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3/07/2023

Graça Aranha de "Canaã" (Resenha), por: Paulo Marçaioli


Por: Paulo Marçaioli
Blog: esperandopaulo
 No ensino de literatura no ensino médio somos ensinados e compreender a evolução da literatura brasileira de acordo com “escolas” que se sucedem de forma cronológica e linear: do romantismo ao realismo; do realismo ao naturalismo; do naturalismo ao simbolismo, etc. etc. 

Dentre estas categorias, uma daquelas mais discutíveis é a de pré-modernismo, que se situaria entre 1900 e 1922, tendo como termo final a primeira irrupção modernista oriunda da Semana de Arte Moderna. Dentro desta categoria residual se situam autores absolutamente diferentes em termos de estilo e objetos de análise e descrição: Lima Barreto, Euclides da Cunha e Graça Aranha são comumente associados ao dito pré-modernismo. 

Contudo, pode-se de fato pensar este período da trajetória da nossa literatura como um momento de transição: nela ainda se observam aspectos caros do naturalismo, perspectiva em que o homem olha objetivamente a realidade, sem enfeites de imaginação que, frequentemente, resultam da impossibilidade ou da impotência em explicá-la. Tal qual um cientista que analisa os fatos da natureza, o escritor naturalista expressa o mundo onde pousa os seus pés. Ao menos em Canaã, estão igualmente presentes os pressupostos teóricos da escola naturalista envolvendo determinismo, o darwinismo social e as teorias evolucionistas. 

Além disso, no mais conhecido romance de Graça Aranha já se antecipa uma preocupação central do modernismo brasileiro. Nem tanto a experimentação formal influenciada pelas vanguardas europeias mas a preocupação subjacente daquele movimento de se explicar o Brasil através de sua experiência histórica para assim apontar perspectivas de futuro do país.

Canaã pode ser entendido como um romance de tese, que expressa o debate intelectual da época. 

O livro trata das colônias alemãs situadas no interior do Espírito Santo. As colônias decorriam de um movimento iniciado ainda no século XIX de estímulo da vinda de imigrantes europeus ao Brasil, não só como meio de substituir o trabalho escravo, cuja abolição deu-se em 1888, mas por conta de considerações raciais relacionadas ao debate intelectual da época. 

Os dois principais personagens, os alemães Milkau e Lentz, expressam dois pontos de vistas distintos relacionados às discussões do período em torno de raça, cultura e o futuro do Brasil. 

Milkau, desiludido com a Europa, busca no Brasil o recomeço de sua existência na virgindade de um mundo que estava para ser construído. Via na miscigenação brasileira algo positivo, já que pensava a evolução humana relacionada à confluência de raças. Rejeitava o patriotismo alemão e entendia que as guerras e a luta entre os homens, no futuro, seriam superadas pela solidariedade e o amor. 

Há quem diga que este personagem fora inspirado em Tolstói e de fato suas intervenções remetem a algo próximo de um socialismo utópico. 

Lentz parece ser o exato oposto de seu amigo Milkau. Via a imigração alemã como uma oportunidade de subjugar os negros e mestiços do país. Línguas, culturas e civilizações duelam até a prevalência da raça mais forte, no caso a alemã. Enquanto seu companheiro via beleza na harmonia entre o homem e a exuberância da natureza brasileira, Lentz enxerga a beleza na luta e na vitória do mais forte, na dominação do homem sobre a natureza. Pode-se relacionar as suas ideias com a moral nietzschiana: a apologia do mais forte, o desprezo pelos fracos e pela caridade cristã. 

“Milkau era agricultor por instinto, e todas as suas faculdades de atenção, de imaginação, as empregava com desvelo e ardor no trabalho com as próprias mãos, que enobrecia o seu destino humano. Lentz era o caçador. Restringindo a um círculo de limitada atividade, o seu espírito, sempre retrógrado, buscava expandir-se nessa forma inicial e selvagem de civilização. Caçava, lutava com os animais, devastava matas, e aliado a outros colonos de igual inclinação, em poucos meses para ele já não havia segredos na floresta brasileira. No mesmo teto esses dois homens exprimiam duas culturas diferentes. Um oferecia um mundo de façanhas, matanças, sacrifícios de sangue, e o outro, simples lavrador, frutos da terra, flores do seu jardim...”. 

Expressando o debate intelectual da época, em Canaã se percebe que a categoria de raça e cultura eram mais centrais do que o conceito de sociedade, para os sociólogos e antropólogos de fins do XIX e início do XX. 

A despeito da história retratar uma colônia de camponeses alemães, o debate que a obra suscita diz respeito aos dilemas do desenvolvimento brasileiro: os personagens principais oriundos de uma país distante, ao tecer cada um os seus pontos de vista sobre a realidade nacional, possibilitam uma visão mais equidistante acerca das possibilidades da civilização brasileira. Isso sem dizer das passagens do livro que retratam o relacionamento dos colonos estrangeiros com os brasileiros, especialmente as autoridades políticas corruptas. 

Válido ressaltar que Graça Aranha, na condição de diplomata, participara pessoalmente do projeto de incentivo da imigração europeia do Brasil. 

O que não significa dizer que o livro chega a conclusões eugênicas envolvendo o a prevalência da raça branca sobre mestiços e mulatos. 

Ao longo da história, ao se depararam com as corriqueiras tragédias sociais relacionadas à pobreza e à intolerância humana, cada um dos personagens revê as suas próprias ideias iniciais. Ao fim e ao cabo, o livro não apresenta respostas senão aquilo que foi definido pela crítica de “pessimismo esperançoso”: a miscigenação permitiria o desenvolvimento através da criação de um povo com características próprias; e, por outro lado, esta miscigenação transformaria os nativos ao ponto de se tornarem irreconhecíveis em relação ao seu próprio país.

2/02/2023

Franklin Távora e a Literatura do Norte (Resenha biográfica), de Paulo Marçaioli

  

Por: Paulo Marçaioli
Blog: esperandopaulo

FRANKLIN TÁVORA E A LITERATURA DO NORTE

João Franklin da Silveira Távora foi jornalista, deputado provincial, historiador ligado ao IHGB e romancista. Ficou conhecido na história da literatura brasileira como fundador da chamada Literatura do Norte, escola assim designada por Sílvio Romero, precursora do regionalismo literário nordestino, cuja maior expressão se daria dentro da geração modernista do início do século XX, com escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado.

 

Nosso escritor nasceu em 13 de Janeiro de 1842 no sítio Serrinha da Glória, antiga Candeia, região encravada na Serra de Baturité, no centro-norte do Ceará. Era filho de Camilo Henrique da Silveira Távora,  alcunhado de “o indígena”, um liberal simpático aos movimentos revolucionários de 1817 e 1824.

 

 A Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento de caráter liberal e republicano, cujas origens remetem à divulgação das ideias revolucionárias da revolução francesa e a oposição ao absolutismo monárquico Português: o descontentamento dos liberais pernambucanos foi agravado pelos enormes gastos pecuniários decorrentes da chegada da Família Real Portuguesa no Rio de Janeiro, com aumento de impostos para manter o luxo da corte e para travar guerras na Cisplatina, sem prejuízo da nomeação de portugueses para os cargos públicos em detrimento da nobreza da terra.

 

Já em 1824 eclodiu a Confederação do Equador, movimento de caráter mais nitidamente separatista, liderado pelo padre Frei Caneca e que contou com apoio financeiro dos EUA, que já naquele tempo se interessava pela fragmentação territorial do Brasil, a balcanização de um grande país como meio de melhor subjugá-lo.

 

O radicalismo político pernambucano, tanto 1817 quanto 1824, encontra sua origem mais remota em 1710/1711 na Guerra dos Mascates, que seria tratada com minúcia pelo escritor nos livros “O Matuto” e “Lourenço”.

 

Politicamente, Franklin Távora seguiu os passos do pai: sempre foi um progressista, defendendo a abolição da escravidão, a república e a reforma das instituições de ensino.

 

Entre os anos de 1859 e 1863, o autor de “O Matuto” estudou na Faculdade de Direito do Recife, quando fundou e participou de centros, sociedades e associações de estudantes voltadas a atividades literárias e políticas. Neste período, também se aproximou do jornalismo, com o nobre objetivo de ajudar financeiramente a família, que passava por dificuldades.   Começou como tipógrafo e foi evoluindo para revisor de provas, repórter, editor, chefe de redação e, mais tarde, fundador de jornais.

 

Sua aproximação com a política deu-se neste período de participação na imprensa, tendo atuado no “Jornal do Recife”, fundado em 1859 por José de Vasconcellos e, alguns anos depois, no Jornal “A Situação” liderado pelo Conselheiro Francisco de Paulo Silveira Lobo, filiado ao Partido Progressista.

 

Já ligado a este último partido, foi eleito deputado provincial de Pernambuco para mandato entre 1867/1868, quando tinha apenas 25 anos de idade. Já no primeiro ano de mandato, é nomeado para o cargo de Diretor Geral da Instrução Pública, cargo que hoje equivale ao secretário estadual de educação.

 

Ao assumir o encargo, declarou que pretendia reformar as instalações da Diretoria-Geral, dos diversos colégios a ela vinculados, reorganizar administrativamente as atribuições dos professores e lutar pela liberdade de ensino em Pernambuco. Neste trabalho, encontro ferrenha oposição do Partido Conservador.

 

Dada a sua orientação política liberal e progressista, Távora se empenhou na campanha de libertação dos escravos na imprensa, sendo responsável por traduzir a famosa carta endereçada ao mundo por Vitor Hugo contra a escravidão, na qual o autor de Os Miseráveis alertava: “Ter Escravo é merecer ser escravo”.

 

O que é curioso é que o seu posicionamento político progressista, ao contrário do que se poderia supor, não fez com que o escritor deixasse de ser simpatizante do lado de Olinda e dos senhores de engenho, contra os mascates de Recife, em seus dois livros sobre a Guerra dos Mascates.

 

Na verdade, mais do que um conflito entre comerciantes burgueses e latifundiários, o escritor via naquela guerra as sementes do movimento de libertação do Brasil em relação à Portugal: a oposição retratada na obra de dava entre a opressão da metrópole e a reação nacionalista liderada pelos nobres de Olinda.  Ainda que numa leitura mais economicista ou marxista daquele conflito, o lado burguês e citadino de Recife aparecesse como “progressista” em relação ao lado aristocrático dos senhores de engenho de Olinda. O conflito, nesta perspectiva, se deu entre o comércio de natureza capitalista e a agricultura de natureza escravista ou, como querem alguns, “feudal”.

 


A GUERRA DOS MASCATES

 

“Só uma vista curta não verá na guerra dos mascates, antes uma luta travada por dois grandes princípios, do que uma revolta filha de preconceitos ridículos e costumes atrasados. Certo concorreram não pouco para essa luta o costume e o capricho antigo, inflexíveis ambos; mas o seu papel nessa grande representação foi mais secundário do que principal. A parte essencial e verdadeiramente dramática da ação, essa pertencia a dois grandes interesses, assim das sociedades modernas, como das antigas – ao comércio e a agricultura, princípios que, quando acordes em seu desenvolvimento, trazem a propriedade e riqueza dos povos, e, quando divergentes, o seu atraso senão o seu aniquilamento”. (O Matuto).

 

A Guerra dos Mascates (1710/1711) de fato ficou conhecida na história como a oposição entre as duas cidades, o que de fato foi a exteriorização geográfica do conflito. As suas origens, como não poderia deixar de ser, se deram no plano econômico.

 

Anos após a expulsão dos holandeses de Pernambuco, a economia da região entrou numa crise decorrente da baixa do açúcar no mercado internacional e da concorrência do açúcar produzido nas Antilhas.

 

A concorrência afetou os ricos senhores de engenho de Olinda, que entraram em decadência por não mais obterem os mesmos lucros com a produção açucareira. Por esta razão, os proprietários dos engenhos foram obrigados a contrair empréstimos com os comerciantes portugueses, chamados de mascates, que ocupavam Recife e possuíam dinheiro para emprestar aos senhores de Olinda, porém cobravam juros altíssimos pelos empréstimos, ocasionando o endividamento cada vez maior dos olindenses. Até então, Recife era apenas um porto e um “bairro” de Olinda. Porém, com o desenvolvimento econômico, seus moradores passaram a postular a sua independência em relação a Olinda, o que foi um dos elementos detonadores do conflito.

 

Embora dependentes economicamente dos comerciantes portugueses, os senhores de engenho pernambucanos não aceitaram a emancipação político-administrativa do Recife, até então uma comarca subordinada a Olinda. A emancipação do Recife foi percebida como uma agravante da situação dos latifundiários locais (devedores) diante da burguesia lusitana (credora), que por esse mecanismo passava a se colocar em patamar de igualdade política.

 

No romance Lourenço, a indignação da nobreza da terra é bem capturada na seguinte passagem:

 

“- Que víamos antes da luta? Dois interesses, um estrangeiro, outro brasileiro. Levados a cobiça, e não satisfeitos com serem senhores do comércio e das indústrias, os portugueses europeus queriam chamar a si a agricultura, impondo aos agricultores obrigações que redundavam em ficarem estes à mercê daqueles. Como não pudessem, por meios lícitos, levar a efeito o seu intento, maquinaram criar a vila onde tinham e onde têm a sua força, e tornar-se, por este modo, árbitros dos preços dos gêneros que haviam de ser forçosamente tachados por almotacés do seu plano; e este diabólico intento estaria de todo realizado, se a nobreza não pusesse para fora o governador que tivera o arrojo de promover a criação da vila maldita”.

 

Nos dois romances que tratam da Guerra dos Mascates, o escritor realça a violência do conflito, que opôs bandoleiros mascates liderados por Camarão e Tundacumbe e outros tipos populares, e uma nobreza altiva que se recusou a capitular e chegou mesmo a desenvolver uma “guerra de guerrilhas”, até a obtenção do perdão de El-Rei três anos após o início da guerra.

 

Como dito, no romance, o escritor claramente se posiciona favorável aos nobres de Olinda, vistos como precursores do nativismo e do movimento da independência, de acordo com o nacionalismo da escola literária romântica.

 

Vejamos como eram retratados os mascates:

 

“Afiguravam-se estes aos seus olhos vultos patibulares, visões pavorosas como demônios em que ele acreditava.

 

Tinham calças arregaçadas e enlameadas, as jaquetas pegadas ao corpo, chapéus ainda umedecidos e demudados, nas faces estampado o sono, o cansaço, a fome e a maldade, nas mãos armas sinistras e ameaçadoras.

 

Grande parte desta força passante, de duzentos homens, era composta de caboclos; no restante havia de tudo – negros, curibocas, semibrancos e até brancos”.

 

Mais do que uma história épica da Guerra dos Mascates, temos neste romance uma descrição da fisionomia física e moral do “matuto” que é o sertanejo agricultor, o lavrador, o almocreve, bem como da sua estrutura familiar, dos costumes, do folclore, das festas populares, do papel da religião, dos enlaces conjugais. Mais do que um romance histórico, temos a partir da leitura deste romance regionalista uma fonte preciosa do sertanista brasileiro:

 

“No tocante ao traje, ver um dos matutos era o mesmo que ver os demais. Camisa por cima de ceroulas de algodão – eis em que ele consistia. 

 

Todos tinham os pés nu, e quase todos por cima do cós das ceroulas o longo cinto de fio, cofre portátil onde traziam o dinheiro, terminando em cordões com bolotas nas pontas, os quais serviam para dar muitas voltas em torno da cintura antes do laço final. Metida entre o cinto e o cós guardava cada um sua faca de ponta presa pela orelha da bainha. Da arma só aparecia o cabo, figurando a cabeça de uma serpente que tinha o restante do corpo oculto.”.

 


OS ÚLTIMOS MOMENTOS DA VIDA

 

Já no final da vida, com a morte da mãe e uma doença nos pulmões, Franklin Távora abandona a literatura e os trabalhos institucionais, passando, inclusive, por dificuldades financeiras.

 

O escritor morreu no dia 18 de agosto de 1888, com poucas pessoas comparecendo ao enterro. Sílvio Romero, um dos poucos escritores presentes no velório, resumiu com estas palavras o drama vivido pelo seu amigo: “Cumpre destacar em síntese o valor deste escritor, sempre muito maltratado pelos literatos de seu tempo.”.

 


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BIBLIOGRAFIA
“O Matuto” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes

“Lourenço” – Franklin Távora – Editor Iba Mendes 

“Franklin Távora” – Cláudio Aguiar – Série Essencial – Academia Brasileira de Letras – Imprensa Oficial.

5/31/2020

Camilo, o intérprete de Portugal (Resenha)



Camilo, o intérprete de Portugal

O grande romancista é bem o espelho da alma portuguesa, numa época atribulada da sua vida e da sua história. Violento, impulsivo, arrebatado, cedendo abruptamente a uma provocação, quer ela partisse de qualquer beócio escritor de parvônia, quer ela proviesse de nomes literários já feitos e consagrados, Camilo, como o gênio deste povo, arremetia furioso para o inimigo, esmiuçava-lhe a personalidade, acachapava-lhe a figura, punha-lhe em foco o riso alvar, escancarava-lhe a boca desdentada, e desfazia-o.
Nem sempre era justo e o próprio escritor por mais de uma vez o reconheceu. Feria a torto e a direito, muitas vezes irrefletidamente, para obedecer a uma inclinação combativa do seu espírito.
Quem o visse brandir a pena como um rijo montante a desbastar infiéis, julgaria que o grande romancista era homem de má catadura, um traga mouros inacessível a amizades e a carinhos, na obcecação doentia de exterminar tudo e todos.
Pela sua correspondência e pelas notícias que até nós trazem os seus íntimos, vê-se que Camilo para os seus amigos era afável, correto, obsequiador, até.
— É que o leão não admitia que a fauna mais miúda zombasse dele. E realmente ele foi o primeiro do seu tempo.
A sua obra foi anarquicamente elaborada, como a sua vida foi anarquicamente conduzida. Mas ela, arlequinando o riso e fazendo soluçar a dor, esmaltando tipos ideais e atirando para a sarjeta do desprezo caracteres abomináveis ou para o anfiteatro do circo histriões inconscientes, brilha em cada página, palpita em cada período, porque e o povo português que ali esta fotografado, em suas eminências e declives, em suas extravagâncias e loucuras.
Mas Camilo, como todos os homens de gênio, como Camões, Shakespeare, e tantos outros não foi compreendido no seu tempo. Então o burguês olhava-o com cólera e o intelectual com desconfiança. E o povo, que ele tão bem descreveu em suas paixões e desvarios, pouco se interessava por glórias literárias.
É por isso Camilo viveu pobre, trabalhando como um escravo, amarrado à pena como a um potro de tortura, no meio da indiferença da gente da sua terra e da exploração de certos livreiros que muito se alimentaram do sangue do escritor.
E a sua obra fecundíssima, extensíssima, como poucos escritores a terão feito tão vasta, ressentiu-se por isso e pelo seu temperamento da falta de uniformidade que tanto se lhe censura.
Mas talvez se ela houvesse sido elaborada em pleno remanso, com os confortes da abundância e da opulência a bafejaram-no com uma aragem acalentadora e mole, talvez ganhasse em uniformidade, mas era provável que perdesse em qualidade.
A tragédia da vida de Camilo está toda esculpida no mármore raro dos fólios dos seus livros. Há o sopro da desgraça a fazer brotar dali as lágrimas, há o fel do desespero a encher de agrura e revolta aqueles caracteres, há o rictus da gargalhada a estridular naquelas letras e há muitas vezes o acicate da dor ou o orvalho da resignação a erguer ao céu um hino de piedade.
A alma portuguesa tem um intérprete maravilhoso naquelas páginas. Porque Camilo é inteiramente nacional, sem mesclas de estrangeirismos. Educou-se com os nossos clássicos e aprendeu com o nosso povo e com a natureza de Portugal. Nem sequer foi ao estrangeiro.
Um grande escritor é aquele que provoca a simpatia dos seus concidadãos. Podem verdadeiras ou falsas elites repudiá-lo, que o povo ergue-o na apoteose do seu louvor. No estrangeiro os sucessos contam-se pela venda nas livrarias. Dickens, de simples repórter parlamentar, guindou-se à maior popularidade literária que tem tido a Inglaterra. Ainda hoje os seus romances desafiam a concorrência do passado e do presente. Assim sucede agora a Camilo, postumamente, pois que Portugal só depois dos filhos mortos é que os homenageia, é que lhes levanta o pedestal da sua admiração.
Interpretaste uma geração, dominaste toda uma época literária, para só agora a 35 anos da tua morte trágica, remate sangrento de uma epopeia de martírio, reconhecerem o excelso valor da tua obra, a mais comentada e discutida em Portugal e pensarem em te erigir um monumento numa terra que os têm dispensado de sobra aos políticos que quase a têm perdido.

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ANTÔNIO RUAS
Março de 1925.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

5/22/2020

A arte e o pessimismo de Eugênio de Castro (Resenha)



A arte e o pessimismo de Eugênio de Castro
Dada uma tal forma e natureza de espírito, nada mais consequente do que afirmar-se Eugênio de Castro, realmente, como o criador de Beleza que indicamos — criador de Beleza no sentido de síntese eurrítmica, de decoração e sugestão pictural, de fluidez melódica e riqueza harmônica.
E neste artista, que é um consciente, a compreensão da arte conjuga-se intimamente com a maneira de ser. Por isto o presente texto não será mais do que outra face da mesma moeda onde tentei gravar-lhe a efígie.
Se ele vê e sente por imagens vivas, se é sob essa feição que as suas melhores energias psíquicas lhe veem desabrochar na consciência — pensamentos e sentimentos, próprios ou alheios, só o interessam também a valer quando vazados em formas belas e movidos em cadências copiosamente ondulantes. Essa faculdade criadora de Beleza explica a sua orientação estética, a direção da sua atividade artística — o seu idealismo e o seu simbolismo. Fundamenta e justifica o seu culto do estilo, tal como ele o concebe, de preferência à notação do caráter.
Veremos que, a par da sua orientação estética, nos explicará também, de unida que vai com esta, a sua noção de Vida.
Perante as manifestações do Pensamento e da Emoção, é, na verdade, o esteta que predomina em Eugênio de Castro. Um poeta que, como ele, ama e sabe amar a Beleza, erguendo-a num culto, não pode deixar de manifestar essa tendência e essa qualidade. Assim, reveste sempre de nobreza e prestígio, de interesse glorificante, ou de tocante graça as paixões que objetiva, os sentimentos que aditam as almas dos seus personagens. O artista é que distingue para o homem.
Sim, até no gênero de poesia onde se fundem as fronteiras da Vida e as da Arte, onde a revelação pessoal põe um abalo de calor humano — até mesmo aí ele nos aparece, acima de tudo, como mil cultor da harmonia, como um criador de formas belas.
Nos próprios sonetos e outras poesias de caráter amoroso, se muitas vezes esbate longes de tristeza, se se envolve em conceitos de intenção magoada e pessimista, se acentua acordes bemolados de saudade — a emoção penosa parece vir logo suavizada pela virtude derivante do instinto e do senso artístico, que lhe transforma as lágrimas em pérolas. Os seus movimentos íntimos exteriorizam-se e continuam-se em ritmos que os coordenam e desafogam docemente, através modulações de balanço hipnotizante, e de curvas atenuadoras. É como se este poeta se desdobrasse em duas personalidades, das quais uma embalasse e amaciasse os cuidados da outra na melodia encantada dos versos admiráveis. É como se ele, para si próprio, fosse ao mesmo tempo Saul e Davi.
Se sofre, não nos deixa ver crispações violentas, não nos deixa ouvir gritos estrangulados, nem gemidos arquejantes. Assistiremos antes a cortejos de imagens melancólicas de onde apenas se erguem suspiros musicais, acompanhados de altitudes e gestos majestosamente  ou graciosamente escandidos. Não fará da lamentação individual, da desvendada confissão das lástimas e das fraquezas próprias o fim ou o interesse capital da sua arte.
Dir-se-ia que erigiu em preceito o verso célebre de Alfred de Vigny — pelo menos em toda a extensão significativa das duas primeiras palavras:
Gémir, pleurer, prier est également láche.
Na arte, como na vida, onde agora vamos encará-lo, domina-o sempre o pudor da sua exibição total, a par de um mal dissimulado e lógico desdém pelos inquietos e pelos plangentes. Quer isto dizer que este poeta seja de todo surdo e impenetrável à dor, e que nele não vibre a corda da piedade? — A dor e o sofrimento humano são para ele, como poeta, apenas temas de Arte; e, em geral, nessa qualidade, têm valor igual ao de outros temas da mesma intensidade artística.!Em geral"  — escrevi eu. Não sempre. E não é indiferente fazê-lo notar; pois a observação importa o reconhecimento de algum outro e novo aspecto. Pelo menos de uma modalidade nova, revelada no livro da fase mais recente. Digamos (desde já que essa modalidade não lhe contrariou as linhas fundamentais da sua estética, não obstante enriquecer-lhe e ampliar-lhe a significação moral da obra total. Digamos mais que esse livro não veio acusar uma transformação ou desvio importante da sua compreensão da vida, não obstante trazer-lhe à sua arte uma nota mais enternecida.
Vejamos então: qual é a sua noção compreensiva da Vida? É nesta altura que melhor cabe a pergunta. E a reposta a dar, por estranha que a princípio possa parecer é esta: a sua noção de Vida resume-se no pessimismo.
Resposta tão vaga, no entanto, que também agora careço de apertar-lhe o sentido!
O seu pessimismo não é o do estoico, cujo recolhimento em si próprio representa, a um tempo e conjugadamente, a reprovação das fraquezas humanas e o orgulho amargo do seu isolado valor moral.
O seu pessimismo não é o do místico — que desejaria, consumindo-se, consumir na mesma chama de fé toda a maldade do mundo, volatilizar a vida para que a sorvesse um hausto do céu. E, não sendo nenhum destes, não é também o dos que têm a explicação da visão verde-triste e da acidez da alma no vago e insondável inferno das suas sinestesias anormais. O seu pessimismo é cerebral e não visceral. Distingue-se dos dois primeiros pela natureza do seu objeto, e do terceiro pela origem orgânica.
O seu pessimismo é o pessimismo dum esteta. É, portanto, um novo reflexo da mesma natureza e forma de espírito que em tudo e sempre se lhe reflete. Eugênio de Castro é pessimista, porque não acha o mundo, o mundo do homem de hoje harmoniosamente belo; porque o ferem, mais do que a outros, os aspectos desgraciosos, os lados triviais e mesquinhos, os detalhes vulgares da existência atual, dentro desta civilização que bestializa as almas na luta crua dos interesses materiais, que esfaqueia e prostitui a natureza e as paisagens numa fúria bruta de industrialização. Porque é este o seu modo de ver, e não outro, é que ele é um esteta, no sentido em que tomo a palavra. E porque é essa a causa fundamental do seu pessimismo é que se explica, pelo lado da noção da vida, como se explicou pelo lado da forma do espírito, a sua atração para mundos longínquos, sobretudo distantes no tempo. É lá que se refugia, como um auto-exilado, sem rancor nem protesto, para erguer ou contemplar as belas criações em que lhe aparece uma outra Humanidade (no fundo a mesma), transfigurada pela ilusão da perspectiva, purificada pela graça da Arte. Como se vê, o seu pessimismo não lhe torna o espírito infecundo e sáfaro. E não seria difícil filiar o tédio de Sagramor exatamente na intemperança do Desejo. Se, em grande parte, a sua desilusão nasce da incompatibilidade atual entre a Arte e a Vida, tais como as concebe, a desilusão não o aniquila. Já vimos que se compensa com o refúgio na Arte. Mas a Arte e a Vida condicionam-se mutuamente, no fundo — a não ser que se trate de arte morta, de cópia de modelos, de exercício literário. Era, pois, natural que ele na Vida — visto que a exige bela — quisesse ver prolongada a Arte.
Como a prolonga para a Vida? Do melhor modo por que hoje, realmente, um espírito do seu feitio a podia prolongar: pelo desenvolvimento pessoal, pela integração, em si próprio, de quanto sejam elementos concordantes no sentido do seu aperfeiçoamento, E, como, hoje, nessa integração havia de entrar o elemento moral, explicam-se: no homem uma resgatadora e crescente beleza da afetividade superior — no artista a amorabilidade do seu poema mais recente. Se para os outros a Arte é uma função da Vida, para ele a Vida é uma função da Arte. E se esta fórmula revela, por um lado, uma concepção socialmente imperfeita, por outro lado, revelar com efeito, em semelhante caso, um princípio de perfeição individual.
Tudo no mundo é instável. As profecias falham. Mas consola-me crer na persistência dessa aspiração.

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MANUEL DA SILVA GAIO
Coimbra, 25 de fevereiro de 1902.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020).


Eugênio de Castro e a sua obra (Resenha)



Eugênio de Castro e a sua obra

É longa a lista das suas obras e desde a fase nevoenta dos livros de estudo, combate e lançamento (o período das Cristalizações da morte às Horas tristes) até à fase definitiva dos últimos lavores clássicos — que de documentos temes a encarecer-lhe a personalidade e a destacá-lo como um grande e extremadíssimo poeta! Dos seus livros o que mais estimo é o Anel de Policrates — pois que é o que melhor casa a lição clássica à Beleza nova — tal como a compreendeu e lançou, sem hesitações, arrojadamente, com grande firmeza, como quem afronta a indiferença de uns, a surpresa de outros, a malevolência de uma boa parte — cheio daquela fé que encontrou na religião da Beleza — fim primeiro, senão único, da sua jornada.

A Moral saiu a princípio escandalizada dentre o nu extravagante do mais das suas páginas. É que canta nelas os segredos da carne, dando ao mundo da Sensualidade um âmbito até ele desconhecido.

Arrancou as balizas burguesas.

Nem rimou as futilidades madrigalescas dos passados — nem enveredou pelas grosserias positivas da musa contemporânea — a musa dos atalhos por lavar, musa que veste camisa suja de estopa e serve as várias necessidades dos poetas que a cantam.

Não cabem nestas páginas grandes transcrições.

Mas não me furto a algumas dos livros de Eugênio Castro para documentar a sua índole de poeta.

Sejam as primeiras do Anel de Policrates; e comecemos pelos conselhos de Anacreonte a Agamedes:

 Quem se dispõe a amar o seu caráter dispa!
O Amor embora seja uma rápida chispa
Que morre mal brilhou, tem duras exigências;
Porém, como é fugaz, bastam-lhe as aparências
Não mudes! Sê o que és no fundo da tua alma,
Mas p'ra alcançar de tua amada a verde palma

***
Não receies mostrar-te, ó tu que amar desejas,
Não como és, mas como ela quer que sejas!
É religiosa a tua amada? Vai ao templo,
Consagra ofertas mil aos Deuses, sê o exemplo
No modo de seguir o antigo ritual.


Aí está, num desprezo imenso pela convenção, bem expresso o fim da posse da mulher. E mais adiante, em versos magníficos:

E tu és mais ingênuo ainda
Que um ramo de coral, cabecinha de vento,
Se exiges à mulher a força do talento
Deverás exigir a formosura aos sábios
Que importa a estupidez, se são frescos os lábios?
As maçãs em que tu cravas guloso os dentes,
Dize-me, essas maçãs são muito inteligentes?
Ora a maior diferença, amigo, que tu vês
Entre a moça e a maçã, é que uma tem dois pés
E a outra tem um só? Anticleia é formosa
E nova. Que mais queres? E parva e silenciosa?
Melhor! Sem hesitar, trata de convencê-la.
Hoje mesmo, sem falta, hás de falar com ela!

Reparem naqueles versos:

 Se exiges à mulher a força do talento
Deverás exigir a formosura aos sábios.

Não valem aqueles outros de Baudelaire dirigidos à amante:

Sois charmante e tais-toi?...

Abro os livros de Eugênio de Castro para os mostrar ao leitor, um tanto alheado do seu fim dirigente e sobretudo para lhes apontar como o seu paganismo e índole pessimista se desentranham em versos cheios de talento e graça onde a Beleza-ídolo sobressai e culmina.

E se somarmos a esta finalidade (a de um tal culto) o estudo da cor, do ritmo, do equilíbrio do verso, do exotismo sensual que lhe abraça toda a obra, teremos compreendido o processo mental da vida superior do artista, incontestavelmente ressabiada dos modelos helênicos, embora atida também aos nossos clássicos.

E quem o tem conversado de perto sabe bem como uns e outros autores lhe são familiares, nomeadamente como estima Castilho pelo colorido do termo, pelo som do verso — por todas as qualidades enfim que o mais da gente desconhece e decerto ignorará enquanto o Sr. Teófilo Braga não for relegado do Supremo Conselho da Crítica portuguesa — como um juiz faccioso e perturbador. Oxalá a Política o entretenha de vez.

E claro que nos reportamos aos moldes clássicos no que importa à forma. De resto há na sua obra (falo da de Eugênio de Castro) e é o mais que lha contrasta, imaginação, espírito, graça, extravagâncias, coragem, e, relevos que não são deste ou daquele; são dele.

Exprimem índole. São a razão da surpresa pública, no fundo a causa do seu triunfo.

Transcrevo do Interlúnio os versos Amores:

Judite, a loira e magra, que ora vive
Entre palmas e mirra, nas novenas;
Dulce, a dos peitos de hidromel e penas
Com quem tempestuosas noites tive;
Maria, a ingênua, a plácida e macia,
Ingênua como um pintassilgo,, e pura

Como um mês de Maria;
Lídia, a trigueira hostil, severa e dura,
E Fábia, a de olhos perturbantes, lassos,

Fábia, cujos abraços
Me vestiam de aromas:
Todas adorei,
Todas me adoraram
E todas choraram
Quando as desprezei.

Aí está fixada com ousadia a versatilidade do gosto na exploração de uma vida sensual que é nova, pelo menos em livros.

Podem os catecismos salientar em parangona, para uso católico, que os inimigos da alma são três — o mundo, o diabo e a carne.

Mercê da última, Eugênio de Castro tem comércio com aqueles potentados, e nós, os que vemos dos tais entendimentos, não temos força para lhos castigar... Depois, francamente, se a alma é prejudicada com o uso e patenteamento daquelas emoções — não o percebemos. Pelo contrário, consignamos uma hipertrofia de alma em bem do poeta.

O amor é ainda função do temperamento. Cada um ama como é. Bem que pese às cartilhas de todos os ritos.

Ainda mais arrojada é a poesia Hermafrodita do livro — Salomé e outros poemas.

D'Hermes e d'Afrodite o filho esbelto e amado
De Salmacis oscula o corpo melodioso,
E a ninfa treme e enleia o moço deslumbrado,
Com um prazer que até chega a ser doloroso...

Ela — dócil, a arfar, como, ao vento, as searas...
Ele — forte, a arquejar, como com cio, um touro...
O cabelo da ninfa inunda as duas caras,
E há beijos musicais sob essa chuva d'ouro...

Num doido frenesi, entrar parecem querer
Ela — no corpo dele, ele— no corpo dela!
Choram, gemem, dão ais... e no auge do prazer
Começam a gritar para o céu que se estrela:

— Ó Deuses! atendei nossa súplica ardente:
Se é verdade que ouvis as vozes que vos chamam
Os nossos corações, fundi-os num somente,
Fundi num corpo só nossos corpos que se amam.


Ao Olimpo chegou essa suplica louca,
E Zeus, o grande Zeus, cuja força é infinita,
As duas bocas transformou numa só boca
E dos dois corpos fez um só: Hermafrodita!

Abstenho-me de transcrever a luta imensa desses seres que juntando-se pretenderam somar parcelas de natureza diversa, criando aspirações inconsumíveis.

Mas remeto o leitor para o livro de onde transcrevi aqueles versos.

Essa luta, melhor direi os versos que a descrevem, têm a forma lapidar que consagra os grandes poetas e lembram as ousadias genialmente revolucionarias de G. d'Annunzio, como bem notou J. Costa. Como quer que seja não me furto a transplantar o final deste capitula d'arte.

Que não vá o leitor abster-se de me fazer a vontade, adquirindo a Salomé e outros poemas... Finda assim:

Sem poder sofrer mais desespero tamanho,
Hermafrodita um dia enfim, crispando as mãos
Enforcou-se e morreu... mas do seu corpo estranho
Saíram, sempre hostis, os dois feros irmãos.

Chovia... E procurando uma guarida calma,
Que os livrasse da chuva, uma torre ou uma gruta
Viram minh'alma aberta, entraram na minh'alma
E na minh'alma estão continuando a luta!

 
Enfim podia ter-me abstido de transcrever tanto, penteando a crítica segundo os modelos que por aí vejo, discreteando larga e miudamente sobre o simbolismo do poeta, o seu exotismo, a extravagância sensual, o decadentismo, influências estranhas, preciosismo de palavra, harmonia do verso etc.

Preferi transcrevê-lo e fotografá-lo.

Dei-me a iluminista, encaixilhei alguns versos da melhor colheita em prosa pintalgada e alusiva, demarquei-lhe os capítulos com umas vinhetas de lavra e gosto próprios, anotei, aplaudi, sublinhei, e isto de bom ânimo e melhor fé.

Que a crítica oficial o entenda.

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BENTO DE OLIVEIRA CARDOSO VILLA-MOURA
Vida Literária e Política (1911)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

Aspectos da poesia de Eugênio de Castro (Resenha)



Aspectos da poesia de Eugênio de Castro
Eugênio de Castro é, predominantemente, um artista, um escritor de imagens. No seu espírito, todas as impressões e todos os reflexos do mundo e da vida revestem, de preferência, valores picturais e rítmicos. É o próprio de um artista. E a poesia participa de toda a Arte. Não é apenas, porém, um notador de impressões diretas, um registro vivo de percepções próximas. Atinge, como poeta, um grau superior da representação mental, de concepção geral.
Essas duas qualidades explicam-lhe a obra; que por seu lado, as prova; devendo acentuar-se, contudo, que mesmo as suas representações mentais de grau superior se reduzem e transpõem, ordinariamente, em imagens vivas, em vez de se exteriorizarem por meios de linguagem abstrata; o que confirma, ampliando-a, a observação já feita acima.
Por isso que um pintor e um simplionista tenderá sempre a traduzir as suas emoções em som e cor.
Por isso que é um representativo de generalidade passará, naturalmente e de bom grado, da contemplação e realização de motivos belos, concretos e dispersos à contemplação e invenção da Beleza, secundo uma concepção idealista. E, assim, devia realmente exercer, como exerce, as aptidões excepcionais que possui no sentido da criação sintética (aliando sempre a intenção do detalhe artístico). E é ver: a sua composição é quase sempre quase voluntariamente simplificada; elimina, de ordinário, o documento local, a particularidade cronológica, o traço miudamente individuante; liberta-se, como de estorvos, das condições do espaço e do tempo.
Com semelhante aptidão e tendência de composição genérica, com uma tal forma de invenção, teria sido, noutro tempo, um clássico — tomando a palavra na acepção e sob o ponto de vista em que deve aqui tomar-se: como correspondendo à tendência de redução ao universal. E viriam reforçar-lhe e completar-lhe essa tendência as suas qualidades, bem latinas, da clareza, do gosto, da harmonia ordenada, assim como a sua reconhecida predileção pelas personagens e figuras de espécie nobre, de casta dominadora e prestígio hierático.
No nosso tempo, não deve admirar que ele obedecesse, sob outra forma, a uma tendência, de invenção generalizadora e universalista — uma vez que ela fosse sugestiva de produção artística e plástica. Explica-se também, portanto, a ação exercida no poeta por essa corrente do espírito moderno, que representa, talvez, um alargamento do universal clássico. Explica-se a influência exercida na sua obra pelo Cosmopolitismo (que — para desenhar todo inteiro este traço — terei de considerar conjugado com a noção de cronopolitismo); pois se o espírito cosmopolita não oferece, como o classicismo, uma integração de ideias comuns, uma categoria ou seriação de caracteres normalmente belos oferece, no entanto, na própria multiplicidade dos aspectos, um largo interesse de objetividade humana e física. Enfim, é ainda pelas duas ordens de qualidades, logo de princípio apontadas, que podemos explicar em Eugênio de Castro a fase simbolista.
Se por acaso o Simbolismo significou para o nosso poeta a conciliação de duas disposições, cujo antagonismo constitui um traço curioso — a conciliação dessa faculdade de idealização no universal e da sua fantasia pessoalmente caprichosa, individualmente insubmissa — e, deste modo, lhe fez, afinal, dos seus personagens humanos, das suas estilizações da Espécie, personificações das próprias ideias e sentimentos; o que, no fundo, significa para o crítico é, sempre, a afirmação brilhante e decisiva da sua espécie de imaginação sensitiva, de seu poder de invenção e realização plástica e rítmica. Se não, pergunte-se: o que distingue, o particulariza o seu simbolismo? É exatamente a sua beleza, de esplendor evidente, em que se aliam a síntese de expressão e a notação do detalhe intencional (que não devemos confundir com o detalhe característico — local e cronológico); é todo o real segredo de sugestão, que se encerra sobretudo no prestígio decorativo das figuras; é, finalmente, o seu virtuosismo tão extenso.
A sua arte literária, com efeito, combina e realiza um caso curioso, um exemplo notável do que só poderei chamar — processão em som e cor.
Não deverei também fazer notar aqui que Eugênio de Castro tem um seguro e delicado ouvido musical, que revela aptidão excepcional para a pintura, e que possui qualidades raras de decorador? Não me parece indiferente mencionar esta circunstância. Mas, não obstante o predomínio daquele primeiro traço, faz-se mister realçar os aspectos e qualidades da sua lírica.
— Nesta espécie mesmo, na própria poesia de expressão direta, revelação contínua do revelado — é ainda o artista que sobrenada e transparece.
Realmente, as suas líricas são uma confirmação e um reflexo desse modo de ser: na riqueza da imagem e na elasticidade viva do ritmo; são a prova decisiva de que ele possui, como poucos, o poder de transposição da ideia num equivalente material. Ideias e sentimentos veem corporizar-se-lhe com toda a cor, com todo o vigor da vida, como se nele as sensações primitivas das coisas, ao tornarem-se simples imagens mentais, ainda lá guardassem todas as vibrações do mundo físico.
Por isso as suas páginas nos fulguram aos olhos, e nos cantam no ouvido.

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MANUEL DA SILVA GAIO
Coimbra, 25 de fevereiro de 1902.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020).

5/21/2020

Conversa sobre Camilo Castelo Branco (Resenha Biográfica)



Conversa sobre Camilo Castelo Branco

Na vida de Camilo Castelo Branco há um episódio que, a ser verdadeiro, define de maneira bem precisa o temperamento de romancista do truculento solitário de São Miguel de Seide. Camilo tinha um filho maluco. E era a esse filho que o escritor dedicava a melhor de sua afeição. Ao tempo, andava Camilo em turras com Teófilo Braga.  Um dia certo jornalista, encontrando-se no gabinete de trabalho do romancista, viu a porta se abrir e o maluco aparecer. O doido encarou o visitante com ar apalermado; riu e tornou a desaparecer. O jornalista olhou, logo depois, para o dono da casa: Camilo tinha os olhos cheios d'água. Imediatamente um sorriso repuxou-lhe o canto dos lábios. E o visitante ouviu-lhe estas palavras:

— O senhor viu bem como se acha o meu filho? O rapaz estava bom quando resolveu ler ura livro do Teófilo. Leu e quis entender. Logo depois perdeu a cabeça...

E riu, com a pilhéria dolorosa.

O comentário a extrair-se desse episódio é que nele se acha descrito o temperamento de Camilo Castelo Branco. Primeiro, a sua capacidade de emocionar-se. Segundo, a sua capacidade de superpor o riso às dores mais lacerantes.

Nada devia fazê-lo sofrer mais do que o espetáculo do filho doente e sem remédio, justamente o filho em quem depositava a melhor de suas esperanças e por quem fizera todos os sacrifícios, inclusive o de raptar uma namorada para ele.

Este caso revestiu-se de todas as tintas de uma cena romântica. Camilo e o filho, altas horas da noite, aproximaram-se da casa da rapariga. Camilo, mais experiente em a tais lances de novela, encarregou-se de aguardar a moça, que ia saltar um muro. Jorge, o filho, menos hábil, ficou sentado num banco, um pouco distante, à espera do pai e da namorada. Os minutos se passaram. Decorreu quase uma hora. Quando Camilo chegou, acompanhado pela rapariga, não avistou, de longe, a figura do  Jorge. Aproximou-se, inquieto. Mais perto, deparou afinal o rapaz, na mais surpreendente das atitudes: Jorge estava estirado no banco e dormia profundamente!


Toda a existência do romancista foi marcada pela tragédia. O destino não lhe deu a oportunidade das alegrias. Entre tristezas e ódios, perseguições e doenças, viu defluir a sua vida atribulada. Só na velhice o sofrimento o derrotou, quando Camilo, cego e doente, encerrou com uma bala a sua jornada sobre a terra.

Ao sentir a vizinhança da cegueira, não abandonou Camilo o seu ofício de escritor. Com uma pala sobre os olhos e a lâmpada acesa durante o dia, escreveu em, A Corja e no Eusébio Macário algumas das grandes páginas da novelística portuguesa. E o curioso nesses dois romances é que ambos representavam uma inovação na obra do romancista.

Vindo de uma geração romântica, o escritor assistira, subitamente, a eclosão vitoriosa do realismo. Eça de Queirós passava a ser o escritor da moda. E contra Camilo voltavam-se os críticos, apontando-lhe nos livros os defeitos literários que, anos antes, tinham sido admirados como qualidades.

Camilo, então, deliberou dar a essas críticas a mais inesperada das respostas. Já velho, quase cego, sentou-se à mesa de trabalho. A sombra ia-se avolumando nas suas retinas fatigadas. O sol entrava pela casa, banhava-a de luz, mas o escritor já não percebia o contorno dos objetos. O clarão da lâmpada, que era o seu companheiro de vigílias noturnas, passou a acompanhá-lo durante as horas do dia. Durante algumas semanas, o romancista escreveu. À proporção que a pena deslizava pelo papel, o escritor alterava inteiramente os seus processos de composição. Em vez de simples pinceladas breves na descrição de uma paisagem, recorria à minúcia, referindo-se a todos os objetos, aos pormenores mais destituídos de importância. Em vez dos diálogos românticos, jogava na página as falas naturais, copiadas da oralidade do povo.

Foi assim que surgiram os romances realistas com que Camilo Castelo Branco encerrou o seu destino de criador de tipos e fixador de sensações.

Na dedicatória do Eusébio Macário, Camilo Castelo Branco, dirigindo-se a uma pessoa de suas relações, declara que foi uma pergunta dessa pessoa que o fez escrever o livro: "Perguntas-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os "tics" do estilo realista. Respondi temerariamente que sim e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi". Camilo não perdeu a aposta, como declara nesse trecho. Ganhou-a, realmente. E seus livros, escritos depois do desafio, mostram a genialidade do romancista que fixou não somente as emoções mais violentas da prosa portuguesa, mas também as gargalhadas mais sarcásticas que já se ouviram, depois de Cervantes, na literatura da Península Ibérica.

Qualquer que fosse a escola ou o processo de composição de novelas, o escritor não se deixava diminuir ou apagar. Romântico ou naturalista, sentimental ou irônico, aplaudindo ou combatendo, Camilo Castelo Branco era o escritor do mesmo porte, dominando os mistérios da língua portuguesa e fazendo-a submeter-se-lhe ao gênio. Nem antes nem depois de Camilo apareceu um outro escritor capaz de superá-lo nesse domínio. Pode-se dizer, numa imagem, que ele a dominou com uma força hipnótica, compelindo-a a entregar-se-lhe em todos os seus segredos e em todos os seus recursos.

E é por esse aspecto que tem de ser admirada, principalmente, a obra camiliana.

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JOSUÉ MONTELLO
Revista Ilustração Brasileira, março de 1945.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).