quinta-feira, 30 de maio de 2019

Asas (Conto), Mário de Sá-Carneiro



Asas

CAPÍTULO 1

Já se me gravava frisantemente a recordação daquele extraordinário personagem, quando uma noite, no café, Inácio de Gouveia mo apresentou em indiferença.

Não pudera, com efeito, esquecer mais a inexplicável criatura esguia, de longos cabelos mordoirados, rosto litúrgico, olhos de inquietação – que, alta madrugada, eu vira a primeira vez, perto de Notre-Dame, solitária e extática. Mas não, como seria admissível, contemplando a Catedral na bruma violeta da ante manhã de outono – estramboticamente, ao contrário, de costas para ela, a olhar o céu, abismada, num enlevo profundo…

Parei alguns minutos examinando o desgraçado. Contraía-se-lhe o rosto, os olhos palpitavam-lhe em bizarras divergências, enclavinhavam-lhe o corpo bruscos estremeções – como se na verdade presenciasse, no espaço, qualquer cena emocionante!

Encontrei-o de novo, poucos dias volvidos, na praça Vendome.

Mais discretamente, porque era na agitação das cinco horas, o meu desconhecido indagava sempre a atmosfera: hoje, numa atitude mais serena, enternecida a cor de rosa – descendo, em frágil suavidade, o olhar, instante a instante, sobre as mulheres de luxo que saíam dos automóveis…

E vira-o ainda, uma última vez, no jardim do Luxemburgo – então apenas absorto nas correrias das crianças.

Foi pois com íntima curiosidade que o saudei, na frase infalível do "muito prazer em conhecê-lo", – sincera, por exceção.

Sabia agora que era um vago artista russo, conhecido distante de Gouveia: "Petrus Ivanowitch Zagoriansky" – "salvo erro", avisara-me em português o romancista.

Este, por sinal, breve se despediu – e os dois ficamos sós.

Maravilhosamente se entabulou a nossa conversa, – parecíamos já antigos companheiros. E toda a noite eu ouvi, suspenso, as palavras do russo.

Que zebrante intensidade, que síntese de ouro!

Em face dele, a convulsionar a beleza das suas frases novas, vinha-me a sensação destrambelhada de que o artista não falava só com a sua boca, mas com todo o seu corpo…

Amiudaram-se, a partir daí, os nossos encontros. Uma intimidade quotidiana, mesmo. E hoje, recordando essa época da minha vida, afinal tão próxima, ela evoca-se-me em laivos de sonho, de beleza e pasmo – de inquietação, misteriosamente.

Não estou escrevendo uma novela – apenas fixando um episódio bem real, por secreto e perturbador. Assim, nem me esforçarei por dar um seguimento dramático à minha narrativa. Ela resvalará mais do que livre, desarticulada – apoiando-se quase estritamente na reprodução das nossas conversas.

Logo de início eu confessara ao estrangeiro já o conhecer de vista – e ter-me impressionado muito o seu aspecto aureolado e a sua estranha atitude, olhando o espaço, em Notre-Dame e na praça Vendome.

Lembro-me que Zagoriansky, dessa vez, apenas sorriu num dos seus inolvidáveis sorrisos triangulares, acrescentando qualquer coisa que não percebi – como que uma onomatopeia hirta: decerto uma palavra russa iludindo a resposta.

Mas, poucos dias depois, quando lhe falei demoradamente da minha Arte e lhe narrei os planos d'algumas novelas – o meu companheiro, mudando de atitude, baixando enfim os olhos, principiou sem ser rogado:

– Solenemente, é admirável. Desistira de encontrar alguém que o pensasse. O meu amigo, em suma, é um artista – um Artista! Tudo quanto me acaba de sugerir – protesto-lhe – é uma Apoteose à minha vibratilidade. Que triunfo! Pela primeira vez acho alguém com quem saiba falar da minha Arte, decisivamente. Não digo que me compreenda. Longe disso. Mas vai sentir-me um pouco. É já muito. Verá…

E pôs-se, ainda em confiança velada, a dizer-me os seus fins, as suas teorias últimas:

– Nervos! Nervos!... Oh, o horror do Mesmo! Para que sempre fazer idêntico, se tantas coisas Outras nos envolvem?... Ao excessivo e ao diverso – em Marchetado e Ruivo!...

Lembrava-se de mim – contou-me – de me ter visto olhando o céu, como louco, embevecido… É que enredava então um dos meus poemas Novos onde sugestionaria toda a beleza insuspeita do Ar. Do Ar, sem dúvida, meu amigo – o Grande Insidioso que tudo contorna e prolonga, esparze vibratilmente…

Notre-Dame – incrustação medieval! Abobadas do templo, rosáceas dos vitrais, cornijas e telhados – tudo, tudo, pelo espaço… Mas são degraus de trono, degraus de trono – outras tantas catedrais projetadas na atmosfera: sucessivas; ao Infinito! A atmosfera: um espelho de Fantasmas! E cada figura, cada ogiva, cada rendilhado – se traduz lá, vagueando-se, se projeta lá em insinuações envolventes de contorno. Pois o ar tudo rodopia, amolda e alastra, anela, diverge insondavelmente… Para além da nossa existência real, outra se influi, existe – suave: a das formas aéreas, contínuas, que emolduramos. Quem sabe até se elas não irão ser, ultrapassando o Vácuo – as almas sutis, voláteis, dos corpos doutros mundos?...

E eis qualquer coisa que a minha Ânsia estrebuchou fixar!... Translucidez-Espectro… Visões de Nós-próprios… e dos templos… dos palácios… das torres… das arcarias… Ah! eu não vibro só os monumentos nas suas linhas imutáveis, nativas, rudes – a pedra. De há muito absorvi senti-los a bem mais Imperial nos seus moldes incorpóreos de ar – transmitidos, flexíveis, impregnantes…

As grandes catedrais! Notre-Dame… Que altos relevos de Espaço… que maravilhosas intersecções de planos… Planos múltiplos e livres, desdobrados, que se enclavinham, se transmudam, soçobram, turbilhonam!...

Eu quero uma Arte que interseccione ideias como estes planos!

Ouça bem! ouça bem! Quero uma Arte interceptada, divergente, inflectida… uma Arte com força centrífuga… uma Arte que se não possa demonstrar por aritmética… um Arte-geometria no espaço… Sim! sim! uma Arte a três dimensões… no espaço… no espaço… Áreas e Volumes!"

Em vertigem, dificilmente me guiara por este rodopio. E abismava-me. Enfim! – era toda uma Imaginativa nova…

De resto, havia nas suas frases uma desconexão aflitiva, um destrambelho fugaz – e, nos seus olhos, um esplendor fumarento, a boca amarfanhando-se-lhe em um ríctus de sombra.

Prosseguiu:

– Urge também, meu amigo, que um Artista de gênio saiba individuar, animar, a Atmosfera… quando a rompem grandes expressos, e os afilamentos dos dirigíveis, as hélices, os volantes, as rodas das oficinas, os braços dos guindastes – tanta beleza dura! – … quando a entalham basílicas, memórias, ruínas no Egito… debilmente, se a afagam mão esquivas de mulher, e as correrias loiras das crianças, nos jardins…

Mais tarde, havia de me tornar:

 – Acredite-me, cada vez melhor me convenço de que a atmosfera é uma fonte inesgotável de beleza inúmera. Convém que nós, os artistas, aprendamos, hora a hora, a devassá-la… Saber a Distância! compreender o Ar… o espaço, que nunca é imóvel – e vibra sempre, coleia sempre… A mínima oscilação, só por si, vale um motivo de Arte – é uma beleza nova: zebrante, rangente, desconjuntada e emersa… Fantasie um corpo nu, magnífico, estendido sobre colchas da Índia, em um atelier de luxo… Mas de volta, meu amigo, de volta, tudo será esse corpo – só a beleza purificada desse corpo!... Soçobrará o resto, desarticular-se-á em redor, focado o ambiente nessa apoteose – alabastros de convergência!... Depois é o próprio corpo que, de tanto haver concentrado, se desmorona em catadupas de oscilações afiladas, loiras, viciosas… Abrem os seios gomos de ar crispados, as pernas derrotam colunatas – agitam os braços múltiplas grinaldas; os lábios palpitam incrustações de beijos… Tudo se abate de Beleza! E o corpo é já um montão de ruínas, de destroços de ar, que ondeiam livres, em vórtice – e se emaranham, se entrecruzam, se desdobram, se convulsionam… Todo o ar vive esse corpo nu!

E nas grandes oficinas… o giro ácido das rodas… os volantes… os êmbolos… as correias de transmissão… o oscilar de complicados maquinismos… Outros tantos movimentos de ar – fogos de artifício, é verdade, fogos de artifício de Ar!... Hélices, espirais, ramos de parábola, estrelas, hipérboles mortas – turbilhonando, zigzagueando, entregolfando-se… Magia contemporânea! Europa! Europa!...

Nos teatros, então, se uma dançarina multicolor volteia – repare – a atmosfera toda se colore em cerca, abismando-se em despojos policromos que veem tingir as nossas próprias mãos, os rostos dos espectadores – como o farfalhar dos vidrilhos…

Pois é tudo isto, tudo isto, em suma (e as inflexões das espadas) que devemos – Hoje! – adivinhar e sugerir em Alma.

Por mim, gritei-lhe, como da outra vez, o meu espanto e o meu culto em face das teorias sublimes Ele estranhava que eu as soubesse compreender tão longe – embora os meus nervos e o meu gênio. Mas breve se convenceu da minha sinceridade – dia a dia em maior confiança.

***
Há dez anos que Petrus Ivanowitch levara a sua família – sua mãe e sua irmã – a abandonar Moscou, depois da morte de seu pai, e a estabelecer residência em Paris.

Desde o princípio das nossas relações me quisera, à viva força, mostrar em sua casa – onde, por sinal, conheci mais tarde Sérgio Warginsky e me deixei apresentar de novo a sua mulher – ainda muito formosa – que noutros tempos, em Lisboa, conhecera em circunstâncias tão diversas.

Uma sensação de enlevo devia trazer da minha primeira visita, pois logo de entrada se me frisou um ambiente de ternura e desvelo a cercar o Artista. As servidoras fiéis do seu gênio, aquela mãe e aquela irmã – adivinhava-se num relance: Sofia Dmitriévna, uma senhora de porte aristocrático e magníficos cabelos brancos; Marpha Ivanovna, uma linda rapariga cheia de vida – alta, robusta, musculada. O tipo completo da beleza forte.

Meses depois, ambas elas, notando como Petrus preferia o meu convívio, começaram a pedir a minha opinião: mostrando-se muito receosas pela sua débil saúde – e, ainda mais, pela intensidade excessiva do seu gênio, as complicações do seu espírito, toda a estranheza do seu porte. E, um dia, contaram-me que o meu amigo sofrera outrora uns ataques misteriosos, terríveis, que os médicos não souberam nunca diagnosticar: como que uma bizarra e sinistra epilepsia nova. Há seis anos, essas crises não se repetiam. Mas fora justamente desde então que se manifestara um maior desequilíbrio em todos os atos do Artista – em todas as suas palavras, e nas suas opiniões.

Busquei sempre sossegá-las. Só hoje vejo bem como se fundamentava esse temor.

Não era, com efeito, apenas nas suas conversas de arte que Zagoriansky se exprimia inquietadoramente: em maravilhas, sem dúvida – e destrambelhos reais, não obstante. Se me dizia, porventura, qualquer particularidade da sua alma, a estranheza e o vago persistiam. De resto, as nossas conversas nunca se alastraram neste plano. Uma natureza muito concentrada. Mas sempre que o russo se abriu comigo – foram tão singulares como as suas teorias artísticas as suas anotações psicológicas, os traços mais frisantes do seu caráter.

Por exemplo, jurou-me uma noite:

– Se eu quisesse, meu amigo, contar a minha vida, em voz alta, a mim próprio – eu mesmo não acreditaria. Ah! desenvolveu-se sempre em erro a minha existência… Se lhe entrasse em pormenores, "literatura" suporia. E, no entanto, a verdade irrisória… Menos crível, porém, é que todos os personagens da minha vida – os mesquinhos até, na aparência – tenham procedido, afinal, sempre de acordo com a minha vida. Encontrei sempre quem devia encontrar. Ninguém nunca procedeu comigo como procederia com outrem – mesmo os que não me conheciam… Tanto que chego a lembrar-me, em verdade, se não serei só eu, mas muitos – isto é: todos os personagens da minha vida…

Estampara-se uma dor tão grande no seu rosto – embora uma ironia estridente a repassasse – tamanha tristeza lhe velara a voz e o brilho dos seus olhos – que estremeci, por ele, uma piedade sincera incluída em um vago receio, talvez…

Breve fui notando os bruscos silêncios que havia nas suas frases, os súbitos olhares perdidos, soltos, que frequentemente, conversando, lançava em redor, sem se calar – numa desatenção repentina, inexplicável e assustadora.

De quando em quando, fazia-me agora estrambóticas constatações:

– Já reparou no cheiro do petróleo? É muito curioso… Lembra-se?... Dir-se-ia um aroma com crosta… Sim, um aroma duplo: um tom aromal, primeiro, grosso – revestindo um tom mais agudo, esfericamente…

– Não amei nunca. Mas tenho a certeza que, se um dia amasse, o meu amor seria um grande sono. Então, à mulher que ardentemente quisesse, eu diria: Meu amor, meu amor, tenho sono de ti!

– Recordam-me a cada instante sabores que nunca experimentei… Gostos maquinados, com rodízios, em complexos movimentos… Gostos-transformações de energia, quero crer…

– Houve uma época da minha vida em que só inventava obsessões. Inventava-as, não as tinha. O mais perigoso era que, tempo volvido, já não conseguia destrinçar se essas obsessões eram apenas artificiais, criadas pela minha imaginativa de Artista – ou verdadeiras loucuras que, alguma hora, teriam dilacerado o meu espírito, e hoje, vacilantemente, ressumavam… Lembro-me bem das minhas incertezas quanto a esta obsessão dupla que, em lucidez, sabia não ser mais do que o assunto rebuscado duma novela que tencionara compor: um homem que, por uma parte, se convencera de que o seu pensamento era translúcido, e assim, todos saberiam o que ele pensava – os próprios animais – as suas ânsias, as suas desilusões … e, por outra parte, num crescendo aflitivo, fosse descobrindo pouco a pouco, em todos os rostos, a mesma expressão; os mesmos tiques, os mesmos trejeitos… Embalde fugiria, de olhos cerrados, em uma náusea de medo… E essa expressão irremediável, obcecante, enfadonha, sempre a mesma – iria por fim encontrá-la nos próprios objetos, nas coisas inanimadas – nos aromas até.

Mas bem mais inquietadora, por dolorosa e íntima a confissão estiolante de certa manhã febril.

Visitara, com ele, um pintorzeco indiferente que vivia num pequenino quarto, trepado ao último andar dum hotel do Odeon. E, à saída, na rua:

– Como o invejo… – divagou o Artista.

Nunca viverei num quarto como esse… Só isto, sintetiza bem, quem sabe, a minha dor… Foi outro o meu destino… Houve sempre tapetes na minha sorte… Não poderei nunca viver… A dor de ter sabido sempre onde ia dormir!... Duvido que pense também assim… Mas como eu quisera ser aquele quarto… Reparou?... Aquele quarto é uma garota de Paris… Não logrei nunca misturar a mim a gentileza… Jamais recebi uma carta que não esperasse… Sequidão! Sequidão!... Se ao menos, como certo amigo distante, principiasse a amar uma morta… Embalde… E, solitário, passeio com os meus galgos de fantasia… Às vezes, julgo até que se deu comigo esse episódio – que me narraram, sem duvida… Ausência!

Ausência!... Ela estaria descalça, uma noite de luar, junto do lago, a pedir-me que lhe lançasse água nas mãos e sobre os braços nus… Depois, teríamos misturado os dedos na mesma água… E hoje – que suavidade! – parecer-me-ia, decerto, que essa água fora o único beijo que trocáramos… Meu lindo espírito de seda, todo bordado a cor de rosa… Mas este mesmo outono é ilusão!...

Ouvi-o em sobressaltos. Não me surgira nunca tão vincado o destrambelho das suas frases – bem real, por desgraça: de forma alguma um artifício de "poseur" – tão dolorida e flagelada a expressão.

Breve porém mudou de assunto, e as suas ideias de novo se focaram lucidamente.

Por minha parte, acostumado ao seu espírito, tirara já para mim esta conclusão egoísta: um grande desequilibrado, talvez – mas, pelo excesso do seu desequilíbrio, um gênio robusto. E, sem remorsos tranquilizava a sua família.

Com efeito, olvidando os meus vagos temores, nem me lembrei nunca do seu fim, no meu habitual ceticismo – a não ser, remotamente quando uma manhã me entrou pela casa a gritar:

– Meu amigo! Meu amigo! Creio que descobri hoje, enfim, o segredo da minha existência: Sou todas as mãos esguias de mulher com as unhas pintadas!...

Não era dum "blagueur" – portanto esta frase seria dum louco, mais tarde ou mais cedo.

Mas fora tão bela, tão loira e perturbante – que logo esqueci o perigo, e, em verdade, admirei só o Artista…


CAPÍTULO 2

Foi só nos últimos tempos que Petrus Ivanowitch falou comigo, em desassombro total, das suas ânsias de Artista – da sua obra, realmente. Até aí, em verdade, apenas se referira a pontos de vista gerais, às suas opiniões teóricas – mas nunca aos seus versos, a não ser de muito longe.

Por mim, nem por sombras duvidava do seu gênio – cria nele a ferro e fogo. Entanto, a minha certeza apenas repousava na sugestão inolvidável do seu espírito – nas suas frases de chama, e nos seus gestos, no brilho dos seus olhos – em todo o seu perfil, é claro. De resto, inabalavelmente, melhor do que a Obra mais perfeita, isto incidia um Artista imortal. A ponto que eu, de fato, antes de refletir a sangue-frio, tinha bem funda a impressão de que ouvira já muitos dos seus versos.

Das suas obras, falou-me a primeira vez quando, expressamente para ele os apreciar, verti em francês alguns excertos dos meus livros e dos admiráveis trabalhos de Fernando Passos. Zagoriansky maravilhou-se. Pasmava-o como, num país tão diverso, surgira qualquer coisa de vagamente semelhante, – garantia – ao espírito velado das suas obras. Certas frases de Fernando Passos, sobretudo, inquietavam-no. Manifestou-me grandes desejos de conhecer um dia o Artista. Mas eu só lhe pude mostrar o seu retrato.

Falou-me pois do seu poema – um livro em que trabalhava há muitos anos.

Não tinha título:

– O seu título – confiou-me – será, quando muito, um compasso de musica e alguns traços a cor.

Dividir-se-ia – ajuntou – em varias partes, em varias composições. Mas todas elas, soltas, haviam de se reunir astralmente, hipnoticamente (foi os termos que empregou) em um só conjunto.

E não me disse mais nada essa noite.

Porém, algumas semanas volvidas, anunciou-me que lhe parecia estar próximo a tocar o limite do seu livro. Com efeito, não o publicaria antes de obter a Perfeição – "esse fluido".

– Até hoje, não existe uma Obra de Arte perfeita. As maiores, são excertos. E eu quero o meu Poema integro! Tão incorrigível que lhe não possam tirar uma letra sem se desmoronar.

Insinuei-lhe:

– Entanto, meu amigo, convém não excedermos a tortura. A Perfeição é qualquer coisa de muito relativo – fator demais, estreito, do critério pessoal.

– Não há critérios pessoais. Há Ouro! – insurgiu-se o russo.

– Muito bem! – teimei ainda – Dado que assim seja, unicamente como é que o meu amigo vai medir que atingiu a Perfeição?

A resposta foi imediata:

– Não lho posso garantir, por enquanto. Mas – tenho grande fé – no minuto em que a dobrar, sabê-lo-ei talvez fisicamente. A água, quando ferve, levanta-se em espuma. Desta forma concluímos que está em ebulição. Pois bem: qualquer coisa de paralelo acredito muito que se dará com o grau abstrato que pretendo atingir. Sim, afigura-se-me, em positivo se me afigura, que no instante de alcançar a perfeição, algum fenômeno físico (talvez como que um súbito ajustamento) se dará defronte dos meus olhos… na atmosfera… ou quem sabe até se nas páginas onde estão escritos os meus poemas…

– Um ótimo assunto de novela! – encolhi os ombros, sorrindo, a pedir outro café.

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– Uma arte fluida, meu amigo, uma arte gasosa… Melhor, meu amigo, melhor – gritava-me Zagoriansky no seu gabinete de trabalho, aonde pela primeira vez me recebia – uma arte sobre a qual a gravidade não tenha ação!... Os meus poemas… os meus poemas… Mas ignora ainda! Coisa alguma prenderá os meus poemas… Quero que oscilem no ar, livres, entre-golfados – transparentes a toda a luz, a todos os corpos – sutis, imponderáveis!... E hei de vencer!... Não atingi a Perfeição, por enquanto… Bem sei, restam escorias nos meus versos… Por isso a gravidade ainda atua sobre eles… Mas em breve… em breve… ah!...

De súbito, acalmando-se, sentou-se numa grande poltrona magenta.

– Não lhe disse nunca, afinal, as características principais da minha Obra. Hoje, porém, julgo dever abrir-me lisonjeiramente consigo, desvendar-lhe os meus segredos… Creio estar prestes a chegar, enfim – e o meu amigo encontra-se preparado, pelo seu espírito e pela minha influência, a saber… Ouça: não escrevo só com ideias; escrevo com sons. As minhas obras são executadas a sons e ideias – a sugestões de ideias – (e a intervalos, também). Se lhe ler os meus versos, o meu amigo, não entendendo uma palavra, senti-los-á em parte. E será idêntico ao seu, o caso do surdo que os saiba ler – mas não os possa ouvir. A sensação total dos meus poemas só se obtém por uma leitura feita em voz alta – ouvida e compreendida de olhos abertos. Os meus poemas são para se interpretarem com todos os sentidos… Têm cor, têm som e aroma – terão gosto, quem sabe… Cada uma das minhas frases possui um timbre cromático ou aromal, relativo, isócrono, ao movimento de cada "circunstância". Chamo assim as estrofes irregulares em que se dividem os meus poemas: suspensas, automáticas, com a sua velocidade própria – mas todas ligadas entre si por ligações fluidas, por elementos gasosos; nunca a sólido, por ideias sucessivas… Serei pouco lúcido. Entanto, como exprimir-me doutra maneira?... Espere… Talvez… A minha Obra não é uma simples realização ideográfica, em palavras – uma simples realização escrita. É mais alguma coisa: ao mesmo tempo uma realização musical, cromática – pictural, se prefere – e até, a mais volátil, uma realização em aromas. Sim, sim, a minha obra poder-se-á transpor a perfumes!... Poder-se-á transpor, será tudo isto, bem entendido, quando estiver completa… Finalmente, voltando ao seu caso: ouvir as minhas composições sem entender a língua em que estão escritas, valerá quase pelo mesmo do que conhecer uma obra de teatro só pela leitura – ignorando a sua realização estética…

Divagava por força o meu amigo… Eu escutara-o preso das palavras mágicas, turbilhonantes – em arrepios a Ouro. Mas não logrei por certo diluir uma crispação de dúvida, um vago ar incrédulo, pois o Artista, de súbito revolvendo-se, correu a uma gaveta da enorme secretária de pau-santo – ao fundo do gabinete – puxou-a, e dela tirou um caderno azul que brandiu aos meus olhos:

– Terá a prova! – exclamou –. Vou-lhe ler alguns dos meus poemas, em russo! O meu amigo depois me contará a impressão sincera da leitura.

E pôs-se a folhear o livro, nervosamente. Admirei-me por sinal – recordo-me – que um Artista tão refinado, tão esquisito, escrevesse os seus trabalhos num vulgarismo caderno de estudante, de capa lustrosa, daqueles que se vendem por noventa cêntimos nas galerias do Odeon.

– Ler-lhe-ei primeiro uma das minhas composições mais simples: uma demonstração de ritmos, apenas.

Escutei…

Um assombro! Dissonâncias de capricho entrechocavam-se suavemente, e eram outros tantos arfejos rendilhados, dimanando-se em mil tons – sobre um fundo violeta inalterável, numa evocação de perfumes lisos, cetinosos…

Inútil, com efeito, saber as palavras para reagir o sortilégio dessa pequena obra-prima!

Disse todo o meu espanto, toda a minha convicção…

Num entusiasmo crescente, Petrus Ivanowitch foi-me declamando inúmeras poesias. A todas eu experimentava beleza – em umas melhor do que noutras, claro. E o russo acrescentou depois que tinham sido justamente as mais complexas que eu melhor adivinhara.

Lembro-me, acima de tudo, do pasmo que me causou certa peça onde havia rodas múltiplas trabalhando em vertigens de cor, num embaralhado e convulsivo movimento, e onde eu, atônito, ia descobrindo as mais elegantes curvas – hélices, espirais, ramos de hipérbole – soltas, expandidas livremente, num fogo de artifícios de sons, a girândolas. Era, em verdade, todo um maquinismo de precisão, movido por mágica – secretamente, em súbitas arrogâncias hialinas… estrépitos de cristais…

Por último, Zagoriansky hesitou. Ia a fechar já o caderno. Mas decidiu-se, anunciando em frenesi:

Poema brilhante.

Ah! eu não sabia ainda coisa alguma! Caiu por terra a minha admiração em face dos outros poemas… Descreverei, aliás, facilmente, toda a maravilha assegurando, em perfeita lucidez, isto só:

– Tive que cerrar os olhos desde os primeiros sons.

Não pude sustentar – foi certo! – o brilho coruscante, as cintilações magnéticas induzidas nas palavras misteriosas que os meus ouvidos escutavam. Não divago. Alcanço bem o que afirmo. Mera sugestão, talvez. Mas foi assim: os meus olhos não resistiram abertos. E desafiaria aquele que lograsse ouvir o Milagre sem os fechar.

Era toda uma nova Arte – diademada e última, excessiva e secreta, opiante, inconvertível, cujo divino criador estava ali, na minha frente!

Ergui-me semi-louco, finda a leitura. Beijei o Artista… E Petrus, em verdade iluminado por uma aureola, gritou-me, excedido:

– Vê… vê… Não lhe dissera?... Uma Arte gasosa… poemas sem suporte… flexíveis… que se podem deslocar em todos os sentidos… Uma Arte sem articulações!... Uma Arte correspondente às formas aéreas que as realidades incrustam!... Sons interseccionados, planos cortados, múltiplos planos – ideias inflectidas, súbitas divergências… Tudo se traspassará, se esgueirará, perpetuamente variável, ondulante – mas, em somatório, sempre o mesmo conjunto!... Sim, sim, quero realizar em vários dos meus poemas – e, sobretudo, na junção total – como que uma soma de fatores arbitrários. Mas uma soma exata de fatores diversos!

E, para exemplificar, traduziu-me então o pequeno excerto que adiante público – aonde, conforme explicou, só pretendera suscitar uma impressão indecisa a Vago, entre tenuíssimos apoios na realidade. Qualquer coisa impossível de abranger, escapando-se como azougue: lençol de água movediço, ânfora douro quebrada – por isso mesmo, flébeis ressaibos de Além. E a certeza, embora, sempre defronte – em marco…

A simples tradução literal que deste excerto me fez, sugestionou-me em tais quebrantos que não me despedi sem lhe arrancar a promessa de mo deixar traduzir – ou, melhor, interpretar em português.

Efetivamente, com enormes dificuldades, segundo os seus conselhos, terminava dias depois a versão que público mais longe – onde quase não existe uma palavra do original, mas que, assim mesmo, reproduz tanto quanto possível, numa língua estrangeira, a sugestão do texto russo: pelos mesmos sons e movimentos, os mesmos timbres cromáticos, as mesmas consonâncias…

Mais tarde, insistindo em interpretar outras das suas obras, porquanto o artista se mostrara muito satisfeito com a minha tentativa – Petrus Ivanowitch escusou-se sempre. Só me permitiu que trasladasse uma composição dos dezoito anos

– "Bailado" – que não pertencia ao seu volume, e escrevera, ainda estudante de Direito, quando vivia só em Paris, num Hotel da rue des Écoles. Daí, por sinal, o estranho e admirável fecho do poema.

A partir dessa noite, muitas vezes lhe perguntei pelo seu livro – insurgindo-me contra os excessos da sua tortura. Urgia, com efeito, publicar essa maravilha, destinada por força a fazer uma revolução em todas as Artes.

Ele quase sempre, em desânimos ou entusiasmos, me volvia:

– Ainda é cedo… ainda é cedo… Ainda não triunfei… A gravidade ainda atua sobre a minha obra… De resto, creio faltar pouco… Estarão mesmo já "perfeitos" muitos dos meus poemas – todos até, pode ser, considerados isoladamente. Mas a soma não está certa… Há ainda escorias no conjunto…

Uma tarde porém, não o vendo há três dias, notei-lhe uma expressão nova no rosto – um ar febril em todo o seu aspecto. Dir-se-ia que emagrecera visivelmente nessas poucas horas.

Interroguei-o. Confessou-me:

– Ah! meu amigo… meu amigo… É que avancei muito desde que nos separamos… Hoje, sim, creio nos meus pressentimentos! Estou certo de atingir, breve, a Perfeição – o impossível de Esquiveza! Mas é estranho. Na minha glória, crispa-se afiladamente um vago remorso…

– Nervosismo, sem dúvida.

– Esperaremos…

Seguiu-se uma semana de calma relativa, em que evitou referir-se à sua Obra. Apenas, durante ela, uma noite, aludindo à sua ânsia de Artista, me falou do receio que tivera sempre de ver estiolar o seu gênio à força de intensidade. E contou-me que desviava os olhos muitas vezes, para o não por em vibração – acarinhava-o, beijando-se nos espelhos, – falava a sós com ele – dizia-lhe "meu amor" – tratava-o, enfim, com os desvelos das mães que se levantam, noite alta, no inverno, para aconchegar a roupa dos seus filhos…

Descreveu-me também a agonia perdida de fixar toda a riqueza que lhe atravessava o espírito – no ciúme escoante, simultâneo, de se não poder concentrar em uma só ideia:

– Veja… veja como é terrível, meu caro!... O ciúme dum homem que não lograsse nunca possuir só a mulher que tivesse entre os braços – por que, no minuto da posse, a recordação duma outra, de muitas outras, se lhe interceptaria estridentemente… Um horror… um horror…

E foi a primeira vez que mandou vir absinto – ele, que bebia só xaropes…

… Até que principiou a faltar todas as noites no Café aonde, por hábito, há muito nos encontrávamos…

Eu corria a sua casa, a ver se adoecera… Recebiam-me, em lágrimas, sua mãe e sua

irmã: "Doente não, com efeito. Mas fechava-se horas esquecidas no seu gabinete, recusando comer – num desassossego contínuo, a passear, como as feras…"

As próprias suplicas de Marpha, que ele atendera sempre, eram hoje inúteis. Gritava-lhe por detrás da porta:

– Trabalho! Trabalho!... É o último esforço!...

Só duma vez consegui romper o seu isolamento.

Acolheu-me em júbilo – quando me preparava para sustentar a sua rudeza… quem sabe até se um dos seus funestos ataques de cólera, que já tivera ensejo de presenciar…

– Sim! Sim! É bem verdade! Chego a passos largos… Não me enganara… Não me enganara…

Sabê-lo-ei positivamente, materialmente, visivelmente… Alvejo já, não sei em quê, uma modificação muito vaga - molecular, presumo… Poucos dias mais, e – enfim!... A Perfeição!

Depois, falou comigo alguns momentos – natural. Roguei-lhe que não descuidasse a sua saúde – mas deixei-o defronte duma grande chávena de café fortíssimo, onde despejara meio frasco dum estranho liquido roxo aromatizado…

Preveni sua irmã. Esta teve um suspiro, e pareceu não dar grande importância ao fato. Mas, ao mesmo tempo, notei pelo seu rosto uma palidez momentânea… um singular constrangimento em toda a sua atitude…

Despedi-me – confesso – muito preocupado. Breve porém, no meu eterno egoísmo, desapareciam essas inquietações. E, em verdade, durante os oito dias que saí de Paris não me lembrei, sequer um instante, da minha última visita ao russo – da sua perigosa situação.

Na manhã seguinte ao meu regresso, dormia ainda quando alguém bateu brutalmente à porta do meu quarto.

Fui abrir, disposto a esbofetear o intruso… e, atônito, deparei com Zagoriansky! – um Zagoriansky terrível: de cabelo em desalinho, olhos injetados, gravata desfeita; brandindo na mão o caderno de capa azul que continha o seu Poema.

Em lágrimas e gritos raspados – mal lhe abri – começou, arquejando:

– Loucura… loucura… A Perfeição!... O Maximo de esquiveza… Mas era assim… era assim… Alcancei-A! A gravidade não atua mais sobre os meus versos… Para que me queixar?...

Doido… doido… Em todo o caso, o minuto infinito!... Não lhe dissera?... Havia de o saber perpetuamente… tinha que o ver!... Pois foi tal e qual – meu pobre amigo – tal e qual!... Quando viera de ajustar a última palavra, houve um estalido seco, um baque surdo – um ruído de arfejos, a escoar-se… sutil… Olhei as folhas…

Todos os meus versos, libertos enfim, tinham resvalado do meu caderno – por voos mágicos!...

E desfolhava-me o livro…

Hirto, oscilou-me então um arrepio de gelo… As folhas, brancas… Apenas, intacto, o frontispício onde se liam o nome do Poeta e uma data. Em cada página, só o número da folha e alguns borrões vermelhos que, inexplicavelmente – conforme já reparara – sujavam, de quando em quando, o texto escrito numa anilina violeta muito pálida.

– Meu amigo… meu amigo… No espaço!...

Os meus poemas… no espaço… ah! ah!... entre os planetas!...

E o resto foi um rodopio de gargalhadas espumosas, contundentes, alucinantes…
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Cinco dias mais tarde, doido de fúrias, Petrus Ivanowitch, apesar da imensa dor de sua família, era internado numa casa de saúde, próximo de Meudon, onde puseram ainda assim muito dificuldade em o receber, devido à misteriosa violência dos seus ataques – crises estranhas, convulsas, espasmódicas, desconhecidas por todos os alienistas: como que um feitiço medieval… um "envoûtement" de missa negra…

Procurou-se por toda a casa, por todo o jardim, o caderno em que o Artista escrevera a sua Obra. Debalde… Restava só esse outro, idêntico – mas com as páginas limpas…

Horas perdidas, eu e Marpha nos debruçamos sobre ele, a estudá-lo, a querermo-nos convencer que era outro – outro que o louco decerto comprara, depois de ter destruído o que continha a sua Obra… Convencermo-nos… como se não fosse a evidência…

E, no entanto, as manchas de umidade que existiam na capa do primeiro caderno, lá se encontravam também na daquele – assim como os borrões vermelhos… entre eles o que, mais alastrado, existia na página 22 onde estava escrito o excerto que traduzi com o título de "Além"… E era tudo quanto escapara duma obra genial!...

… As noites inquietantes, confusas – repito – que eu e Marpha sofremos, olhando, defronte de nós, esse caderno vazio, aberto inutilmente… tendo que acreditar, e não podendo acreditar…

Um sonho quase… uma obsessão…

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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