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5/29/2020

Mendes Leal: aspectos biográficos



Mendes Leal: aspectos biográficos
José da Silva Mendes Leal — escritor e estadista, nasceu em Lisboa, em 1820.
Além de muitos romances, poesias, estudos históricos e biográficos, escreveu para o teatro um grande numero de peças, muitas das quais obtiveram grande êxito. Foi ministro da Marinha no gabinete recomposto por Loulé, em seguida aos acontecimentos ocasionados pelo falecimento de D. Pedro V e dos infantes D. Fernando e D. João (1862), deixando assinalada a sua passagem por esse Ministério, em obras proveitosas.
Na célebre questão das irmãs de caridade, que tanto preocupou a atenção do país, afirmou-se igualmente de um modo distinto, tratando-a com competência.
Saindo do governo em 1864, voltou novamente aos conselhos da Coroa como ministro dos Estrangeiros no gabinete organizado por Loulé, em seguida ao Ministério de transição, presidido pelo conde de Ávila. Caiu esse Ministério, por causa dos acontecimentos de 19 de maio e Mendes Leal nunca mais entrou na política militante.
Nomeado Par do Reino em 1871, entrou pouco depois na carreira diplomática, tendo sido nosso ministro em França e na Espanha.
O livro que escreveu, respondendo às pretensões dos portadores de títulos do empréstimo a D. Miguel é notável pela sua argumentação.
Entre a sua vastíssima obra, destacam-se "Os dois renegados", "O homem da mascara negra", "O pajem de Aljubarrota", "D. Maria de Alencastro", "O caçador", "Madressilva", "Homens de Mármore", "A pobreza envergonhada", "O Infante Santo", "Cenas da Guerra Peninsular" etc.
Mendes Leal, que foi um dos maiores homens públicos e dos mais brilhantes espíritos de Portugal, morreu, em 1886,r legando à nossa pátria uma obra formidável.
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Revista Lusitânia, 16 de novembro de 1929.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

5/21/2020

Camilo Castelo Branco: O Homem (Biografia)


Camilo Castelo Branco: O Homem
No período de glória literária, em 1886, é assim retratado fisicamente por um dos seus biógrafos: É de estatura média, magro como um retrós, de uma tez embaciada, puxando um pouco para terrosa, onde se esbate a coloração mórbida dos anêmicos e dos que vivem peremptoriamente pelo cérebro.
Ainda agora lhe aparece no rosto, e bem visível, o crivo duma varíola assanhada, de que sofreu em criança, penso eu. Debrua-lhe o lábio superior um bigode estofado, cujos longos cabelos se espatulam rudemente sobre o lábio inferior, comunicando-lhe à fisionomia uma certa feição vigorosa e duma distinção aristocrática. Na fronte um pequeno punhado de cabelos parece querer-lhe voar da cabeça, como a ondulação ascendente duma labareda. Os olhos do autor dos Críticos do Cancioneiro julgara alguém que devem ser para aí um par de carbúnculos à flor da carne. São uns olhos tão humanos e mansos como outros quaisquer, onde se retratam tão fielmente como nos do leitor, como nos dos restantes filhos de Eva, os sentimentos alternativamente doces, amoráveis ou veementes do nosso coração. Todavia há neles três expressões habituais, sobretudo a última: o respeito, a bondade, e a ironia mordaz.
Moralmente, as feições mais flagrantes que como quer envolviam todo o seu caráter, eram o extremo subjetivismo e a veia cômica dentro dos quais ele exercia toda a sua atividade psíquica. As funções espirituais eram todas sobrepujadas pelo sentimento que, como é de prever, perturbava o regular exercício das outras. Sentimento amoroso, sentimento do ódio, saudade, despeito e ofensa, amizade, fé e devoção, todas essas variantes sentimentais ele percorreu com uma intensidade, que atinge por vezes a violência da paixão. E foi um grande apaixonado. Apaixonado ao ceder a esses amores, que constituem a galeria, colecionada pelo Sr. Alberto Pimentel no livro Os Amores de Camilo; apaixonado no tédio pronto, que se lhes seguia; apaixonado na amizade, como no caso de Vieira de Castro; apaixonado no ataque, como em todas as suas polêmicas. Deprimiu e encomiou grandemente, e quase sempre sem razão no juízo condenatório como no laudatório. Aqueles, contra os quais fulminou uma apreciação de somenos, vieram a culminar; outros, a quem deu todo o alento dum confessado entusiasmo admirativo, esqueceram na sombra da mediocridade.
Logicamente se deduz que um homem escravo duma tão violenta sentimentalidade, devia ter uma vontade tíbia, indecisa, e assim era. Era um doente da vontade. Umas vezes ficava-se apático, insensível ao estímulo externo, ávido de conchego caseiro; outras vezes cedia abruptamente ao estímulo, com tal decisão e impulsividade que se produzia uma desproporção entre a causa e o efeito, mas logo que se perdia e apagava a última das repercussões cerebrais dessa excitação, Camilo recaía na apatia, na abulia. Resistindo às solicitações da sua curiosidade, aos conselhos dos amigos, nunca saiu de viagem ao estrangeiro, mas para fugir aos pinheiros gementes de São Miguel de Seide, sai para a Povoa de Varzim... e a meio do caminho retrocede. Obras longamente planeadas nunca apareceram; outras concebidas num momento, em quinze dias surgiam.
Tendo conhecido Ana Plácido, longos anos, deixou lavrar a sua inclinação, distraindo-se com outros devaneios amorosos, até que tornando-se paixão, esse sentimento atinge um poder determinante que o impele às consequências extremas. Pouco tempo depois, com o escândalo, chegava o tédio, que era também uma cruel ingratidão.
Não viajava pelo estrangeiro, mas obedecendo a um irresistível e mórbido deambulismo percorreu as províncias do norte, pormenorizadamente, aldeia por aldeia, casal a casal.
Houve um momento, em que Camilo sentiu a necessidade de crer, e o D. Juan protagonista de muitas aventuras, que estarreciam os burgueses portuenses lançou-se, a despeito da opinião de todos, na contemplação religiosa, exaltadamente; frequentou o seminário, fez jornalismo religioso e polêmica religiosa e chegou a requerer ordens menores, que uma reviravolta a tempo o inibiu de receber.
A inteligência, dominada pelo sentimento, não observava o que se não coadunasse ao modo de ser desse sentimento; fugia da natureza objetiva, dobrava-se subalternamente e ia arquitetar justificação para os sentimentos, explicação, dispersando-nos pela obra — reflexo fiel do caráter de Camilo — um sistema completo do sentimento do amor, na forma camiliana, uma concepção da vida, muito restrita, mas organizada. Quando frequentou as aulas da Academia Politécnica e Escola Médica, sentiu que a sua inteligência se não comprazia no estudo das ciências naturais. A memória é que era vivíssima e poderoso auxiliar para a construção da sua obra; as reminiscências biográficas são sempre vivíssimas e de relativa exatidão, e as leituras conservam-lhe no espírito um armazém de materiais, prontos ao primeiro chamamento. Como erudito e genealogista claramente o mostrou.
A música era para ele o mais suportável dos ruídos.
A veia cômica, poder de satirizar por meio duma desleal interpretação das opiniões alheias, dum trocadilho de palavras ou pela pintura caricatural, junta com a violência de sentimento, que punha nos seus atos, compeliu-o a ataques literários ou a defender se pôr forma que equivalia a agredir primeiramente.
Com tais particularidades morais: extrema subjetividade, pouca observação, grande memória e poder satírico, Camilo havia de produzir uma obra irregularíssima, como irregularíssimo no seu funcionamento era o espírito que a concebia. Da leitura continua, do gosto de antiquário, forma mesquinha do espírito histórico da época, e da memória, nasceu o estilo, o escritor; do homem sentimental o romancista do amor: do satírico o polemista.
Não foi o seu caráter, como cremos que nunca o são os caracteres sentimentais, duma elevada moralidade. O impulsionismo sentimental levou-o a praticar atos que não estavam dentro das sanções da moral comum. O abandono da sua primeira mulher e da filhinha, que tinham ocupado no seu coração um tão pequeno lugar, que ocultou sempre esse casamento; a aventura com D. Ana Plácido; o conservar junto de si o filho daquela senhora. Manuel; o entrar afoitamente no gozo das propriedades de Pinheiro Alves, o marido de D. Ana Plácido; e o rapto de uma donzela rica, apelidada a tricentenária, por se avaliar em trezentos contos de reis a sua fortuna, para a casar com um marido dissipador e tresloucado, seu filho Nuno: a sua duplicidade literária, encomiando Eça de Queirós em público, ao mesmo tempo que o atacava em cartas particulares, são mostras mais do que suficientes de que nem sempre a correção moral foi o mais procurado escopo da sua vida.
Incrustado na sua concepção literária, não podia compreender o realismo, e não compreendeu.


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FIDELINO DE FIGUEIREDO
História da Literatura Romântica Portuguesa (1913)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Camilo Castelo Branco: A Vida (Biografia)



Camilo Castelo Branco: A Vida
Nasceu Camilo, em Lisboa, aos 16 de março de 1826, onde estudou as primeiras letras. Órfão de pai e mãe aos dez anos, foi enviado para Vila Real de Trás-os-Montes, em cujo termo habitava uma sua irmã casada com um médico. Seguiu de Lisboa, por mar, em direção ao Porto, mas um temporal obrigou o navio a arribar só em Vigo; daí veio Camilo, com uma criada que de Lisboa o acompanhava, a Braga, ao Bom Jesus, em cumprimento duma promessa daquela, seguindo depois a jornada aventurosa até Vilarinho de Samardã. Nesta pequena povoação sertaneja, oculta num desfiladeiro e sobranceira ao rio Córrego, passou Camilo boa parte da sua mocidade, mais de seis anos. Foi durante essa estância que recebeu de sua irmã alguma educação doméstica e do padre Antônio de Azevedo, cunhado de sua irmã, os rudimentos de latim e algumas informações literárias, muito irregulares. Ali viveu à solta uma vida de expansão do seu caráter, que ao formar-se claramente patenteava as feições dominantes que iriam imperar durante a vida. Embalde sua irmã opunha a essa soltura as pressões da sua autoridade. Camilo fugia de casa, obedecendo a uma iniludível necessidade de indisciplina e de variedade. Foi na Samardã que ele teve os seus primeiros amores.
Num desses devaneios, que ao despertar da puberdade, são imperiosos como realidades, teria avançado inconvenientemente, tendo os pães da namorada, uma camponesa de Friúme, recorrido ao matrimônio, como meio de legitimar alguma irreflexão. Ou por falta de elementos ou por melindre, e mais provavelmente por aquela do que por este, os biógrafos não têm pormenorizado esse ponto. Parece-nos que só pela força dos fatos a irmã de Camilo permitiria essa união entre pessoas de nascimento tão diferente, sendo Camilo tão novo ainda e não tendo nenhum modo de vida independente. Desses amores nascera um filho. Bem cedo Camilo se entediou da mulher e abandonou-a. Dão os biógrafos por causa da separação exigências dos sogros, que não permitiam que a filha saísse da sua companhia e que queriam que Camilo fosse estudar para o Porto, e ainda incompatibilidades locais por ele contraídas, por via duns versos satíricos, em que aludia a uma intriga muito falada na terra. O certo é que Camilo abandonou, a mulher e a filha, que morreram durante a sua ausência. E tão pequeno lugar ocupou na sua vida moral esse casamento que quase o esqueceu. Entretanto fez uma breve passagem pelo Porto, onde cursou os estudos preparatórios.
Foi também na Samardã que Camilo fez as suas estreias literárias, poesia lírica no gosto arcádico e versos satíricos de alusão às disputas entre dois irmãos nobres, a propósito do casamento dum deles, que pretendia ligar-se a uma rapariga, de condição inferior à sua linhagem. Esses versos, que obtiveram fácil êxito no povoado sabedor da discordância familiar, inimistaram-no com o alvejado, como não podia deixar de ser. Na perspectiva dum conflito, Camilo saiu para Lisboa, daqui para o Porto e regressou à Samardã, onde teve novos caprichos amorosos. Da aldeia voltou para o Porto, onde frequentou a Academia Politécnica, obtendo em 1844 e 1845 aprovação nas disciplinas de química e botânica, únicos estudos superiores de que teve diploma. Era sua intenção seguir o curso de medicina, para o que ainda frequentou anatomia, tendo transitado ao 2º ano, que perdeu por faltas. Abandonando as aulas, regressou a Vila Real.
Assistiu à revolução popular e consequente guerra civil da Maria da Fonte, presenciou alguns episódios e, levianamente, sentiu suas inclinações pelo cabralismo até ao dia, em que por motivo duns artigos adversos a José Cabral, foi por sua ordem fortemente sovado.
Em Vila Real travou relações amorosas com uma mulher, que o acompanhou a Coimbra, e de quem houve uma filha. No Porto, a requisição dum tio, que desejava coarctar essas relações, foi preso, e bem depressa perdeu o entusiasmo impulsivo de pouco antes, esquecendo esse romance. A filha internou-a num recolhimento, zelando pela sua educação até ao seu casamento. Breve e inaproveitada foi a sua estada em Coimbra. Voltou a Vila Real e estreou-se como autor dramático, na inauguração do teatro, com a peça, Agostinho de Ceuta.
É em 1849 que Camilo se estabelece no Porto, entrando de vez na vida literária e na boemia solta do tempo. Nesse ano, publica o Marquês de Torres Novas, drama histórico, e em 1851 o seu primeiro romance, O Anátema, aos 24 anos de idade.
Tinha encontrado a verdadeira via para a sua vocação e o meio próprio para a expansão da sua sentimentalidade romanesca. Pelo jornalismo, pela literatura e pela boemia se reparte então a sua vida. Poucos foram os escândalos da vida portuense, do Café Gruichard, dos Congregados, da Ponte de Pedra, do teatro de São João, em que Camilo não fosse protagonista, comparsa ou cronista. Ficaram na memória saudosa dos velhos desse tempo e nas alusões da literatura as loucuras da geração de poetas e estúrdios, a que Camilo pertenceu e em que foi figura muito representativa. A par dessa dispersão moral, o escritor não abandonava a arte, porque na maioria dos casos, essa arte, toda feita de alusões, era sugerida por esse borboletear amoroso e pela contemplação de muitas fantasias.
Um romance amoroso com uma senhora casada lançou-o na cadeia, onde jazeu um anuo. Resolvido o processo movido pelo marido ultrajado, e recuperada a liberdade pelos dois delinquentes, uniram-se ambos, Camilo e D. Ana Augusta Plácido, inseparavelmente até ao fim da vida. Começara esse amor em 1858, e só em 1888 se pôde legitimar pelo casamento.
Entretanto a obra literária ia prosseguindo, a consagração chegava. Os seus livros, lidos avidamente e discutidos com paixão, encomiástica ou detrativa, alcançavam ruidoso êxito de livraria. D. Luís em 1885 agraciava-o com o título de Visconde de Correia Botelho; o parlamento dispensava-o do pagamento dos direitos de mercê e arbitrava uma pensão a seu filho Jorge.
Envolvia-se em polemicas, que ficaram célebres pela violência e qualidade dos contendores, e era proclamado, com Garrett, Herculano e Castilho, um dos dirigentes do movimento literário.
Pela intimidade com D. Ana Plácido, compartilhara a posse da casa de São Miguel de Seide, que fora do marido dessa senhora. Ali passou o último período da sua vida, o mais fecundo literariamente. Entretanto a doença dos olhos e miopia, de que sempre sofrera, ia-se agravando com a idade e a fadiga do trabalho incessante. Cego incuravelmente, apesar das diligências, em Lisboa, junto dos melhores especialistas, suicidou-se em 1 de junho de 1890. O suicídio mais duma vez lhe tinha ocorrido, durante a vida, como solução a males amorosos, mas só a realidade duma grande desgraça irremediável o determinou a aceitar essa desesperada resolução.
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FIDELINO DE FIGUEIREDO
História da Literatura Romântica Portuguesa (1913)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

5/17/2020

D. Antônio Alves Martins, Bispo de Viseu (Biografia)



D. ANTÔNIO ALVES MARTINS
BISPO DE VISEU
ESBOÇO BIOGRÁFICO
Por: CAMILO CASTELO BRANCO
É agradável e não comum esboçar alguns traços da vida de um varão benemérito, cujos antepassados, praticando obscuramente o bem, nos não intimam o dever de lhes atribuir ou inventar proezas cívicas. Em tempos não remotos, quando era costume inculcar ou explicar, pelo decoro da estirpe, virtudes ou heroísmos, raro biógrafo se saía limpa e airosamente de ao pé do berço humilde do seu herói. É ver o empenho pouco menos de lastimável dos que inventaram avós fidalgos a João Pinto Ribeiro, como se o esplendor de seu patriotismo fosse demasiado para um só homem, e devesse, em vez de ir adiante afidalgar vindouros, retroceder aos passados, e lustrar-lhes as sepulturas em galardão póstumo! Donosa e bizarra fidalguia é uma que nos faz sentir que o é, porque há aí natural fronteira entre bom e mau: é a que vemos gerar-se, florir e frutear sem inculcadas e vans precedências; é a que assinala os homens prestantes, alumiando-os de luz sua, a fim de que a posteridade os extreme da sombra, se os contemporâneos não puderam ou não quiseram aquilatá-los desassombradamente. Homens deste vulto, per si mesmos nobilitados, não se procuram no berço: é em meio de nós, é desde o momento que os vimos receber da gratidão pública os títulos de sua nobreza. 
O Sr. D. Antônio Alves Martins, doutor na faculdade de teologia, bispo de Viseu, par do reino e ministro de estado honorário, nasceu na Granja de Alijó, província de Trás-os-Montes, aos 18 de fevereiro de 1808. Modesta abundancia e laboriosa probidade — excelências congêneres da profissão agricultora — honravam e felicitavam a família de que procede o Sr. bispo de Viseu.
Dado que a sua iniciação a estudos superiores não levasse o intento posto em determinado destino, motivos, em que talvez seria grande parte a obediência, moveram o moço de dezesseis anos a entrar na Terceira Ordem de São Francisco, chamada da Penitência, cuja casa capitular era em Lisboa.
Não é já hoje em dia mui vulgar a notícia da ilustração em que primacialmente se avantajava aquela corporação religiosa, cujos serviços literários e evangélicos aí estão consignados nas Memórias históricas do arcebispo Cenáculo e nos variados escritos de fr. Vicente Salgado. Nenhuma ordem, digamo-lo assim, acabou com mais brilhantes fins de existência gloriosa, através de quatro séculos. Ali principalmente se ensinaram a diplomática e as línguas orientais; dali saíram abalizados mestres de grego e hebraico, árabe e siríaco.
Muito de indústria lembramos esta clausula quase inútil, porque temos lido e ouvido inconsiderados se não indoutíssimos conceitos dos Regulares da Terceira Ordem de São Francisco. Não será pois descabido lembrar a juízes menos competentes que a livraria, atualmente chamada da Academia real das ciências, era a deles.
Em 21 de maio de 1825 vestiu o Sr. Antônio Alves Martins o hábito de professo, e passou a estudar filosofia no Colégio do Espírito Santo em Évora, doação de el-rei D. José à Terceira Ordem, em 1776, extinta a Companhia de Jesus. Em outubro do ano seguinte, matriculou-se no colégio das Artes, com o propósito de seguir o curso universitário, frequentando alternadamente as aulas de matemática, filosofia e teologia.
Cursava o distinto acadêmico o seu terceiro ano da universidade, quando as renovadas ideias de 1820 agitavam febrilmente os ânimos de grande número de escolares — aquela falange de generosa mocidade, predestinada a ser tão grande parte na propaganda dos princípios liberais e na ocupação dos mais eminentes postos da representação nacional. O aluno de teologia, posto que ligado a uma corporação religiosa, aliou-se aos propugnadores do governo representativo, sem todavia imparceirar-se com os injustificáveis bandos que intermeteram uma página de desonra indelével na história dos ásperos sacrifícios daquele período.
Desde tenros anos a condição do Sr. Alves Martins saiu avessa a rebuçar ou sequer temperar calculadamente as suas opiniões políticas. Este franco destemor e afoita energia foi sempre, é, e apesar da experiência será sempre a mais relevante fisionomia do Sr. bispo de Viseu. À ousadia de manifestar-se afeiçoado à revolta militar do Porto, de 16 de maio de 1828, seguiu-se ser riscado da universidade, quando frequentava o terceiro ano teológico. Sem embargo, o Sr. Alves Martins prosseguiu nas aulas da sua congregação; e, concorrendo às cadeiras de filosofia e teologia, recebeu o prêmio de sua aplicação e créditos, sendo logo, e tanto na flor da idade, nomeado mestre da Ordem. Os condiscípulos do estudioso mancebo ainda hoje recordam a viveza, penetração e discernimento com que ele se igualava aos mais distintos.
Não estava, todavia, aquele alvoroçado espírito ainda maduro de feição para pautar-se ao magistério. Impulsaram-no estímulos inflexíveis a quinhoar dos perigos e honras nas lutas que estrondeavam fora e dentro do claustro. Era aquele um tempo em que todo homem olhava para o horizonte do dia novo, bem que a uns se figurassem de fogo destruidor as cores da aurora, e outros a saudassem como luz redentora a alvorejar civilização para o mais ignaro, escuro e abatido torrão da Europa. Alves Martins não podia pertencer ao número dos prudentes que, adorando a ocultas a ideia, sopesavam com os açamos de uma discreta expectativa os ímpetos de a confessar e servir. A experiência mostrou seguidamente que estes sisudos foram depois os primeiros que saíram enramados a rojar os louros nos tapetes dos ministros de 1834: por onde se prova que a prudência é sempre de medranças, ainda quando uma sã terminologia a alcunhe de ardilosa.
Como quer que fosse, Alves Martins, no momento em que as tropas liberais rebeladas no Porto evacuavam Coimbra, saiu do colégio, acompanhou-as, e sentou praça no regimento de Voluntários de Alijó. Sem demora lhe foi instaurado processo no tribunal secular e nas comissões militares de Trás-os-Montes; o prófugo, porém, recolhendo-se ao claustro, pensou talvez que a perseguição, empenhada em exterminar inimigos mais temerosos, o esqueceria. Era, em verdade, ter em coisa de pouco a memória das testemunhas juramentadas no seu processo!
Em 1832 foi nomeado capelão da armada: fora-lhe imposto o encargo sob obediência, porque da Terceira Ordem saíam os padres para os navios do estado.
Poucos meses depois, o capelão, cuja pertinácia em ser liberal o tornara por demais esquecido do instaurado processo, foi de novo processado na Majoria-General, preso nas cadeias de Coimbra, e sentenciado com mais três companheiros na Conservatória da Universidade.
Na tarde do dia 28 de janeiro daquele ano uma leva de presos ida de Coimbra para Almeida conseguiu fugir na altura de Santo Antônio do Cântaro, favorecida talvez pelo comandante da escolta. Naquela leva iam três presos já sentenciados no Conservatória. A sentença era um modelo de concisão e ferocidade. Chegados a Viseu, deviam ser espingardeados no campo de Santa Cristina. Um dos três condenados era o Sr. Antônio Alves Martins.
As alegrias de uma salvação muito incerta não compensaram ao sentenciado e a três companheiros as angústias que se seguiram. Desviados de todo trilho, desprovidos de mínimo recurso, e até desconfiados da caridade do lavrador a quem pedissem um pouco de pão e agasalho, durante onze dias e noites, erraram, por serranias, retransidos de frio e fome. Quando ao nono dia de tamanha miséria chegaram à margem do Mondego, junto de Vila Verde, e reconheceram que o passo era guardado por sentinelas, os quatro fugitivos às nove da noite entraram na água, e, como submersos em uma salina, esperaram quatro horas de formidável agonia a menos perigosa oportunidade de vadear o rio. Dois dias depois chegaram a Leiria, onde se apresentaram ao tenente coronel Vasconcelos, hoje visconde daquela localidade.
Com quanto a robusta mocidade de Alves Martins se aguentasse na luta com os trabalhos daquela fuga, o resultado funestou-se-lhe depois, sobrevindo-lhe um tifo para o tratamento do qual o hospital de Leiria lhe favoreceu uma enxerga. Apenas convalescido, passou a Lisboa; e, terminada a guerra civil, voltou a continuar seus estudos em Coimbra, onde se graduou em teologia, por 1837, deixando as faculdades de matemática e filosofia no segundo ano.
Na lista dos estudantes perseguidos e por tanto agraciados pela lei de 1834, estava o nome de Antônio Alves Martins. Ele, ainda assim, dispensando-se dos benefícios da lei, sujeitou-se às praxes, frequência e provas dos restantes acadêmicos. Aceitou apenas os doze mil reis que lhe pertenciam como a egresso da Terceira Ordem. Eis aí o primeiro lance de desinteresse que será o precursor de outros testemunhos de não vulgar desprendimento.
De mais disto, um homem no vigor dos anos e sazão das aspirações, com justa causa para desvanecimentos de méritos, uns ganhados com seu eminente espírito, outros adquiridos pelos trances que correu a sua vida no serviço da causa triunfante, aí o temos concorrendo a uma cadeira de filosofia no Liceu do Porto para granjear o pão da independência, visto que o despacho para o magistério universitário se demorava. Mas, nem ainda aí, nome e serviços lhe complanaram dificuldades. Um antigo professor obteve, anulado o concurso, despacho fundado em direitos de já ter exercido o ensino. Alves Martins concorreu novamente à cadeira de história e geografia para a qual foi despachado em 1839.
Assombra e entristece ao mesmo tempo o confronto das ambições descompassadas que hoje em dia saltam e bravejam de nomes obscuríssimos, e a modéstia, comedimento e parcimônia dos homens de então, os quais tão afastados já parecem destes nossos dias! E todavia, são de hoje, são nossos contemporâneos! Que decorosos brios não reportavam o ânimo dos que se davam por bem pagos de ser livres para poderem buscar sua parca vida no ensinamento da mocidade! Claro era que Antônio Alves Martins não podia abastardar os dons da inteligência, malbaratando-os em incenso ao poder — em escambo de mercês que lhe permitissem, inerte na força da idade, e no regalo de lerdos ócios, descurar como incomoda esta coisa onerosa chamada honra do trabalho.
Três anos passados, o professor do liceu foi eleito deputado.
A sua entrada no parlamento em 1842 abriu mais um exemplo dos danos que fomenta a rigidez do caráter vinculada ao arrojo da censura. O Sr. Alves Martins distinguiu-se na oposição. Os seus discursos não eram preparados com a engenhosa paciência dos que atentam superiormente no brunido e terso dos períodos, e a miúdo pompeiam enfeites acadêmicos em assuntos de seu natural simplíssimos. Como a sua eloquência brotava súbita das convicções, e a cada passo os desacertos do poder lhas estimulavam, não se lhe fazia mister o prévio lavor da composição literária das suas orações. O Sr. Alves Martins era, primeiro que tudo, dialético, assim destro quanto lacônico; umas vezes severo, outras aspérrimo, mas sempre justo, e escutado com respeitosa atenção de parciais, e adversários, entre os quais se procuravam sempre os mais audaciosos para o impugnarem. A austeridade de sua índole, inflexa às chamadas conveniências partidárias, singularizava-se por uma honrada obstinação propriamente com os erros da sua parcialidade. Os do seu lado impacientavam-se magoados quando as frechas do intemerato argumentador lhes iam apontadas e mais penetrantes que as dos adversos. Que montava isso à serena consciência de Alves Martins? Os seus amigos políticos deixavam de o ser, logo que exibissem, como diplomas de consideração, poluir-lhe por efeito de uma forçada condescendência a inteireza de seus princípios sempre liberais, e ao mesmo passo moderados e conciliadores. Contra as demasias do poder achamo-lo sempre em reação vigorosa, quer os governos se fortalecessem na complacência do trono, quer no apoio faccioso dos plebiscitos. No seu ânimo tanto impendiam influências patriciatas como populares. Abusos de ambas as procedências lhe eram por igual odiosos, e o sobre-excitavam a extremos de não poder estancar o ímpeto das frases excessivamente acrimoniosas, se algum contendor lhe recalcitrava com desabamento. Assim o vimos sempre e com indomável pulso nas acesas disputas com o atual visconde de Souto Maior.
Acima escrevemos que a sua entrada no parlamento inaugurara mais um exemplo dos danos inerentes à rigidez de caráter e aos atrevimentos de uma franca reprovação. O governo, para lhe fazer sentir seu desagrado, à custa de uma injustiça sem disfarce, preteriu-o no despacho universitário. Este fato devera capitular-se de inveterada desmoralização, se antes não fosse uma espécie de direito consuetudinário nos governos que todos se estribam na adesão dos amigos, e por amor deles suplantam a justiça dos contrários. E tão perversor direito explica as abjeções, as apostasias, os envilecimentos contra os quais Antônio Alves Martins, desde deputado até ministro do reino, desde conventual de Jesus até prelado visiense, se levantou sempre com honesta sobranceria.
Verdadeiramente, contra o adversário deste fôlego não bastavam os atletas parlamentares. Urgia ao poder suspeitoso espiá-lo no escuro das noites e ladeá-lo de quadrilheiros.
Antes de ser deputado, já o Sr. Alves Martins, no último ano de sua formatura, em 1837, havia sido prezo em Coimbra como cúmplice na revolta dos marechais — lance que passou totalmente alheio da sua menor interferência. O ilustre preso devia ainda conhecer no cárcere, que lhe davam os livres, a tabua que lhe tinha dado o governo dos escravos. Apenas se haviam interposto três anos desde a sentença de morte lavrada na Conservatória até ao mandado de captura da autoridade constitucional!
Sendo deputado, foi preso em 1843, ou, como quem quer adoçar o termo, foi detido porque entrava por noite alta em conciliábulos revolucionários.
No seguinte ano, 1844, estando no Porto, foi intimado para encarcerar-se no Castelo da Foz, como faccionário da revolta militar daquele ano. Governava então o distrito o Sr. Antônio Emílio Brandão, cavalheiro cujas virtudes ainda não foram puídas pelo atrito da política. Dignou-se a autoridade ouvir as declarações do indiciado como conspirador; e, suspensa a ordem de prisão, deixou-o vigiado pela polícia.
Escusado é procurar o Sr. Alves Martins estranho à revolução de 1846 e 1847. Conheceu os homens, que formaram o gabinete revolucionário, vizinhou deles com o seu conselho e prática dos negócios; mas pendemos a crer que muitíssimos atos da Junta, nomeadamente os militares e diplomáticos, mereceram a sua reprovação, mais ou menos expressada no opúsculo NOVE DE OUTUBRO, que sua excelência publicou, historiando os sucessos tumultuosos da contrarrevolução.
O Sr. Antônio Alves Martins não conheceu o andamento da revolução somente pelos “boletins” das manobras e batalhas impressos nas gazetas. Viu-a de perto, bem no centro dos perigos, tomando deles o quinhão que lhe quadrava, como a homem que em si sentia impulsos de defender no campo a causa que patrocinara na imprensa. Há aí o quer que seja grandioso que nos avulta a proporções impróprias deste tempo o homem de letras de par com o soldado não esquivo aos trances das pelejas. A hipocrisia não acha edificativo o lance; mas os espíritos despreocupados admiram e respeitam a coragem que intendeu dever ao bem da sua pátria, a um tempo, os serviços do braço e os tesouros da inteligência.
Terminada a guerra civil pela convenção de Gramido, continuou o professor a reger sua cadeira, e simultaneamente redigindo o Nacional, diário então organizado para sustentar os princípios da reforma, abastardados senão derruídos pelo gabinete constituído depois da convenção. O trabalho assíduo de sua excelência era gratuito como antes e depois aconteceu em todos os periódicos de sua colaboração. Concorremos então na parte literária do Nacional. Com íntima saudade nos recordamos da lhaneza e cordial crítica com que o primeiro redator político nos acoimava de frívolos ou louvava por esperançosos uns folhetins com que nos ensaiávamos para esta lida indefessa de vinte anos.
Os artigos do Sr. Alves Martins, redigidos com admirável presteza, e momentos antes ou simultâneos da composição tipográfica, eram modelos de polemica, e às vezes retaliações um tanto acerbas para os adversários. Passos Manoel, avaliando o caloroso publicista como escritor político, elevava-o à eminência entre os melhores. Naqueles anos de 48 e 49, o Nacional primou no seu progressista e liberalíssimo programa, confiado às superiores capacidades de Alves Martins, Parada Leitão, Evaristo Basto, e Nogueira Soares.
O espírito público estava disposto a coadjuvar a revolução militar de 1851, acaudilhada pelo marechal Saldanha, e ressurgida da sua prostração por alentos de alguns seus confederados no Porto. No esforçado número dos cooperadores da intitulada “Regeneração” alistou-se o Sr. Alves Martins, posto que a política do Sr. duque de Saldanha lhe não abonasse mais prosperidades nacionais que a política do Sr. conde de Tomar. Uma e outra, mais ou menos áulicas e filiadas na corte, eram pouco menos de facciosas, e mais que muito impopulares. A nosso juízo, o Sr. Alves Martins, considerando que o antagonismo pleiteava entre dois validos a disputarem-se privança e influência, teve como político e acertado expediente apoiar o mais fraco, para assim, removidos os estorvos dos nomes pânicos, abrir novo horizonte às reformas desejadas, e subverter os elementos reacionários. Este seria, porventura, o propósito do solerte político e de outros notáveis correligionários da Junta consubstanciados na revolução.
E, de feito, a fase da nova política, animada pelo talento sagacíssimo e gênio conciliador de Rodrigo da Fonseca Magalhães, inaugurou-se com ares de ciência nova em matéria de governar. Homens de arraiais contrários congrassaram-se no mesmo intuito, fatigados dos vaníloquos da tribuna, e cortados dos desastres da guerra civil. Iniciaram-se na administração algumas inteligências devotadas ao progredir material, ao adiantamento procedente dos estudos econômicos, descurados até àquele tempo em que, pelo ordinário, os mais loquazes parlamentares pareciam ainda remodelar as suas teses pelas recordações tribunícias das primeiras câmaras, estudando a eloquência em Ferreira Borges e Fernandes Tomás. Então se viu esfriarem os entranhados despeitos, apagarem-se as inspirações sonorosas dos questionadores políticos, e comunicarem-se uns a outros o mesmo impulso de apoio para obras públicas, estradas, telégrafos, portos marítimos, reformas aduaneiras, desvinculação da terra, enfim, operou-se estranhamente a comunhão de todas as vontades no estudo e exploração dos processos de riqueza que as nações prosperas nos exemplificavam.
Mas enquanto os videntes do progresso material pindarizavam os adais da ideia nova, o governo, inaugurado em 1851, dilapidava e prodigalizava, como se o edifício novo houvesse de ser cimentado sobre as ruínas da fazenda nacional, e o povo, que farte empobrecido para tão descomedidas despesas, devesse ser sacrificado aos créditos dos iniciadores do progresso.
O Sr. Alves Martins retirou o seu apoio ao governo. Estava com o povo e contra as demasias do poder. Estava com o progresso; mas progresso compatível com a debilidade do tesouro.
Em novembro de 1852, obteve sua excelência a nomeação de lente de teologia: suscitando-se dúvidas, no entanto, sobre a antiguidade que lhe competia, renunciou o magistério, optando pela cadeira canonical na sé patriarcal de Lisboa.
Continuou militando já na oposição, já nas maiorias, assim na imprensa como no parlamento, por espaço de nove anos.
Em 1861, foi nomeado enfermeiro-mor do hospital de São José, onde se desvelou quanto cabia em suas muitas faculdades e prestantíssimos alvitres. A imprensa louvou-o unanimemente pelas reformas que em sua administração se operavam. Cortou abusos. Pautou rigorosamente obrigações. Gratificou serventuários beneméritos. Exautorou os nocivos. Feriu pela raiz a árvore dos desperdícios à sombra da qual se medravam muitos, com agravo da pobreza e do infortúnio. E tamanho afeto cobrou o novo enfermeiro-mor àquela casa de dores que, volvidos anos, e já ministro do reino, se lhe estava sempre desentranhando em benefícios, convertendo em pão e cobertura as liberalidades das pessoas que por elas, mais do que pelas mercês, se então nobilitaram.
Aprouve a Sua Majestade galardoá-lo com a comenda da Conceição pela sua benemerência no exercício de enfermeiro-mor. O Sr. Alves Martins rejeitou a graça por intender que o comprimento de uma obrigação não era caso para condecorações.
De passagem notaremos no despacho deste afanoso encargo um sucesso que motiva saudades: foi este despacho o último que o Sr. D. Pedro assinou. O amigo dos infelizes, ao despedir-se deles, enviava-lhes uma alma cheia de generosa retidão a zelar-lhes o seu patrimônio. Bem escolhido protetor para desvalidos que — bem o sabem os que de perto convivem com o ilustre prelado — facilmente enternecereis a lágrimas e vereis comiserado aquele aspecto que se vos figura severo e inacessível às dores maviosas da compaixão.
Em julho de 1862 foi apresentado bispo na sé de Viseu o Sr. D. Antônio Alves Martins, confirmado no consistório de São Mateus, e sagrado em dia de Todos os santos. Como a doença o impedisse, governou a diocese por procurador, até que em janeiro de 1863 fez entrada solene na sua catedral. No tempo que mediou entre a sua apresentação e confirmação, recebeu um breve de Sua Santidade, encarregando-o do regimento da diocese, na qualidade de vigário apostólico, a fim de debelar o cisma que lavrava no bispado, à conta da nomeação do vigário capitular. Fora o caso que o cabido descontente, recorrendo a Roma, obtivera anular a segunda eleição. Recusou-se o Sr. bispo a cumprir o breve, posto que honroso para sua excelência em quanto Sua Majestade o não aprovasse. Travou-se alguma contestação entre o prelado e o núncio que se dispensava do plácito régio. O breve, porém, não se cumpriu. O Sr. D. Antônio antepôs o respeito da lei portuguesa ao arbítrio romano. Só depois da sua sagração, é que sua excelência intendeu nos negócios da sua diocese. Foi esta uma judiciosa inflexibilidade de caráter que se decidiu pela dignidade nacional contra a jurisdição prelatícia. As insígnias do príncipe da igreja, honorificadas pela confiança do chefe da cristandade, não o demoveram de acatar submissamente os foros do chefe da nação. Louvável rigidez de primoroso ânimo que em cada ato nos está sobrepujando a medida vulgar.
O zelo da missão prelatícia divorciou-o fundamentalmente da política. A sua cadeira na câmara alta, ao invés de mui naturais conjeturas, esteve por espaço de anos devoluta. O solicito prelado dedicou-se de coração aos cuidados pastorais, quer morigerando abusos, quer envidando esforços na educação do clero.
No primeiro ano fez três ordenações; e, nos seguintes, ordenação geral e única nas têmporas de São Mateus, atendendo ao proveito dos ordinandos.
Aqui vem de molde um fato cuja notoriedade nos corta delongas no memorá-lo. De natureza estranha foi ele, e, como tal, soou com grande estampido dentro e fora do país.
Em junho e julho de 1867 concorreu sua excelência a Roma para assistir às festas do centenário de São Pedro e canonização de alguns santos. Em certo dia o soberano recitou na capela sistina um como discurso do trono ao qual é de estilo responderem os bispos como uma saudação a Sua Santidade. Nesta saudação, previamente elaborada, realçavam pontos doutrinários e controversos grandemente incongruentes com as convicções do prelado visiense acerca da infalibilidade e do poder temporal do papa. A saudação ou resposta ao discurso pontifício não havia sido discutida nem consentaneamente redigida por alguma assembleia episcopal. Era papel já de antemão impresso, como se o conteúdo fundamentasse em dogmas incontraditáveis na cristandade. Os prelados concorrentes à capela sistina, no ato de se apartarem, receberam convite impresso a comparecerem, no seguinte dia, no palácio Altieri para o intento de lerem e assinarem a saudação. O cardeal, que rubricava o convite, não solenizou com a sua presença a assembleia dos prelados, os quais, ao compasso que entravam, iam recebendo os exemplares, e eram advertidos que lessem, assinassem e os não levassem. O Sr. bispo de Viseu, já que ninguém abria discussão, nem o peremptório do aviso a permitia, leu e deliberou, também peremptoriamente, não assinar.
Em o 1º de julho, apareceu a saudação a Sua Santidade em ato solene, ao qual o Sr. D. Antônio, divergente de seus colegas, não concorreu. Não obstante, entre os signatários, daquele protesto pela infalibilidade e poder temporal encontrou o bispo português o seu nome. Sem interpor tempo, sua excelência protestou, por via do embaixador de Portugal em Roma, contra a sua assinatura nem feita nem autorizada. O nobre prelado, protestando neste teor, não cogitava em assoprar escarcéus que dessem a lembrar as divergências das cristandades primitivas, quando as dúvidas sobre infalibilidade dos bispos de Roma eram suscitadas por venerandos prelados que tinham bem no vivo de sua fé as tradições dos primeiros séculos. Da parte de sua excelência o intuito era natural e simplíssimo: repelir uma tal qual fraudulência, equivocamente piedosa, que envolvera a falsidade de uma assinatura, e violência de espécie nova, imposta à sua consciência. Não obstante, o episcopado católico, ardendo em espírito menos santo, assanhou-se com o desusado procedimento, como se aí pelo século IV algum discípulo de Árius ousasse, à face da cadeira de São Pedro, contender sobre os divinos fundamentos da religião de Jesus. E, todavia, o Sr. bispo de Viseu protestara singelamente contra a falsificação de sua assinatura, denegando-se a subscrever a infalibilidade do papa, como ninguém subscreveu nos primeiros sete séculos da igreja, tal qual e pelas mesmas palavras com que a declinou de si o papa São Gregório Magno, e como, há poucos dias, o protestou o eminentíssimo Dupanloup na sua última pastoral. O que muito agravava a culpabilidade do nosso bispo não era a dúvida: era o protesto. Não cresse embora; mas... emudecesse. O que era, pois, dignidade, foi malsinado de orgulho. O dissentir de seus colegas, num ato a que todos porventura ligavam mínima valia, foi havido em nota de rebelião própria dos heresiarcas que parvamente forcejavam porque as portas do inferno prevalecessem.
Lamentável é dizer-se que este caso passou ontem; e que a mais pronunciada feição de tal conflito seria irrisória por conta de Roma, se não fosse profundamente triste!
O Sr. bispo de Viseu, impassível às graves censuras e encontrado pela opinião de todos seus colegas, contentou-se bastantemente do aplauso da consciência, como quem, reclamando contra a falsificação do seu nome, praticava um mero ato de moralidade, sem discutir se os apotegmas de Hildebrando ou as Decretais de Isidoro Mercador deviam ser de novo aquecidos ao sol do século XIX.
Uma comissão de três prelados procurou seguidamente o Sr. bispo para lhe declarar que fora engano e não propósito a subscrição do seu nome no documento oficial. A esse tempo já o Sr. D. Antônio havia saído de Roma. A mesma comissão declarou o equívoco, perante o embaixador de Portugal, pedindo que se transmitisse a satisfação ao prelado português, e se lhe pedisse que se houvesse por contente. Em Paris recebeu o Sr. D. Antônio o ofício do secretário da embaixada, relatando os sucessos, e solicitando o remate da pendência. Conveio sua excelência no desejado termo de tão ruidoso quão simples incidente, bastando-lhe que na legação portuguesa em Roma se inscrevesse, muito ao claro, que o bispo visiense não assinara nem mandara assinar a saudação ao pontífice, infalível e monarca.
Recolhido à sua diocese, o tranquilo prelado enviou cópia de todos os documentos substanciais deste conflito ao ministério da justiça, esclarecendo o seu poder em Roma. O governo, acusando a recepção do relatório e documentos apensos, absteve-se do louvor e da censura. Nem o louvor se fazia mister ao sossego do pundonoroso bispo: nem a censura, se tamanho vilipendio saísse emparceirado com a inépcia, poderiam molestá-lo senão como testemunho de impertinente ignorância ou refolhada hipocrisia.
Entretanto, ao passo que uma parte da imprensa louvava a probidade do Sr. D. Antônio, fundamentando o elogio em racionalíssimos argumentos por nenhum modo atentatórios dos justos direitos da tiara pontifícia, alguns menos sábios que pios fautores da moradia perpétua do espírito santo no Vaticano, e do patrimônio do príncipe dos apóstolos, e da legitimidade monárquica de Inocêncio IV e João XXII saíram contra o Sr. bispo de Viseu, já em periódicos mais ou menos trasladados mascavadamente de Joseph de Maistre, já em cartas impressas e subscritadas com irrisório desplante e grosseiro desprimor ao douto prelado. Não redarguiu sua excelência a semelhantes artigos e cartas constantes de maravalhas triviais de sabatina do primeiro ano teológico com que usa estofar-se esta ordem de coisas piamente ignaras — quais o autor deste opúsculo as escrevia num tempo em que estudava história eclesiástica, provando assim que a não tinha estudado. Não redarguiu sua excelência, porque não se houve por deslustrado com censuras inocentes quase degenerando em parvouçadas. O antigo mestre de sua congregação, o doutor em teologia, o letrado, o bispo não devia responder.
Abstraído à política, e empenhado novamente nos seus cuidados apostólicos, apercebia-se sua excelência para visitar o restante do seu bispado — como remate à mais capital tarefa da missão episcopal — quando foi convidado pelo Sr. duque de Loulé para ser parte no governo, cuja organização lhe fora encarregada pelo rei, em seguimento à queda do ministério Ávila. Inutilizadas as diligências, resignou o Sr. duque a melindrosa empresa. O caos assustava os mais intrépidos. Nem já os sedentos da honra de governar se atreviam a ensaiar a sua perícia pregoada nos comícios.
Então foi chamado ao paço o Sr. bispo de Viseu, e convidado a organizar ministério.
Aceitou. Corria-lhe obrigação de não esquivar-se a lances de alta responsabilidade quem se defrontara com todas as procelas políticas no decurso de quarenta anos tempestuosos. Aquela crise era certamente a da mais desnorteada mareação da nau descalavrada; mas urgia crer e pensar na possibilidade de salvamento, sendo desde muito o porto almejado do insigne escritor e parlamentar as reformas, os golpes fundos nos excessos, a amputação de abusos à mão tenente, sem atentar na jerarquia das classes ofendidas pela rasoira econômica. Cuidou certamente o Sr. bispo de Viseu que a dolorosa experiência dos últimos sucessos políticos seria forte alavanca para derruir obstáculos, manejada por pessoas cujos precedentes não iludissem a confiança da nação.
Esta esperança, denotando peito de rija têmpera, argui não extremado conhecimento dos homens.
Dificultou-se, ao mesmo tempo, a escolha de ministro da guerra. Lembrou o Sr. bispo convidar-se o Sr. marquês de Sá, em quem lustram honra acrisolada com eminentes predicados de bom juízo. Aceitou o Sr. marquês a pasta e presidência. Aceitou porque sua excelência não sabe quando um filho de Portugal possa justificar a evasiva do seu préstimo no serviço da pátria.
Começou a funcionar o gabinete em 22 de julho de 1868.
Todos os ministros eram alheios dos tumultos de janeiro que lograram a queda do ministério Aguiar; apesar disso, o programa da revolução não podia ser melhorado ou substituído. O estandarte, discreta ou indiscretamente arvorado pelos impulsores portuenses, proclamara batalha campal e inexorável às prodigalidades, aos sacrificadores do povo, à voracidade dos encartados no sevo da fazenda pública. O lábaro era simpático, sem impedimento de, em crises análogas, desde muitos anos, desfraldado por mãos inexperientes ou ávidas, apenas ter vingado toldar o ambiente de umas poeiras, descondensadas as quais o que se via era as arcas do tesouro cercadas de gente nova com os vícios velhos. Seria desacordo, ainda assim, a vacilação do novo gabinete, se um desculpável ceticismo lhe agorentasse a crença nos princípios conclamados pelos tribunos. Adotaram, pois, os novos ministros o programa das reformas, impetrada autorização das cortes.
O fundamento da política do ministério em que o Sr. bispo de Viseu consubstanciava o espírito e atividade dos seus colegas, em poucas palavras se define: aumentar a receita e diminuir a despesa.
Contra a ameaçadora forma deste moto de partido encapelaram-se para logo aversões filhas do interesse, ódios inconciliáveis de classes e indivíduos afeitos a considerarem legítimos os gozos da sua regalada posição.
Como e quando se tinha operado o milagre de extirpar o egoísmo de cada um para melhorar a condição de todos? Quem tinha prometido ao novo gabinete neutralizar pela justiça as forças congregadas dos descontentes? Em que ponto de apoio haviam de assestar a alavanca os temerários reedificadores?
Duzentos contos tinham sido aliviados ao ônus da despesa, quando as hostilidades, pouco tempo clandestinas, romperam clamorosas. O funcionalismo tinha por si a imprensa mais que nunca descortês, iníqua e desenfreada. Os mais engenhosos e eminentes na categoria dos publicistas, apagando os lumes sagrados com que tinham ministrado no altar da liberdade os seus talentos de bem pensar e aconselhar, em dias da gloriosa perseguição, pegaram de escrever objurgatórias tenebrosas em que a soltura da ideia raras vezes se descasava da forma condigna. O ministério Sá-Viseu, na imprensa, era apoiado por poucos, mas desinteresseiros amigos, não querendo granjear algum com o dinheiro da nação. Os talentos postos a ganho refinaram na injúria quando se viram desdenhados como coisa funesta por tal preço. Daí as devassas ao recôndito da família, e o despejo das calúnias, que redundavam em desonra de toda uma terra onde para tais entendimentos se havia fermentado na lama tão desaforada licença.
Na hoste dos funcionários bandeou-se a legião dos engenheiros civis, classe bafejada no berço por tais prosperidades e mimosa condição que julgá-la-íeis, no meio do abatimento e desconforto geral, a mais bem acondicionada em um país opulento. Esta corporação, fadada para destinos incompreensíveis, ao ver atravancar-se-lhes o acesso a colocações ambicionadas, conjurou-se em hostilidade sanhosa dentro e fora do parlamento.
Depois, os aspirantes ao poder dividiam-se em ministros que tinham sido e ministros que queriam ser. Dos segundos, o frenesi impaciente de governar desfechou em destemperos que a história séria não pode disputar ao domínio da baixa comédia. Tinha batido a hora em que se julgava com direito a uma pasta ou duas quem quer que tivesse aliado à ignóbil coragem de acirrar as iras da oposição a audácia de se julgar predestinado para salvar o país.
Entre elementos assim desorganizadores espanta como o ministério pode manter-se um ano sem extraviar-se da senda constitucional, escudando-se com a inconcussa honestidade de seus atos, respondendo aos motins do parlamento e das praças com imperturbável segurança.
Dentre os mais devotos do governo, muitos, atroados pelo estridor da oposição, começaram de sentir os vágados das consciências que se reviram. Alguns poucos, que o tinham contrariado em incidentes inevitáveis, sustentaram a probidade por tão distinta forma que não pode o final desfecho enodoar-lha.
Quando a frouxa maioria cuidou conjurar a tempestade, sacrificando dois ministros menos favorecidos de apoio, a pugna recrudesceu, porque os ministros retirados deixavam apenas duas pastas, e os candidatos se haviam multiplicado a ponto que não caía em forças humanas fazer supurar tanta apostema de ambição debaixo das fardas de só dois ministros.
Simultaneamente, na câmara alta, um homem de letras florentes, acepilhada eloquência e bons quilates oratórios para mais uteis triunfos, profligou o ministério com inflamada pertinácia, ao mesmo passo que notáveis mediocridades vociferavam, provando que a sintaxe e prosódia não são condicionais para aplausos.
Nesta extremidade, o Sr. bispo de Viseu, para quem tinha corrido um ano de acerbos dissabores e excruciantes desenganos, sentiu o desalento que prostra os homens de bem, e lhes não permite impor, por meios fortes, às rebeldias irracionais uns sentimentos que elas não aceitaram do procedimento liso e franco.
Perdido o apoio numa questão momentosa, o ministro do reino briosamente repulsou o alvitre de sondar o espírito da câmara noutra votação. A insistência daria azo à suspeita de que sua excelência timbrava em permanecer ministro, disputando à sofreguidão febril de seu sucessor missão tão pouco para invejas.
Demitiu-se o bispo de Viseu. O gabinete caiu.
Esta nova, posto que esperada, impressionou tristemente a maioria da família portuguesa. Nesta maioria é bem de entender que não se incluíam as classes prejudicadas pelas reformas. O elemento mais sensível e respeitável do país para quem o nome do Sr. bispo de Viseu foi caução de porvindouras prosperidades, era o povo que sustenta o funcionalismo, o povo agrícola, o povo industrial, o povo que labuta no trato mercantil. Para muitos a missão do ex-ministro do reino, embargada por cobiçosos e pérfidos a meio caminho, deixou como inexequível qualquer tentame de prossegui-la na ladeira, cuja escabrosidade incute medos a quem já viu as ganancias que auferem os reformadores arrojados.
Quem não sentiu pungimentos de saudade do poder foi o Sr. D. Antônio Alves Martins. Se ele puder esquecer as injúrias da imprensa e a maleabilidade das consciências em que esteava a inteireza da sua, hão de sobrar-lhe memórias dolorosas de um ano de vida desassossegada e fora do remanso de seus estudos e das consolações da sua recatada beneficência.
O povo que, há pouco, o saudou com amoroso entusiasmo, há de invocá-lo ainda, em dias que se vão preparando para grandes provas. E o Sr. bispo de Viseu voltará de novo à luta e ao sacrifício, terminando o ciclo glorioso de sua vida, qual a começara, em prol da liberdade, cujo berço ele embalou entre ferros.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Camilo Castelo Branco: aspectos biográficos



Camilo Castelo Branco: aspectos biográficos
Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, numa casa do Largo do Carmo, em 16 de março de 1825, e foi batizado na igreja dos Mártires em 14 de abril do mesmo ano. A mãe morreu pouco tempo depois dele nascer e dos dez primeiros anos da sua vida apenas se sabe que em 1834 com o visconde de Onguela e seu irmão Ricardo Siles Coutinho, frequentou uma escola de João Inácio Minas Júnior, na Rua dos Calafates. “A meu lado — escreveu Camilo — no banco da escola de primeiras letras, em Lisboa, por 1834, sentavam-se dois meninos, filhos dum amigo de meu pai. Estou vendo, além, para lá da cerração de trinta e oito anos, aquelas duas crianças loiras e formosas, pedindo comigo a Deus que nosso mestre João Inácio Luís Minas Júnior fosse para a guerra. Porque o nosso professor era guerreiro por aqueles tempos. Com uma das mãos na palmatória e outra na espingarda, acudia pelo decoro do Lobato e pela restauração da monarquia representativa. Nas baterias de campo de Ourique devia de ser um bravo João Inácio; e, no gineceu modestíssimo da Rua dos Calafates, era um apaixonado fautor da religião do particípio e das outras não menos respeitáveis partes da oração. Isto vai há muitíssimos anos: era num tempo em que se aprendia sintaxe. Dos dois meus condiscípulos um chamava-se Carlos, o mais novo dos dois, que tinha seis anos. Daquela criança estou bosquejando hoje um perfil de biografia. Vai nisto o que quer que seja para cismar e entristecer. É a poesia melancólica — o funesto condão dos homens que vivem muito da vida introspectiva. Naquele ano de 1834 nos apartamos. Meu pai morreu. E, como eu já não tivesse mãe nem fosse inteiramente pobre, a desgraça deparou-me parentes em Trás-os-Montes onde vim a entender que não há lágrimas bastantes a deplorarem o destino de um órfão com oito anos de idade, e as faces quentes e úmidas dos últimos beijos e das últimas lágrimas de seu pai”.
Camilo não é sempre rigoroso em datas nas suas evocações. Manuel Botelho Castelo Branca morreu em 22 de dezembro de 1835; e o própria Camilo, no seu livro Duas horas de leitura, confessa, que foi efetivamente aos dez anos que ficou órfão de pai: “Aos meus dez anos — conta — levantou-se uma tempestade no seio da minha família. Uma vaga levou meu pai à sepultura, outra atirou comigo de Lisboa, minha pátria, para um torrão agro e triste do norte: e a outra... Não merece crônica a outra: arrebatou-me um esperançoso patrimônio. Foi bem pregada peça para que eu não tivesse a impudência de nascer, a despeito da moral jurídica, filho bastardo de não sei que nobre. Disseram-me que uma lei da Senhora D. Maria I me deserdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente para os filhos do pecado. Denominava-se —a piedosa, pela mesma razão que um rei nosso, soprando a fogueira de vinte mil hebreus, se chamou — o piedoso. A boa da história é uma trapalhona”.
Por deliberação do conselho de família, Camilo foi levado para Vila Real, entregue aos cuidados de D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco, irmã de seu pai. “Embarcamos no barco a vapor chamado Jorge IV — conta ele no livro No Bom Jesus do Monte. Uma criada, que tinha ares de mestra de minha irmã, veio conosco, estipendiada por conta do nosso patrimônio. A senhora Carlota Joaquina não me esquece. Era uma mulher gorda, façuda e frescalhona, que bolsava os fígados do beliche abaixo, e gritava à del-rei de aflita com o enjoo. Era imundo, sujo a mais não poder, o Jorge IV. A câmara era comum dos dois sexos, com menos resguardo que os mosteiros dúplices da Idade Média; mas os ânimos dos passageiros pareceram-me a negação de toda a ideia monástica. Os homens do beliche do segundo andar conversavam com as mulheres dos primeiros diálogos entrecortados de vômitos. A senhora Carlota, que ficou à minha esquerda, praguejava contra o seu destino; e o meu vizinho da direita, sujeito de grandes barbas, saía do beliche em menores para lhe ter mão da testa. Esta caridade absolve a inconveniência da mistura. Dos passageiros nenhum falava inglês, e o criado da câmara, que também era fogueiro, atenta a negrura encarvoada da camisa e cara, quando lhe pediam chá, café, ou um caldo de galinha, dava sempre água por um canudo de lata. Carlota exclamava: — Eu morro! — Tenha paciência menina! acudia o homem das barbas. — Não há de morrer querendo os deuses. Devia de ser pagão o monstro! — Eu morro! rebramia ela. Quero confessar-me!... Não peça a confissão a estes brutos, observava-lhe o meu vizinho, que além de não terem Deus nenhum, se a menina lhes pede um padre, trazem-lhe água na lata surrada. Havia muito mar quando se avistou a barra do Porto; e por isso arribamos à Galiza. A nossa Carlota, assim que pôs os quatro pés e os dois estômagos na hospedaria de Vigo engordou outra vez. O pagão não saía da beira dela. No dia seguinte abalou a caravana para Tui por uns caminhos que Deus e a civilização já fizeram desaparecer da face do globo. Ao outro dia passamos a Valença; depois a Ponte do Lima, e de lá a Braga em romagem ao Bom Jesus.”

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

2/25/2020

Camilo Castelo Branco: Aspectos Biográficos


Camilo Castelo Branco: Aspectos Biográficos
Nasceu Camilo, em Lisboa, aos 16 de março de 1826, onde estudou as primeiras letras. Órfão de pai e mãe aos dez anos, foi enviado para Vila Real de Trás-os-Montes, em cujo termo habitava uma sua irmã casada com um médico. Seguiu de Lisboa, por mar, em direção ao Porto, mas um temporal obrigou o navio a arribar só em Vigo; daí veio Camilo, com uma criada que de Lisboa o acompanhava, a Braga, ao Bom Jesus, em cumprimento duma promessa daquela, seguindo depois a jornada aventurosa até Vilarinho de Samardã. Nesta pequena povoação sertaneja, oculta num desfiladeiro e sobranceira ao rio Córrego, passou Camilo boa parte da sua mocidade, mais de seis anos. Foi durante essa estância que recebeu de sua irmã alguma educação doméstica e do padre Antônio de Azevedo, cunhado de sua irmã, os rudimentos de latim e algumas informações literárias, muito irregulares. Ali viveu à solta uma vida de expansão do seu caráter, que ao formar-se claramente patenteava as feições dominantes que iriam imperar durante a vida. Embalde sua irmã opunha a essa soltura as pressões da sua autoridade. Camilo fugia de casa, obedecendo a uma iniludível necessidade de indisciplina e de variedade. Foi na Samardã que ele teve os seus primeiros amores.
Num desses devaneios, que ao despertar da puberdade, são imperiosos como realidades, teria avançado inconvenientemente, tendo os pães da namorada, uma camponesa de Friúme, recorrido ao matrimônio, como meio de legitimar alguma irreflexão. Ou por falta de elementos ou por melindre, e mais provavelmente por aquela do que por este, os biógrafos não têm pormenorizado esse ponto. Parece-nos que só pela força dos factos a irmã de Camilo permitiria essa união entre pessoas de nascimento tão diferente, sendo Camilo tão novo ainda e não tendo nenhum modo de vida independente. Desses amores nascera um filho. Bem cedo Camilo se entediou da mulher e abandonou-a. Dão os biógrafos por causa da separação exigências dos sogros, que não permitiam que a filha saísse da sua companhia e que queriam que Camilo fosse estudar para o Porto, e ainda incompatibilidades locais por ele contraídas, por via duns versos satíricos, em que aludia a uma intriga muito falada na terra. O certo é que Camilo abandonou, a mulher e a filha, que morreram durante a sua ausência. E tão pequeno lugar ocupou na sua vida moral esse casamento que quase o esqueceu. Entretanto fez uma breve passagem pelo Porto, onde cursou os estudos preparatórios.
Foi também na Samardã que Camilo fez as suas estreias literárias, poesia lírica no gosto arcádico e versos satíricos de alusão às disputas entre dois irmãos nobres, a propósito do casamento dum deles, que pretendia ligar-se a uma rapariga, de condição inferior à sua linhagem. Esses versos, que obtiveram fácil êxito no povoado sabedor da discordância familiar, inimistaram-no com o alvejado, como não podia deixar de ser. Na perspectiva dum conflito, Camilo saiu para Lisboa, daqui para o Porto e regressou à Samardã, onde teve novos caprichos amorosos. Da aldeia voltou para o Porto, onde frequentou a Academia Politécnica, obtendo em 1844 e 1845 aprovação nas disciplinas de química e botânica, únicos estudos superiores de que teve diploma. Era sua intenção seguir o curso de medicina, para o que ainda frequentou anatomia, tendo transitado ao 2º ano, que perdeu por faltas. Abandonando as aulas, regressou a Vila Real.
Assistiu à revolução popular e consequente guerra civil da Maria da Fonte, presenciou alguns episódios e, levianamente, sentiu suas inclinações pelo cabralismo até ao dia, em que por motivo duns artigos adversos a José Cabral, foi por sua ordem fortemente sovado.
Em Vila Real travou relações amorosas com uma mulher, que o acompanhou a Coimbra, e de quem houve uma filha. No Porto, a requisição dum tio, que desejava coarctar essas relações, foi preso, e bem depressa perdeu o entusiasmo impulsivo de pouco antes, esquecendo esse romance. A filha internou-a num recolhimento, zelando pela sua educação até ao seu casamento. Breve e inaproveitada foi a sua estada em Coimbra. Voltou a Vila Real e estreou-se como autor dramático, na inauguração do teatro, com a peça, Agostinho de Ceuta.
É em 1849 que Camilo se estabelece no Porto, entrando de vez na vida literária e na boemia solta do tempo. Nesse ano, publica o Marquês de Torres Novas, drama histórico, e em 1851 o seu primeiro romance, O Anátema, aos 24 anos de idade.
Tinha encontrado a verdadeira via para a sua vocação e o meio próprio para a expansão da sua sentimentalidade romanesca. Pelo jornalismo, pela literatura e pela boemia se reparte então a sua vida. Poucos foram os escândalos da vida portuense, do Café Gruichard, dos Congregados, da Ponte de Pedra, do teatro de São João, em que Camilo não fosse protagonista, comparsa ou cronista. Ficaram na memória saudosa dos velhos desse tempo e nas alusões da literatura as loucuras da geração de poetas e estúrdios, a que Camilo pertenceu e em que foi figura muito representativa. A par dessa dispersão moral, o escritor não abandonava a arte, porque na maioria dos casos, essa arte, toda feita de alusões, era sugerida por esse borboletear amoroso e pela contemplação de muitas fantasias.
Um romance amoroso com uma senhora casada lançou-o na cadeia, onde jazeu um anuo. Resolvido o processo movido pelo marido ultrajado, e recuperada a liberdade pelos dois delinquentes, uniram-se ambos, Camilo e D. Ana Augusta Plácido, inseparavelmente até ao fim da vida. Começara esse amor em 1858, e só em 1888 se pôde legitimar pelo casamento.
Entretanto a obra literária ia prosseguindo, a consagração chegava. Os seus livros, lidos avidamente e discutidos com paixão, encomiástica ou detrativa, alcançavam ruidoso êxito de livraria. D. Luís em 1885 agraciava-o com o título de Visconde de Correia Botelho; o parlamento dispensava-o do pagamento dos direitos de mercê e arbitrava uma pensão a seu filho Jorge.
Envolvia-se em polemicas, que ficaram célebres pela violência e qualidade dos contendores, e era proclamado, com Garrett, Herculano e Castilho, um dos dirigentes do movimento literário.
Pela intimidade com D. Ana Plácido, compartilhara a posse da casa de São Miguel de Seide, que fora do marido dessa senhora. Ali passou o último período da sua vida, o mais fecundo literariamente. Entretanto a doença dos olhos e miopia, de que sempre sofrera, ia-se agravando com a idade e a fadiga do trabalho incessante. Cego incuravelmente, apesar das diligências, em Lisboa, junto dos melhores especialistas, suicidou-se em 1 de junho de 1890. O suicídio mais duma vez lhe tinha ocorrido, durante a vida, como solução a males amorosos, mas só a realidade duma grande desgraça irremediável o determinou a aceitar essa desesperada resolução.

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FIDELINO DE FIGUEIREDO
História da Literatura Romântica Portuguesa (1913)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

2/08/2020

A vocação de romancista em Aluísio Azevedo (Ensaio)



A vocação de romancista em Aluísio Azevedo

Se São Luís do Maranhão era um meio acanhado, o Rio de Janeiro de 1876 seria apenas um palco maior para o jovem que sonhava entusiasticamente com Roma e a arte de Miguel Ângelo.

A permanência de dois anos Metrópole — dois anos de lutas árduas e atividade constante na imprensa como caricaturista — haveria de ser bastante útil ao maranhense aventureiro, ensinando-o a melhor conhecer os homens e o mundo e vindo a contribuir, decisivamente, para a formação do romancista. Até então, Aluísio Belo Gonçalves de Azevedo ignorava-se a si próprio. No Rio, para onde viera com o desejo de aperfeiçoar-se no desenho, tendo, na verdade, ao chegar, obtido matrícula na Academia de Belas Artes, inda tentou um último esforço para conseguir Roma, solicitando, nesse sentido, à Assembleia Maranhense, uma pensão — que lha recusaram...

O sonho desfeito das artes plásticas desanuviou o espírito atribulado do rapaz que se fizera ilustrador de revista para ganhar o pão, agora em contato com a realidade, renunciando definitivamente aos seus ideais de estética. Assim, em 1878, com a morte do pai — o cônsul de Portugal residente no Maranhão, Davi Gonçalves de Azevedo — regressando à província natal, Aluísio ali iria praticar o jornalismo colaborando na "Pacotilha", e depois no "O Pensador", despertando com a irreverência da pena o bucolismo da terra para, no ano seguinte, descobrir o seu caminho com a publicação de "Uma Lágrima de Mulher", o primeiro romance.

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Andou muito acertadamente Aluísio quando apôs ao título "Uma Lágrima de Mulher", a advertência “Romance Original”, que acima figura entre aspas, porque, na verdade, não há na história da literatura brasileira romance mais original do que este. É, por isto, ao nosso ver, de um grande valor este livro para a cronologia literária no Brasil, pois bem representa uma época mostrando-nos a que exageros chegou o romantismo neste país. A esse tempo, aliás, o "bacilo byroniano" para aqui já se transportara fazendo, às mancheias, poetas e tuberculosos, de tal forma que se vivia o mais artificialmente possível com os pés no Brasil e a alma perdida em êxtases nos templos de beleza do Velho Mundo...

Não admira, por conseguinte, o fato de o maranhense escrever aquela história falsa e piegas, escolhendo para cenário do romance uma das ilhas Lipari, entre gente estranha.

O livro é medíocre, horrível como romance, sem interesse e cheio da sonoridade de frases. Trata-se, evidentemente, de trabalho feito à base de leituras lamartinescas. Estavam, então, muito em voga, as novelas dessa espécie e, por certo, Aluísio se inspirou numa delas. Há quem fale, também, numa novela de Bernardin Saint-Pierre. (Em "O Mulato", o livro seguinte, escrito ainda no Maranhão, traçando o perfil romântico de Ana Rosa, o autor nos fala da "Graziela", de Lamartine, prova de que ele, Aluísio, se entregara a toda espécie de leituras desordenadas na biblioteca do pai). Embora fraquíssimo e com todos os seus defeitos de técnica, este pequeno trabalho de Aluísio, contudo, não se cogitando do valor que representa para o estudo da iniciação literária do escritor, nos revela o cuidado com que foi escrito e nos aponta mesmo algumas qualidades do romancista, que já se sobressai aqui e acolá, um trecho mais vivo de descrição da paisagem, muito embora seja essa paisagem exótica ou ilusória. O livreco, em si, é artificial e o enredo sentimental é banalíssimo. A ação tem início em Lipari, onde mora o pescador Maffei come a filha moça e uma velha criada. O pescador, levado por desejos de enriquecer abandona a ilha; a segunda parte da narrativa decorre em Nápoles, onde agora Maffei reside — novo-rico, instalado à Rua de Toledo, numa mansão em que “...das janelas de frente devassava-se a Chiaja, Villa Realle, e lados da Capo di Monte...

O final é o que há de mais estúpido: “o lazaroni” Miguel Rizio, outrora apaixonado lírico de Lipari, surge um dia, diante da amada, que o desilude adiantando-lhe ter de casar-se, breve, com outro, segundo a vontade paterna; Miguel rumina os seus recalques e, vendo no velho pai da jovem um empecilho aos seus desejos, assassina-o uma noite, ficando o crime encoberto, porque acreditam num ataque apoplético que surpreendesse o ancião no jardim. Passados dias, Miguel apresenta-se esperançoso à moça, para sofrer cruel decepção: esta não mais o quer, recusando-lhe todas as propostas de amor. O infeliz tomba, então, dramaticamente morto e Rosalina, penalizada, chora-lhe sobre o corpo "uma lágrima de mulher".

O livrinho, embora estivesse muito ao gosto da época, quando Manuel Macedo e Alencar eram lidos religiosamente nas salas de jantar passou despercebido, ou quase despercebido, logrando, apenas, chamar um pouco de atenção na cidade pacata para o rapaz que tivera a pretensão de escrever um livro...

Hoje, não se dá a importância ao pequeno volume. Pouco vale, é exato, mas muito significa na história do romancista e para o estudo da literatura porque — se por um lado assinala a posição do escritor entre duas tendências literárias — por outro é um excelente exemplo dos desmandos românticos que levavam um romancista a forjar uma história falsa em um mundo igualmente falso, alheando-se por completo do meio que o cercava.

Em última hipótese, "Uma Lágrima de Mulher" poderia justificar alguns aplausos merecidos ao rapazelho de e dois anos, que, com surpresa geral, publicara um livro, mas nunca denunciaria o romancista de força que lançará, pouco depois, o "O Mulato", deixando toda São Luís escandalizada e boquiaberta com audácia do filho de D. Emília Amália.

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O romantismo declina.

A literatura russa se derrama pela Europa Ocidental, exercendo considerável influência sobre os escritores franceses, principalmente Tolstoi e Ivan Turgueniev, este mais do quo aquele, porque — cosmopolita — está quase sempre em Paris, e só de raro em raro se afasta para ligeira visita à terra natal.

O romance russo é diferente, tanto no fundo como na forma. Não se baseia exclusivamente na ficção, mas procura retratar o mundo exterior sob um aspecto simples e real, sugerindo apenas, para depois esboçar alguma coisa. Desse esboço nasce o confronto superficial de duas épocas que se distanciam pela mentalidade e, por fim, já é o apanhado flagrante de duas gerações em conflito, são os seus choques, os seus rancores, as suas lutas, o seu desequilíbrio que a situa em campos opostos.

Em França, novas doutrinas literárias se debatem. Zola fala em naturalismo e Flaubert não concebe "a forma sem o fundo, nem o fundo sem a forma". E se, em alguns, despertam admiração as frases sonoras e cheias de arrebatamento de Chateaubriand, outros acham-nas exageradas e ocas.

No Brasil, naturalmente, essas ideias têm que repercutir cedo ou tarde. A Corte se corresponde diretamente com a Europa, e de Portugal chegam livros, revistas e jornais. Os autores portugueses, mormente Alexandre Herculano e Camilo, causam muita impressão sobre os nossos, revivescência daquela literatura compilada que aqui se fizera.

O romantismo, porém, marcaria a emancipação literária, lançando, talvez, as primeiras raízes para a independência política. A segunda geração romântica floresce e Alencar, ao contato do indianismo de Chateaubriand, empreende nestas terras obra eminentemente americanista. O Império passa por sensíveis transformações e a literatura atravessa também um período de transição.

Depois de Macedo e Alencar, o romance brasileiro oscila entre duas tendências, incerto, impreciso, ainda, nos seus fins, mas já se impregnando vagamente do sentimento da terra e fugindo à ênfase, despindo-se da embriaguez da metáfora que conduz aos delírios da imaginação.

Com Bernardo Guimarães, evocando suas reminiscências de província desenvolvidas no meio rude dos campos onde se movem negros, vaqueiros, matutos é todo o conglomerado humano que agrupa nas fazendas; Franklin Távora, utilizando o mesmo material do primeiro com algumas tentativas felizes de fixar tipos regionais, e, por último, Taunay, fazendo romance harmonioso e sóbrio, quase se aproximando da objetividade — o romance nacional, na verdade, ganha tal expressão, vestindo fisionomia própria e se preocupando, agora, com a terra e o homem. Franklin Távora, nesse ponto, revela mais do que qualquer outro o interesse pelo homem, descrevendo-o humilhado e pequeno na grandiosidade do meio que o cerca. "O Cabeleira", "Lourenço" e "O Matuto" não são três grandes romances, mas nos parecem três livros realmente notáveis que dão ao autor um lugar à parte na literatura brasileira, observando-se a época em que foram escritos e os propósitos verdadeiramente nacionalistas que os inspiraram.

Franklin Távora, com estes três livros, abre caminho definitivamente a outros que virão mais tarde, numa geração de mentalidade diferente da sua, inquieta e revoltada.

Há, por enquanto, um meio-naturalismo, de cambiantes mais vivas, sem os arroubos da poesia de um Alencar ante simples trecho de paisagem ou o langor dos romances admiravelmente ingênuos de Manuel de Macedo, que fazem suspirar às donzelas...

O romance se coloca entre duas alternativas, passado o efêmero surto indianista inaugurado na prosa, por Alencar, com o "Guarani" e "Iracema", e seguido por Teixeira de Sousa nos "Índios do Jaguaribe": ou lança mão do material de Bernardo Guimarães e Franklin Távora e, neste caso, teremos o gênero sertanejo ou campesino, com o mesmo desencanto, a mesma sensaboria, e o mesmo tédio da coisa que é repetida com poucas alterações e nenhuma habilidade — ou explora o amor platônico e é o gênero sentimental, o terra-à-terra dos enamorados idílicos tão comuns em Macedo e Alencar.

Macedo continua lido e tem grande poder sobre as novas vocações de romancista. O "Inocência" de Taunay e "Ressurreição", de Machado de Assis, aliás publicados no mesmo ano, em 1872, são o melhor exemplo da influência que exerceram através toda uma etapa literária, aquelas duas exponenciais figuras da ficção brasileira que encheram o seu tempo. Taunay ficaria, infelizmente, na sua pequena obra-prima, superando o próprio autor de "A Moreninha", jamais produzindo sucesso igual. Machado de Assis, este se experimenta em romances de segunda plana para conceber a obra definitiva. No entanto, existe um nome ingloriamente olvidado. Trata-se de Manuel Antônio de Almeida, um obscuro estudante de medicina que escreveu um livro diferente e único na sua espécie, até então. Manuel Antônio de Almeida procurou escapar-se do corriqueiro e do vulgar a que estava subordinado o romance, mais ou menos no mesmo ramerrão e quis inovar, transferindo-o para o meio citadino, ao contrário do que vinha sendo feito com a prevalência rigorosa de um regionalismo pálido. "As Memórias de um Sargento de Milícias" dão a Manuel de Almeida as palmas do primeiro romance realista do Brasil, atentando-se, seja dito, na estreita significação desse termo, porque pensamos como Maurois, quando acha que a palavra realismo não pode definir uma arte, isto é, abranger uma arte em toda a sua extensão.

Manuel Antônio de Almeida fez romance de costumes, pintando admiravelmente aspectos da vida social brasileira. Não foi compreendido, porém, pelo grande público que habituara o paladar àquela literatura sentimentalista, terreno em que Macedo era mestre, e, no dizer de Ronald de Carvalho, "sabia pisar como ninguém". O infortunado autor das reminiscências de um sargento de milícias, por isso, quase não se divulgou, ficando despercebido.

O vulto de Alencar absorveu-o. Pouco depois, Manuel Antônio de Almeida pereceria num naufrágio. Pesou-lhe sobre a obra injustificável silêncio e, mesmo nos dias hodiernos, apenas os historiadores literários o conhecem, citando-o, às vezes, evasivamente ou, quando muito, dedicando-lhe meia dúzia de linhas nas suas antologias. A única homenagem que se lhe prestou, foi a de Patrono da Cadeira nº 28 dós Sócios Efetivos, na Academia Brasileira de Letras.

Com Manuel Antônio de Almeida, pois, Taunay e mais algum outro, porventura, se operam nas letras brasileiras os processos de escola naturalista, movimento que culminaria com o "O Mulato", em 1881, e que José Veríssimo não precisa exatamente na sua “História da Literatura Brasileira”, limitando-o entre os anos de 1875 e 1880. Questões de data, tão somente...

Na Europa — de onde nos alimentávamos espiritualmente e continuamos a fazê-lo, com a diferença de, naquele tempo, com enorme atraso e, hoje, um pouco mais rápido, devido ao há um choque de ideias que porá fim ao romantismo, extinguindo a chama poética de que ele viveu. O homem olha objetivamente as coisas que o rodeiam, sem os enfeites da imaginação que, no fundo, não resultavam senão da impossibilidade de explicá-las. As mais, contrárias doutrinas filosóficas se afirmam, impelindo-o para o mundo da meditação, da análise e do estudo. A individualidade, a excelsitude do eu, no romantismo, foi o que apressou o seu fim. O artista deve sentir o mundo onde pousa os pés. Ele não pode se divorciar do seu tempo. Que é arte? Arte não é o belo, porém o útil. O positivismo de Comte, o intelectualismo de Taine, as teorias evolucionistas de Spencer, darão à cultura um panorama novo, abrindo largas trilhas aos espíritos afoitos.

Émile Zola revoluciona o romance francês, lançando por terra os rígidos preconceitos que constituíam tabu e eram mesmo reflexos remotos de poder das classes autocráticas sobre os homens de pensamento. Zola só fez sátira à sociedade do seu tempo ou foi o observador sagaz dos mistérios psíquicos da criatura humana; ele proclamou a independência da arte. O artista deve viver em função da sua arte e não em função do seu tempo. Universaliza-se, e não egocentralizar-se. Dois postulados que se equidistanciam no espaço: no segundo, está o princípio e o fim do romantismo: no primeiro, o objeto do naturalismo.

Isto, Aluísio demonstrará haver compreendido, perfeitamente, no livro em que trabalha, sob o domínio das ideias e métodos de Zola. Ele será o maior discípulo deste no Brasil, cabendo-lhe escrever o primeiro grande romance moldado inteiramente nas novas fórmulas.

Aluísio está em São Luís, na vida preguiçosa da província e não mais possui as colunas do "O Pensador" para escrever e desabafar-se nos seus momentos de inquietação de espírito.

São Luís do Maranhão é um pequeno burgo de jesuítas. "O Pensador" entra em conflito com os padres do Convento de Santo Antônio, que mantêm um jornal católico. As autoridades eclesiásticas processam o jornalzinho do Dr. Eduardo Ribeiro e "O Pensador" tem a publicação suspensa. O artigo, considerado injurioso pelos padres e que dá motivo à quezília, é de autoria de Aluísio.

Privado da colaboração do jornal, onde exercitava a pena e amoldava o estilo à linguagem fluente do jornalismo, Aluísio, para espairecer, lê e escreve.

Balzac, Zola e provavelmente, Flaubert, constituem a leitura predileta.

Aluísio sonha sonhos de glória.

Sente-se capaz de realizar alguma coisa. Bom ou mau, decalcado ou não, o certo é que escrevera um livro. Aquele "Uma Lágrima de Mulher", já esquecido de todos, lhe desvendara a estrada ampla das letras. Ele tem plena consciência de que poderá escrever outro livro, seu, fruto do seu esforço e das suas observações pessoais. Aluísio cultiva, também, os seus recalques íntimos e quer ferir em cheio o orgulho da sociedade maranhense, mostrando-se superior ao meio. Volta-se à meditação e ao estudo, ao mesmo tempo em que lê os autores brasileiros da época com a intuição de que algo de novo precisa de ser introduzido, alterando a estrutura do romance que obedece a certos cânones, mais ou menos estabelecidos, no mesmo plano de monotonia romântica.

Há pobreza de ideia, evidentemente.

Sem estímulo, isolado na província, ao fim de quase dois anos, Aluísio conclui o seu livro, ao qual dará o título de "O Mulato", publicando-o numa tipografia de segunda ordem. São Luís ficará estarrecida e melindrada, mas, pela primeira vez, um escritor jovem do fundo da província se projetará na Metrópole.

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FERNANDO MARINHO
Revista "Letras Brasileiras", janeiro de 1945. Direção de Heitor Moniz.