sábado, 30 de março de 2019

Antero de Quental — Síntese Biográfica

Antero de Quental — Síntese Biográfica

Bem conhecida é esta alta individualidade, que se manifestou entre a moderna geração com um extraordinário temperamento de lutador, e que de repente caiu em uma apatia invencível, em um desalento moral progressivo, em uma decadência física precoce, e por último no desespero, que em 11 de setembro de 1891 determinou o suicídio. Quando em tão breve espaço vemos essas belas organizações literárias, como Camilo Castelo Branco, Júlio Cesar Machado e Antero de Quental truncarem a sua carreira pelo suicídio, não pode deixar de explicar-se essa fatalidade pela nevrose que neles era o estímulo do seu talento e o motor das suas desgraças. E essa mesma nevrose, que se manifestava brilhantemente pela invenção imaginosa, pela graça delicada ou pela inspiração poética, nunca lhes deixara adquirir uma disciplina mental que os levasse à análise de si mesmos, nem uma subordinação moral que os fortificasse contra o seu espontâneo pessimismo. A crítica da ação literária de Antero de Quental está implícita nesta característica do seu organismo.
Antero de Quental nasceu na Ilha de São Miguel em 1842, em uma família de morgados; naquela pequena ilha a falta de cruzamentos nas famílias aristocráticas tem determinado uma terrível degenerescência, que se manifesta pela idiotia e pela loucura. Na família de Antero de Quental existem casos desta terrível tare hereditaire. A frequência na Universidade de Coimbra, desorientadora para as mais fortes organizações, não deixou de atuar profundamente no espírito de Antero de Quental, lançando-o em uma dissolvente anarquia mental pelos hábitos das arruaças escolares e pelas leituras radicalistas que o levavam a uma grande sobre-excitação. Foi nesta crise da adolescência que em Antero de Quental desabrochou o talento poético e a paixão revolucionária, que deu origem a uma liga de espíritos emancipados de todo o supernaturalismo e de toda a autoridade temporal, que se denominou a Sociedade do Raio. Este título provinha das imprecações que lançavam ao espaço em ocasião de trovoadas, provocando o raio para que os fulminasse, como expressão de uma vontade individual no universo. As perseguições contra a Polônia e as lutas pela libertação e unificação da Itália, também acordaram o interesse de Antero para as questões políticas. As suas leituras favoritas eram os livros de Proudhon, de Feuerbach, de Quinet e Michelet, e isso rapidamente, vivendo em uma atmosfera de discussão permanente, de uma dialética de sofismas, agravada por uma irregularidade de vida, que veio mais tarde a determinar a doença que o embaraçou na sua atividade. Antero de Quental vivia entre um grupo de estudantes que o divinizara, considerando-o como um apóstolo, um iniciador da humanidade. E ele próprio chegou a acreditar naquela missão, e passados anos, em uma carta autobiográfica, definia-se como o porta-estandarte das ideias modernas em Portugal.
Neste período da vida de Antero era ele dominado por um condiscípulo natural de Penafiel, chamado Germano Vieira de Meireles, a quem dedicou a primeira edição das Odes modernas. Este Germano Meireles era um tipo raquítico e aleijado, dotado de um sarcasmo maligno, resultado da sua imperfeição física; exerceu no espírito de Antero uma ação corrosiva, privando-o de todos os entusiasmos, e levando-o quase à apatia mental. Quando Germano Meireles morreu miseravelmente, deixando duas crianças filhas naturais, Antero tomou conta delas e educou-as em sua companhia, deixando-lhes o remanescente da sua herança.
O talento de Antero revelou-se pela poesia no jornal O Acadêmico; em 1861, levado pela admiração do lirismo de João de Deus, cultivou a forma do Soneto, que estava longe ainda da beleza que atingiu na sua última fase pessimista.
As ideias políticas revolucionárias e negativistas de que se deixara possuir determinaram a primeira alteração nas suas concepções poéticas. Em 1865 publicou em Coimbra a coleção de poesias desta fase revolucionária com o título de Odes modernas; mas os produtos da sua atividade poética, transição para as Odes modernas e Sonetos, são totalmente desconhecidos, porque Antero de Quental rasgou todas as composições que não se harmonizavam com o seu novo ideal revolucionário. Um dos adoradores de Antero de Quental, que o acompanhava nas tropelias noturnas, e que também morreu doido em 1872, Eduardo Xavier, coligira em volume essas poesias da fase romântica; é essa coleção que possuíamos que hoje publicamos, da existência da qual o próprio Antero nem suspeitava.
A crise moral de Antero começou propriamente em 1865, quando se achou sozinho em Coimbra; o curso jurídico a que ele pertencia acabara a formatura em 1863; Antero teve de repetir um ano, e ao terminar a formatura em 1864, achou-se sem estímulos que o obrigassem a sair de Coimbra. Vivia então solitário, meditabundo, desenfadando-se em digressões noturnas. Foi nesse ano de 1865, que irrompeu a celebre Questão de Coimbra; eu é que o estimulei a sair à estacada, dando réplica às insídias de Castilho.
Antero publicou nesse ano a carta Bom senso e bom gosto, que o revelara ao país um polemista ardente, um estilista vigoroso, um espírito possuído de uma alta inspiração. Antero de Quental contraíra perante o país e a geração moderna o compromisso de pôr em obra essas generosas aspirações. De dia a dia tornava-se mais reparável o seu silêncio, mais censurável a falta de atividade literária. Antero sofria um profundo mal-estar, que o não deixava entregar-se ao remanso do estudo; saiu de Coimbra para ir viver em Penafiel com o seu amigo Germano; depois foi para Guimarães para ao pé de Alberto Sampaio; foi para o Algarve para o seu amigo Negrão; foi à América, a Paris, aos Açores, e por último fixara-se mais algum tempo em Vila do Conde. Não estava bem em parte alguma.
Os trabalhos literários não o seduziam; em Lisboa achou-se com José
Fontana, que se aproveitou do seu prestígio moral para a organização do partido socialista, e junto com outros rapazes, Eça de Queirós, Jaime Batalha Reis, inaugurou em 1871 as Conferências democráticas do Cassino, mandadas encerrar pelo ministro marquês de Ávila.
Nestes dois atos Antero foi impelido, caindo outra vez na apatia de onde nunca mais saiu, prometendo apesar de tudo vir a publicar um Programa para os trabalhos da Geração moderna. Por ocasião da encíclica de Pio IX proclamando o Silabus, e por ocasião da revolução de Espanha em 1868, Antero de Quental publicou dois opúsculos, mais para mostrar as suas aptidões de foliculário do que a vista clara e o seguro juízo dos acontecimentos. A sua doença moral tornava-se uma lesão física, acentuando-se a sua doença nervosa em 1874.
Na impossibilidade de toda a ordem de trabalho, mas carecendo de ocupar a imaginação no meio dos seus sofrimentos, Antero de Quental ia dia a dia burilando um ou outro soneto, em que dava expressão ao estado moral em que se achava; os amigos foram coligindo estes sonetos, vindo ao fim de algum tempo Oliveira Martins a formar um precioso volume de que ele mesmo foi o editor carinhoso. Fez a esse livro uma introdução vaga sobre intenções búdicas e intuições nirvânicas, mas não nos deu a nota viva do poeta. Os Sonetos de Antero produziram uma forte impressão, não só pela profundidade dos sentimentos como principalmente pela perfeição esmeradíssima da forma; porque os versos das Odes modernas, na expressão das paixões revolucionárias, eram pouco plásticos, e revelavam mais o filosofo do que o artista.
Nos Sonetos Antero transfigurara-se. O Dr. Storck, que acabava de traduzir em belos versos para a língua alemã a obra completa de Camões, ao receber um exemplar dos Sonetos de Antero fez a alta consagração de os traduzir para essa língua eminentemente filosófica. Para acompanhar a sua tradução pediu o Dr. Storck a Antero algumas notas biográficas; em carta de 14 de maio de 1887 escreveu o poeta uma espécie de Autobiografia que vem junto dos Sonetos. É um documento importante, não pelos dados biográficos, que são vagos e exagerados, mas pelo alcance psicológico, porque pelas frases com que Antero se glorifica dando-se como o estilista dotado com o dom da prosa portuguesa e o porta-estandarte das ideias em Portugal, vê-se que obedecia a uma certa vesânia mental, que lhe motivava fundas decepções e terríveis desalentos. Nesta fase de espírito, Antero caiu debaixo da influência de Oliveira Martins, que não foi mais saudável do que a de Germano Meireles. Oliveira Martins tinha sido um dos seus colaboradores na organização democrática e socialista em Lisboa, quando publicava a Republica e o Pensamento social; mas um dia abandona o seu ideal, e filia-se em um esgotado partido monárquico a que pretendeu ir levar vida nova. Foi esta apostasia uma desilusão para Antero; sofreu-a caladamente, pedindo aos amigos que lhe não falassem nisso. Vivia então em absoluto isolamento em Vila do Conde, onde era visitado como um pontífice. Em janeiro de 1890 deu-se o fato brutal do Ultimatum do governo inglês sobre a questão africana; da natural reação do sentimento nacional contra este ato de selvagismo diplomático, nasceu no Porto o movimento de agremiação da Liga patriótica do Norte.
Para dar aos espíritos uma certa unificação moral, lembraram-se do nome de Antero de Quental; foram buscá-lo a vila do Conde, e conseguiram interessá-lo pelo movimento nacional. Presidiu a alguns comícios e a sessões preparatórias da Liga patriótica do Norte; mas o poeta não conhecia a mecânica das assembleias parlamentares, foi facilmente envolvido por todos aqueles que procuravam desnaturar um movimento tão saudável, e por fim quando a Liga patriótica se dissolveu com o mais escandaloso fiasco, Antero de Quental retirou-se à sua impotência, ferido com um desalento mortal. A data do seu testamento em 9 de setembro de 1890 revela que ele já pensava em acabar com a existência. A dissolução dos caracteres dos seus contemporâneos de Coimbra mais o desalentava; partira para a ilha de São Miguel em julho de 1891, e a falta de interesse e o tédio de aquela solidão aumentada pela mesquinhez da vida de Ponta Delgada, determinou a fatal resolução de 11 de setembro, em que se suicidou com dois tiros de revólver na boca. Foi uma existência verdadeiramente desgraçada; não se revelou com a pujança que possuía. Herdeiro de uma terrível nevrose, não teve a ventura de deparar uma doutrina moral, uma filosofia que lhe fortificasse o espírito; pelo contrário, as suas leituras de Schopenhauer, e a cultura do ideal pessimista em que se enlevava artisticamente, incutiram no seu espírito a ideia do suicídio que involuntariamente se tornou efetiva. A sua obra é mais um documento psicológico do que um produto estético; e neste sentido será estudada e confrontada com a de outros gênios igualmente desgraçados.

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In: "Raios de Extinta Luz" - Antero de Quental
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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