sábado, 16 de março de 2019

O poeta de quatro almas (Ensaio)

 

O poeta de quatro almas

O caso Fernando Pessoa é um fenômeno literário que jamais se verificou e dificilmente se repetirá noutra literatura.

Foi um homem atormentado. Sofreu pelo menos quatro vezes mais do que qualquer outra criatura, porque possuía quatro almas. Quatro almas sensíveis de poeta.

O que há de extraordinário nesse caso de desdobramento de personalidade — mais curioso que o Dr. Jekyll e Mr. Hide da famosa novela de Stevenson — é que no espírito do poeta coexistiram e conviveram pelo menos quatro personalidades geniais, cada qual vivendo seus conflitos e incertezas: de ordem material ou espiritual, cada qual sofrendo suas angústias: físicas ou metafísicas.

Cada criatura nascida de dentro de si mesmo conquistou uma personalidade autônoma, com caracteres bem demarcados, com uma visão particular do mundo, cumprindo um destino próprio e inexorável.

Fernando Pessoa conseguiu identificar de tal modo a presença dessas subpersonalidades em seu próprio espírito, que chegou a traçar sobre cada uma delas um retrato físico, um perfil moral, indicando todos os seus anseios e idiossincrasias.

Dirão alguns que a obra de Fernando Pessoa —  considerada em conjunto — se mostra contraditória e fracionária. O poeta, porém, pode ser contraditório sem deixar de ser autêntico, porque a finalidade da poesia não é definir a vida — cujo mistério lhe será sempre indefensável — mas apenas fixar momentos vividos.

O objetivo da poesia não é demonstrar verdades, nem muito menos explicar fenômenos, mas unicamente comunicar vivências superficiais ou profundas, conscientes ou inconscientes, experiências de vida além de um sentimento particular das coisas e de uma intuição pessoal do mundo. Não deve, como a ciência, investigar a ordem e a natureza dos fenômenos a fim de estabelecer as relações invariáveis existentes entre os fatos, nem tão pouco como a filosofia, remontar às causas e à essência íntima de todos os seres, por um processo racional. O intelecto interrompe a ligação afetiva, a corrente mágica que deve sempre existir entre o poeta que contempla e o mundo contemplado.

O poeta é um homem emocionado em comunhão com a vida, em união mística com todas as coisas e seres do universo. O mundo em si mesmo é neutro. Nossas emoções é que adjetivam. Se estamos tristes e acabrunhados projetamos a sombra de nossa melancolia em tudo aquilo que nos cerca. Se estamos eufóricos a Natureza nos sorri radiosa. Todos nós — e em especial os poetas, criaturas  supersensíveis — vemos o mundo através de nosso estado de ânimo, que a realidade em si mesma não tem qualquer tonalidade afetiva. O medo povoa nossas noites de fantasmas. O amor nos deixa sintonizados e faz-nos descobrir belezas até então não percebidas. O poeta vive, mais do que todos, num mundo mágico, fabricado por suas próprias emoções. Recria a realidade à sua maneira, que nos é dado perceber, em profundidade, aquilo que sentimos. A compreensão é a forma intelectual do amor.

Não cabe ao poeta resolver conflitos nem problemas, mas somente vivê-los e expressá-los. O poeta é um ser dotado de empatia, essa capacidade de sentir o que os outros sentem, de sofrer o que todos sofrem. E será tanto maior quanto mais identificado estiver com a mentalidade de sua época e o sentir dos homens de seu tempo.

É o caso de Fernando Pessoa que representou o espírito de sua época.

Fernando Pessoa, ao justificar o desdobramento de sua personalidade, dizia-se um histérico neurastênico. Para ele, todo o poeta seria um fingidor. Assim se expressa no seu poema Autopsicografia.

Entretanto o poeta não é um fingidor. O caso mesmo de Fernando Pessoa é o de uma simulação sincera. Todas as suas dúvidas e inquietações geraram dentro dele intérpretes legítimos, cada qual dotado de um modo peculiar de pensar, de sentir a realidade, de sofrê-la. Cada um de seus heterônimos teve um destino diferente, uma mensagem de beleza a transmitir, uma face da verdade a revelar.

Caeiro era filósofo. Um metafísico sem metafísica a apregoar as excelências da vida simples, pagã, frugal, espontânea, instintiva. Há em Caeiro, — não apenas no jogo surpreendente dos paradoxos — alguma coisa de nietzschiano, de dionisíaco, no bom sentido.

Ricardo Reis era um preciosista, amigo das filigranas verbais, talvez um pouco “esnobe”, a escrever com punhos de renda, da mesma renda fina dos seus versos. Era uma espécie de anti-Caeiro. Parecia buscar a perfeição apolínea da forma.

Álvaro de Campos é uma caixa de surpresas. Poeta de imprevistas paisagens interiores: cético, cínico, pessimista, desconcertante.

O poeta, porém, que assinava Fernando Pessoa (isto é, Fernando Pessoa “ele mesmo”) era um intimista à procura da expressão exata, a usar e a abusar um pouco da dose amarga de “humor”.

Quando Alberto Caeiro se manifestou em mim — confessa o poeta — senti que surgira o meu próprio mestre.

Como julgar semelhante poeta?

Fernando Pessoa terá de ser julgado como a síntese dos seus heterônimos. Síntese talvez impossível, porque por ele mesmo tentada e frustrada. As subpersonalidades do poeta — cada qual com seu ritmo próprio — não passam de movimentos da obra sinfônica desse poeta complexo que, após tantas controvérsias, começa afinal a ser amado e por amor, compreendido.

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MÁRIO NEWTON FILHO

O Seminário, março de 1957.
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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