sábado, 30 de março de 2019

Múcio Teixeira: O Poeta do Paço


O Poeta do Paço

Quando a festa oficial ia terminar, organizada pela Câmara da cidade do Rio Grande, que o Imperador visitava, acompanhando o desenrolar da guerra no Sul, contra, o Paraguai, um menino recitou-lhe, após romper a massa do povo, uns versos dedicados ao Monarca, dizendo ao terminá-los:

— “Fui eu quem os fez!"

E pode-se acrescentar que desse momento em diante é que se tornou notável a existência de Múcio Teixeira.

D. Pedro II beijou-o, mal contendo as lágrimas, diz o historiador.

Mais tarde, publicadas aos quinze anos suas primeiras poesias, uma poetisa pediu numa apresentação, que o escritor Carlos Ferreira, depois de ler os escritos do apresentado, o fizesse conhecido nos meios espirituais do Rio; Carlos Ferreira dividiu o pedido com Fagundes Varela, e ambos trouxeram, pela imprensa, Múcio Teixeira à atenção dos intelectuais ali residentes.

Nascera a 13 de setembro de 1857, na capital rio-grandense e até 1864 deixou-se ficar no sul do país.

Na Escola Militar do Estado natal, tantas fez, em companhia do príncipe D. Felipe, que se incompatibilizou com a carreira das armas, com aquela vida de disciplinas que não lhe consentia recitar em festa pública versos aos heróis da Inconfidência, aventura de que lhe adveio o ser preso...

Poeta revolucionário, autor teatral, foi como se caracterizou sua mocidade. Mais tarde, quando o Imperador houvesse de chamá-lo ao paço, dando-lhe aposentos em palácio, jamais se haveriam de esquecer seus inimigos dessa fase primeira em que tanto clamou contra o altar, querendo derrubar o trono, coisas que propositadamente iriam causar susto ao maldoso Laet...

Em 73, publicara as "Vozes Trêmulas". Para um moço de quinze anos, a ninguém pareceu que elas não tivessem de ecoar no porvir.

Não é de espantar que o menino de seis anos, que atravessara dificultosamente uma multidão para receber o beijo imperial, menos de dez anos mais tarde, adolescente, fosse clamar pela República. Pois Múcio, como notou Romero de outra forma, teve sempre em vista duas coisas: a "época" e o "meio".

Ninguém esquecerá, por certo — faço então observar — que o meio fervilhava. A época era de revolta de alguns, todos esses sendo jornalistas e poetas moços; os primeiros em busca de popularidade, os segundos — de novas sensações.

Mais tarde, conhecendo de perto essa figura nobre de estudioso e bom que foi Pedro II, com quem passou a lidar e a quem estimou como poucos, procurando corresponder com gratidão e simpatia aos benefícios dele recebidos, esqueceu aquelas revoltas, talvez mais poéticas que sinceras, e que eram uma espécie de "tento" que as inteligências moças pagavam para poderem entrar no jogo intelectual do tempo e conseguir popularidade.

Muitos dos que combatiam o trono, desses a que me refiro, pasmaram, como pasmou a nação brasileira toda, diante de um 15 de Novembro de 1889... A maioria levou muito tempo a acreditar no fato. Quase todos, calando a franqueza do pulsar íntimo, aplaudiram a vitória — porque haviam instigado as fileiras — ainda que regularmente desconhecendo os heróis...

Aos vinte e dois anos, Múcio era autor de dezesseis obras publicadas e depois secretário do governo espírito-santense. Aos vinte e três agitou em torno de seu nome campanha política no Rio Grande; mas voltou à cidade de Vitória.

— Já nos "Novos Ideais", aparecia no poeta o cultor da filosofia, em "Interrogação Eterna'':

Donde saímos nós?... Da sombra do Mistério...
Aonde vamos? não sei; a cruz do cemitério
Pode ser uma porta aberta à eterna vida.
Mas pode ser também uma barreira erguida
Entre a luz e a treva.


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LUÍS PAULA FREITAS
Ilustração Brasileira, agosto de 1928.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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