente abatido pela desgraça, que não tenha querido mais esperar “nunca mais!”

Coloquei uma poltrona defronte do corvo e pus-me a buscar no meu espírito o que pretendia dizer esse triste, magro e sombrio pássaro, com o seu estribilho “Nunca mais!”

Não lhe dirigi mais a palavra; seus olhos em flama queimavam-me o coração; sentei-me olhando para adivinhá-lo. Minha cabeça repousava sobre um coxim de veludo violeta, docemente iluminado por uma lâmpada que, esta lâmpada que Ela não acenderá mais, oh! nunca mais!

 O ar pareceu maia sereno, como perfumado pelo incensório invisível dos serafins: Oh! Miserável, exclamei, teu Deus enviou-te, pelos seus anjos o repouso e a nepentes. Bebe! oh bebe essa boa nepentes e esquece-te dessa Leonor!

O corvo disse: “Nunca mais!”

Profeta retorqui-lhe, pássaro do mal, pássaro ou demônio dize-me, eu te suplico,  pois que o diabo te envia ao meu lar desolado, dize-me imploro; ainda há bálsamo na Judá?

O corvo repetiu: “Nunca mais!”

Proveta, ave ou demônio, pelos céus, pelo Deus que ambos adoramos, dize, oh! dize à minha alma, cheia de desgosto, se ela abraçará um dia, no Éden, uma jovem santificada, uma jovem de beleza deslumbrante e rara, que os chamam Leonor?

E o corvo: “Nunca mais!”

Pois que falas assim, bradei enfurecido, vai-te! deixa-me! Vai-te na tempestade da noite, às sombrias regiões de Plutão. Não deixes aqui uma só pluma negra, para que não me recorde das palavras horrorosas, que acabas de proferir. Deixa-me sozinho no meu abandono! Deixa esse busto, retira teu bico do meu coração, vai projetá-lo fora daqui na maldita sombra!

E o corvo: “Nunca mais!”

E o corvo, sem mover-se, nem volitar, conserva-se ainda sob o busto de Palas, no alto da minha porta. Seus olhos têm o fulgor dos olhos de um demônio que sonha; minha lâmpada projeta sua maldita sombra no ladrilho da minha câmara.

— E esta sombra não se extinguirá mais, oh! nunca mais!

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