quinta-feira, 25 de abril de 2019

Victor Hugo, ação e pensamento (Ensaio)



Victor Hugo, ação e pensamento

Quando expirou Victor Hugo, em 1885, houve por toda a Franca um frêmito de emoção, algo semelhante ao rumor universal com que prosadores e poetas assinalam a mágoa e o espanto da natureza pela morte de Pan. Ele possuía, em verdade, tanto no seu país, como por toda parte onde a civilização permitisse o culto do talento, o prestígio transcendental das divindades. Passados os anos revolucionários da mocidade, em que o contato diário com a geração estimulou muitas vezes a irreverência de espíritos grosseiros ou simplesmente turbulentos, o poeta cresceu no conceito da humanidade culta, atingindo os páramos da superioridade incontestável. Na grandeza e riqueza de seu talento, tão amplo que jamais lhe puderam prever os limites, ele ascendera à esfera livre das influências e das paixões humanas. Pairou acima de todos e recebeu o culto geral com a serenidade que lhe permitiam o fulgor da linhagem espiritual e a consciência da própria categoria. Victor Hugo era então o centro de referência da literatura mundial. A ele vinham todos os jovens, procurando o conselho, o estímulo, ou mesmo apenas a honra de algumas palavras. Procuravam-no os nomes mais ilustres das letras, pelo prazer de vê-lo e falar-lhe. Todos porfiavam em prestar-lhe culto, reconhecendo-lhe na personalidade portentosa uma dessas exceções que rutilam, de século em século, na safra humana. Poeta, romancista, dramaturgo, orador, jornalista, ele excedera em cada uma dessas especialidades da inteligência tudo quanto ao seu tempo se produzira no mundo. Era o prodígio criador. Ao toque da pena mágica, os temas dilatavam-se, envoltos em luz nova, desdobrando-se ante a surpresa e o enlevo do público. Na poesia percorreu todos os domínios, desde o lirismo suavíssimo à epopeia. Velho, quando julgavam exaustos seus cabedais de inspiração e os recursos de uma técnica maravilhosa, oferecia à humanidade a louçania, a candura, o ritmo divino da "Arte de ser avô" — mimo em que se casam a graça ideal do pensamento ao mais fino lavor de música. Como orador, ele traçou panoramas proféticos do universo, prevendo calamidades já consumadas, e castigou com o látego da palavra os erros dos homens.  Romancista, abriu rumos novos ao romance, e compôs obras primas que engrandecem com o tempo, criando tipos transformados em símbolos pela admiração consagrativa das gerações. Dramaturgo, revolucionou o teatro com a audácia fulgurante de suas peças. Homem, traçou gestos de nobreza inexcedíveis pelo sentimento e idealismo que encerravam.

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A fertilidade literária de Victor Hugo inscreve-se entre os predicados que lhe assinalam personalidade excepcional. Suas produções formam uma sequência surpreendente pela rapidez de confecção, e também pela diversidade de motivos e de processos. Ao mesmo tempo compunha livros de poemas, de teatros, romances, sem levar em conta o tempo necessário para atender aos seus deveres sociais e políticos. Proferia discursos na Assembleia Nacional, escrevia livros, assistia aos ensaios de suas peças no teatro, comparecia a reuniões em associações de que fazia parte ou que o convidavam para solenidades. Depois de sua morte, verificou-se que conjuntamente com todas essas atividades — qualquer delas bastante para absorver, isoladamente, a atividade de um homem normal — ainda tomava notas de aspectos diários da sua vida, e com tal largueza e brilho que bastaram para encher volumes de esplêndido interesse. Em suas viagens igualmente reduzia à literatura as impressões recebidas, tendo daí surgido uma série de obras notáveis pela riqueza de colorido e esplendor de argumentos. A propósito de suas notas diárias, editadas sob o título antecipadamente por ele escolhido — "Coisas vistas", escreveu Fernand Gregh um artigo encomiástico de vivo interesse, no qual salienta o talento de repórter do compositor genial de "Legenda dos Séculos". Segundo o citado articulista, Victor Hugo pode ser considerado, sem nenhum favor, o "príncipe dos repórteres". Em suas visitas à Assembleia Nacional, às Tulhérias, à Câmara dos Pares, à Academia de Letras, o mestre tudo reparava, e, chegando em casa, logo anotava em caderno suas impressões, que assim se fixavam frescas, naturais, sem enfeites superficiais, de acordo com a opinião e o sentimento do instante. Também o mesmo fazia em relação aos acontecimentos públicos de maior notoriedade, aqueles que o impressionavam como espectador. Essas notas, devidamente catalogadas, representam um repositório de inestimável valor e provam a argúcia, o poder de sugestão, o senso de narrativa sintética que, em tais ocasiões, assumia aquele espírito exuberante — para o qual, à míngua de recursos outros, os críticos eventuais criaram um demérito: sua fabulosa riqueza de imaginação e sua própria capacidade verbal. Apreciando uma figura, um episódio, um acontecimento, o anotador de "Coisas vistas" revela a maravilhosa acuidade da síntese, o poder de evocar em poucas linhas uma apoteose, ou de fixar a essência de uma situação. O espetáculo que assistiu — como, por exemplo, os funerais de Napoleão Bonaparte em Paris — ele o projeta aos seus olhos através de poucas imagens. E, lendo esses períodos singelos, mas de colorido e lineamento intensos, é como se estivéssemos presentes ao evento. Fernand Gregh cita um trecho desse registro, que merece divulgação:

"De chofre, o canhão deflagra de uma vez em três pontos diferentes do horizonte. Esse tríplice ruído simultâneo encerra o ouvido numa espécie de triângulo formidável e soberbo. Tambores distantes batem o campo e o carro do Imperador aparece. O sol, até aí velado, reaparece ao mesmo tempo. O efeito é prodigioso. Vê-se ao longe, no vapor e no sol, sobre o fundo pardo e roxo das árvores dos Campos Elísios, através das grandes estátuas brancas que se assemelham a fantasmas, mover-se lentamente uma espécie de montanha de ouro. Um imenso rumor envolve essa aparição."

A mesma empolgante precisão se encontra nos depoimentos sobre a execução de Luís XVI, a morte do duque de Orleans, a revolução de 48. Mas o repórter dos grandes espetáculos não é igualmente menos interessante nas simples observações pessoais e episódios assistidos em suas ocupações diárias. O golpe de vista do observador e o apuro do narrador realizam prodígios de concisão, de elegância, de eloquência, de ironia. Lendo-o é como se se estivesse presente às reuniões acadêmicas ou políticas a que ele comparecia e onde exercia a fascinação de um espírito privilegiado. A vida de Victor Hugo encontra-se vinculada à existência de inúmeras figuras representativas das letras, das artes, das ciências do seu tempo, e como viveu oitenta e três anos de vida intensa, produtiva, muitas vezes combativa, sua recordação pessoal envolve toda uma época. Nas páginas de "Coisas vistas" surgem a todo momento perfis encantadores pela doçura ou pela mordacidade, e também painéis que não raro exprimem o pensamento ou a crença de uma geração.

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Seus últimos tempos de vida foram a perene consagração. O espírito adoçara-se com o peso dos anos. Desapareceram-lhe de volta as vozes dos insolentes que tentaram em vão marear o esplendor solar da sua inteligência. Também ele, o combatente leonino, de garra sempre presta para o revide, também ele atingira o ponto que as vaidades se aquietam e a consciência profunda do mundo e das ações humanas permite a graça do perdão. Na altura a que ascendera, novos e velhos o fitavam com a mesma admiração respeitosa. "Pére Hugo", chamavam-lhe, e nessa expressão havia a confissão humilde e a homenagem de todos à superioridade do titã. Alva a cabeça agitada de antes, um pouco recurvado o dorso atlético, Victor Hugo mantinha intacto o espírito. Sua palavra cintilava, como sempre, em réplicas flumíneas, ou encantava nas dissertações de intimidade entre amigos e pares intelectuais. Ao seu retiro acorriam os luminares do tempo e os jovens combatentes das letras. E todos encontravam no velho esse milagre da persistência da luz interior. Conta-se, de então, uma passagem encantadora. Jules Lemaitre, estreante na literatura, procurara Hugo. O porteiro indicara-lhe um corredor imenso, que ele mediu a passo cuidadoso, pisando tapetes caros, entre alas de fâmulos perfilados. Ao fim, encontrou um vastíssimo salão, ao fundo do qual distinguiu, absorto no assento, o velho Hugo. Deteve-se, observando-o. Dois minutos depois, o vulto ao fundo moveu-se, lento, mostrando-lhe a face. Hugo disse-lhe:

— Estava aí? Desculpe-me.

Lamaitre replicou com espírito:

— Dou por bem empregado o tempo de espera: certo vai render-me belos versos.

— Engana-se. Pensava na morte. E indagava de mim mesmo que atitude tomarei quando me vir diante de Deus.

— Por isso não merecia a pena pensar. Basta, quando o encontrar, estender-lhe a mão e dizer simplesmente: — "Camarada, como passa?"

Essa passagem anedótica exprime o culto dos seus contemporâneos pelo poeta que Verlaine, consultado, dissera ser sempre o maior de França, e cujos méritos são mundialmente inquestionáveis até nossos dias e para sempre.

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A Noite, 23 de abril de 1935.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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