sexta-feira, 5 de abril de 2019

Jesus (Conto), de Thomaz Lopes


Jesus
Assim que agora nenhuma condenação há para os
que estão em Cristo Jesus,
que não andam segundo a carne,
mas segundo o espírito.

São Paulo, Epístola aos Romanos

***

Depois de acalmar a irada tempestade das águas, Jesus voltou novamente de rumo à Galileia que deixara para ir à terra dos Gadarenos. Mas agora as águas eram tranquilas, quietas como a pureza macia do céu azul, refulgentes e meigas como as pupilas do Nazareno.

Pela região se sabia que na outra banda, logo ao pisar terra firme, Cristo fizera milagres, porque afugentara os maus espíritos de um louco, prisioneiro de sepulturas onde o recolhiam algemado e agrilhoado; mas o doido partia as correntes, subia aos montes, descia às covas onde nas duras e pontudas pedras, rasgava a fragilidade de sua carne. Cristo o curara; em sujos porcos prendera os imundos espíritos, que com a manada se afogaram nas águas inquietas; e o louco levou a fama do Mestre a sua terra em Decápolis. Todas as multidões perguntavam quem era aquele homem que com tanta mansidão acalmava as procelas, dava vista aos cegos, curava corpo e espírito, dizia tão eloquentes parábolas, — e através de todos esses milagres era o Mestre perfeito? A sua gloriosa fama chegou até Jairo, Príncipe da Sinagoga. E logo sabendo este do regresso de Jesus, foi ao seu encontro, e assim lhe falou:

— Oh! Mestre, ouve a minha palavra porque a minha boca é um sepulcro de dor. Há doze anos pela graça do céu, de minha mulher nasceu uma filha a quem amo e estremeço pelos encantos da sua pessoa e pela afetiva bondade do seu coração. É minha filha; se tu a visses certamente a amarias! Quando ela saía aos campos, vinham as ovelhas e os cordeiros comer as ervas à palma de sua mão, — fresca como um lírio dos montes, rosada como a aurora em Belém; e as andorinhas revoavam em tomo de sua cabecinha loira, e as abelhas esvoaçavam ao redor de sua boca vermelha, — doce como uma colmeia em que se fabricam favos de beijos. Pairava sobre ela a graça do Senhor, e tinham descido sobre ela todas as bênçãos do céu. Pôs-se a coitadinha de repente a definhar; mais frágil do que a onda que se quebra na praia a saúde de minha filha foi fanando. Flor que ela era ainda hoje o é, mas tão emurchecida que só de velha os olhos se enchem de lágrimas como neblina de inverno. Seus bracinhos estão agora como hastes suportando o doce peso de duas rosas brancas. Oh! Mestre, tu que és, infinitamente misericordioso e bom; tu que geras milagres com a mesma facilidade com que o céu se recobre de estrelas; tu que esconjuras os demônios; ah! tu bem podes salvar um anjinho do Senhor!

Jesus, erguendo o braço de dentro da ampla manga da túnica, pousou de leve a mão no ombro de Jairo, que todo se recobriu de uma refulgente luz; e descerrando os lábios, disse em palavras mais doces do que beijos:

— Um homem opulentamente rico, que todas as coisas da terra podia com dinheiro comprar, cultivava com apurado esmero um jardim; tinha ele terra fecunda e boa, e descia de uma fonte a água maviosa e tranquila; sem falar na água do céu que era muita. Mas nem a chuva benéfica, nem o orvalho da noite puderam fazer que no jardim surgisse mais de uma roseira; e a roseira só deu uma rosa. E o rico homem que ao princípio ficou triste, consolou-se pensando que a planta vicejava e que a flor era sempre purpurina e cheirosa. Uma vez a roseira começou a definhar, e a rosa começou a emurchecer; o homem tudo fez para salvá-las, e todos os conselhos ouviu. E estes eram muitos: uns achavam que eram espinhos; outros achavam que só das lagartas vinha o mal. Enquanto isso, roseira e rosa morriam. Foi então que apareceu um jardineiro, e deu-lhes outra vez a virtude que de Deus trouxera. Tu talvez sejas o homem rico; a rosa é a tua filha; a roseira é a vida; mas eu sou o jardineiro de Deus. Vai, e tem fé! Salvarei a tua filha.

Jairo partiu cheio de esperança e de fé, porque, à sua vista, uma mulher doente que se roçou no manto de Jesus logo sarou da enfermidade. Em verdade, em verdade! Que homem prodigioso era aquele?

Passaram-se algumas horas, e viu o Príncipe da Sinagoga que o Mestre Perfeito não chegava: foi outra vez em sua busca, com marcha vacilante e palavras que hesitavam:

— Mestre! Se tardas em ir, bem receio que só encontres em minha casa um cadáver! Minha filhinha bate às portas da morte; já os homens de saber afirmam que é tarde e ela se não salvará. Tem pena de mim! Vai salvar a minha filha!

Jesus moveu para o pai aflito a refulgência luminosa dos seus olhos tranquilos:

— Não temas, homem! Eu te disse que tua filha se salvará; guarda mais a confiança e acrescenta a tua fé! Por mais que te digam de perigos insensatos; por mais que te aflijam a esperança, por mais que te deitem veneno no sofrimento; lembra-te da minha promessa, e crê na salvação de tua filha! Antes que desesperes terceira vez, eu lá irei e a curarei.

De novo partiu Jairo, e ao voltar-se uma vez viu Jesus em pé e sereno, com a face angélica voltada para o céu azul. Mas ai de Jairo, que ao chegar à casa teve tempo apenas de beijar a filha que parecia morta. Voltou acompanhado de muitos dos seus à procura de Cristo que em caminho encontrou.

— Mestre, vem depressa! Tarde chegarás para salvar a minha filha! E como Jesus se apressasse disseram em torno:

— Oh! Jairo, porque atormentas o Mestre, se tua filha já está morta?...

Mas Jesus, estendendo a branca mão sobre o Príncipe da Sinagoga:

— Não temas! Crê na minha palavra que é a palavra de Deus!

Então, todos aqueles incréus, em alvoroço do milagre prometido, quiseram acompanhar Jesus e Jairo; mas por ordem do Mestre, foram apenas Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago.

A tarde ia alta, e começava a cair o crepúsculo...

Quando os cinco homens entraram, mais desencontrado ia alvoroço em casa de Jairo. Elevavam-se preces como voos de asas, pedindo misericórdia ao Senhor; depois as promessas cessaram e eram apenas surdas lamentações sobre o corpinho da criança morta. Jesus, à porta, perguntou:

— Por que vos alvoroçais? Por que tanto gemido e tanto pranto? Serenai os vossos corações, guardai as vossas lágrimas, que a menina não está morta, e apenas dorme...

Isso ouvindo todos riram como às insensatas palavras de um visionário; e o Mestre, diante da falta de fé daquela gente, expulsou a todos dizendo:

— Aqui só permanecerão os que têm fé e amor — porque a misericórdia não é feita nem de pedras nem de cardos.

Depois, acompanhado dos que com ele tinham vindo, e mais também da esposa de Jairo, entrou no quarto da menina.

Branca e imóvel a formosa criança jazia com os olhos cerrados, a fronte muito pálida, envolta na auréola dos seus cabelos loiros. Jesus achou que os olhos fechados eram como um céu azul dentro das nuvens negras de uma tempestade; A mãe aflita — que, apenas no quarto, se debruçara chorando sobre o leito da filha morta — ergueu-se de repente, grande, trágica, dolorosa, indo cair ajoelhada aos pés do Rabi, que tinham o pó das estradas:

— Jesus de Nazaré, olha para a minha dor e salva esta criança, única filha das minhas entranhas!

Rabi Ieshua sorriu, e disse num outro sorriso:

— Tem fé, mulher!

Houve um longo silêncio; nesse minuto de espanto, Jesus dirigiu-se para o leito. Todas aquelas pessoas eram como estátuas petrificadas: a mãe do anjinho ainda ajoelhada, os cabelos soltos como a cólera do oceano, com os olhos em êxtase fitava Jesus e a menina; Jairo pálido e imóvel segurava a cabeça entre as mãos. Pedro, Tiago e João, a um canto da sala, ajoelhados rezavam. Jesus sorriu outra vez, — e tomando a mão da menina, murmurou como uma carícia:

— Vem, minha filhinha, levanta-te!

E logo a menina, como se as palavras divinas lhe dessem asas, levantou-se sorrindo, e foi cair nos braços paternos...

Depois abraçou Jesus que a estreitou ao peito longamente, amorosamente, cobrindo-a de beijos, diante da derramada alegria de Jairo e de sua esposa, diante do assombrado espanto dos companheiros.

Mas aos pais do anjinho parecia, vendo Jesus abraçar e beijar a filha ressuscitada, que um milagre também nele se operara, — e que aquele Deus pela primeira vez era um Homem...


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Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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