quinta-feira, 9 de maio de 2019

A verdade sobre o caso de Mr. Waldemar (Conto), de Edgar Allan Poe



A verdade sobre o caso de Mr. Waldemar
Tradução: David Rissin

Não é de estranhar que tenha suscitado discussões o extraordinário caso de Mr. Waldemar. Seria um milagre se assim não fosse... especialmente em tais circunstâncias. O desejo das partes interessadas em comentar o caso, secreto pelo menos por ora, ou esperando uma oportunidade de nova investigação, e os nossos esforços neste sentido deram lugar a uma narração truncada e exagerada, que se propagou e que, apresentando o caso sob cores as mais desagradavelmente falsas, tornou-se geralmente origem de geral descrédito.

Torna-se agora necessário que eu apresente os fatos, pelo menos até onde os entendo eu mesmo.

Ei-los, sucintamente:

Minha atenção, nestes últimos três anos, fora repetidas vezes atraída para o magnetismo; e, há mais ou menos dez meses, ocorreu-me repentinamente ao espírito a lembrança de que, na série de experiências feitas até agora, havia uma curiosíssima e muito inexplicável lacuna: — ninguém fora ainda magnetizado in articulo mortis. Restava saber: primeiro, se num tal estado havia no "sujeito" uma receptibilidade qualquer do influxo magnético; segundo, se, no caso de haver, era aumentada ou diminuída pela circunstância; e, terceiro, a que ponto e por quanto tempo podiam os avanços da morte ser retardados pela experiência. Havia outras probabilidades a verificar, mas estas excitavam mais minha curiosidade, — especialmente a última, dado o caráter gravíssimo de suas consequências.

Procurando nas minhas relações alguma "cobaia" por intermédio da qual pudesse esclarecer esses pontos, fui levado a lançar os olhos sobre o meu amigo Mr. Ernest Waldemar, o conhecido compilador da “Biblioteca Forênsica" e autor, sob o pseudônimo de Issachar Marx, das traduções polonesas de Wallenstein e de Garganina. Mr. Waldemar, que residia geralmente em Harlem, Nova York, desde 1939, é ou era especialmente notável pela sua excessiva magreza, — suas pernas pareciam as de uma cegonha e também pela alvura de suas suíças, que contrastavam com sua cabeleira negra, que todos, consequentemente, julgavam postiças. Seu temperamento era extraordinariamente nervoso e constituía, assim, uma excelente "cobaia" para as experiências magnéticas.

Por duas ou três vezes eu o fizera dormir, sem grande dificuldade; fiquei, porém, desapontado quanto aos outros resultados que sua constituição "sui generis" me fizera esperar. Sua vontade não ficava nunca positiva e inteiramente submissa à minha influência; e, relativamente à evidência, não consegui fazer com ele coisa alguma de concreto. Eu atribuíra sempre meus insucessos, nesse sentido, ao desarranjo de sua saúde.

Alguns meses antes de travarmos relações, os médicos lhe haviam diagnosticado uma tísica pulmonar, bem acentuada. Era um costume seu falar da sua morte próxima com muito sangue frio, como duma coisa que não pode ser evitada nem deve ser lamentada.

Quando essas ideias, às quase me referi há pouco, me acudiram pela primeira vez, era natural que eu pensasse em Mr. Waldemar. Eu conhecia muito bem a sua sólida filosofia, para saber que não tinha a temer escrúpulos da sua parte, e ele não tinha parentes na América que pudessem plausivelmente intervir. Falei-lhe francamente no assunto; e, muito surpreendido, vi que ele tomava um vivo interesse na experiência. Digo surpreendido, porque, conquanto se tivesse várias vezes posto à minha disposição para as minhas experiências, ele não testemunhava simpatia pelos meus estudos.

Sua doença era das que admitem um cálculo exato relativamente à época do seu desfecho; e ficou, finalmente, combinado entre nós que ele me mandaria buscar vinte e quatro horas antes do termo marcado pelos médicos para a sua morte.

Fazem já sete meses ou mais que recebi de Mr. Waldemar o seguinte bilhete:

"Meu caro P... — Seria bom vir agora. D... e F... estão ambos acordes em afirmar que não passarei das 24 horas de amanhã; creio que calcularam certo, ou bastante apropriado.
Waldemar.”

Recebi este bilhete meia hora depois de que fora escrito, e daí a um quarto de hora eu estava no quarto do moribundo. Eu não o via faziam uns dez dias, e fiquei apavorado com a terrível alteração que nesse curto intervalo se operara nele. Seu rosto estava da cor do chumbo; seus olhos estavam completamente baços e a magreza era tal que as maçãs do rosto furavam a pele. A expectoração era excessiva; o pulso quase insensível... Conservava, contudo, singularmente, todas as faculdades mentais e uma certa quantidade de força física. Falava distintamente, — tomava, sem auxílio, uns paliativos e quando entrei no quarto ele estava ocupado em escrever notas numa agenda. Estava sustentado, no leito, por travesseiros. Os médicos D... e P... cuidavam dele. Depois de lhe ter apertado a mão, chamei os senhores médicos à parte e obtive um relato minucioso do estado do doente. O pulmão esquerdo estava, há já dezoito meses, num estado semi-ósseo, ou cartilaginoso, e, consequentemente, impróprio às funções vitais. O direito, na região superior, estava também ossificado, se não totalmente, pelo menos em parte, enquanto que o lado inferior não era mais que um agregado de tubérculos purulentos, penetrando um no outro.

Havia várias perfurações profundas e, num certo ponto, aderência permanente das costelas. Esses fenômenos, no lado direito, eram relativamente recentes. A ossificação progredira com uma rapidez insólita; um mês antes, ainda não se descobria um só sintoma, e a aderência apenas fora observada nos últimos três dias. Além da tísica, suspeitava-se também de um aneurisma da aorta, mas nesse ponto os sintomas de ossificação tornavam impossível um diagnóstico exato. A opinião dos dois médicos era que Mr. Waldemar morria no dia seguinte, domingo, pela meia-noite. Eram sete horas do sábado. Deixando a cabeceira do moribundo para falar comigo, os médicos lhe haviam dito o último adeus. Não tinham intenção de voltar, mas, a meu pedido, consentiram em vir ver o doente pelas dez horas.

Quando saíram falei livremente com Mr. Waldemar, na sua morte próxima, e especialmente na experiência que nos propuséramos. Mostrou-se, como sempre, cheio de boa vontade, demonstrando mesmo desejar muito a experiência, e insistiu comigo para que eu começasse logo. Dois empregados, um homem e uma mulher, estavam lá para auxiliar; mas não me sentia disposto a começar um trabalho de tal gravidade sem outros testemunhos mais seguros do que os que essas criaturas seriam capazes de fornecer, em caso de repentino acidente. Adiei, pois, a operação para as oito horas, quando a chegada de um estudante de medicina, Mr. Theodoro L...., me livrou definitivamente do embaraço. A princípio eu resolvera esperar os médicos; depois, porém, fui induzido a começar imediatamente, primeiro pelas solicitações de Mr. Waldemar e, depois, por estar convencido de que não tinha tempo a perder, pois via-se que ele expirava.

Mr. F... teve a condescendência de anotar os fatos, e é desse relato que tiro minha narrativa. Faltavam cinco minutos para as oito horas quando, tomando a mão do paciente, pedi-lhe que confirmasse aos presentes que era por sua vontade que fazíamos esta experiência magnética em tais condições. Ele respondeu fracamente, mas de modo muito distinto: — “Sim, quero ser magnetizado", acrescentando logo: “receio que já adiastes muito."

Comecei então os movimentos que eu sabia os mais eficazes para adormecê-lo. Ficou influenciado pelo meu primeiro movimento, mas não manifestou nenhum outro efeito sensível até 10 e10, quando chegaram os médicos.

Expliquei-lhes, em poucas palavras, o meu desígnio e, como eles não se opusessem, dizendo que o paciente estava agonizante, continuei sem hesitação, alterando os movimentos laterais para longitudinais e concentrando meu olhar nos olhos do moribundo.

Por essa ocasião seu pulso tornou-se imperceptível e sua respiração obstruída, marcando intervalos de meio minuto. Este estado durou um quarto de hora, quase sem alteração. Depois desses quinze minutos, porém, um suspiro natural, conquanto horrivelmente profundo, soltou-se do peito do moribundo, e a respiração ruidosa cessou, isto é, não se ouviu mais o ronco de pouco antes; os intervalos de respiração não tinham diminuído. As extremidades do paciente estavam frias de gelo. Às onze horas menos cinco percebi sintomas inequívocos da influência magnética. O vacilar vítreo do olho se transformara nessa expressão dolorosa de quem olha para dentro, e que não se vê senão nos casos de sonambulismo, que é inconfundível.

Com alguns rápidos movimentos laterais, fiz palpitar as pálpebras, como quando o sono nos ataca, e, insistindo um pouco, fechei-lhe completamente os olhos. Continuei os movimentos até imobilizar-lhe os membros numa posição mais ou menos cômoda. Quando acabei já dera meia-noite, e pedi aos presentes que examinassem Mr. Waldemar. Depois dumas experiências, reconheceram que ele estava numa catalepsia magnética extraordinariamente perfeita. A curiosidade dos médicos aguçou-se. O Dr. D... resolveu passar a noite junto ao doente e o Dr. F... despediu-se de nós, prometendo voltar de madrugada. Fiquei eu, Mr. Theodoro, o médico e os enfermeiros.

Deixamos Mr. Waldemar tranquilo até às três horas da manhã. A essa hora o seu estado era o mesmo: estava estendido na mesma posição, o pulso imperceptível, a respiração fraca, apenas sensível pela aplicação do espelho; os olhos fechados naturalmente e os membros frios e rígidos como mármore. Contudo, a aparência geral era a da morte.

Resolvi então tentar fazer o seu braço seguir o meu, em vários movimentos. Outrora, quando eu tentara esta experiência, Mr. Waldemar jamais se prestara; mas agora, com grande espanto da minha parte, seu braço, dócil, seguiu as minhas ordens, movendo-se lentamente. Resolvi tentar algumas palavras de conversação:

— “Waldemar — perguntei — dormes?”

Ele não respondeu, mas percebi um tremor nos seus lábios e fui obrigado a repetir minha pergunta três ou quatro vezes. À última vez todo o seu corpo tremeu; as pálpebras se ergueram, revelando apenas uma linha do globo; os lábios se moveram a custo e deixaram escapar estas palavras, num murmúrio quase imperceptível:

— "Sim; durmo agora. Não me desperte! Deixe-me morrer assim!”

Apalpei os membros e achei-os ainda inalteravelmente rígidos. O braço continuava a obedecer à direção do meu. Interroguei de novo o sonâmbulo:

— "Doe-lhe ainda o peito, Mr. Waldemar?"

A resposta não foi imediata; foi ainda mais fraca que primeira:

— "Não! não me doe, — eu morro."

Não julguei conveniente atormentá-lo mais no momento, e não se disse ou fez mais coisa alguma até à vinda do Dr. F... , que chegou pouco antes do romper do sol e ficou estupefato ao encontrar o paciente ainda com vida. Tendo-lhe tomado o pulso e aplicado um espelho aos lábios, pedia-me que lhe continuasse a falar.

— "Mr. Waldemar, dorme ainda?”

 Como nas outras vezes, passaram-se alguns momentos antes da resposta, e durante o intervalo o moribundo parecia concentrar todas as energias para falar.

À quarta repetição da minha pergunta, respondeu muito dificilmente, quase ininteligivelmente:

— “Sim, ainda! — durmo! — Morro!”

Era opinião, ou melhor, desejo dos médicos, que se deixasse o agonizante tranquilo, nesta calma aparente, até que sobreviesse a morte, que os médicos eram unânimes em afirmar se daria no espaço de cinco minutos.

Resolvi, contudo, falar-lhe ainda uma vez, e repeti simplesmente minha última pergunta:

Enquanto ele falava, uma transformação assinalada se operou na fisionomia do sonâmbulo: os olhos giraram nas órbitas, aparecendo lentamente das pálpebras, que se soerguiam; a pele tomou um tom geral, cadavérico, parecendo menos pergaminho do que papel branco; e as duas rosetas da febre, que até então ardiam no centro das faces, "apagaram-se" subitamente. Sirvo-me desta expressão, porque a subitaneidade do seu desaparecimento parecia mais o apagar de uma vela que outra coisa. O lábio superior, ao mesmo tempo, torceu-se, arreganhando-se para cima e descobrindo os dentes, que havia pouco cobria, enquanto que o maxilar inferior tombava com um estalo audível, deixando a boca escancarada e mostrando em cheio a língua negra e tumefacta.

Todos os presentes estavam mais ou menos familiarizados com os horrores de um leito de morte; mas o aspecto de Mr. Waldemar, neste momento, era tão hediondo, tão inconcebivelmente hediondo, que houve um recuar geral do leito.

Sinto-me chegado a um ponto da minha narrativa que leitor revoltado me recusará o crédito. Contudo, é meu dever continuar.

Não havia mais em Mr. Waldemar o mais débil sintoma de vitalidade e, concluindo que ele estava morto, íamos deixá-lo aos cuidados dos enfermeiros, quando um acentuado movimento de vibração se manifestou na sua língua. Isso durou mais ou menos um minuto.

Exaurido este intervalo, irrompeu os maxilares uma voz — uma voz tal que seria loucura tentar descrevê-la. Havia, contudo, dois ou três epítetos que lhe poderiam ser aplicados aproximadamente. Assim, direi que o som era áspero, sibilante e cavernoso; mas a sua maior hediondez era indefinível, porque semelhantes tons jamais feriram com seus brados ouvidos humanos. No entanto, havia duas particularidades que pensei então e penso, ainda agora, podem ser tomadas como características da entonação e dar uma ideia da sua estranheza extraterrena e sobrenatural: em primeiro lugar, a voz parecia chegar aos nossos ouvidos, pelo menos aos meus, como de muito longe, de um abismo subterrâneo; em segundo lugar, ela impressionou-me (creio que será impossível fazer-me compreender) do mesmo modo que as substâncias gelatinosas afetam o nosso tato.

O som era uma silabização pavorosamente distinta. Mr. Waldemar falava evidentemente em resposta à minha última pergunta. Ele agora- dizia:

— "Sim, — não, — eu dormi, — mas agora, —agora, — estou morto!"

Mr, I..., o estudante, diante do indescritível horror desta resposta, desmaiou. Os enfermeiros fugiram aterrorizados e não foi possível fazê-los voltar. Durante uma hora nos ocupamos, sem uma palavra, em reanimar Mr. I... e chamá-lo à vida. Quando ele voltou a si, reassumimos as nossas investigações sobre o estado de Mr. Waldemar.

Seu estado estava inalterado, salvo que o espelho não acusava mais vestígio algum de respiração. Uma tentativa de sangria no braço não deu resultado.

Cumpre-me mencionar que este membro já não obedecia à minha vontade. Tentei em vão fazê-lo seguir as direções de meu braço. A única indicação de influência magnética era o movimento vibratório da língua. Cada vez que eu o interrogava, ele parecia esforçar-se para responder, mas sua volição não era suficientemente duradoura. Às perguntas de outras pessoas ele parecia totalmente insensível conquanto eu o tivesse tentado pôr em comunicação magnética com cada um dos presentes.

Creio que relatei tudo, capaz de dar uma ideia do estado do sonâmbulo, neste período. Arranjamos outros enfermeiros e às dez horas retirei-me com os doutores F... e D... e o estudante I... À tarde voltamos a visitar o paciente. Seu estado era absolutamente o mesmo. Discutimos então sobre a possibilidade e a oportunidade de despertá-lo, mas resolvemos, de comum acordo, deixá-lo tranquilo.

Era evidente que até então o que chamamos de morte fora suspenso pela operação magnética. Acordar Mr. Waldemar seria assegurar o momento de sua morte e apressar sua desorganização.

Desde então até o fim da semana passada, por intervalo de sete meses, nos reunimos quotidianamente na casa de Mr. Waldemar. Eu, médicos e amigos. Seu estado permanecia o mesmo. A vigilância dos enfermeiros era contínua.

Foi na sexta-feira passada que resolvemos tentar despertá-lo; e foi o resultado deplorável, talvez, desta última tentativa, que deu origem a tantas discussões em meios particulares e a tantas reuniões, nas quais não pude deixar de ver a consequência de uma injustificável credulidade popular. Para tirar Mr. Waldemar da catalepsia magnética, usei uns "movimentos" costumeiros. Durante algum tempo foram sem resultado. O primeiro sintoma de volta à vida foi um abaixamento parcial da íris.

E, fato interessante, este abaixamento era acompanhado duma secreção abundante, de sob as pálpebras dum líquido amarelo, de cheiro acre e desagradabilíssimo. Tentei influenciar o braço, mas não o consegui. O Dr. F... pediu-me que lhe falasse; interroguei-o então:

— "Mr. Waldemar, pode explicar-nos quais as suas sensações neste momento?”

Deu-se logo a volta das rosetas de febre às faces: a língua tremeu, ou antes, girou violentamente na boca, conquanto os maxilares e os lábios ainda se conservassem imóveis, e por fim aquela mesma voz horrível, que expliquei, irrompeu:

"Pelo amor de Deus! — depressa! — depressa! — adormecei-me! — ou então, depressa! — acordai-me! — depressa! — digo-vos que estou morto! morto!"

Eu estava enervado e durante um minuto fiquei indeciso. Depois comecei a tentar acalmar o paciente: meu estado nervoso não mo permitiu. Fiz então o contrário e comecei a despertá-lo. Fiquei certo de que o conseguiria e tinha segurança de que todos na sala esperavam ver, e veriam o sonâmbulo despertar.

Quanto ao que na verdade ocorreu, ninguém o poderia prever, está muito além de qualquer possibilidade. Enquanto eu fazia rapidamente os movimentos magnéticos, entrecortados de gritos de "morto!", "morto!", que jorravam da língua, e não dos lábios do "sujeito", — todo o seu corpo — duma só vez, — no espaço de um minuto, e mesmo menos, furtou-se, esfarelou-se, — “apodreceu" nas minhas mãos.

Sobre o leito, ante horror dos assistentes, jazia uma espécie de massa repugnante e semilíquida, — uma abominável putrefacção.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...