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5/14/2019

O aprendiz do Mago (Fábula), de Teófilo Braga




O aprendiz do Mago

Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando ele saía. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:

— Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por coisa nenhuma do mundo, senão morres.

O rapaz assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter com ele. Fechou a porta a toda a pressa, passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:

— Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?

O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio, e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio, e já o sentiu subir pela escada, e começou a gritar.

— Ai que agora é que estou perdido!

O cavalo branco falou-lhe:

— Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes em mim.

Palavras não eram ditas, o Mago abria a porta da casa; o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita:

— Foge, que aí chega meu tio para me matar.

O cavalo branco correu pelos ares fora, mas ia já muito longe, e o rapaz torna a gritar:

— Corre, que meu tio já me apanha para me matar.

O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:

— Deita fora o ramo.

Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Mas o rapaz tornou outra vez a gritar:

— Corre, que já aí está meu tio que me vai matar.

Disse o cavalo branco:

— Bota fora a pedra.

Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais adiante grita mais o rapaz:

— Corre, que meu tio agarra-nos.

— Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz, e disse-lhe que quando se visse em grandes trabalhos que chamasse por ele, mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou porque eram aqueles grandes prantos.

— É porque a filha do rei foi roubada por um gigante, que vive em uma ilha onde ninguém pode chegar.

— Pois eu era capaz de ir lá.

Foram dizê-lo ao rei, e o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha e trazer de lá a princesa, porque apanhou o gigante dormindo.

A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:

— Por que choras tanto, minha filha?

— Choro, porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha, e enquanto o não tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.

O rei mandou lançar um pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, e o rei não lhe queria já dar a mão da princesa. Mas ela é que disse que casaria com ele para que se dissesse sempre — que palavra de rei não torna atrás.

(Eixo — Distrito de Aveiro)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Mágico (Fábula), de Teófilo Braga



O Mágico
 
Havia numa terra um homem entendido em artes mágicas, que nunca queria tomar criado que soubesse ler para lhe não apanhar o segredo dos seus livros. Foi um moço oferecer-se dizendo que não sabia ler, e assim ficou-o servindo, e leu todos os livros da livraria do mágico, e quando já podia competir com ele, fugiu com todos os livros. Um dia o discípulo achou-se mestre e quis viver das suas artes; disse a um criado que fosse à feira vender um lindo cavalo que devia de estar na estrebaria, disse-lhe o preço, e ordenou-lhe que assim que o vendesse lhe tirasse logo o freio. À hora da feira o criado foi à estrebaria e lá achou um lindo cavalo e partiu com ele para o mercado. Estava na feira o Mágico que tinha sido roubado, e conheceu logo debaixo da forma do cavalo o seu antigo discípulo; foi ajustar o preço, pagou a quantia tão depressa, que o criado se esqueceu de tirar o freio ao cavalo. Quando o quis fazer já não foi possível, por que o Mágico disse que o contrato estava fechado desde que lhe entregara o dinheiro. O mágico levou o cavalo para casa, muito contente por se poder vingar à vontade do seu inimigo que lhe tinha roubado toda a sua sabedoria. De uma vez disse ao criado que fosse à ribeira levar o cavalo a beber, mas que não lhe tirasse o freio. O cavalo andava muito triste, cheirava a água mas não bebia; o criado lembrou-se de lhe tirar o freio, pensando que ele assim beberia. De repente o cavalo transforma-se numa rã, e some-se pela água. O Mágico que estava à janela de sua casa viu aquilo, e transformou-se em um sapo, para ir apanhar a rã. O discípulo, que sabia a sorte que o esperava se tornasse a cair em poder do mestre, transformou-se em uma pomba, e voou, voou por esses ares; o mágico transformou-se em um milhafre, e correu atrás da pomba para tragá-la. Já ia muito cansada a pomba, e quase que estava para ser agarrada, quando viu uma princesa que estava em um terraço, e foi-lhe cair no colo, transformando-se em um anel de grande preço. A princesa pasmada com o que viu, e com a lindeza da joia, meteu-a no dedo; o Mágico, viu que nada podia fazer, e como ainda estava na forma de milhafre entra pelo quarto do rei dentro e bota-lhe um cabelo no copo de leite que ele estava para beber. O rei, já se sabe, teve uma grande doença, foram chamados todos os médicos, mas nenhum era capaz de o curar; o Mágico apareceu sob a figura de médico e prometeu dar saúde ao rei, mas só se lhe desse o anel que a princesa trazia no dedo. O rei disse que sim; então o anel transformou-se em um lindo rapaz e pediu à princesa que quando o rei lhe mandasse entregar o anel ao Mágico, que lho não desse na mão, mas que o atirasse ao chão, para ele o levantar. O rei passados dias ficou bom, e assim que o Médico veio à corte, pediu o anel; o rei chamou a filha e disse que lhe entregasse o anel. A princesa mostrou-se triste mas obedeceu; tirou o anel e deitou-o ao chão, como se estivesse zangada. O anel transformou-se em uma romã que toda se esbagoou pela sala; mas o mágico mudou-se em galinha, e num instante foi engolindo todos os grãos. Ficou um único grãozinho de traz de uma porta, e esse transformou-se numa raposa, que se atirou à galinha e a comeu num instante. A princesa ficou muito pasmada com aquilo, e pediu à raposa que se tornasse em príncipe que casaria com ele. E ele assim fez e foram muito felizes.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Cravo, Rosa e Jasmim (Fábula), de Teófilo Braga



Cravo, Rosa e Jasmim

Uma mulher tinha três filhas; indo a mais velha passear a uma ribeira, viu dentro da água um cravo, debruçou-se para apanhá-lo, e ela desapareceu. No dia seguinte sucedeu o mesmo a outra irmã, porque viu dentro da ribeira uma rosa. Por fim, a mais nova também desapareceu, por querer apanhar um jasmim. A mãe das três raparigas ficou muito triste, e chorou, chorou, até que tendo um filho, este quando se achou grande, perguntou à mãe porque é que chorava tanto. A mãe contou-lhe como é que ficara sem as suas três filhas.

— Pois dê-me minha mãe a sua bênção, que eu vou por esse mundo em procura delas.

Foi. No caminho encontrou três rapazes em uma grande guerreia. Chegou ao pé deles… “Olá, que é isso?”

Um deles respondeu:

— Oh, senhor; meu pai tinha umas botas, um chapéu e uma chave, que nos deixou. As botas em a gente as calçando, e lhe diga: Botas, põe-me em qualquer banda, é que se aparece onde se quer; a chave abre todas as portas; e o chapéu em se pondo na cabeça, ninguém mais nos vê. O nosso irmão mais velho quer ficar com as três coisas para si, e nós queremos que se repartam à sorte.

— Isso arranja-se bem, disse o rapaz querendo harmonizá-los. Eu atiro esta pedra para bem longe, e o que primeiro a apanhar é que há de ficar com as três coisas.

Assentaram nisso; e quando os três irmãos corriam atrás da pedra, o rapaz calçou as botas, e disse:

— Botas, levem-me ao lugar em que está minha irmã mais velha.

Achou-se logo numa montanha escarpada onde estava um grande castelo, fechado com grossos cadeados. Meteu a chave e todas as portas se lhe abriram; andou por salas e corredores, até que deu com uma senhora linda e bem vestida que estava muito alegre, mas gritou com espanto:

— Senhor! como é que pôde entrar aqui?

O rapaz disse-lhe que era seu irmão, e contou-lhe como é que tinha podido chegar ali. Ela também lhe contou a sua felicidade, mas que o único desgosto que tinha era não poder o seu marido quebrar o encanto em que andava, porque sempre lhe tinha ouvido dizer que só se desencantaria quando morresse um homem que tinha o condão de ser eterno.

Conversaram bastante, e por fim a senhora pediu-lhe para que se fosse embora, porque podia vir o marido e fazer-lhe mal. O irmão disse que não tivesse cuidado por que trazia consigo um chapéu, que em o pondo na cabeça ninguém mais o via. De repente abriu-se a porta, e apareceu um grande pássaro, mas nada viu, porque o rapaz quando sentiu barulho pôs logo o chapéu. A senhora foi buscar uma grande bacia dourada, e o pássaro meteu-se dentro transformando-se em um mancebo formoso. Em seguida olhou para a mulher, e exclamou:

— Aqui esteve gente! — Ela ainda negou, mas viu-se obrigada a confessar tudo.

— Pois se é teu irmão, para que o deixaste ir embora? Não sabias que isso era motivo para eu o estimar? Se cá tornar, dize-lhe para ficar, que o quero conhecer.

O rapaz tirou o chapéu, e veio cumprimentar o cunhado, que o abraçou muito. Na despedida deu-lhe uma pena, dizendo:

— Quando te vires em alguma aflição, se disseres: Valha-me aqui o Rei dos Pássaros! há de te sair tudo como quiseres.

Foi-se o rapaz embora, porque disse às botas que o levassem onde estava sua irmã do meio. Aconteceram pouco mais ou menos as mesmas coisas; à despedida o cunhado deu-lhe uma escama:

— Quando te vires em alguma aflição dize: Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Até que chegou também a casa da sua irmã mais nova; achou-a em uma caverna escura, com grossas grades de ferro; foi ao som das lágrimas e soluços dar com ela muito magra, que assim que o viu, gritou:

— Quem quer que vós sois, tirai-me daqui para fora.

Ele então deu-se a conhecer, e contou-lhe como achou as outras duas irmãs muito felizes, mas só com o desgosto de não poderem os seus maridos desencantar-se. A irmã mais nova contou-lhe como estava com um velho hediondo, um monstro que queria casar com ela por força, e que a tinha ali presa por não lhe querer fazer a vontade. Todos os dias o velho monstro vinha vê-la para lhe perguntar se já estaria resolvida a tomá-lo como marido; e que ela se lembrasse que nunca mais tinha liberdade, porque ele era eterno.

Assim que o irmão ouviu isto lembrou-se do encantamento dos dois cunhados, e pensou em apanhar o segredo por que ele era eterno; aconselhou à irmã que fizesse a promessa de casar com o velho, se lhe dissesse o que é que o fazia eterno.

De repente o chão estremeceu todo, sentiu-se como um grande furacão, e entrou o velho, que chegou ao pé da menina e lhe perguntou:

— Ainda não estás resolvida a casar comigo? Tens de chorar todo o tempo que o mundo for mundo, porque eu sou eterno, e quero casar contigo.

— Pois casarei contigo, disse ela, se me disseres o que é que faz que nunca morras?

O velho desatou às gargalhadas:

— Ah, ah, ah! pensas que me poderias matar! Só se houvesse quem fosse ao fundo do mar buscar um caixão de ferro, que tem dentro uma pomba branca, que há de pôr um ovo, e depois trouxesse aqui esse ovo, e mo quebrasse na testa.

E tornou a rir-se na certeza de que não havia ninguém que fosse ao fundo do mar, nem fosse capaz de achar onde estava o caixão, nem mesmo de o abrir, e tudo o mais que se sabe.

— Agora tens de casar comigo, porque já te descobri o meu segredo.

A menina pediu ainda uma demora de três dias, e o velho foi-se embora muito contente. O irmão disse para ela, que tivesse esperança, que dentro em três dias estaria livre. Calçou as botas e achou-se à borda do mar; pegou na escama que lhe deu o cunhado e disse:

— Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Apareceu logo o cunhado, muito satisfeito; e assim que ouviu o acontecido mandou vir à sua presença todos os peixes; o último que chegou foi uma sardinhinha, que se desculpou por se ter demorado porque embicou num caixão de ferro que está no fundo do mar. O rei dos peixes deu ordem aos maiores que fossem buscar o caixão ao fundo do mar. Trouxeram-no. O rapaz assim que o viu, disse à chave:

— Chave, abre-me este caixão.

O caixão abriu-se, mas apesar de todas as cautelas, fugiu-lhe de dentro uma pomba branca.

Disse então o rapaz, para a pena:

— Valha-me aqui o Rei dos Pássaros.

Apareceu-lhe o cunhado, para saber o que ele queria, e assim que o soube mandou vir à sua presença todas as aves. Vieram todas e só faltava uma pomba, que veio por último desculpando-se, que lhe tinha chegado ao seu agulheiro uma antiga amiga que estava há muitos anos presa, e que lhe tinha estado a arranjar alguma coisa de comer. O Rei dos Pássaros disse que ensinasse ao rapaz onde é que era o ninho onde a pomba estava, e lá foram, e o rapaz apanhou o ovo que ela já tinha posto e disse às botas que o levassem à caverna onde estava a irmã mais moça. Era já o terceiro dia, e o velho vinha pedir o cumprimento da palavra da menina; ela, que já estava aconselhada pelo irmão, disse que se reclinasse no seu regaço; mal o apanhou deitado, com toda a certeza quebrou-lhe o ovo na testa, e o monstro dando um grande berro, morreu. Os outros dois cunhados quebraram ao mesmo tempo o encantamento, vieram ali ter, e foram com as suas mulheres, que ficaram princesas, visitar a sogra, que viu o seu choro tornado em alegria, na companhia da filha mais nova, que lhe trouxe todos os tesouros que o monstro tinha ajuntado na caverna.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O mestre das artes (Fábula), de Teófilo Braga



O mestre das artes

Havia um pai, que tinha três filhos, e enquanto dois deles andavam a trabalhar nos campos, o mais moço começou a aprender todas as artes e indústrias. Disseram os irmãos ao pai:

— Nós trabalhamos até aqui para meu pai poder viver, e o nosso irmão mais novo sem fazer nada; agora daqui em diante ele deve puxar pelo que aprendeu.

O filho mais novo pediu ao pai que lhe desse um açaimo de cão de caça, e disse-lhe:

— Vou-me tornar em cão de caça; meu pai há de trazer uma correia e um pau para virem cheios de coelhos, e há de passar pela porta do mercador, que se dá por grande chibante de caça.

O pai pôs o açaimo ao rapaz que se tinha tornado em cão, e foi com ele para a caça. Apanhou muitos coelhos, trazia-os dependurados no pau e o cão atrás dele. O mercador quando o viu passar pela porta perguntou:

— Oh homem! só com esse cão apanhaste tanta caça?

— Sim senhor.

— Hás de me vender o cão.

— Só se o senhor me der cem mil réis.

— Pois sim; está vendido o cão.

Contou o dinheiro; lá ficou o cão e o homem foi-se embora. Vai o mercador caçar com o seu cão por uns cerrados; correndo atrás de um coelho, o cão meteu-se por um valado de silvas, e foi sair por outra banda; tirou com as unhas o açaimo, e ficou outra vez gente. O mercador fartou-se de chamar e de esperar pelo cão. O rapaz veio passar pelo pé dele, que lhe perguntou:

— Viu você por aí um cão de caça?

— Não vi, mas senti mexer no valado que é muito fundo; talvez seja o bicho, que não pode de lá sair.

O certo foi que o mercador perdeu o cão e o dinheiro, e foi-se embora sem nada. O rapaz disse ao pai:

— Agora há de me comprar um freio para eu me tornar em cavalo.

O pai assim fez; correu com o cavalo todas as ruas. O Mestre das Artes de Paris, que o tinha tido em casa logo conheceu o cavalo e fez com que o homem lho vendesse por todo o preço. Não olhou a dinheiro, e tomou conta do cavalo, e meteu-o na cavalheiriça sem lhe tirar o freio, a ponto de ele não poder comer nada.

O Mestre das Artes tinha três filhas e recomendou-lhes que não fossem à cavalheiriça. Logo que o pai saiu elas disseram umas para as outras:

— Vamos ver o que tem a cavalheiriça.

Foram e viram um cavalo lindo, muito bem feito, e viram que ele não podia comer nada.

— Coitadinho! tira-se-lhe o freio a ver se come.

Tiraram-lhe o freio, e assim que ele disse: — Ai de mim, pássaro! — voa logo pela janela fora. Encontrou o Mestre das Artes no caminho, que o conheceu e disse: — Ai de mim milhafre! — que era para matar o pássaro.

Ficou ele muito alcançado de ver o milhafre atrás de si, e disse:

— Ai de mim anel! — E caiu nas ondas do mar, e uma garoupa engoliu-o. A garoupa foi ter a outro país; um pescador pescou-a e foi vendê-la a palácio. A princesa foi ver concertar o peixe; viu no buxo um anel. A criada lavou o anel e deu-o à princesa; ela estimava o anel mais que todas as outras joias que tinha. A princesa ao deitar-se tirava o anel e punha-o sobre uma banca. O anel de noite, tornava-se em homem, e punha-se a conversar com a princesa, que cheia de medo chamava o rei seu pai. Neste ponto o homem tornava-se formiga, e o rei vinha e não via nada. Sucedeu isto três noites; na última ele disse à princesa:

— Eu sou a prenda que trazeis no dedo; tenho de dizer a sua alteza, que o rei seu pai está muito doente; os médicos não lhe dão cura. Só o Mestre das Artes de Paris é que lhe dará cura; mas ele não há de querer dinheiro, nem prenda, nem joia nenhuma. Só há de pedir ao rei o anel que traz a princesa; não lho dê vossa alteza na mão, mas deixe-o cair ao chão.

Ela fez como o rapaz lhe tinha pedido. Soube-se da doença do rei, até que foi chamado o Mestre das Artes, que teimava em querer o anel. A princesa zangada da teima, atirou com o anel ao chão. O anel disse: — Ai de mim, painço!

E derramou-se em painço pelo chão. O Mestre das Artes tornou-se em galinha para apanhá-lo, e o rapaz tornou-se em comadrinha (doninha), pegou às dentadas na galinha e matou-a.

Mal acabou, tornou-se em homem e explicou tudo ao rei, e como ele é que tinha ensinado a cura do rei casou-o com a princesa e foram muito felizes.

(Ilha de S. Miguel — Açores.)

As fiandeiras (Fábula), de Teófilo Braga



As fiandeiras

Era uma mãe que tinha uma filha e só pensava em casá-la bem. Foi a casa de um mercador que vendia linho, e pediu-lhe para que lhe vendesse uma pedra de linho, porque a filha fiava tudo num dia. Trouxe o linho para casa e disse à filha:

— Tens de me fiar esta pedra de linho hoje mesmo, porque amanhã vou buscar mais. Quando voltar a casa quero achar o linho todo fiado.

A pequena foi sentar-se à porta, a chorar, sem saber como obedecer à mãe. Passou uma velhinha:

— A menina o que tem, que está a chorar desse modo?

— O que hei de ter! É minha mãe que quer à força que lhe fie num dia uma pedra de linho, e eu não sei fiar.

— Deixe a menina estar que eu lhe fio tudo se me prometer que no dia do seu casamento me há de chamar três vezes tia.

A menina olhou para dentro de casa, e viu o linho remexido, e todo fiado. No dia seguinte a mãe foi à loja, gabou muito a habilidade da filha, e pediu outra pedra de linho para ela fiar. A pequena foi sentar-se à porta, a chorar, esperando que passasse a velhinha da véspera.

Passou uma outra:

— A menina o que tem, que está a chorar dessa maneira?

A pequena contou-lhe as ordens que tinha recebido da mãe.

— Pois se a menina me promete que no dia do casamento me há de chamar três vezes sua tia, o linho há de aparecer fiado.

A pequena prometeu que sim, e olhando para dentro de casa deu com o linho remexido e pronto.

A mãe foi buscar mais outra pedra de linho, e repetiu-se o mesmo caso; até que passou uma terceira velhinha que lhe fez tudo com a mesma promessa. O comerciante sabendo daquela habilidade quis ver a rapariga, achou-a bonita e esperta e quis casar com ela; a mãe ficou bem contente porque o noivo era muito rico. O comerciante mandou-lhe um grande presente, com muitas rocas e fusos, para que quando casasse, as suas criadas todas fiassem. No dia do casamento fez-se um grande jantar, e todos os seus amigos assistiram; quando estavam à mesa bateu à porta uma velhinha:

— Ai! é aqui que mora a noiva?

— Entre minha tia; sente-se aqui, minha tia; coma alguma coisa, minha tia.

Ficaram todos pasmados de verem uma velha tão corcovada com um nariz muito grande. Mas calaram-se. Instantes depois, bateram à porta; era outra velhinha:

— É aqui que mora a noiva que se casou hoje?

— É, minha tia; entre, minha tia; jante conosco, minha tia.

A velha sentou-se e todos ficaram pasmados do grande aleijão que ela tinha nos queixos. Mas continuaram a jantar. Bateram outra vez à porta; era outra velhinha, que fez a mesma pergunta.

— Ora entre, minha tia; cá a esperávamos, minha tia; há de jantar conosco, minha tia.

Também não causou menos pasmo esta velha toda corcovada e com as costelas embicadas para fora; mas desta vez os curiosos, principalmente o noivo, perguntaram porque tinham aquelas tias tamanhos aleijões.

Disse a primeira:

— Tenho assim o nariz, porque fiei muito, muito, e as arestas do linho puseram-me assim.

— E eu, meu sobrinho, tenho assim os queixos, por que fiei muito, e fiquei assim por tanto riçar os tomentos.

— E eu, sobrinho, fiquei com estas corcovas por estar sempre para um canto com a roca à cinta.

O marido assim que ouviu aquilo, levantou-se e foi pegar nas rocas, fusos, sarilhos, dobadouras e tudo e atirou-os para a rua, e disse que na sua casa nunca mais se havia de fiar, porque não queria que lhe acontecessem à sua mulher tais desgraças.

A filha do Rei Mouro (Fábula), de Teófilo Braga



A filha do Rei Mouro

Um rei mouro tinha duas filhas. A mais nova queria aprender a religião e andava às escondidas com o camarista, que a ensinava. A mais velha vendo-a uma vez sair do quarto do camarista, disse-lhe:

— Deixa estar, mana, que o pai há de saber tudo.

— Ai menina! disse o camareiro, se o rei sabe que anda a aprender a rezar comigo, estamos perdidos.

— Não tenhas medo; alevanta-te de madrugada, aparelha dois cavalos e vamos para a tua terra.

Assim fez; ela encheu três sacos, um de cinza, outro de sal, e outro de carvão, e foram-se ambos por esse mundo fora. Quando o rei soube da fugida, mandou a sua tropa para agarrarem o camarista e a filha, e que os matassem onde quer que os encontrassem. A cavalaria correu a toda a brida, e estava já quase a pilhá-los, quando o camarista, olhando para traz, gritou:

— Ai menina, estamos perdidos.

— Não tenhas medo.

E a menina despejou o saco de cinza e fez-se logo um nevoeiro tão cerrado, que a tropa não pôde dar mais um passo, e voltaram para traz a dizer ao rei:

Armou-se tamanho nevoeiro,

Que não víamos caminho nem carreiro.

O rei mandou-os avançar de novo, e que lhe trouxessem a princesa e o camarista presos.

— Ai menina, estamos perdidos! disse o camarista vendo a cavalaria quase a alcançá-los.

— Não tenhas medo.

E despejou o saco de sal, e fez-se logo ali um grande mar, que os soldados não puderam atravessar. Voltaram outra vez para traz e foram dizer ao rei:

Real senhor, achamos um grande mar

Que os cavalos não puderam passar.

O rei deu outra vez ordem de ir agarrar a filha e o camarista:

— Ai menina, estamos perdidos.

— Não tenhas medo.

E despejou o saco do carvão, e logo se fez uma noite muito escura, com grandes trovoadas e relâmpagos. As tropas voltaram, e foram dizer ao rei:

Real senhor, fugimos em debandada

Com tantos raios e tamanha trovoada.

O camarista já estava perto da sua terra, e a princesa disse-lhe:

— Eu salvei-te da morte; mas agora em chegando à tua terra já te não lembras mais de mim.

Assim aconteceu. Ela com tristeza vestiu-se de viúva, e pôs uma estalagem para poder viver. O camarista convidou três amigos, e disse-lhes:

— Havemos ir cada um por sua vez pernoitar àquela estalagem.

Foi o primeiro, e disse que desejava ficar ali aquela noite. A estalajadeira disse que sim. Ele ficou muito contente. Quando foi para o quarto, começou a despir-se e a vestir-se, a vestir-se e a despir-se e ficou nisto até de manhã, em que já estava muito cansado. Assim que foi dia a estalajadeira, que tinha visto tudo do andar de cima, disse-lhe que se pusesse no meio da rua, porque tinha estado a fazer zombaria da sua casa. Veio o segundo, e também pediu para pernoitar; levou toda a noite a despir e a vestir a camisa, sem poder parar. Pela manhã também foi posto fora com igual descompostura. Veio o terceiro; pediu para pernoitar, e ela deu-lhe licença. Quando se ia deitar, disse que tinha muita sede:

— Pois vá ao quintal, e tire água daquele poço.

Toda a noite o pobre do homem esteve dando à nora, e só quando foi de dia é que apareceu a estalajadeira, que o fez parar e o pôs fora, dizendo que tinha vindo fazer zombaria da sua casa. Chegou o quarto amigo, e também pediu para pernoitar; ficou muito contente com a licença, porque os outros guardaram sempre o segredo do que lhes acontecera. Quando a estalajadeira estava deitada, disse:

— Ai que me esqueceu fechar a porta da rua.

— Vou eu fechá-la.

E toda a noite o hóspede andou para cá e para lá a fechar a porta da rua, até que pela manhã estava estafado, e a estalajadeira o pôs fora, por lhe querer quebrar a porta.

Os quatro amigos reuniram-se e contaram uns aos outros o sucedido. Mas ainda assim o camarista, que era um deles, não se lembrava nem por nada da amante que abandonara com tanta ingratidão. Como ele estivesse para casar na sua terra, segundo o costume, tinha de dar um jantar três dias antes do casamento às pessoas com quem vizinhava. Foi também convidar a estalajadeira viúva. Ela foi ao jantar. Quando estavam todos à mesa, combinou-se que cada um contaria a sua história:

— A senhora, apesar de estar com esse desgosto, há de também contar o seu conto.

A estalajadeira pediu que lhe apresentassem duas tigelas. Bateu com uma na outra, e apareceram um pombo e uma pomba. E disse a pomba:

— Não te lembras quando me ensinavas a rezar às escondidas de meu pai?

Disse o pombo:

— Lembro-me.

— E não te lembras quando minha irmã disse que ia contar tudo ao pai, e que disseste: Ai que estamos perdidos?

E assim foi perguntando, e o pombo respondendo a tudo o que se tinha passado com a filha do rei mouro. Só ao fim de muitas perguntas é que os convidados começaram a reparar em circunstâncias que se tinham dado com os quatro amigos, e o camarista conheceu a sua ingratidão:

— Real senhora, eu é que sou esse esquecido; e já desfaço aqui este casamento, para receber quem por mim deixou pai e mãe e a sua terra.

As três fadas (Fábula), de Teófilo Braga



As três fadas

Era uma vez uns casados que não tinham filhos, e viviam por isso muito descontentes. A mulher foi-se confessar ao Padre Santo Antônio, e contou-lhe o seu desgosto. O santo deu-lhe três maçãs, para que as comesse em jejum. A mulher chegou a casa, pôs as três maçãs sobre uma cômoda, e foi arranjar o almoço. O marido vindo de fora encontrou as três maçãs e comeu-as.

Ao almoço a mulher contou o sucedido na confissão, e o marido ficou todo assustado. A mulher foi outra vez falar com o santo, que lhe disse:

— Pois os trabalhos por que tinhas de passar, o teu marido que os passe.

Chegado o tempo o homem começou a gritar, chamou-se pessoa entendida, e abriram-no para o aliviar. O homem desesperado mandou deitar a criança no monte. Uma águia desceu do ar e levou a criança no bico e lá a criou com o leite que ia tirar às vacas que andavam pastando, e agasalhava-a com a roupa que pilhava pelos estendedouros. Fez-lhe uma casinha de palha, e ali se criou a pobre criança, que se tornou uma menina formosa.

Um dia passou por aquelas montanhas um príncipe que andava à caça; viu aquela menina tão linda, e perguntou-lhe se ela queria ir com ele. Respondeu que sim. Quando a meteu na carruagem, acudiu a águia para lha tirar, mas não podendo ainda lhe vazou um olho. A menina ficou com aquele grande defeito, mas o príncipe não deixou de a amar. Levou-a consigo, e escondeu-a no seu quarto no palácio. A rainha desconfiada de ver o filho sempre fechado no seu quarto, quis saber o que seria, e combinou uma grande caçada, que durava dias. Foram todos e por lá andaram, e a rainha pôde entrar no quarto do filho por uma porta que só ela sabia. Assim que entrou viu a menina:

— Ah! és tu, torta zarolha, que tanto encantas o meu filho? Anda de aí ver estes palácios e o jardim.

A menina foi com a rainha; assim que chegaram ao jardim, levou-a para o pé de um poço muito fundo, e deitou-a lá dentro. Quando veio o filho da caça, foi logo ter com ele:

— Aquela torta zarolha que tinhas fechada no teu quarto, assim que se lhe abriu a porta, botou a correr por aí fora, e ninguém foi capaz de a apanhar.

De noite passaram três fadas pelo pé do poço e sentiram uns gemidos:

— Que será? que não será?

— São vozes de mulher.

Chegaram à borda do poço para escutarem melhor, e disse uma das fadas:

— Eu te fado que saias desse poço cá para fora, e que sejas da maior perfeição do mundo.

— Pois eu te fado que tenhas uma tesourinha de prata, para cortares a língua a quem te perguntar as coisas duas vezes.

— E eu te fado que tenhas um palácio defronte do palácio da rainha, que seja velho por fora, mas por dentro chapeado de ouro e prata.

Ao outro dia, ficaram todos espantados no paço por verem um grande palácio antigo defronte, sem se lembrarem como e quando é que o ali edificaram. A rainha ainda ficou mais pasmada com aquilo, e mandou o seu velho camareiro saber o que era, e quem morava ali.

O camareiro entrou no velho palácio mas ficou assombrado com o que viu por dentro; apareceu-lhe uma menina muito ricamente vestida, a quem fez as perguntas de mandado da rainha. Ela respondeu:

Diga a sua majestade
Que minha mãe me desejou,
Que foi meu pai que me teve
E nas silvas me deitou;
Uma águia me criou,

Na caça o príncipe me achou,
A rainha ao poço me deitou,
Mas três fadas me fadaram,
Para aqui me trouxeram
E eu d’aqui me não vou.

O camareiro não ficou logo com o recado na cabeça, e pediu à menina para o repetir; e ela disse então:

— Desanda tesourinha.

Caiu-lhe a língua num instante; o camareiro voltou para o palácio, e só podia dizer: ló-ló-ró, ló-ló-ró. A rainha mandou lá outro fidalgo, mas também lhe sucedeu o mesmo. Por fim foi lá o príncipe, e quando ouviu aqueles versos que a menina dizia, veio dar parte à rainha, que se quis certificar com os seus olhos, e depois deu licença para o filho casar com ela.

(Algarve)

A saia de esquilhas (Fábula), de Teófilo Braga



A saia de esquilhas

Um homem rico tinha três filhas, e costumava ir passar o verão com elas para o campo; ao voltar para a corte ficou a filha mais velha, que era muito esperta, encarregada de arranjar a bagagem. Depois de ter tudo arrumado e pronto para partir, foi ter com a caseira da quinta, que andava no arranjo da sua casa. Em cima de uma caixa estava uma roca com estopa, e a menina pegou nela para se entreter:

— Menina, não pegue nessa roca; pode meter alguma pua pelas unhas, e olhe que faz grandes dores.

A velha continuou a governar a sua casa, quando sentiu um grito; veio ver o que era. Era a menina que tinha caído desmaiada, sem sentidos. Deu-lhe a cheirar alecrim, alfazema, mas ela não voltava a si. Apoquentada com aquela desgraça, escondeu a menina, e logo que anoiteceu foi deitá-la na tapada real; pôs-lhe uma almofada para recostar a cabeça e cobriu-a com uma manta, fingindo que estava ali a dormir. Passado outro dia foi lá ver se a menina teria dado acordo de si. Nada. Calou-se muito calada e voltou para sua casa.

O príncipe costumava sempre andar à caça, e num dia recolheu-se àquela tapada, porque lhe anoiteceu depressa; mas foi grande o seu espanto quando descobriu ali uma menina muito formosa, a dormir, sozinha. Esteve primeiro a olhar para ela muito tempo; já se sentia apaixonado, e quis acordá-la; ela estava corada e risonha, mas não se movia. O príncipe quis acordá-la, porque bem conhecia que não estava morta, queria-lhe falar. Foi tudo impossível. Ali ficou junto dela, e todas as vezes que podia, fingia que ia para a caça, mas não fazia senão vir sentar-se para o pé da menina que ele já amava com loucura. Só o criado que o acompanhava é que sabia do segredo. O príncipe vinha á corte de fugida só quando era preciso, e tornava para a tapada, onde guardava a menina adormecida, que ainda assim veio a ter três filhos.

As crianças foram crescendo, e cada vez se tornavam mais encantadoras; mas o príncipe tinha uma grande pena da mãe estar naquele estado. Um dia andando um dos pequeninos a brincar em cima da cama, começou a pegar nas unhas da mãe, e por acaso, sem saber como, fez-lhe saltar da unha a pua que causara aquela doença. O príncipe, que estava ali, ficou maravilhado por vê-la mexer-se logo e começar a falar e a beijar os filhos, como se tivesse voltado à vida. O príncipe contou-lhe tudo como se tinha passado até ali, e disse-lhe que os seus três filhos se chamavam Cravo, Rosa e Jasmim. A rainha já andava desconfiada daquelas ausências do filho, e tratava de ver se descobria alguma coisa.

Uma ocasião o príncipe teve de ir a uma grande feira, e perguntou à sua namorada se queria que lhe trouxesse de lá alguma coisa; depois de muitas instâncias sempre disse:

— Pois traze-me de lá uma saia de esquilhas.

Não havia lá isso, mas o príncipe mandou-a fazer de propósito; era uma saia cheia de guizos, que tirilintavam. A menina ficou muito contente com a lembrança. Mas a rainha que maquinava a sua vingança, e que pelo pajem que acompanhava o filho já sabia tudo, fez com que o príncipe se demorasse muitos dias na corte. O filho com medo do gênio ruim da rainha não dizia nada, mas andava cheio de saudades; foi de uma vez que ela lhe ouviu um suspiro:

— Ai de mim,

Cravo, Rosa e Jasmim.

Isto lhe confirmou a verdade; a rainha chamou o pajem e disse-lhe:

— Vai já, quando não mando-te matar, e traze-me aqui o menino Cravo. Diz lá à minha nora que é ordem do príncipe, que me contou tudo.

O pajem trouxe o menino; mas a velha rainha entregou-o á criada dizendo:

— Ensopa-me esse menino para o jantar.

Quando o filho estava jantando, e com fastio, porque andava muito triste, a mãe disse-lhe:

— Come, come, que teu é.

Passados dias a rainha deu ordem ao pajem para ir buscar a menina Rosa. Seguiram-se as mesmas coisas. Depois deu ordem para lhe trazer o menino Jasmim. O príncipe já andava doente, e a velha rainha, dizia-lhe sempre à mesa:

— Come, come, que teu é.

Por fim não contente ainda desta vingança, mandou dizer à nora, que viesse à corte, porque a queria casar com o seu filho. A menina que já andava morta de saudades, por se ver sem os seus filhos, vestiu-se à pressa com a sua saia de esquilhas, e partiu para a corte. A rainha estava à espera dela e assim que a viu, deixou-a entrar para um corredor, e lançou-lhe as unhas furiosa para a afogar. A menina lutou para ver se lhe escapava, e quanto mais lutava, mais barulho fazia a saia de esquilhas.

O príncipe, que estava de cama, assim que ouviu aquele som lembrou-se de sua mulher e levantou-se para ir ver o que era. Viu a rainha querendo estrangular a nora. Chamou gente; e foi então que se soube das ordens que a rainha tinha dado para matarem os netos. O príncipe ainda ficou mais aflito e começou a gritar:

— Ai de mim,

Cravo, Rosa e Jasmim!

Foi então que a criada da coxinha disse que não tinha cumprido as ordens da rainha, e que tinha escondido os meninos. A rainha foi condenada, e o pajem sentenciado à morte, e a cozinheira em paga foi feita dama da nova rainha.

(Algarve.)

O sal e a água (Conto), de Teófilo Braga



O sal e a água

Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:

– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.

Respondeu a do meio:

– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.

A mais moça respondeu:

– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.

O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.

Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, por que é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:

– É porque a comida não tem sal.

O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

5/08/2019

Os dez anõezinhos da tia verde-água (Conto), de Teófilo Braga


Os dez anõezinhos da tia verde-água

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:

– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.

– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.

E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez:

– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.

A velha respondeu-lhe:

– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?

– Ainda não; o que eu queria era vê-los.

– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que soo os dez anõezinhos.

A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.

O sargento que foi ao Inferno (Conto), de Teófilo Braga



O sargento que foi ao Inferno
Havia numa terra um sargento, que era muito bom rapaz; um rico mercador tomou-lhe amizade, arranjou-lhe a baixa e tomou-o para seu empregado. Como o mercador tinha filhas, o sargento apaixonou-se por uma delas: ora o mercador era muito desconfiado e nunca deixava sair as filhas de casa, mas pela grande conta em que tinha o rapaz ele mesmo lhe falou para se fazer o casamento. Tudo corria muito bem; vai, acontece ir uma peça muito linda no teatro, e como as filhas desejassem ver, pediram ao sargento, que só ele é que era capaz de apanhar licença do pai para as deixar ir ver. O mercador ficou carrancudo, mas deu licença, dizendo: 
– Deixo ir as minhas filhas com o senhor, e é com a condição, que quando der a última badalada da meia-noite hão de estar aqui à porta. 
Disseram todos que sim, e partiram. 
Quase perto da meia-noite, o rapaz disse para a sua noiva, que era bom retirarem-se para casa. Mais um bocadinho, mais um bocadinho; pede daqui, pede dali, o certo é que já tinha dado a meia-noite, eles ainda longe de casa. 
Assim que o rapaz bateu à porta, abriu-se logo de repente, e o mercador começou a bradar:
– Foi assim que o senhor cumpriu as ordens que eu lhe dei? Pois trate já de arranjar as suas coisas que nem já esta noite me fica em casa. 
– Oh senhor, então só por isto! E quando estava já para casar com sua filha!
 O velho respondeu-lhe: 
– Só tem um meio de poder casar com minha filha, e voltar para casa. 
– Qual? 
– Vá ao Inferno, e traga-me três anéis que o Diabo tem no corpo, dois debaixo dos braços, e outro num olho. 
O rapaz achou aquilo impossível; mas que remédio teve senão pôr-se a caminho. Na primeira terra a que chegou, pregou um edital em que dizia: "Quem quiser alguma coisa para o Inferno, amanhã parte um mensageiro." Isto causou grande curiosidade, até que chegou aos ouvidos do rei, que mandou chamar o rapaz. Perguntou-lhe o rei: 
– Como é que você vai ao Inferno? 
– Real senhor, por ora ainda não sei; ando em procura dele, e irei lá, dê por onde der.
 – Pois bem, disse o rei, quando encontrares o Diabo, pergunta-lhe se ele sabe de um anel de muito valor que eu perdi, do que ainda tenho grande desgosto. 
Chegou o rapaz a outra terra e botou o mesmo anúncio. O rei também o mandou chamar: 
– Tenho uma filha que padece uma doença muito grande, e ninguém lhe acerta com o mal. Já que vais ao Inferno quero que saibas por lá onde é que estará a cura. 
O rapaz partiu sempre à procura do Inferno, e foi dar a uma encruzilhada em que estavam dois caminhos, um com pegadas de gente, e o outro com pegadas de ovelhas. Pensou, e por fim seguiu pelo caminho das pegadas de gente; ao meio dele encontrou um ermitão, de barbas brancas, que rezava em umas camândulas muito grandes, e lhe disse: 
– Ainda bem que tomaste por este caminho, porque esse outro é o que vai para o Inferno. 
– Oh, senhor! E eu há tanto tempo que ando à procura dele! 
O rapaz contou-lhe todo o acontecido; o ermitão teve compaixão dele, e disse: 
– Já que tens de ir ao Inferno, vai, mas sempre leva contigo estas contas, porque antes de lá chegar tens de passar um rio escuro, e há de ser um pássaro que te há de levar para o outro lado; e quando ele te quiser afundar no rio, joga-lhe as contas ao pescoço. Daqui em diante não sei mais o que te sucederá. 
Assim aconteceu. Chegado ao Inferno o rapaz teve um grande medo, e viu para ali um forno vazio e escondeu-se dentro dele. Quando estava todo agachado, passou uma velha muito velha e viu-o. 
– O menino aqui! Ora coitadinho, que é tão lindo; se o meu filho o visse matava-o, com certeza. O que veio cá fazer? 
O rapaz contou tudo à mãe do Diabo; a velha teve pena dele, e disse-lhe: 
– Olhe; pois deixe-se ficar aqui escondido, porque eu não sei quando o meu filho virá; ele está assistindo à morte do Padre Santo, que está nas agonias, e quer-lhe apanhar a alma. O rapaz pediu à velha se sabia do Diabo as perguntas de que trazia encomenda. Quando estavam nestas conversas chegou o Diabo bufando; a velha escondeu-o logo, e disse: 
– Anda cá, filho, para descansares; deita-te aqui no meu colo. 
O Diabo deitou-se e ficou logo a dormir. A velha foi muito devagarinho com as unhas e arrancou-lhe um anel que tinha debaixo do braço. O Diabo mexeu-se desesperado, gritando: 
– Isto o que é? 
– Ai, filho, fui eu que me deixei dormir, e dei uma pendedela em cima de ti. Estava a sonhar com aquele rei que perdeu o anel, e que nunca mais o tornou a achar. 
– Pois é verdade esse sonho, respondeu o Diabo; está debaixo de uma laje ao pé do repuxo do jardim. 
O Diabo tornou a ficar a dormir; a velha sorrateira arrancou-lhe o segundo anel. O Diabo tornou a acordar desesperado: 
— Tem paciência, filho; tornei-me a deixar dormir e a sonhar com a filha daquele rei que nenhum médico sabe curar. 
– Também é verdade; a doença dela é o sapo-sapão, que está metido no enxergão. 
Tornou o Diabo a dormir. Para arrancar o anel do olho é que foram os trabalhos. 
A velha tirou-o com um espéculo, e o diabo com a dor e zangado com as pendedelas, saiu pela porta fora. O rapaz recebeu tudo da velha; voltou para o mundo, quando ela chamou o pássaro: "Menino, menino, menino." Foi dali entregar as contas ao ermitão. Depois passou pela terra do rei que tinha perdido o anel, que lhe deu muito dinheiro quando o tornou a achar debaixo da laje. Depois passou pela corte do rei que tinha a filha doente, disse onde estava o sapo-sapão. A princesa melhorou logo, e o rei pediu-lhe para que dissesse a paga que queria. 
– Quero que Vossa Majestade me dê o seu poder por oito dias. 
O rei mandou deitar um pregão para ele governar oito dias; o rapaz partiu logo para a terra do sogro, e deu ordem logo que lá chegou para o mercador dentro em meia hora lhe vir falar à sua presença. O mercador foi, mas quando chegou era já mais de uma hora. O rapaz disse: 
– Podia-o mandar matar, por me ter desobedecido, em vir depois da meia hora. 
– Oh senhor, não me demorei por minha vontade. 
– Pois sim. Mas por que não soube em tempo desculpar aquele pobre sargento que pôs fora de sua casa? 
O mercador conheceu então o antigo noivo de sua filha, que tinha sempre chorado, confessou o seu erro, e pediu-lhe de joelhos muitos perdões. O rapaz entregou-lhe os anéis do Diabo, e nesse mesmo dia casou com a sua namorada, por quem tinha metido um pé no Inferno.