quarta-feira, 8 de maio de 2019

A Adega de Funck (Conto), de Teófilo Braga



A Adega de Funck
(Conto fundado nas notas de Hoffmann)

A ironia, quando não é despertada pela luta incessante de contrariedades imprevistas, que cercam o espírito de dúvidas e desesperos, e o deixam na prostração da indiferença e do cinismo, é uma doença, uma febre lenta, que vai devorando a existência, depois de a ter despido de todas as alegrias. Observa-se no pessimismo do poeta. O riso com que a ironia se traduz, que é a expressão que mais de pronto lhe acode no acesso do frenesi suscitado pela vista repentina de um contraste, para quem o compreende, é uma visagem infernal, um esgar que gela, um arremedilho de cadáver sacudido por uma pilha galvânica. É uma descarga nervosa pela via muscular, como uma compensação, como notaram os fisiologistas.

A gargalhada é também a linguagem das grandes agonias; é esta polaridade misteriosa da nossa natureza dupla, constituída já em aforismo: os extremos tocam-se. A ironia, derivada do mesmo princípio supremo, é a impressão abrupta de uma ideia infinita que se compara com outra finita, cuja disparidade intuitiva desperta em nós todas as vibrações do sentimento cômico. A primeira manifestação do cômico na vida foi por certo o grotesco; Susárion e Téspis caracterizavam os seus personagens com borras de vinho. Ele aparece-nos no mundo moderno como uma arma da burguesia contra a pressão do clero e as extorsões dos senhores feudais, na Festa do Asno, nos serviços, nos fabliaux, nos baixos relevos e goteiras das catedrais. O pico, a agudeza do pensamento estão completamente materializadas na imagem; eis o cômico pela sua parte visível ou objetiva, tanto da simpatia popular.

O humor é um grão elevado; no contraste que se funda na antítese da ação e o pensamento, a forma não corresponde, contraria mesmo a expressão da ideia, donde resulta uma monotonia triste; o esforço do que procura alegrar-se infunde nos que o contemplam uma melancolia indefinida, como na Viagem de Sterne.

A ironia é a impossibilidade de conciliar os elementos da antítese, ou o contraste mental que gera todo o sentimento cômico: tal é o desespero de Hamlet propondo ao seu espírito o problema insolúvel e eterno:

To be or not to be that is the question.

A imaginação de Hoffmann semilha um caleidoscópio onde estas três cambiantes do sentimento se refletem, confundem, se cruzam em direções infinitas, formando um espectro a que chamamos o fantástico. A ironia, o humorismo e o grotesco sucedem-se, como fases da sua inspiração. Quando ele sente estas inversões do sistema nervoso, anúncio da tabes dorsalis que progride de um modo irremissível, o pensamento então dá forma a todas as vertigens; a dor torna a criação pessoal, caprichosa; os retratos que ele faz são quase sempre caricaturas, a encarnação de um riso de desespero. As bebidas e o seu cachimbo de Kumer vêm distrai-lo da consumpção que ele observa a cada instante em si. O fumo que se enovela em formas extravagantes no ar, e se dissipa como uma quimera fugitiva, representa-lhe os tipos que reproduz nos seus contos. Ao fogão, na concentração íntima da família, o cachimbo povoa-lhe o aposento de silfos e gnomos, que embalam a fantasia enlevada em sonhos incríveis, com músicas estranhas que o deliciam no egoísmo do sofrimento que o corrói. Ele tem uma afeição particular às pessoas espirituosas, porque lhes supõe talvez a veia sarcástica proveniente de algum estado mórbido. Quando se retrata caricaturara-se.

Muitas vezes aceita-se uma criação cômica, rimo-nos, sem saber que a inspiração que a produziu foi a doença que arrebatou Molière, o desalento de Gil Vicente, a resignação de Scarron. Por que não procuraria Hoffmann distrair-se com o vinho, afogar nele a preocupação do mal irremediável, que lhe atacava a espinha dorsal?

O seu editor Funck, homem estimável de caráter, a quem a especulação não pôs em guerra com os que têm a infelicidade de precisar escrever, convidou-o para passar alguns dias na sua residência em Bamberga. Funck tinha uma magnífica adega e lembrava-se perfeitamente daquelas expressões de Hoffmann: “Fala-se muito do entusiasmo que procuram os artistas no uso das bebidas fortes; citam-se músicos, poetas que não podem trabalhar senão assim; eu não sei, mas é certo que com esta feliz disposição, direi, quase sob a constelação favorável, em que se está quando o espírito passa da concepção à realização, as bebidas espirituosas aceleram a torrente das ideias.”

Funck tinha o mais excelente de todos os vinhos, como lhe chamava Hoffmann, o Porto, que no seu nome traz o segredo da sua força. O escritor original era esperado com ansiedade em Bamberga. Chegou por uma tarde fria. O céu estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a espaços, como o prelúdio de uma grande trovoada noturna. Quando a natureza é triste sentimos uma vontade de nos reconcentrarmos; o lar doméstico é a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no antigo direito germânico era a pena severa expressa naquela fórmula romana interdito tecti; o banido é comparado ao lobo solitário; a casa era arrasada, tapado o poço, extinto para sempre o fogo do lar.

Hoffmann esquecia todas as dores ao abraçar aquele amigo; com toda a liberdade de uma confiança íntima sentou-se logo ao piano. O frenesi da inspiração fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua última composição, meio improvisada com o júbilo que sentia. Começou um canto com uma voz desentoada, que fazia arrepiar os nervos; parecia que estava em delírio. Nisto um trovão rebentou com um estampido soturno.

— A natureza, disse ele para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a voz roufenha. Há bastantes dias que tenho sentido humor para o romântico religioso. Jovis omnia plena! Hoje, não sei se é o excesso da alegria, predomina em mim uma exaltação humorística levada até à ideia da aberração.

Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheado alguns instantes, como levado por uma série de deduções, que absorvem fatalmente toda a contenção do espírito. Estava a diagnosticar-se; a prolongada doença dera-lhe um certo conhecimento do seu estado. Depois prosseguiu:

— É notável! Que diversidade de sensações agora. Disposições humorísticas, coléricas, com um humor musical exaltado, e sentimento de um bem estar com indiferença. Como conciliar tudo isto? O sistema nervoso inverte-se-me de dia para dia.

Restrugia um aguaceiro espesso. Há no cair da água uma magia, que adormece.

— Vamos, disse Funck, interrompendo aquela reflexão penosa, eu tenho um excelente remédio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a satisfação do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abraão deve estar com uma temperatura suave; refugiemo-nos lá.

— Como isso era bom! mas infelizmente as asas da poesia não nos desprendem da terra; a realidade é pior do que o sol para as asas de Ícaro; ela toca-nos o corpo com mais aspereza do que o velho Satã quando experimentava o desgraçado varão da terra de Hus. Agora acho-me divorciado com a poesia, com a música, com a pintura; são as três fúrias que sob uma aparência sedutora surgiram das sombras do paganismo para atribularem-me o espírito.

— E por que não havemos de refugiar-nos, numa tarde destas, no seio de Abraão? — disse Funck procurando interromper a corrente das ideias aflitivas. — Não é tão difícil como pensas. Nem são precisas asas para ir lá. Para descermos basta obedecer à lei eterna da gravidade, que sobre nós pesa. Não sabias ainda que a gravidade é o nosso pecado original?

Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um tom humorístico para se adequar ao caráter dele nesse dia.

— Apesar da facilidade que apresentas ainda não resolvi o problema. Como iremos nós procurar conforto ao seio de Abraão?

— Segue-me.

Funck caminhava adiante com um ar vitorioso. Hoffmann sorria-se com um modo duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava.

Desceram uma escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se se abaixasse uma ponte levadiça. Entraram. Era um subterrâneo fundo, iluminado por um lampadário de bronze. Depois de afeito à sombra, Hoffmann pôde discriminar grandes toneis dispostos, como uma longa fila de cachaci-pansudos cônegos.

Era a adega do seu amigo Funck. De fato havia ali uma temperatura tépida, de fermentação. Nenhum olhar importuno através da abóbada calada.

— Se os velhos patriarcas, principalmente o nosso pai Noé, não trocariam de boa vontade a tua adega pelo seio de Abraão! — Hoffmann estava animado de uma alegria indizível; era um homem de extremos; a sensibilidade excessiva deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos contrastes, era por isto que ele possuía mais do que ninguém o genus irritabile vatum.

Mal acabava de proferir aquelas palavras, quando se atirou de um salto, com uma loucura de criança, e se escarranchou num tonel.

Funck seguiu o exemplo.

— A vida é um grande mar, que estua em convulsões intermináveis; felizes os que caindo na voragem encontram destes delfins, que os tomam sobre si e os levam a porto seguro.

— Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o humor erótico-musical, e os delfins, se dermos crédito a antigos fabuladores, eram levados pela magia da música.

E começou a cantar alguns trechos da sua opera a Ondina, que só interrompeu para levar à boca o sifão de lata que estava mergulhado na pipa. Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.

— Este não dá pelos calcanhares do teu dileto Porto? — acudiu Funck; o vinho de Nuits é dos melhores de Borgonha, e, graças ao céu, podemos nadar em mar de rosas.

A noite corria tempestuosa e tétrica: os trovões rebentavam com uma detonação tremenda. Nos ares, coriscou um relâmpago repentino e veio iluminar com um clarão pálido o rosto dos dois amigos, que tocavam neste momento os copos espumantes. Era um quadro com toda a verdade e simplicidade de Teniers, como o próprio Funck, numa nota de uma edição do seu amigo, confessa com aquela ingenuidade alemã.

Hoffmann ficou deslumbrado com o fulgor instantâneo; tinha a mudez do terror.

— Em que pensas?

— Um conto, um conto horrível!

— Mais uma saúde, e narra-me essa história ponto por ponto.

— História? dizes bem; por que tem muita verdade, ao menos a verdade da arte. Nunca te falaram nisso? Admira! Foi tão notório. Quem a não conheceu! Bela, como era, ninguém podia fitá-la sem experimentar o pasmo da admiração. As linhas do rosto tinham uma irradiação etérea, perdiam-se no ar. Era uma visão suspensa, a encarnação de um sonho indizível de amor.

A tristeza realçava-lhe a candura angélica. Para ela, a vida era um desterro no mundo. Passava, alheia de tudo, distraída, sem saber que levava após si todas as aspirações que um olhar de relance, fortuito, gerava na alma. Um dia vi-a pelo braço de um homem feio, que a conduzia com burlesca familiaridade! Disseram-me que era o marido.

Perscrutei o segredo de uma união para mim impossível, inexplicável. Não tinha sido arrojada a hipótese: viviam com uma certa paz artificial, um acordo de convenção perante a sociedade. O marido bem conhecia, que a família da engraçada criança a forçara aquela união desigual; a consciência da riqueza não conseguira persuadi-lo de que a merecesse; e espreitava, espiava-lhe todos os olhares, interpretava-lhe cada gesto insensível.

O que não idearia o ciúme? O ciúme que não tem a franqueza selvagem de Otelo é vil, infame. Um dia, a infeliz senhora, começou a sentir-se indisposta; não faltavam carinhos da parte do esposo, não poupava esforços para consolá-la, com uma solicitude hipócrita. O mal progredia, convulsões violentas a acometiam, vertigens assombrosas, dores intensas, como se lhe retalhassem as entranhas. O marido escutava os gemidos com um pungimento afetado.

Conhecera que morria: — “Sabes, disse ela tomando-lhe uma das mãos, eu deixo a vida, mas custa-me baixar à frieza do sepulcro sem te dizer uma palavra. Oh! nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma paixão infantil. Não soube guardar a fidelidade do tálamo.” O marido ouviu a confidência solene com um ar estúpido de imbecilidade: — És neste momento tão generosa e grande! A verdade nos teus lábios vibra-me de um modo que tudo te perdoo. Choras? escuta. Deixa também fazer-te uma revelação tremenda: envenenei-te.

Hoffmann não pôde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu, esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.

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