sábado, 4 de maio de 2019

Anatole France - Justiça e Injustiça (Ensaio)



Anatole France: Justiça e Injustiça


“A justiça dos homens”
(Civilização Brasileira - 1978)
É no livro de contos “A justiça dos homens” que Anatole France publica o seu famoso libelo contra um dos três poderes que, em nome da democracia, oprime e sufoca o cidadão comum: o aparelho judiciário ou, no popular, a Justiça. “Crainquebille” – esse é o nome da peça – na palavra de Mario da Silva Brito “é um libelo, um requisitório, comovido e comovente, sobre o comportamento do aparelho jurídico e judiciário em relação aos desvalidos, aos pobres diabos – o desvalido ou pobre diabo que qualquer um, dependendo das circunstâncias, poderá vir a ser diante da majestade das leis. Todos somos Crainquebilles em potencial.”
Só a orelha de Mario da Silva Brito é suficiente para incitar a todos a leitura da obra, porém não a indicamos a juristas, advogados, juízes e rábulas, porquanto seria malhar em ferro frio... Porém, “Crainquebille” não vinga sozinho no volume. Outros contos de igual repercussão acompanham-no na coletânea. Entre as histórias, todas recheadas de humanismo e humanidade, salta o conto “Putois”, que vem logo a seguir. A figura de Putois nasce de uma mentira – um motivo plausível – inventada pela família Bergeret, para justificar a ausência a uma indesejada (e, ao que parece, chata) reunião familiar.
“Lamento muitíssimo, cara tia, mas não nos será possível. Domingo estarei esperando o jardineiro.” O diálogo prossegue incluindo todas as minúcias necessárias a justificar a mentira. Quem é, quem não é, pois nas vilas se conhece tudo ou quase tudo o que se passa. E por fim vem a pergunta fatal:
“Como se chama o teu jardineiro?”
“Putois”.
Pronto, a mentira foi batizada e portanto passou a existir. Mas como fazer existir o que não existe? Da mesma maneira que a criatura toma posse do criador. Uma vez lançada no mundo até uma ficção vira realidade. E lá pelas tantas, quando a própria enganada resolve também admitir o jardineiro a seu serviço, Putois vê a sua invisibilidade ameaçada. A mentira cresce, torna-o esquivo, difícil de encontrar, além de tudo é um mau caráter, um mandrião. Mas, de repente, um dia...
“Acabo de ver Putois.”
“Não diga!”
“Sim, eu vi.”
“Tem certeza?”
“Absoluta! Estava andando depressa. Perdi-o de vista.”
“Era ele mesmo?”
“Sem a menor dúvida. Um homem duns cinquenta anos, magro, encurvado, parecendo um vagabundo, com uma camisa encardida.”
“De fato, a descrição pode aplicar-se a Putois.”
Agora que a figura é palpável, o mau-caratismo cresce. As coisas desaparecem? Foi Putois. Roubos ocorrem? Foi Putois. Até mesmo uma cozinheira, tida como beata, foi seduzida e violentada. Por quem? Putois. A existência de Putois vira caso de polícia. Agora é procurado e perseguido por seus pequenos delitos. Seu destino final parece claro – a cadeia. Mas quis o destino que assim não fosse. Um corpo com a mesma descrição de Putois é encontrado. E assim dá-se fim a uma ficção que virou realidade e morreu. Morreu mesmo? Antes que o desaparecimento de Putois se fizesse por total, a pessoa que lhe deu vida, sua criadora pois, “certa feita chegou a sentir que o sangue lhe fugia, imaginando que ia ver a sua mentira materializar-se diante dela.” Foi no dia em que a nova criada veio anunciar que estava à porta um homem queria vê-la.
“Quem é?”
“Um homem de macacão.”
“Não disse o nome?”
“Disse, madame.”
“E então, como se chama?”
“Ele disse que se chama Putois.”
Quando a criada, enfim, foi à porta, não tinha mais ninguém. Só que a partir daquele momento, a criadora da farsa passou a crer que Putois tivesse existido mesmo e que, afinal, talvez ela não tivesse mentido... Até aí morreu o Neves! Na sequência do livro o próximo conto é “Riquet”. E lá vou embarcado numa viagem de destino desconhecido, como costumam ser os livros. Mas quem é Riquet? Nada mais nada menos que o cão de Bergeret, figura do conto anterior! Personagem, aliás, cuja existência não tinha sido mencionada! Bom, em resumo é o seguinte.
O senhor Bergeret tinha resolvido mudar-se com a família da velha casa, para morar num apartamento moderno. Nesse cenário, aos poucos invadido pelos homens da mudança e se torna devastado, vaga a figura de Riquet, o cão. Sem entender o que está se passando, vê os móveis e objetos aos quais tanto se afeiçoou sendo retirados. “Ele deplorava em silêncio o descalabro da casa e procurava em vão, de quarto em quarto, um pouco de sossego.” E no dia da partida, “vendo as coisas piorarem de hora em hora, ele se desesperou.” São muitas as provações pelas quais passa um cão em mudança. Só quando o próprio Bergeret veio em socorro e, apesar de tudo, o levou a um passeio, ele se acalmou. Do outro lado da rua, o homem e seu cão admiravam o lamentável espetáculo dos móveis, objetos domésticos, livros, estantes, tudo espalhado pela calçada à espera da mudança.
“Então, Riquet esfregou com as patas as pernas do dono e levantou para ele seus belos olhos aflitos”, que diziam: “– Será que tu, até bem pouco tempo, tão rico e poderoso, te tornaste pobre? Será que te tornaste fraco, ó meu senhor? Deixas que homens venham invadir a tua sala de visitas, o teu quarto de dormir, a tua sala de jantar, revirar os teus móveis e carregá-los para fora, arrastar pelas escadas a tua bela poltrona, a poltrona em que descansávamos os dois todas as noites e muitas vezes de manhã, um ao lado do outro? Eu a ouvi gemer nos braços daqueles homens mal vestidos, aquela poltrona que é um precioso Fetiche e um gênio benfazejo. Não te opuseste àqueles invasores. Se não tens mais nenhum dos espíritos que enchiam a tua morada, se perdeste até aquelas pequenas divindades que calçavas de manhã quando te levantavas da cama, aqueles chinelos que eu por brincadeira mordia, se és agora indigente e miserável, ó meu amo o que será de mim?”
Até aí – de novo – morreu o Neves! Meus amigos, olhem o que acontece na sequência, porque o próximo texto é – tcham, tcham, tcham, tcham! – “Pensamentos de Riquet.” Pois, pois, eis, que um personagem que nem havia sido citado já percorre o itinerário de três estórias... E quais são esses pensamentos do cão filósofo? Zaratustra que se cuide!
I – Os homens, os bichos, as pedras aumentam de tamanho quando se aproximam e ficam enormes quando chegam junto a mim. Eu não. Continuo sempre do mesmo tamanho, onde quer que esteja.
II – Quando o meu dono me estende sob a mesa bocados do alimento que ele vai meter na boca, é para me tentar e castigar-me se eu sucumbir à tentação. Pois eu não posso acreditar que ele se prive por mim.
III – O cheiro dos cães é delicioso.
IV – Meu dono me mantém aquecido quando eu fico deitado atrás dele em sua poltrona. Isto é porque ele é um deus. Há também na frente da lareira uma laje quente. É uma laje divina.
V – Eu falo quando quero. Da boca do meu amo também saem sons que forma um sentido. Mas são sentidos bem menos distintos do que eu exprimo pelos sons da minha voz. Na minha boca, tudo tem um sentido. Na do amo há muitos ruídos vãos. É difícil, se bem que necessário, adivinhar os pensamentos do amo.
VI – Comer é bom. Ter comido é melhor. Pois o inimigo que nos espia para arrebatar-nos o alimento é lesto e sutil.
VII – Tudo passa e se sucede. Só eu permaneço.
VIII – Eu estou sempre no centro de tudo: os homens, os animais e as coisas, hostis ou favoráveis, dispõem-se ao meu redor.
IX – Quando se está dormindo, se vê homens, cães, casas, árvores, formas amenas e formas assustadoras. Quando se desperta, essas formas desaparecem.
X – Meditação: Eu amo o meu senhor Bergeret porque ele é poderoso e terrível.
XI – Uma ação pela qual se foi espancado é uma ação má. Uma ação pela qual se recebeu carícias e comida é uma boa ação.
XII – Quando a noite cai, potências malfazejas rondam em torno da casa. Eu, com meus latidos, advertimos o meu senhor, para que ele as expulse.
XIII – Prece: Ó meu senhor Bergeret, deus do massacre, eu te adoro. Terrível, sê louvado! Propício, sê louvado! Eu me arrojo a teus pés, lambo-te as mãos. Tu és muito grande e majestoso. Tu és grande e majestoso quando, com um movimento do dedo, transformas a noite em dia. Guarda-me em tua casa à exclusão de todos os outros cães. E tu cozinheira, divindade excelsa e bondosa, eu te adoro e venero para que me dês bastante de comer.
XIV – Os cães que não mostram devoção para com os homens e que desprezam os fetiches reunidos na casa do senhor levam uma vida errante e miserável.
XV – Um dia, um cântaro furado, cheio d’água, atravessando a sala de visitas, molhou o assoalho encerado. Acho que o porcalhão deve ter sido surrado.
XVI – Os homens têm o poder divino de abrir todas as portas. Eu só consigo abrir um pequeno número delas. As portas são grandes fetiches que não costumam obedecer aos cães.
XVII – A vida de um cão é cheia de perigos. Para evitar sofrimentos é preciso estar vigilante todo o tempo, durante as refeições e até durante o sono.
XVIII – Nunca se pode estar certo de ter procedido bem em relação aos homens. Cumpre adorá-los sem procurar compreendê-los. Seus desígnios são misteriosos.
XIX – Invocação: Ó Medo, Medo augusto e paternal, Medo santo e salutar, penetra-me, invade-me no perigo, para que eu evite o que possa me ferir e para que eu não venha, lançando-me sobre o inimigo, a sofrer por minha imprudência.
XX – O mundo é cheio de coisas hostis e assustadoras.

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