quarta-feira, 15 de maio de 2019

A carpideira e a viúva (Fábula), de Teófilo Braga


A carpideira e a viúva

Como diz o outro: A viúva rica, por um olho chora e pelo outro repenica. Uma viúva chamou uma mulher para vir fazer o pranto do costume pela morte do marido. A carpideira começou a dar ais, e a arrepelar-se, e dizia na sua caramunha:

Ai, ai, ai,
Quem lá vai, lá vai.

Passou uma mulher e perguntou-lhe o que é que ela estava a fazer; respondeu a carpideira:

Estou a chorar
O marido alheio,
Por um alqueire
De centeio;
Não sei se mo dão
Meado ou cheio.

A anojada, que já não podia encobrir a satisfação de se achar livre do que a tocava, começou aos saltos e a responder-lhe:

Há de ser calcado
E acuculado,
E ainda por cima
Mais um punhado;
Contanto que fique
Bem depenado.

(Airão, Terra da Feira, Coimbra)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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