sábado, 2 de março de 2019

Antônio Gonçalves Dias: o maior poeta do Brasil




Antônio Gonçalves Dias: o maior poeta do Brasil

Encontramo-nos em Coimbra, onde ele ainda me deixou. Foi meu contemporâneo, meu colega e meu amigo. Não venho escrever-lhe a biografia, nem dar a relação circunstanciada das suas obras, nem citar as autoridades que dele tem faltado, elogiando-o, que isso levaria muito longe; venho desenhar-lhe o perfil, venho a largos traços, socorrendo-me mais às suas tintas do que às minhas, dar-vos as feições do homem, cujo nome ocupa hoje tão distinto lugar na literatura brasileira, e cujo infausto, quanto prematuro fim, é ainda chorado por quantos o conheceram.

Parece-me que o estou vendo, Antônio Gonçalves Dias era baixo, delgado, enérgico, vivo, franco, afoito, leal, e amigo como ele o sabia ser. Dir-se-ia que o sangue das três raças — europeia, indígena e africana, que lhe corria nas veias lhe dava cometimentos para tudo quanto era generoso. Mas triste condição do homem! quanto mais enriquecido por faculdades do espírito, ou por qualidades do coração, quanto mais privilegiado no mundo, tanto mais se queixa, tanto mais deseja, tanto mais desgraçado se julga.

Antônio Gonçalves Dias nascera nas terras de Jatobá, a 14 léguas de Caxias, na província do Maranhão a 10 de agosto de 1823. Foram seus pais José Manuel Gonçalves Dias, negociante, português de nascimento, e a mestiça Vicência Mendes Pereira, com quem ele convivia. Nem legitimidade de nascimento, nem pureza de sangue. Seu pai era solteiro, mas sua mãe vivia separada do marido, e era mameluca. Isto num país onde dominavam os preconceitos de raça, e onde o elemento servil que os alimentava só veio a encontrar o primeiro golpe na lei cristã de 28 de setembro de 1871, era o ecúleo da sua vida, era o pensamento que nas noites de insônia lhe cobria o coração de nuvens, era a lembrança que de longe em longe vinha acordá-lo dos seus sonhos de glória.

Por que assim choro?
E direi eu por quê? Antes meu berço
que vagidos d'infante vividouro,
os sons finais dum moribundo ouvisse.

Exclamava ele na poesia o Templo, que é toda um grito de angústia. Em maio de 1828 casou seu pai com a senhora Adelaide Ramos de Almeida. O pequeno Antônio, que ainda não contava seis anos, foi arrancado aos braços da que lhe fora mãe, da que o criara e o cercava de mimos, para ser levado ao seio de nova família. A natureza não conhece cores. Quem lhe supriria a mãe?

Crescera, destinavam-no à carreira comercial, e começara servindo de caixeiro na casa paterna, mas tais dotes de inteligência precoce revelou, tanto se distinguiu frequentando os estudos secundários, e tanto prometia que seu pai, demovido do primeiro propósito, projeta acompanhá-lo a Coimbra para ali seguir os estudos da Universidade. Assim o põe em prática, saindo ambos em maio de 1837 para São Luís, para dali embarcarem para Portugal. Mas o homem põe e Deus dispõe; João Manuel não tinha de voltar à pátria, onde também esperava encontrar alívio para o padecimento pulmonar que lhe minava a existência; vítima de um ataque cai doente na capital do Maranhão, e dias depois, a 13 de junho expira nos braços do filho.

Não foi, pois, ainda desta vez que o futuro estudante viu realizados os seus sonhos; mas no ano seguinte tais foram os incitamentos de diferentes cavalheiros, que se dispunham a quotizar-se para lhe estabelecer uma mesada, se isso fora necessário e tais as boas disposições da sua madrasta, proporcionando-lhe meios, que Antônio Gonçalves Dias, em outubro de 1838 matriculava-se no colégio das Artes em Coimbra, para estudar preparatórios, e em outubro de 1840 entrava no 1º ano do curso jurídico, digno companheiro de Bruschy, de Couto Monteiro, da João de Lemos, de Cardoso Avelino, de Bessa Correa, e de outros, que no foro, na literatura ou na política honraram os seus nomes.

Se os sonhos estavam realizados, não cessava a fortuna de persegui-lo, e tanto que por falta de meios teria voltado à pátria, antes mesmo de concluir os estudos preparatórios, se patrícios dedicados o não forçassem a aceitar a sua bolsa e a sua mesa. Anos depois, em tempo que lhe não corria mais prospero, escrevia ele a um amigo, que lhe era mais do que irmão, e dizia-lhe:

Triste foi a minha vida em Coimbra, que é triste viver fora da pátria, subir os degraus alheios e sentar-se A mesa estranha. Essa mesa era de bons e fieis amigos; embora! O pão era alheio, era o pão da piedade, era a sorte do mendigo. Mas ser desconhecido, ou mal conhecido, mas sentir dores d'alma e viver de tormentos como aqui, é mais triste ainda.

Isto escrevia ele em 1845, em Caxias, quando já formado e exercendo a advocacia, ao Sr. Dr. Alexandre Teófilo de Carvalho Leal. Que dores lhe não lanceavam a alma para assim se expressar. Desconhecido, ou mal conhecido na pátria! No meio destas contrariedades fez-se o homem, e fez-se o erudito. Gonçalves Dias, acadêmico entre os melhores do seu curso, empregava as horas que lhe sobravam do estudo jurídico em aprender o italiano, o inglês, e até por fim o alemão, para se deleitar com as obras primas da literatura europeia.

Em todos os tempos foi Coimbra, mais que nenhuma outra, alcáçar de musas. Ali, onde Antônio Ferreira, Gabriel Pereira de Castro e Antônio Diniz da Cruz e Silva viveram; onde Sá de Miranda e Vasco Mouzinho de Quebedo estudaram; onde Francisco Rodrigues Lobo e Garção beberam inspirações; onde Luís de Camões, Garrett e Castilho suspiraram amores; onde tantos outros soltaram os seus voos, e por eles conquistaram um nome, também o distinto maranhense apareceu poeta. Dir-se-ia que aquela esplêndida natureza, e aquele suavíssimo Mondego, rasgando-lhe novos horizontes, e completando-lho na memória os do seu Brasil lhe temperaram a alma para cantar e sofrer.

Foi assim que ele se associou a João de Lemos, Augusto Lima, José Freire de Serpa, Couto Monteiro e outros que escreviam o Trovador, entre os quais também era quem hoje lhe paga este tributo de saudade. Se aquela coleção de versos, não conta de Gonçalves Dias senão a poesia Inocência, é porque o Trovador começou a publicar-se em 1844 — e em junho desse ano deixou ele o Mondego, mas foi em Coimbra, e foi nos picos do Gerês, onde no fim do seu 4º ano, o chamaram e detiveram negócios de família, que ele, já a esse tempo poeta primoroso, escreveu a maior parte dos versos que depois publicou no Brasil. Mais ainda, que para mais lhe chegava o tempo; foi em Coimbra que, além de outros trabalhos que inutilizou, compôs os dramas Palkull e Beatriz de Cenci, que hoje constituem o tomo 4º das Obras Póstumas, primeiro monumento que à memória do conterrâneo e do amigo, ergueu o Sr. Dr. Antônio Henriques Leal.

Obtivera Gonçalves Dias o grau de bacharel em direito, e saindo então de Coimbra para o Maranhão o Sr. Dr. Alexandre Teófilo com o seu curso de matemática brilhantemente concluído, quis acompanhá-lo a Lisboa para ali lhe dar o abraço de despedida. Não disse já que eram mais do que irmãos? Quis também tirar a carta de bacharel, mas achando-se sem meios para estas despesas extraordinárias, como já em outras ocasiões lhe havia acontecido, bateu às portas de usurários e só de um alcançou a quantia desejada, entregando-lhe em penhor a sua escolhida e não pequena livraria, para não a tornar a ver, porque debalde procurou depois resgatá-la. Revelemos a feição do seu orgulho ferido quando

...com a fronte baixa,
coberto o rosto de vergonha e tímido...

foi bater suplicante à porta do ricaço. Recordando-o exala no Orgulho e Avareza o seu despeito, e termina deste modo os seus acerados versos:

Ah! que se eu não quebrei naquele instante
a minha harpa, inda então desconhecida,
foi porque inda queria confessar-te,
ó meu Deus — que foi grande o teu castigo;
foi porque inda queria ao mundo inteiro
por mor vergonha minha confessar-me
baixo, infame e vil quando essa escada
do avarento subi!... que não esmola,
mas um favor pedindo!

Estamos em janeiro de 1845, e o poeta, que já não pôde matricular-se no 5º ano do curso jurídico quando se desembaraçou dos negócios que o levaram ao Xerez, regressara a Caxias. Pátria! nome bem quisto, nome que soa tão deliciosamente aos ouvidos dos que a têm e vivem distantes! Aquele que longe de ti, com os olhos orvalhados de lágrimas seguia no pensamento o voo das andorinhas, dizia a um amigo nas vésperas de te tornar a ver:

Vou rever a minha terra,
esperanças dum futuro
brilhante, meu peito encerra.
Mas que dores lá me esperam?
Mas que hei de lá sofrer?

Era profeta? Parece-o. Porque Gonçalves Dias, chegando, assentara banca de advogado, e ao cabo de seis meses, por motivos que se não declaram, diz o seu biografo, retirava-se ralado de desgostos.

Foi sob a impressão destes desgostos que ele, a 31 de agosto de 1845, escrevia ao Sr. Dr. Alexandre Teófilo:

...há horas durante a noite em que me tenho por um fraco para viver. Viver! Talvez não saibas; há vidas ignoradas que passam sobre a terra com mais ânimo do que um guerreiro em dia de batalha — há instantes tenebrosos em que é preciso um grande esforço de virtude para que se não ceda à vertigem, à atração do suicídio.

Foi ainda sob a mesma impressão que saiu de Caxias para São Luís, e dali em julho de 1846 para o Rio de Janeiro, dizendo no Adeus aos seus amigos:

...força oculta,
irresistível, me persegue e impele.
Qual folha instável em ventoso estio,
do vento ao sopro a esvoaçar sem custo,
assim vou eu sem tino, aqui pegadas
mal firmes assentando, além pedaços
de mim mesmo deixando...

No Rio de Janeiro, e nesse mesmo ano, publicou os Primeiros Cantos. Este livro que o nosso eminente historiador saudou em Portugal foi um acontecimento no Brasil. Aos Primeiros Cantos seguiram-se em 1848 os Segundos Cantos completados com as Sextilhas de Fr. Antão. Os elogios repetiram-se, a América meridional escreveu em lâminas de ouro o nome de Antônio Gonçalves Dias ao lado dos de José Basílio da Gama, José de Santa Rita Durão, e de Antônio Pereira Caldas, mas a situação do poeta não melhorou, porque o produto das suas obras junto ao mesquinho ordenado de professor de latim no Liceu de Niterói, que era o mais que tinha podido obter na corte, mal lhe chegavam para dali tirar uma mesada que mandava a sua mãe, e com o restante manter-se.

Assim viveu quatro anos, até que em 1851, ano em que publicou o seu 3º tomo de poesias — Últimos Cantos, foi encarregado pelo Governo de percorrer as províncias do norte do Brasil para ali estudar a realidade da instrução pública, e coligir documentos valiosos para a história, e em 1852, voltando ao Rio, foi nomeado oficial da Secretaria dos Negócios Estrangeiros. Chegara o galardão, posto que tardio, mas não chegou com ele a felicidade.

Creio que é Zorrilla, o eminente poeta espanhol, que diz algures:

Se llora con el placer,
Se llora con el pesar,
Con el recuerdo de ayer,
Y mañana hay que llorar
Si nos ama una mujer.

Quem ler com atenção os versos Ainda uma vez - Adeus! nos Novos Cantos, e quase todos os que ele compôs no alto Amazonas, publicados no tomo 1º das Obras Póstumas, há de acabar por convencer-se de que houve um amor desgraçado, uma mulher, que influiu poderosamente no destino de Antônio Gonçalves Dias.

Efetivamente, houve um amor que foi a sua felicidade, a sua loucura, e a sua desgraça; uma mulher, que teve tal influência na sua vida, que desde que a conheceu foi única, e inteiro se lhe votou. Viu-a em São Luís, quando visitou as províncias do norte em 1851; não logrando tê-la por esposa, por obstáculos que sobrevieram, e que ele não soube ou não pôde vencer, fugiu-a; chegando ao Rio em 1852, para a deixar em liberdade, e esperando também esquecê-la nos braços de outra que o amava, casou com a D. Olímpia Carolina da Costa, mas o triste iludia-se, porque nele o

...amor foi vida insana,
um ardente anelar, cautério vivo
posto no coração a remordê-lo.

Iludia-se ainda quando solicitando uma comissão na Europa pôs de permeio entre ele e o objeto do seu amor o Atlântico, porque estando em Lisboa em 1854 quis a sua estrela que um dia, quando menos o esperava, a encontrasse, triste, abatida, infeliz, com os sinais das lágrimas no cavado das faces, e já ligada a outro homem. E então que na poesia — Ainda uma vez - Adeus! exclama:

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!

És doutro agora, e para sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

Iludiu-se sempre, porque passaram os anos, e achando-se em 1861 nas solidões do Amazonas, entre tabas de índios, ali mesmo a sua exaltada fantasia, o seu pensamento de todas as horas, a entrevê próxima a entrar no templo, com a grinalda de flores de laranjeira na fronte, e o véu branco de noiva a ondear-lhe no rosto, e diz:

És tu! bem vejo... não fales!
Cala-te! já sei o que é!
A mão vais dar, vida e fé
A outro!... Vais te casar.
Pálida, pálida a fronte,
Olhos em pranto a nadar!

E vais! e és tu mesma? — e vais!...
Fui eu quem te dei o exemplo...
Sei que te aguardam no templo,
Deixa-me aqui a chorar:
Fazes somente o que fiz,
Não fazes mais que imitar!

Vida tão combatida de um afeto que tocava as raias da insensatez, tão minada de desgostos e de contrariedades domésticas, nascidas do excessivo amor, e dos ciúmes, em parte desculpáveis, da esposa, não podia ser duradoura, e ele ainda assim parece que tinha a peito abreviá-la. Há dois suicídios, o rápido, o instantâneo, que o homem se propina no momento em que a razão desvairada se perturba para lhe não deixar ver a luz de Deus, e o calculado, o que nasce de uma ideia fixa, o que prende por um lado à vida, por outro à morte. Gonçalves Dias era bastante crente para não ceder ao primeiro, do segundo não direi o mesmo.

Regressara o poeta da Europa em 1858 para, como relator e chefe da seção etnográfica, fazer parte de uma comissão científica exploradora que se destinava ao Ceará, e para ali partiu com os seus colegas em 1859. Em fins de 1860 voltou ao Maranhão, mas pouco depois, como se os trabalhos do Ceará não bastassem, saiu para a província do Amazonas, porque empreendera explorar, mais como naturalista, do que como simples curioso, o grande rio e os seus afluentes. Seis meses se deteve nestas investigações, mal alimentado, sem o descanso e o conforto de que necessitava, vivendo entre índios, segregado de amigos, e de tudo quanto antes o atraía na sociedade, exposto a emanações deletérias; mas quando voltou ao Rio para escrever o relatório que tinha de apresentar por parte da comissão do Ceará, sentiu que tudo isto lhe alterara profundamente a saúde. Tinha afetados os pulmões e o fígado.

Quis ir morrer entre os amigos, na terra natal, porém aconselhado pelos médicos, e esperando que o clima da Europa fosse favorável ao seu restabelecimento, partiu de Pernambuco para o Havre no navio Conde a 20 de abril de 1862. Feliz viagem, que lhe deixou experimentar um dos raros prazeres que o homem pode sentir na vida — ler o seu elogio escrito por centenas de penas, ver as lágrimas que por ele se derramam, presenciar a dor que motiva a sua perda, assistir à sua apoteose. Morrera a bordo do Condé um passageiro durante a viagem, e ficando por isso o navio de quarentena no Havre, resultou divulgar-se em Pernambuco que a vítima fora Gonçalves Dias. De tão divulgada que foi não houve jornal brasileiro que não lastimasse a sua morte, muitos portugueses os acompanharam nesta manifestação de sentimento, fizeram-se ofícios fúnebres por sua alma, a dor foi geral. Entretanto o poeta vivia, julgava-se até melhor, e quando soube que o tinham por morto escreveu de Paris em 23 de agosto ao seu amigo o Sr. Dr. Henriques Leal: — Vede como ele sopeava as suas dores.

É mentira! Não morri! nem morro, nem hei de morrer nunca mais. Non omnis morior— como diz o mestre Horácio. Tenho jornais do Rio, Bahia e Pernambuco, que me emprestaram, e segundo todos eles — Mortuus est pintus na casca! E necrológios então?

Um colega escreveu:

Deus num acesso de amor,
ao poeta soberano,
deu-lhe por berço o Equador
e por túmulo o Oceano!

Trata-se de minha defuntíssima pessoa! O caso é que depois do infausto passamento vou passando sem maior novidade. Aconselha-me que vá para o estabelecimento hidroterápico de Maricubad. Partirei breve. No entanto, escreve-me quando não tiveres muita preguiça para qualquer das nossas legações em Paris ou Bruxelas. Desejo muito a coleção mais completa que se possa arranjar de notícias fúnebres, necrológios etc. O que se tiver publicado acerca da minha morte. Corta o que me disser respeito, escreve à margem o nome do jornal, diz o lugar da publicação e sobrescrito com tudo isso para a minha falecida pessoa. Quero fazer um álbum negro.

Nem a hidroterapia, nem os mais afamados médicos de França, de Alemanha e da Bélgica, nem o clima de Portugal a que depois se acolheu conseguiram salvá-lo. Encontrei-o em Lisboa em 1864, e o seu estado contristou-me, a afonia era já completa. Não tendo nada a esperar, e piorando cada vez mais, lembrou-se da pátria. Saiu, pois, de Paris para o Havre nos princípios de setembro do mesmo ano, e dali para o Maranhão na barca Ville de Boulogne. Foi a sua última viagem. Em 3 de novembro navegava a Ville de Boulogne na costa de Guimarães, quando de repente bate nos baixos bancos dos Atins, abre e submerge-se quase à vista de terra. Houve apenas tempo para salvar as pessoas que vinham a bordo. E Antônio Gonçalves Dias? A respeito desse declarou o comandante que embarcara bastante doente, que havia piorado nos últimos dez dias, e que dois dias antes do naufrágio pouco acordo já dava do si; declarou mais, que, no momento em que bateu o navio, e deu sinais de submergir-se, acudiu logo o piloto à câmara para o salvar, e encontrando-o morto o deixara. Entretanto pelo inquérito a que se procedeu, parece averiguado que a tripulação, vendo o naufrágio iminente, salvara-se, deixando-o ainda vivo.

Misero! Como seria aflitiva a tua última hora! morrestes nas águas do teu Maranhão, sufocado por elas mas não tornastes a ver os que te eram caros.

O epitáfio, como se adivinhasse o teu destino, havia sido lavrado dois anos antes:

Deus num acesso de amor,
ao poeta soberano
deu por berço o Equador,
e por tumulo o Oceano!

Depois da tua morte o Sr. Oliveira Santos lavrou-te outro nas colunas do Publicador Maranhense:

Invólucro de uma alma grande e nobre,
alguns palmos de terra eram mui pobre
jazigo a gênio tal.
Do Atlântico a vasta sepultura
é mais própria decerto, e mais na altura
do cantor imortal.

Ofereceram-se prêmios, investigaram-se todas as praias, o teu cadáver não apareceu. Não lograste ter a sepultura na terra da pátria, mas pelo muito que lhe quiseste, e pelo monumento que lhe deixaste das tuas obras, terás outro em mármore, que recordará aos vindouros o apreço em que os maranhenses te tinham. O Brasil paga a sua dívida.

O futuro não se vê, é de Deus, mas Gonçalves Dias parece que o via; tinha pressentimentos. O receio de não morrer na pátria, e as imagens do naufrágio acudiam-lhe à mente por vazes. Nas Saudades, versos a sua irmã com que fecha os Últimos Cantos, diz:

Ave educada nas floridas selvas
um tufão me expeliu do pátrio ninho.
As tardes dos meus dias borrascosos
não terei de passar sentado à porta
do abrigo de meus pais

No Meu sepulcro (Últimos Cantos) compara-se ao degredado e escreve:

...Tal no exílio
contempla à beira mar o degredado
devolverem-se as vagas, e saudoso
da pátria sua — tão distante — as conta;
uma por uma as interroga, e pensa
qual daquelas será que o leve e atire
náufrago embora, e semimorto às praias
porque choram seus olhos...

No Adeus aos seus amigos do Maranhão (Primeiros Cantos), como prevendo que não terá a satisfação de morrer entre eles, diz-lhes:

Oh! quem me dera
que entre vós outros me alvejasse a fronte,
e que eu morresse entre vós...

Na dedicatória dos Últimos Cantos ao seu nunca esquecido amigo o Sr. Dr. Alexandre Teófilo, alumia-o um raio de esperança, e lembrando-se do torrão natal que ele ama tanto, e em que espera acabar os últimos dias, conclui:

Aí outra vez remoçado, e vivificado de todos os anos que desperdicei, poderei enxugar os meus vestidos, voltar aos gozos de uma vida ignorada, e do meu ar tranquilo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu, afrontar as borrascas desencadeadas, no Oceano que eu houver para sempre deixado atrás de mim.

Iludia-o a esperança. Vítima das borrascas desencadeadas, foi no Oceano que encontrou a sepultara aos 41 anos de idade.

Pouco tempo antes, vítimas do mesmo padecimento, haviam-se finado Junqueira Freire, Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. O primeiro sucumbiu no verdor da idade; Álvares de Azevedo, quando ainda não contava 21 anos; Casimiro de Abreu quando apenas contava 23. No curto espaço de 12 anos cobriu-se por quatro vezes de luto a musa brasileira!


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ANTÔNIO XAVIER RODRIGUES CORDEIRO
Almanach de Lembranças luso-brasileiro (1873)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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