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3/21/2024

Chapeuzinho Vermelho (Conto), de Figueiredo Pimentel



 CHAPEUZINHO VERMELHO

Existia na capital de um país distante, uma meninazinha muito galante, muito linda.

Chamava-se Albertina, mas toda gente a conhecia por Naná. Sua avó estimava-a imensamente.

Esta boa avozinha, não sabendo mais o que inventar para alegrá-la, deu-lhe um chapeuzinho de veludo vermelho.

A pequenita ficou satisfeitíssima com seu novo chapéu, a ponto de não querer usar outro, e, como andasse constantemente com aquele, quando a viam aproximar-se, tão bonitinha, chamavam-lhe Chapeuzinho Vermelho.

Sua mãe e avó moravam a meia légua de distância uma da outra, e entre as duas habitações havia uma floresta.

Uma manhã, a mamãe disse para Naná:

- “Tua avozinha está doente e não pode vir ver-me. Eu também não posso ir lá. Assim, vai tu levar-lhe um bolo e uma garrafa de vinho. Toma cuidado: não quebres a garrafa, nem te divirtas em correr pela floresta. Segue sossegada pelo caminho, e volta depressa.”

- “Sim”, respondeu Chapeuzinho Vermelho. “Obedecê-la-ei, mamãe.”

Vestiu-se com aventalzinho muito limpo, colocou a garrafa numa cestinha, e seguiu contente.

Desobedecendo a mãe entrou num outro caminho para colher flores, quando a pareceu um lobo.

A menina não conhecia os lobos, e olhou para aquele sem receio algum.

- “Bom dia, pequeno Chapeuzinho Vermelho”, disse o lobo.

- “Bom dia, senhor”, respondeu Naná, delicadamente.

- “Onde vai tão cedo?”

- “Vou à casa da minha avó, que está doente.”

- “E leva-lhe alguma coisa?”

- “Sim um bolo e uma garrafa de vinho que mamãe mandou.”

- “Diga-me, minha interessante menina: onde mora sua avó? Quero ir vê-la também.”

- “Mora à beira da floresta, não muito longe daqui. Ao lado da casinha há árvores muito grandes e no jardim laranjeiras.”

- “Ah! tu é que és uma laranjinha muito apetitosa”, disse o lobo consigo mesmo, e acrescentou algo:

“Olha que lindas árvores e que lindos passarinhos! É na verdade um belo divertimento a gente passear na floresta, onde se encontram tão boas plantas medicinais.”

- “Sem dúvida alguma o senhor é médico”, replicou Albertina, “pois conhece as plantas medicinais.

Talvez pudesse indicar-me alguma, que fizessem bem à vovó.”

- “Perfeitamente, minha filha: aqui tem várias... esta, essas, aquel’outra...”

Mas todas as plantas que o lobo ia indicando eram venenosas.

A inocente criança, entretanto, colheu-as para levá-las à sua vovó.

- “Adeus, meu gentil Chapeuzinho Vermelho, estimei muito encontrar-me com você. Vou deixá-la, pesaroso, pois tenho que ir depressa ver alguns doentes.”

Assim falando, correu ràpidamente para a casa da velha, enquanto Naná se divertia colhendo as plantas que ele indicara.

Chegando à residência da velha senhora, achou a porta fechada e bateu.

A avó não podendo levantar-se da cama, falou:

- “Quem bate?”

- “É o pequeno Chapeuzinho Vermelho”, respondeu o lobo, mudando de voz, “mamãe mandou-lhe um bolo e uma garrafa de vinho.”

- “Entre minha netinha. A chave está aí em baixo da porta.”

O lobo encaminhou-se para a cama da doente.

Aí, engoliu-a de uma só vez, e, vestindo as roupas da velha, esperou deitado no leito.

Um instante depois chegou Albertina, que ficou admirada por ver a porta escancarada, sabendo o cuidado de sua avó.

O lobo tinha colocado uma touca na cabeça; apenas se percebia um pouco da sua cara.

Mas assim mesmo, o que se via era horroroso.

- “Ah, avozinha”, disse o pequeno Chapeuzinho Vermelho, “para que é que a senhora tem orelhas tão grandes?”

- “Para melhor te ouvir, minha neta.”

- “Para que tem braços tão compridos?”

- “Para melhor te abraçar, minha neta.”

- “Para que tem uma boca tão grande e dentes tão compridos?”

- “Para te comer...”

Dizendo isso, o lobo avançou para a desgraçada menina, e engoliu-a.

Achando-se plenamente satisfeito, adormeceu, e durante o sono ressonava terrivelmente.

Um caçador, passando por acaso perto da casinha, e ouvindo esse ruído extraordinário, disse:

- “A velhinha está talvez com um pesadelo. Quem sabe mesmo se não está mal? Vou ver se posso servir para alguma coisa.”

Entrou e descobriu o lobo estendido na cama.

- “Olé! Você por aqui! Há quanto tempo o procuro!”

Armou a espingarda, mas lembrou-se:

- “Não vejo a dona da casa, e bem pode ser que ele a tenha engolido viva.”

Então, com a sua faca de caça, abriu habilmente a barriga do lobo.

Apareceu Chapeuzinho Vermelho, que saltou no chão, exclamando:

- “Ah! que lugar terrível em que eu estava encerrada!”

A avó saiu também, muito satisfeita por tornar a ver o dia.

A fera continuava a dormir profundamente.

O caçador meteu-lhe duas pedras na barriga, e em seguida coseu a pele, ocultando-se depois com a avó e a neta.

Quando o lobo acordou, devorado por uma sede ardente, dirigiu-se para o tanque.

Enquanto caminhava ouviu as pedras batendo lá dentro, e ficou pasmado, sem saber o que era.

Chegando ao tanque, arrastado pelo peso das pedras, afogou-se.

Naná desde esse dia, vendo quanto é mau uma filha ser desobediente, prometeu nunca mais deixar de seguir as recomendações de sua mãe, e sempre cumpriu a promessa.


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2024.

6/24/2021

O papagaio encantado (Conto popular), de Figueiredo Pimentel

 

O papagaio encantado

Longe, muito longe daqui, lá para as bandas onde o sol nasce, dizem que existia maravilhoso país, diferente em tudo e por tudo do nosso. 

Governava-o um soberano, um rei, que fez a felicidade dos seus súditos, pelos generosos dotes de coração que abrigava; pelo seu amor e respeito à Justiça, ao Direito, à Liberdade, à Igualdade e à Fraternidade; e, sobretudo pela sua grande sabedoria. 

Chamava-se Marval, e tinha três filhas, qual delas a mais bonita: a primeira tinha por nome Alice, – a do meio – Rosa, e a terceira, – Amanda. 

Um dia ordenou-lhes o pai que elas lhe contassem todos os dias, pela manhã, o sonho que por acaso, cada uma tivesse durante a noite. 

As meninas receberam essa ordem com certa estranheza. Contudo, como eram mui obedientes, prometeram cumprir o que lhes era mandado. 

À noite, antes de se deitarem, em conversa, começaram a discutir aquela ordem absurda e tão fora de propósito. 

Dizia Alice, a mais velha: 

 Estou admirada da ordem que o nosso pai nos deu, manas, tão esquisita é ela; e nem sei que farei amanhã, se acaso sonhar uma tolice, como às vezes sucede a gente sonhar. Com certeza terei pejo em narrá-la. 

— Eu não, disse Rosa, não tenho vergonha alguma de meu pai, e contarei tudo, se tiver algum sonho. 

— E eu, falou Amanda, a caçula, já que, é a vontade do meu pai, dir-lhe-ei tudo nem que saiba zangar-se ele depois comigo. 

No dia seguinte, pela manhã, Marval mandou, dizer às moças que já estava à espera, para elas lhe contarem os seus sonhos. 

As duas primeiras nada tinham sonhado, por isso nada disseram. Amanda, porém, sonhara que por aqueles dias havia de se casar com um príncipe muito lindo e muito rico, senhor de um país onde as casas eram de ouro e pedras preciosas, e que cinco reis haviam de lhe beijar a mão, achando-se entre eles seu pai. 

O monarca, zangadíssimo com a filha, declarou que se ela sonhasse outra vez semelhante coisa, e tivesse coragem de lhe relatar outro sonho, assim tão soberbo, mandaria matá-la. 

As duas irmãs ficaram tristes, quando souberam do sonho de Amanda e foram lhe pedir para não contar outro, que por ventura tivesse, no mesmo sentido, sendo nesse caso preferível mentir. 

— Papai disse que te mandaria matar. Ora, bem sabes que palavra de rei não volta atrás. Por isso acho bom nada mais lhe narrares. 

No dia seguinte a menina quis enganá-lo. Mas como não sabia mentir, chegou-se para ele chorando muito, e lhe contou entre lágrimas, o sonho da véspera, que se repetira naquela noite. 

Marval enfureceu-se com a desobediência da filha, pensando, que ela estava procedendo propo­sitadamente. Mandou, pois, que os criados a levassem para uma floresta distante, e a matassem; trazendo-lhe o dedo mindinho, como prova de sua morte. 

As irmãs, tendo notícia da sentença, de joelhos, pediram ao rei que a perdoasse, pois se Amanda havia contado o sonho, foi porque lho tinha sido ordenado; que elas duas lhe haviam aconselhado não repetir a narração, mas, como era muito verdadeira, não quis mentir, e confiara na bondade do pai para absolvê-la. 

— Antes papai a mande presa para a torre dó castelo, opinou Rosa, sem poder sair, senão uma vez por ano. 

Continuando a suplicar o perdão da irmã, ou, pelo menos, a comutação da pena, Rosa e Alice inventaram mil castigos. O rei, todavia, foi inflexível; não revogou a ordem, e as meninas saíram dali com o coração cheio de dor, pela próxima perda da irmãzinha que tanto estimavam. 

No outro dia, assim que rompeu a madrugada, a princesa Amanda partiu para a Floresta Negra, toda de luto, com um véu preto, que lhe cobria completamente o rosto, a ponto de torná-la desco­nhecida. 

Ordenara-lhe Marval o uso desse véu, para que a corte ignorasse o fato, e não começasse a propalar a sua maldade. 

Os próprios criados de confiança, que foram designados para matar a princesa, não sabiam quem era aquela moça toda de preto, com um véu tão espesso, que não deixava ver sequer a sua fisionomia. 

Antes de chegarem à Floresta Negra, os emissários reais encontraram uma velhinha, uma mendiga, que todos os dias ia receber esmolas que Amanda lhe dava. 

Essa velhinha, que era adivinha, ao ver passar aquela gente tão cedo, ainda de madrugada, conheceu logo a princesa, e gritou: 

— Adeus, princesa Amanda, minha benfeitora, filha do muito poderoso rei Marval! Desejo-lhe muitas venturas. Vá depressa, que seu noivo está à sua espera!... 

A moça, que ia muito triste, pensando na sua sorte desgraçada, mais triste ficou, por se lembrar que a pobrezinha ia passar sem esmolas. 

Não obstante não poder parar, nem um segundo, sob hipótese alguma, a carruagem que ia, teve ela ainda tempo de atirar uma moedinha, que se achava acaso no bolso do vestido. 

A velha, compreendendo o bom coração da menina, exclamou: 

— Deus nunca desampara os bons, princesa Amanda! Nossa Senhora há de acompanhá-la e protegê-la! 

Ora, entre os criados que haviam ido levar a princesa, para matá-la na Floresta Negra, achava-se um, de nome João, já velho, que a tinha criado. Sabendo, pelas palavras da mendiga, que a moça a quem levavam para assassinar tão cruelmente, ser a sua querida, a sua extremosa, sua dileta filhinha, – como ele chamava e considerava a princesa, – protestou logo no não-cumprimento da ordem real, sucedesse o que sucedesse. 

Firme nesse propósito, logo que o cortejo chegou à entrada da Floresta Negra, João disse aos seus companheiros que fora ele o encarregado de matar a moça; e por isso que o esperassem ali, pois não precisava de ajudante para tal serviço. Levou a menina para longe, no meio da mata, e como estimava muito a princesinha teve pena de matá-la. Trouxe, todavia, para o rei não desconfiar, o dedo mínimo de Amanda como, prova de sua morte, e em cumprimento à ordem que rece­bera. 

Assim que a jovem Amanda se viu só, principiou a chorar de medo, porque ouvira dizer que aquela floresta era mal-assombrada. Começou a andar; e, andando muito, já bastante fatigada, chegou a um buraco. 

Aproximou-se dele, e assim que transpôs a entrada, percebeu que quanto mais caminhava, tanto mais largo se tornava ele, do mesmo modo que o terreno mais pedregoso e cheio de raízes, se cobria de relva fina e macia, que seus pés cans­ados pisavam. 

Prosseguindo sempre, deparou-se-lhe deslumbrante palácio todo de mármore cor-de-rosa, e janelas e portas de ouro. 

Sentindo-se bem, ficou residindo aí, satisfeita, almoçando, jantando e ceando, sem no entanto ver pessoa alguma, o que de algum modo a impressionava. 

A única coisa que quebrava o silêncio desse palácio, era um papagaio, que falava dentro de um quarto fechado e cujas portas jamais se abriam. 

*** 

Havia algum tempo já que Amanda ali se achava, vivendo, cada vez mais serena e feliz, apenas muitíssimo triste, quando um dia, lhe apareceu um moço, formoso, ricamente vestido. Entregou-lhe ele a chave do quarto, dizendo que po­dia abri-lo, o que fez sem mais demora. 

Foi um deslumbramento. Ficou maravilhada de ver papagaio tão grande, tão bonito, de asas tão douradas que parecia o sol, e tendo na cabeça um diamante de inexcedível preço, e lindo, lindíssimo, sem igual no mundo. 

Ao ver aproximar-se a moça, a ave sacudiu as penas, contentíssima, e disse: 

— Bons-dias, princesa Amanda, filha do rei Marval! Como vem tão bonita, tão formosa! 

 Mais formoso do que eu, és tu, meu lindo papagaio dourado... 

Ainda bem não havia terminado a última palavra, e o papagaio transformou-se no lindo moço que lhe tinha aparecido para lhe dar a chave do quarto. 

Esse moço era sua alteza o príncipe imperial Calcim, filho e herdeiro de Manarés XI, imperador da região das Pedras Raras. Fora transformado num papagaio, e deveria permanecer nesse estado até encontrar uma princesa que descobrisse o palácio subterrâneo e o desencantasse. 

Assim, meses após, celebrou-se o seu casamento com Amanda, comparecendo cinco reis tributários do imperador Manarés XI, entre os quais se achava o rei Marval para beijarem a mão da noiva. 

Todos os outros beijaram a mão da princesa, mas, quando chegou a vez de Marval, a nova imperatriz recusou-a. 

Escandalizado com tão grave injúria, à vista dos outros reis, Marval perguntou o motivo do procedi­mento da princesa. 

Calcim, querendo dar uma satisfação da recusa, perguntou a Amanda por que assim procedia com um rei tão ilustre e senhor de uma nação poderosa e amiga. 

A moça narrou, então, a sua história, que foi ouvida por todos com a máxima atenção. Marval foi muito censurado, mas, mostrando-se arrependido, obteve o seu perdão, e viveu feliz ainda muitos anos.

5/13/2021

A felicidade (Conto), de Coelho Neto

 


A felicidade 

Em volta do palácio, que era todo de fino e reflorido mármore, estendia-se, a perder de vista, o rumoroso acampamento. 

Gente de toda a casta, homens de todos os países: uns cobertos de cerdosas peles, outros seminus, com uma tanga ligeira em torno dos rins; ainda outros com albornozes longos, fotas recamadas de pedrarias, papuzes de couro florejado, armas à cinta, seguidos de muitas lanças; e eram reis, e eram príncipes. Sacerdotes com os seus ídolos; sábios com os seus papiros; poetas com as suas liras; mercadores com os seus escravos: guerreiros com os seus escudos e tímidos, agachados entre os carros, disputando um lugar aos camelos enxareilados e aos ginetes cobertos de telizes, mendigos maltrapilhos que se encolhiam com medo. 

Todos esperavam que se abrisse a enorme porta de bronze e aparecesse o gênio que devia, por inculca do Destino, buscar o afortunado a quem coubesse o palácio com as suas inúmeras riquezas. 

Todos contavam com a ventura e já se imaginavam o eleito da Fortuna quando, ao clangor de uma buzina, a porta abriu-se de par e na soleira assomou o gênio. 

Alto e gracioso mancebo, de um louro fulvo, de Sol, que mais fazia realçar a alvura do rosto, de beleza feminina e meiga. Túnica de cor celeste, com flores de ouro, cobria-lhe ondulantemente o corpo airoso. À mão trazia, à maneira de cetro, largo trifólio engastado em comprida haste, também de ouro. 

Os homens, tolhidos em maravilhado assombro, não tiravam os olhos do mancebo. Viram-no descer as escadas, seguir à sombra dos alamos, chegar ao acampamento e, indo, sem indecisão, por entre tendas de púrpura e tendas de linho, entrar num bosque onde um homem, enrolado em farrapos, roía, com voracidade, um osso disputado aos cães. 

O gênio deteve-se; e, então, acenando ao miserável com o trifólio, ajoelhou-se na terra sórdida e, veneradamente, o elegeu senhor do palácio e de toda a sua riqueza. 

Foi um desapontamento na turbamulta. Ninguém se conformava com a estranha escolha do Destino. Pois onde havia reis, príncipes, altos senhores, poetas, sábios que liam nas estrelas, sacerdotes que se comunicavam com os deuses, mercadores que possuíam frotas nos mares e minas no seio da terra, havia de ser um roto mendigo o favorito?... 

Logo se arrancaram as lendas, arrearam-se os animais, jungiram-se os bois aos carros e, lentamente, começou o desfilar das caravanas. 

Ao limiar do palácio saíram a esperar o mendigo fâmulos e ancilas e, por entre colunas de coral e ouro, por baixo de abobada trêmula de iriados flabelos, pisando moles tapetes e ouvindo o fresco cantar das fontes, extasiadamente o miserável atravessou o peristilo, os corredores luminosos, os pátios enxadrezados e entrou na câmara, que ora toda de oloroso cedro com tauxias de ouro e prata e incrustações de pedras. 

O banho que o esperava rescendia e era todo de leite de flores. 

Refrescado, vestiram-no e rei algum carregou jamais sobre o corpo as riquezas com que o recobriram. 

 Inclinou-se o mordomo e, por entre tangeres de flautas e de cítaras, o foi guiando à grande sala onde o esperava o banquete em lauta mesa, lampejante de baixelas e cristais e toda florida. 

 Sentou-se o venturoso. 

 Logo rompeu o concerto delicado de finas harpas, de flautas suaves e de vozes. 

 Ao fim do repasto levaram-no a ver os jardins onde a Primavera não daria por falta de uma só das suas flores. Passaram aos pomares de toda a fruta, entraram ao bosque de frescos, assombrados e redolentes meandros, onde se desafiavam em gorjeios todos os passarinhos e os dóceis animais das silvas passeavam. Foram às cavalariças, onde estadeavam os mais formosos e robustos ginetes do deserto. Adiantaram-se os pastores a dar-lhe contas dos gordos rebanhos que guardavam. 

 Por fim, fez o mordomo a volta da torre de pedra onde se empilhavam os tesouros e em torno da qual, silenciosamente, iam e vinham roldas e sobrerroldas de guerreiros possantes. 

 De regresso ao palácio — já a rutila Vésper subia no horizonte, — o afortunado avistou na varanda, entre os inclinados ramos dos jasmineiros e das acácias que florescem de ouro, as lindas, esbeltas mulheres do seu gineceu que o esperavam, qual mais ansiosa do seu beijo, esmerando-se em seduzi-lo com lânguidos meneios e logo as chamou com o sôfrego desejo tanto tempo contido e, por toda a noite longa, enquanto soavam as músicas voluptuosas e os escansões serviam os vinhos em crateras e as bailadeiras faziam os mais difíceis e graciosos passos, gozou exaltadamente a delícia do amor. 

 Recolhendo à câmara — já as cotovias ensaiavam o canto — viu o seu leito, de macia cocedra, forrado a seda, ladeado por dois grifos de olhos de carbúnculo. 

 Deitou-se, mas o sono fugia-lhe. Lembrou-se, então, dos dias de fome, das noites de frio, das injúrias dos homens, do desprezo das mulheres. 

 Insone levantou-se, abriu largamente uma das grandes janelas e, à pálida luz da manhã, que nascia, sentindo o aroma dos jardins, pareceu-lhe que, ao longe, muito longe havia um palácio maior e mais rico, com mais ouro, jardins mais vastos e mais floridos, pomares mais fartos, tesouros mais cheios, mulheres mais belas, guerreiros mais robustos, músicas mais concertadas, iguarias mais saborosas e vinhos mais antigos. 

 Então, pendendo a cabeça, achou pequena a sua fortuna e, com inveja dos que haviam partido à aventura, invejando-o, pôs-se a murmurar pensativo: “Ainda, ha riquezas maiores!...”. 

E, a suspirar tais queixas, entre as púrpuras e os brocateis da câmara, veio encontrá-lo o sol, o sol que, ainda na véspera, o vira entre farrapos, disputando aos cães dos nômades, sobre o estravo dos camelos, um osso esburgado.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

5/12/2021

Uma vítima da vaidade (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


Uma vítima da vaidade 

Na cidade de..., numa chácara retirada, habitava uma família, cujo chefe chamava-se Manoel Correia. Ex-empregado público, obtivera a aposentadoria e aí vivia longe do burburinho da cidade.

Homem vaidoso, o seu único anelo era casar uma filha que tinha com algum fidalgo, que entusiasmasse-se pela beleza dela.

Com efeito, Elvira (tal era o seu nome) era a moça mais linda que imaginar se pode. Morena, de estatura regular, cabelos e olhos pretos, lábios rosados e pequenos, que, quando entreabriam-se, deixavam ver duas linhas de dentes claros como o marfim; era mais pelas suas maneiras agradáveis do que por esses atributos, que ela cativava a todos aqueles que tinham a dita de conhecê-la.

***

Alfredo Torres, estudante do quarto ano de medicina, tinha vindo passar, nessa mesma cidade, as férias em casa de sua família, que só à custa de muitos sacrifícios fazia-o prosseguir os estudos.

Aí pela primeira vez viu Elvira e logo consagrou-lhe amor: não esse amor vulgar, porém um amor sincero, veemente, arrebatado, capaz de afrontar todos os obstáculos, que, segundo, um escritor contemporâneo, são os maiores incentivos dele.

Elvira também, cumpre dizê-lo, logo sentiu no seu peito uma emoção, um não sei que indefinível por Alfredo; mas ao mesmo tempo o seu coração pressago augurava-lhe infortúnios. É que Alfredo além de não ser fidalgo, era pobre, e o seu amor havia de encontrar oposição da parte do seu velho pai, que aspirava ter um parente nobre, que ilustrasse a família.

Todavia amaram-se.

*** 

Estavam prestes a extinguir-se as suas férias e Alfredo preparou-se para tornar à Corte.

Sempre, nessa ocasião, ele partia alegre, pois ia dar mais um passo para chegar ao fim de sua carreira.

Desta vez porém, foi preciso que a família designasse-lhe o dia em que devia partir.

Nem era de esperar outra coisa: quem pode abandonar sem pena o seu coração?

E o coração de Alfredo ficava.

Na véspera da partida foi despedir-se da família de Elvira. Oh! Deixem os leitores que eu passe em silencio este ponto de sua vida: era mister outra pena que não a minha para descrever a dor desses dois corações cheios da seiva da juventude, obrigados ainda a ocultá-la, a reprimi-la.

***

Havia já três meses que Alfredo partira para continuar os seus estudos que Elvira vivia adormecida nos braços da esperança, quando um dia o seu aristocrático pai introduziu no seio de sua família, com muitas recomendações, um fidalgo recém-chegado à terra. Era de origem espanhola, dizia ele, chamava-se D. José Sanchez e tinha o título de barão da Felicidade.

Após dois meses de assídua frequência à casa, pediu ao Sr. Manoel Correia em casamento a sua encantadora filha.

Imagine-se a alegria deste, vendo realizada a sua única ambição. Prontamente concedeu-lhe o que queria, sem ao menos consultar a vontade da filha. – Ela é dócil, pensava, e por força há de fazer o que lhe ordenar.

Mas, se Elvira era dócil, desta vez enganou-se ele. Não só declarou-lhe que não votava a menor simpatia a esse homem, cujo passado não era conhecido, como até declarou-lhe que já tinha disposto de seu coração.

Correia ficou furioso e disse-lhe que nunca permitir-lhe-ia que se casasse senão com Exmº. Barão da Felicidade, ou com outro de sua hierarquia; que Alfredo era um miserável; e que, quanto ao passado do barão, não importava a ninguém.

Para ele o titular não era responsável pelos maus atos que praticara anteriormente, quando usava de seu nome de batismo.

Infeliz Elvira!

***

Vejamos agora quem era o homem destinado para esposo desse querubim.

Filho natural dum taverneiro português, nascera ele numa das cidades deste vasto império.

Tendo o seu pai, por meio de muitos roubos e baixezas, bem como pela miséria em que viviam, ajuntado muitos cabedais, morrendo, deixou-lhe toda a sua fortuna.

Digno filho de tal pai, D. José Sanchez, que nesse tempo era conhecido por José Medeiros, continuando a acumular dinheiro do mesmo modo, e só empregando-o em negócios ilícitos, fez afinal uma viagem a Espanha e a Portugal, donde voltou com o título de dom, outro nome e um baronato. Eis quem era D. José Sanchez, barão da Felicidade.

***

Dois meses se tinham passado depois do infausto dia em que o futuro de Elvira tinha sido anuviado por seu pai. 

Durante esse tempo, nunca se passou um só dia em que ela não ouvisse, direta ou indiretamente, alusões a si, como filha desobediente e de sentimentos baixos, ameaças de maldição paterna e por consequência de castigos na outra vida.

Finalmente uma manhã apresentou-lhe o seu progenitor um ultimatum: por bem, ou por mal havia de cumprir as suas ordens.

A pobre moça, tendo perdido esperança de casar-se com Alfredo, e temendo as ameaças de seu pai, pois era uma filha modelo, disse-lhe que estava ao seu dispor, que fizesse o que intendesse, não obstante desprezar o noivo que se lhe impunha.

Mal ouviu isto dirigiu-se logo Correia ao palácio do barão, relatou-lhe o ocorrido e pediu-lhe que determinasse com presteza o dia em que se devera efetuar o seu consorcio.

***

Faltavam oito dias para Elvira perder o seu nome, tornar-se baronesa da Felicidade, ela – a vítima da desgraça.

O Sr. Manoel Correia exultava, crendo ter conseguido a execução de seu maior anelo – afidalgar sua família.

O barão ainda mais contente estava por ter comprado com a sua infâmia a posse de uma divindade terrestre.

Só Elvira era triste, apesar das felicitações que de toda a parte e a cada instante recebia. Pálida, magra, sempre pensativa, dir-se-ia que era presa de alguma enfermidade.

E na realidade bem próximo estava o dia de sua morte. Pressentindo-o, escreveu a Alfredo a seguinte carta, cinco dias antes do destinado para a realização do seu himeneu.

“Alfredo,

“Perdoa-me o golpe que subitamente vou dar-te; mas se não dei-te antes foi esperando que a desgraça se compadecesse de mim e de ti.

“Cinco meses depois de sua partida, meu pai ofereceu-me como esposo um fidalgo improvisado, um tal barão da Felicidade, recém-vindo do estrangeiro.

“Recusei: disse-lhe que só a ti consagrava amor, que detestava esse homem.

“Julgava ter vencido a férrea vontade de meu pai; mas eis que há poucos dias ordenou-me que lhe obedecesse, isto é, que casasse-me com o seu escolhido, sob pena de, caso de novo rejeitasse, merecer a sua maldição. 

“Sem lhe dizer que sim, respondi que fizesse o que entendesse. Tu és bom, meu querido Alfredo, podias aprovar a desobediência de uma filha?

“Ajustaram meu pai e o meu futuro marido que a celebração do meu matrimonio terá lugar daqui a cinco dias. Mas creio que o céu se compadeceu de mim; parece-me que estou bem doente, que está próximo o dia de minha morte.

“Adeus; Alfredo; sou e continuarei a ser, 

                                                    Tua fiel amante
                                                            Elvira”. 

***

No dia seguinte àquele em que escrevera a carta acima, Elvira foi acometida duma febre tão violenta, que os médicos logo a desenganaram.

Nos momentos de delírio, o nome de Alfredo, acompanhado de palavras ininteligíveis, nunca lhe saiu dos lábios.

A morte zombou da ciência: no dia em que devia cingir a capela de noiva, cingiu a da imortalidade, deu a alma ao criador.

Pobre vítima da ambição e do orgulho, foi no céu receber entre os anjos, seus irmãos, o prêmio de seu martírio.

Quando Alfredo, já aflito pela leitura da carta que ela lhe dirigiu, recebeu a notícia de sua morte, despedaçou o crânio com um tiro de revólver.

***

No dia 2 de novembro de 1860, um velho chorava sobre uma sepultura e arrancava os cabelos, com visíveis sinais de loucura.

A sepultara encerrava os despojos mortais de Elvira e o velho era Manoel Correia, que murmurava febrilmente:

— Elvira... Alfredo... perdoai ao vosso assassino.


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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

Virgílio e Amélia (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


Virgílio  e Amélia 

CAPÍTULO 1: VIRGÍLIO 

Há tempos um periódico macaense deu a seguinte notícia:

“Foi ontem encontrado na praia do Imbetiba o cadáver do Sr. Virgílio de Azevedo, que desde anteontem desaparecera desta cidade.

“A autoridade competente prossegue a averiguações sobre o fato”.

Quem era o Sr. Virgílio de Azevedo? Que emprego tinha? Seria casual a sua morte, ou teria ele sido vítima de algum crime?

Eis o que vamos, se bem que muito resumidamente, dizer aos nossos leitores.

*** 

No dia 1º de janeiro de 1840, apresentou-se um fazendeiro do município para batizar um filho, na capela onde se celebravam todos os misteres da religião nesta cidade (a qual era por esse tempo na praça da Alegria, canto da rua da Esperança, na mesma casa em que depois se tem estabelecido várias pessoas com negócios em pequena escala).

Antes porem de se celebrar a cerimônia, conferenciou ele com o padre, durante mais de uma hora, sobre o nome que lhe devia dar. Por fim decidiu que queria um nome de poeta e escolheu, entre os que o padre indicou-lhe, o de Virgílio. Foi, pois, o menino batizado com esse nome, ao qual o pai depois acrescentou o de Azevedo, para ver se com dois nomes de poetas igual sina caberia ao filho; pois era esse o seu maior desejo.

Causava na verdade admiração ver aquele homem rústico e ignorante ficar fora de si, anelante, com a boca aberta e os olhos quase a saltarem das orbitas, quando ouvia ler qualquer poesia. É que a poesia, como a música, exerce poderosa influência sobre as mais rudes naturezas. 

***

Tendo Virgílio atingido a idade de 15 anos, depois de findos os seus estudos na escola pública da cidade, aí empregou-se numa casa de comercio.

Moço inteligente, modesto e afável, granjeou em pouco tempo numerosas simpatias.

A suas horas vagas consagrava-as ele ao estudo e a composições literárias. O ramo da literatura e a que sobretudo mais se dedicava era o poético. Muitas vezes li poesias suas, que hoje deploro infinitamente não ter copiado.

Deixemos de parte vários fatos pouco importantes de sua vida, para dizermos a causa que o determinou a pôr fim a seus dias.

***  

Era um domingo; havia um pequeno sarau numa casa de família desta cidade, para a qual ele tinha sido convidado. As horas designadas compareceu e assistiu até o fim.

Porém, coisa singular! ao sair, Virgílio não era o mesmo que tinha entrado. Tornara-se pensativo e triste; sentia alguma coisa que o abrasava.

Dois dias depois publicava-se uma pequena poesia anônima, na qual o seu autor fazia, arroubado de entusiasmo, uma declaração de amor. E o autor dessa poesia era Virgílio.

Ah! Cupido, Cupido, de quantas desgraças és causa! Ora feres somente a um coração e deixas o outro incólume, ora feres a ambos, mas reserva-lhes a separação. Feliz o mortal que atravessa a longa e espinhosa carreira da vida sem ter sido tocado por tuas flechas. Desditoso aquele que uma só vez sentiu o peito ferido por ti: esse pode-se julgar infeliz para sempre, pois o amor é uma loucura e a loucura é uma desgraça.

...............................................

E pois Virgílio estava louco.

Amava perdidamente a uma gentil deidade macaense, que entretanto não amava-o.

Por mais que ele fizesse por merecer-lhe ao menos simpatia, eram baldados os seus esforços.

Ele era pobre... de dinheiro e ela rica: eis a barreira que os separava. Como diz o Dr. Joaquim Manuel de Macedo, a pobreza é a morfeia.

Todavia pobre era ela também... mas de espírito, e ele rico.

Porém o que vale o saber? Não pesa, não tem valor; com ele não se compra um vestido de seda, não se dá bailes, não se vai ao teatro.

Demais Virgílio era poeta e 

Um poeta no mundo tem apenas
O valor de uma gaiola;
É prazer de um momento, é mero luxo. 

(Álvares de Azevedo) 

Um poeta é... um doido.

***

Vendo-se possuído de uma violenta paixão por quem desprezava-o, Virgílio resolveu suicidar-se. Digam o que quiserem contra o suicídio, na minha opinião há causas que o justificam. E depois, será crime apressar o dia em que devemos ver ao nosso criador?

Antes porém de executar o seu intento, Virgílio dirigiu à sua ingrata amada a seguinte poesia, que não podemos furtar-nos de dar aos nossos leitores, como um espécime do seu talento.

 

A *** 

Quando o dobre dos sinos tu ouvires
A morte anunciando dum cristão,
Sabe, anjo cruel, lindo demônio,
Que já não pulsa mais meu coração. 

Sabe ainda que a tua crueldade
É que faz-me este mundo abandonar,
Pois não deve-se amar quem não nos ama
E viver eu não posso sem te amar.

Mal vi-te uma só vez meu coração
Senti logo pulsar de amor por ti:
Ai! Louco, que na aurígera muralha
Que se erguia entre nós não refleti!

Fizeste bem, mulher, em desprezar-me:
Tu és rica e eu pobre; fui ousado!
Maior castigo ainda merecia
Por julgar que por ti seria amado.

É duro de dizer-se, mas é certo:
Para o rico não é o pobre mais
Que um cão, que rajar-se aos pés lhe deve,
Sempre pronto a atender aos seus sinais.

Adeus, pois; sê feliz, que eu não podendo
Viver na terra, vou morrer no mar:
O meu perdão tu tens; lembra-te dele
Quando o remorso um dia te ralar. 

*** 

Quando ela recebeu essa poesia, Virgílio já era cadáver.

Tinha-se dirigido à Fortaleza e precipitado ao mar.

Pobre moço!


CAPÍTULO 2:
AMÉLIA 

Raiava o dia 10 de dezembro.

Era um dia de festa para Amélia, que fazia quatorze anos de idade. Não pensem porém, leitores, que era esta a causa de sua alegria; não: era que nesse dia cumpria-se um dos seus mais gratos desejos, uma das coisas por que anelam todas as meninas e a que dão uma importância inqualificável; ia enfim “botar vestido comprido.”

 não ser o do casamento, que dia haverá mais memorável na crônica da vida de uma moça? Nenhum, leitores; por que “botar vestido comprido” é ter entrada no número das moças e ser moça... silêncio!

Falemos em Amélia.

***

Mal lobrigou ela a claridade do dia pelas frestas da janela de seu quarto de dormir, ergueu-se de um salto do leito e vestiu com uma alegria febril um vestido que mandara fazer para esse dia.

— Que diz do meu vestido novo? perguntava ela daí a instantes à sua criada. Não fico mais gentil e mais bonita com ele? (Qual a moça que julga-se feia? Diga-lhe embora mil vezes o seu espelho: é mentira). Oh! Deus permita que minha mãe queira sair hoje: eu desejo que todos vejam o meu vestido.

— Fique quieta, sinhá, replica-lhe a criada; tenho modo: o que não se há de dizer vendo sinhá tão contente só por mode um vestido?

— Gala a boca, negra; olha que eu vou dizer à minha mãe que você está caçoando comigo.

 E foi-se.

***

A mãe já estava em pé...

Amélia dirigiu-se a ela.

— A benção, minha mãe. Este vestido não me assenta melhor do que os outros?

— Assenta, minha filha...

— Oh! estou arrependida de não o ter usado à mais tempo. Não há nada como um vestido comprido...  

— Modera a tua alegria, retorquiu-lhe a mãe; não são os trajes que dão importância às pessoas e sim as suas boas qualidades.

Amélia retirou-se triste para a janela, murmurando:

— Ai de mim! ninguém em casa faz caso do meu vestido. Vamos ver se os estranhos consideram-no mais.

***  

— Adeus, prima, como está? perguntou-lhe um sujeito que passava. Gomo vai minha tia?

— Sem novidade, primo; e Você?

— Como vês; mas que é isso? A prima já adotou o vestido comprido?

— É verdade; e completo hoje quatorze anos.

(Permitam-me, leitores, que aqui abra um parênteses para dar-vos uma explicação. Amélia disse exatamente a sua idade porque, como todas as outras meninas, deseja ser moça; mas, como todas as moças, quando chegar aos vinte anos, há de esquecê-la).

— Sei, continuou o primo, que está muito contente: era essa talvez uma das coisas que mais desejava.  

— Não o nego.

— Pois receba os meus comprimentos, quer pelo seu aniversário, quer por ter conseguido o que anelava, e desculpe-me abandonar a sua excelente companhia, porque agora tenho muito que fazer: se for*me possível, voltarei logo.

— Antes de ir, diga se aceita ou não o meu convite: venha hoje jantar cá. Minha mãe autorizou-me a convidar todos os que, como você, tem intimidade na casa.

— Aceito com muito gosto, respondeu Alfredo (assim se chama o primo de Amélia), e depois de terem-se apertado reciprocamente as mãos, retirou-se ele, ao passo que Amélia saía também da janela mais satisfeita. 

***

Eram horas do jantar... 

Achavam-se à mesa a mãe de Amélia, ela e alguns convidados.

Nos semblantes de todos brilhava a alegria; porém distinguia-se no de Amélia, que por todos os modos procurava mostrar o seu vestido.

Afinal um dos convidados reparou no seu contentamento e resolveu caçoar com ela.

— Então, D, Amélia, sei que está muito contente por completar hoje mais um ano; porém o que maior prazer lhe causa é o vestido comprido, não?

Ela corou e respondeu: 

— Não, senhor; mas não há de negar que este vestido assenta-me melhor do que os outros.

— Não, certamente; mais ainda é um pouco cedo...

— Não diga isto, exclamou ela levantando-se; eu completei hoje quatorze anos: já sou uma moça.

— Sossega, Amélia, ordenou a mãe.

E ela sentou-se enrubescendo.

***

Acabado o jantar, Amélia pediu à sua mãe que com ela fosse à casa de uma sua conhecida.

A mãe acedeu e foram...

Depois dos primeiros comprimentos, das mutuas saudades que manifestaram, Amélia foi logo perguntando à dona da casa:

— Não acha diferença em mim, D. Alexandrina?

— Acho, minha filha; mas sempre lhe advirto que o vestido comprido tem muitos espinhos.

— Como assim, senhora?

Eu to digo: as meninas vestem o vestido comprido quando chegam à mocidade; mas para ser moça, minha filha, não basta mudar de traje: é preciso também mudar de costumes. Sim, deves tomar um ar grave, ser cautelosa nas relações com os moços, mostrar enfim que tens juízo, coisa indispensável a uma moça.

— Eu o terei, D. Alexandrina.

— Então concordo com a mudança que fizeste.

***

 Estas últimas palavras da Sra. D. Alexandrina excitaram o ciúme em duas meninas de 10 e II anos, suas filhas, aspirantes ao vestido comprido, que começaram a cochichar, escarnecendo de Amélia.

Não houve um só termo de despeito com que Amélia não fosse mimoseada. Uma chamava-a impostora; a outra, tola; uma comparava-a com um pavão, a outra com um peru; e ambas por fim resolveram falar mal dela por toda a parte.

Entretanto a mãe da pobre Amélia e ela, sempre pensando em seu vestido, conversavam tranquilamente com a Sra. D. Alexandrina, até que, como ia-se tornando tarde, retiraram-se.

***

Chegando à casa, Amélia teve uma lembrança. Dirigiu-se à mãe e pediu-lhe, em atenção ao seu natalício, que deixasse convidar algumas suas amigas e conhecidos para um sarau e foi satisfeita.

Quem a visse, leitores, como eu, andar de um lugar para outro, só endireitando o vestido, que nunca ficava a seu gosto, perguntando a todos se não lhe assentava mais do que os vestidos curtos, etc., pasmaria de certo quando soubesse que a causa de tudo isto era... um vestido comprido!

Mas os seus vestidos curtos foram vingados. Nunca Amélia, que dançava regularmente, dançou tão mal, com tão pouco desembaraço, como nessa noite. A cada instante pisava no vestido e fazia goiabada.

Ora, a goiabada doce nenhuma das leitoras deixaria de apreciar; mas a goiabada na dança, como não ignoram, não é nada desejável. Julguem pois do desapontamento de Amélia nessa noite, em que mais procurava patentear os seus predicados. 

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Diz Casimiro Delavigne que o excesso dum grande bem, transforma-o num grande mal.

Foi o que aconteceu a Amélia.

Adotou o conselho da Sra. D. Alexandrina, mas num ponto tal que tornou-se insuportavelmente presunçosa.

Nenhum caso faz das suas amigas de vestido curto e trata com desprezo, e até com insolência, aos moços.

Estes porém, quando vêm-na passar, desforram-se zombando dela e não a cumprimentando.

Leitoras que ainda não andais de vestido comprido, tomai o conselho que vos dou por despedida:

— Cautela com ele; é nova túnica de Nesso.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)

O anjo da solidão (Conto), de Fernandes Pinheiro Júnior


O anjo da solidão

Agradável e venturosa era a existência que saboreava no Frade a bela e inocente Maria.

Na hora em que, despertos no seu ninho pela tênue claridade que a poética precursora de Febo bruxuleava, da garganta delicada extraíam os passarinhos estrofes sublimes, nessa hora tão decantada, erguia-se ela do seu humilde leito.

Erguia-se; e vestindo sobre a camisa e saia um simples vestido de chita clara, que debuxava as suas delicadas formas e os contornos de seu garboso corpo, sem atavio sequer, nem dando-se ao trabalho de pôr-se ao espelho e pentear seus negros e bastos cabelos, ia, sobre o tope duma colina, aguardar o nascimento do astro majestoso que maior testemunho dá da grandeza do Criador.

E aí, saltitando a cada momento, sorrindo inebriada com os eflúvios do ar puro da manhã, tentava com uma singeleza infantil parodiar, ora as ternas e maviosas canções do sabiá, ora os alegres trinados do canário e ainda os gemebundos arrulhos da melancólica rola.  Era nesse imenso teatro da natureza uma atriz, que por espectadores apenas tinha aqueles de quem copiava as vozes.

Quando enfim, dourando ligeiras nuvens, surgia o sol na orla do horizonte, a encantadora menina deixava subitamente de imitar aos ledos passarinhos e entoava, com voz argentina e melodiosa, cantos de nativa inspiração.

Depois deitava a correr, saltando de quando em quando, como uma criança traquina, e, certa de que ninguém a via, desmudando as suas formas graciosas, mergulhava- as nas rumorosas e espumantes águas de uma cachoeira, que, por assim dizer, precipitavam-se em avalanchas.

Nesse lugar conservava-se ela, até que, fatigada dos contínuos choques que sofria e das incessantes e várias posições que exibia, sempre cantando, após ter velado as graças a que pudicícia impõe recato, regressava ao seu lar, nadando em alegria.

***

No lar, no seio de sua família, era a mesma a inconstante Maria.

Semelhante à borboleta, em todos os sítios libava o suco melífluo do prazer.  Ao chegar a casa, tomava a benção paterna, lançava-se aos braços da mãe, beijava-a e, sorrindo, dava piparotes na pontiaguda cabeça de um irmãozinho de quatro anos.  Choramingava a criança e ela, compadecida, tomava-a ao colo, embalava-a, fazia-lhe cócegas e osculava-lhe as faces.

Mas logo que o pequeno aquietava-se, punha-o no chão, dizendo: 

— Salta, manhoso.

E, antes que os pais tivessem cessado de aplaudi-la, sentava-se à costura, cantarolando, com voz doce e prolongada, cantigas populares.

Era uma esquisita organização aquela: o canto era a sua distração predileta.

Maria deverá ter nascido pássaro.

***

 Nas simples labutações domesticas empregava ela a maior parte do dia.

À tardinha, antes que no ocidente descambasse o sol, saía do mesquinho casebre que habitava e ia esperar esse momento.

Depois de ter assistido a esse espetáculo, a que ligava sumo interesse, ia então, com passo vagaroso e tremulo, requebrando-se graciosamente, visitar algumas pessoas da mais próxima vizinhança, que muito folgavam com o seu aparecimento.

Depois de ter assistido a esse espetáculo, a que ligava sumo interesse, ia então, com passo vagaroso e tremulo, requebrando-se graciosamente, visitar algumas pessoas da mais próxima vizinhança, que muito folgavam com o seu aparecimento.

Com efeito, sobre todas as pessoas exercia singular influencia essa gárrula adolescente.

Uns amavam-na pela sua gentileza, outros pela sua conversação folgazã e divertidas, outros ainda, os pobres sobretudo, pelos favores que prodigamente distribuía.

Ao cair da noite recolhia-se a casa e, antes de deitar-se, orava por seus pais e irmãos com fervor.

Depois... estendia-se languidamente no leito, fechava os olhos, seus seios agitavam-se em doce arfar e dormia.

Às vezes sonhos fagueiros faziam-na sorrir e balbuciava os nomes dos únicos entes a quem adorava.

***

 Tal era a sua vida quotidiana, passada com uma regularidade inexcedível.

Um dia, voltando ela do seu passeio matutino, encontrou em sua casa um belo moço, que, de passagem para São Francisco de Paula, fatigado, tinha pedido a seus pais curta hospitalidade.

Estava ele, sentado a uma mesquinha mesa, tomando uma refeição frugal, quando Maria, com a sua natural e inocente desenvoltura, transpôs o limiar da habitação paterna.  Vendo o desconhecido, parou e estremeceu; por alguns momentos quedou aí, observando-o com inexplicável persistência.

Pasmado desta súbita aparição, levantara-se o moço para cumprimentá-la, mas também ficou imóvel, sem poder dar um passo, subjugado pelo altivo e brilhante olhar de Maria.

Quem sabe que ideias nesse momento turbilhonavam em seu cérebro, presa do ardor da juventude?

Quem sabe o que sentiram estes dois corações jovens, ainda isentos das feridas roazes dos desenganos?

Quem sabe se para o moço eram os olhos dela duas pedras de ímã e para a moça os dele?

Quem poderia afirmar se eram ambos presas desse amor subitâneo e veemente, que rápido apossa-se do coração humano e domina-o para sempre?

*** 

— E então? Que acanhamento é esse? Perguntou alfim a mãe de Maria, vendo-a hesitar em cumprir com o dever de saudar o hospede.

— Nunca viu gente? Acrescentou o pai, aplaudindo o seu próprio dito.

Chamada assim ao sentimento da realidade, a menina recuperou a sua habitual serenidade e infantis exteriores.

Soltando uma estrepitosa gargalhada, que fez estremecer ao moço, como se sofresse um choque elétrico, disse ela:

— Se nunca vi gente?... Ora!

— Então como estás aí com tantos luxos, Cocota? Anda, fala aqui com o senhor.

Anuviando o brilho de seus olhos e corando, a moça adiantou uns passos e estendeu a mão ao moço.

Este, maquinalmente, fez o mesmo e foi vencido o principal obstáculo das paixões repentinas.

Em seguida, o moço, relanceando olhares de fogo à linda virgem, travou com os pais dela conversação sobre assumptos do lugar.

Às 10 horas da manhã, hora em que o moço retirou-se, houve entre dono da casa e o viajante, o seguinte diálogo.

Fique certo que a minha casa é também sua: disponha dela. Nunca passe por aqui sem dar-nos o gosto de sua visita.

— Obrigadíssimo. Sempre que for possível, com muito prazer abusarei do seu oferecimento.

E, dizendo isso, o moço volveu à menina um olhar expressivo, que parecia dizer: Virei por ti.

— Abusará, não, senhor; emendo a palavra. Nós, os habitantes do campo, nunca falamos dum modo diferente do que pensamos. Creia que imensa alegria teremos sempre que o senhor se dignar de honrar essa nossa casa. 

— Acredito e de novo agradeço-lhe: aprova de que não minto dar-lhe-ei voltando na próxima semana a ter com as pessoas tão benévolas para com aqueles a quem não conhecem.

O contentamento irradiou no semblante de Maria, que fez um ligeiro sinal com a cabeça, como que agradecendo a promessa de quem levava-lhe o coração.

Perturbado com este incidente, o moço gaguejou algumas escusas para retirar-se sem demora, despediu-se de todos com lagrimas nos olhos e desapareceu dentro em pouco.

***

Seis longos dias passaram-se para Maria e raiou enfim o domingo.

Creio que é Chateaubriand quem diz que até o boi conhece o domingo.

É esta uma verdade incontestável.

Nas próprias roças onde nada há de extraordinário nele, nas próprias roças sente-se uma alegria interna, um desejo inexprimível de gozar, um não sei que que arrebata o homem a um outro mundo, existente só na sua imaginação.

Era por isso que, de ordinário, no dia pelo Senhor consagrado ao descanso, Maria despertava mais cedo, tinha mais transportes de jubilo e recolhia-se mais tarde ao leito.

Desta vez porém não fez o que costumava fazer na sua digressão matutina.

Se saiu de casa, foi apenas com o intento de dissimular aos seus pais o tédio de que se achava possuída por tudo quanto a rodeava.

Desde que perdera de vista o desconhecido, fora o seu coração invadido por acerba tristeza.

Vivia num mal-estar constante; se ainda tinha ímpetos prazenteiros, era porque a precaução assim o exigia: não que o seu coração sentisse o menor prazer.

Não mais arremedava os pássaros, nem a clara água das cachoeiras tinha a ventura de receber em seu seio o cristalino corpo da gentil menina.

Em vez de galgar aos saltos o outeiro donde via erguer-se o sol, como de costume, subia-o indolentemente e, estendendo o delicado corpo, repousava o rosto na palma da mão.  Profundas cismas ocupavam-lhe então o pensamento e já o sol ia alto, quando ela dava acordo de si.

Então, sacudindo a cabeça, como para repelir as ideias que incomodavam-na, erguia-se lesta, como o amante que, próximo à hora determinada, recorda-se da entrevista prometida. 

Com o passo ligeiro dirigia-se para casa, e só quando perguntavam-lhe porque não cantava mais, suspirava as cantigas que noutro tempo tão contente entoava. 

No supracitado domingo assim porém não aconteceu.

Erguendo-se ás 7 horas da manhã, segundo o seu novo habito, ia arrastando-se com passo tardo, quando de súbito ergueu a cabeça e sentiu um estremecimento geral, em todo o corpo, ouvindo o estúpido das patas de um cavalo.

Ficou parada observando todos os pontos e bem depressa descobriu ao longe um cavaleiro, que vinha com notável celeridade.

Seria ele?

Ele, a causa única de suas penas?

Não tardou ter certeza de que não a enganara o coração; da distância em que se achava, o viajante fazia-lhe sinal com a mão para que o esperasse.

E ela esperou.

Em poucos momentos viram-se os dois face a face e ambos ficaram silenciosos durante alguns minutos.

De repente a donzela disse:

— Até que enfim...

— Tamanho interesse lhe inspiro eu?

Corou a moça e não respondeu.

— Pois não sabia que eu voltava?

— Sabia; mas não o esperava.

— Era-me impossível não voltar, replicou o moço; para quem vê os seus olhos uma vez, fugir-lhes é morrer.

— Então o senhor gosta de mim?

— Muito... muito, gentil menina.

— Será verdade? Proferiu Maria, com uma voz tão triste, tão maviosa, que afugentaria a mentira, se por ventura ali estivesse.

— Eu o juro por Deus; és a pura verdade.

— E eu também gosto muito do senhor.

— Oh! Então somos felizes. Quer casar-se comigo?

— Casar?

— Sim; o que tem?

— Mas se eu não sei o que é isso...

— Eu lhe digo: casar-se é jurar na igreja o homem à mulher e a mulher ao homem que sempre hão de estimar-se e acompanhar um ao outro, que gozarão e sofrerão juntos, que hão de ser enfim como se não fossem ambos mais do que uma só pessoa. Quer?

— Assim quero; mas primeiro há de falar com Papai e Mamãe.

— Pois sim, quando quiser.

Vamos agora.

Apeando-se, o moço colocou-se a par da moça e juntos tomaram a direção da casa dos pais desta.

***

 Ao aproximarem-se à porta, nesta surgiu o pai de Maria.

— Oh! Por cá? Exclamou. Como foi de viagem?

— Bem, excelentemente. Da saúde de todos os seus já informou-me sua filha.

— Deus lhe pague tamanho interesse por nós.

— Se alguma coisa merecesse, a única que cobiço só o Sr. Me poderia dar.

 — Então conte com ela.

— Agradecido.

— Ai! Que me lembrava que o Sr. estava de pé e fora; faça o favor de entrar.

— Pois não.

E entraram todos.

Após os usuais comprimentos à dona da casa, que estava na sala, assentou-se o desconhecido, bem como todos os presentes.

Por singular casualidade achou-se Maria sentada em frente dele.

— Ainda que mal pergunte, disse Roberto Dias (o pai de Maria), quem é o senhor? Creio que as relações que temos já nos permitem indagarmos quem somos.

— Por certo. Chamo-me Emílio da Fonseca, sou filho de um negociante de Macaé e vim a S. Francisco de Paula tratar de um negócio seu. Ocupo na casa dele o lugar de guarda-livros, que dá-me para viver folgadamente. Uma única coisa me faltava para gozar uma felicidade completa e esta acabo de encontrar.

— Não sabe quanto estimo: queira Deus que nunca o senhor a perca.

— Se perdê-la, perderei a vida.

— Tanto o senhor a estima?

— Mais ainda do que pode supor.

— E será indiscrição perguntar-lhe qual será o objeto do seu culto?

— Não; pois é o senhor quem dispõe dele.

— Diga, que se puder dar-lho...

O moço hesitou em falar.

Encarou fixamente a formosa virgem alguns segundos, como consultando-a, e vendo tingir-se as faces dela com as cores do pudor, mas nada dizer-lhe na linguagem muda dos sinais, proferiu afinal estas palavras, arbitras do seu destino:

O que me faltava, Sr., era a vida intima da família; uma mulher de quem, idolatrando-a, e eu fosse idolatrado; uma mulher que com suas caricias mitigasse o cansaço das horas de labor, me fizesse olvidar os dissabores que sofresse; uma mulher que transformasse num paraíso o meu deserto e tétrico lar. Debalde procurei-a em toda a cidade: a minha razão e o meu coração me diziam que seguisse outro rumo. Tal era o estado de minha alma, quando fui constrangido a esta súbita viagem, que me proporcionou o que eu anelava. Nela encontrei uma donzela linda e pura como a Virgem, de quem tem o nome, graciosa e encantadora como a mais sublime das criações de Rafael; amei-a subitamente, desde logo, com um amor sincero, casto e sem limites, com um amor digno do objeto do meu culto. Sabeis, senhor, quem é esse ente, que vai decidir da minha felicidade?

— Diga. 

— É vossa filha e eu vô-la peço em casamento.

Seguiu-se um longo e profundo silencio, interrompido apenas pelo longínquo rumor das cachoeiras e pelo sussurro do vento nas folhas do arvoredo.

Maria e Emílio sentiam o seu coração saltar-lhes precipitadamente nos vulcânicos peitos e encaravam os donos da casa.

Estes trocavam olhares, visto não se poderem falar livremente.

De súbito Roberto Dias voltou-se para a moça e perguntou-lhe:

— É de seu agrado, Cocota?

— Sim, senhor.

Roberto e sua mulher observaram-se e proferiram a um tempo:

— Cumpra-se a vontade de Deus.

Os bons dos roceiros eram fatalistas.

***

O que se passou depois desta conversação entre as quatro pessoas presentes.

O que disseram, o que combinaram elas?

Eis o que não podemos dizer.

Mas quando no dia seguinte, pelas 8 horas da manhã, Emilio retirou-se, foi seu companheiro de viagem Roberto Dias.

Era seu fim secreto, soubemo-lo depois, verificar o que lhe afirmara o mancebo.  Ah! Se todos os pais fizessem isso não veríamos pelo matrimonio vitimadas milhares de ingênuas criaturas, que se deixam somente guiar pelo coração.

Não veríamos o homem extravagante dissipando os ganhos, enquanto a família langue na miséria; não veríamos o infortúnio à cabeceira da maior parte dos tálamos nupciais.

Entretanto... apressemos o desfecho desta pequena história.

Reconhecendo a evidencia do que lhe dissera o moço, ratificou Roberto a sua resposta e decidiram que o consorcio deveria efetuar-se na cidade, dentro de um mês.

***

Chegara finalmente a véspera do triste dia em que a linda virgem tinha de deixar a casa paterna, isto é, de mudar-se para a cidade.

Estava resolvido que os seus pais acompanhá-la-iam a Macaé e que aí estariam um mês na companhia dela.

Depois intentavam voltar e continuar no seu trabalho de lavoura, até que, liquidando o que possuíam, pudessem vir morar coma querida filha.

Que dia de tristeza foi esse para Maria!

Ao despontar da aurora, deixou ela a cama e do seu antigo observatório foi assistir ao nascimento do sol.

Tinha tirado esse dia para reproduzir as cenas da sua vida passada.

A alegria porém abandonara-a; por tudo o que fazia, em toda a parte, lagrimas silenciosas brilhavam por instantes nos seus fulgurosos olhos e caíam, como as gotas do orvalho que balouçam-se nas folhas das arvores.

Uma dor intima a dominava; nem o amor, cada vez mais intenso, que nutria, tinha poder bastante para sobrepujar-lhe o sentimento.

É assim o coração humano: o prazer e o pesar nele dominam à porfia.

À tarde, Maria andou de porta em porta despedindo-se dos seus vizinhos, que lhe queriam tanto como aos seus próprios parentes e que chamavam-na, possuídos de singelo pasmo, - o anjo da solidão.

Chegou alfim a noite e o sono adormeceu as mágoas da pobre moça.

***

No dia seguinte, banhada em pranto e soluçando, deixou ela o seu berço, o lugar onde por tanto tempo gozou de uma felicidade que só podia ser excedida pela celeste.  Dois dias depois celebrou-se na Matriz de Macaé o consorcio de Maria e Emílio.  Que vida passará o cândido lírio do vale solitário transplantado para os jardins tumultuosos da cidade?

Só Deus e ela o sabem.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)