quinta-feira, 30 de maio de 2019

Jucá, o tropeiro (Conto), de Visconde de Taunay




Jucá, o tropeiro
 CAPÍTULO 1
Deveras, camaradas, Jucá Ventura, filho de Minas Gerais e tropeiro desde em menino, era um companheirão, alegre e estimado, como nenhum outro nas tropas que costumam botar cargas para Goiás e Mato Grosso e trabalhar naqueles sertões brutos.
Noite e dia estava pronto para rir, folgar e sustentar uma boa prosa, no que não havia quem lhe pusesse o pé adiante.
Ninguém sabia como ele cantar chulas, armar um cururu, repinicar na viola ou contar histórias, umas gaiatas que faziam estourar de riso, outras de bruxas e mandingueiros que deixavam a gente toda arrepiada e sem vontade mais de pregar olho.
Uma só coisa o aborrecia. Era quando lhe faltava o serviço, mas isso era tão raro que bem poucos poderiam dizer tê-lo visto calado e amofinado.
Não havia capataz que o não desejasse em sua tropa, porque não era só de língua que ele fazia bichas.
Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho grosso, não se contava um, por mais pintado que fosse, que deitasse mais barro à parede. Lá isso de atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrochar a sobrecarga, acolheirar animais ou peá-los, sangrá-los, remexer pastos, arrumar no pouso, as cargas, arranjá-las nos ranchos bem cobertinhas com os ligais por causa da chuva e da umidade, era ele mestre e tudo num sopro. Enquanto o diabo esfregava una olho, Jucá Ventura já tinha feito muita coisa.
E forte de saúde que parecia de ferro. Zombava das maleitas e sezões, cortando por todo o tempo rios cheios e cruzando pântanos sem o menor medo de maldades. Nunca se lembrara de ter tomado mezinhas e beberagens, e dizia com gabolice que chegaria ao fim da vida sem dar o pulso a cirurgião nenhum, nem sequer para saber do que morria.
Também quando ele ia atrás do seu lote de bestas, onze animais gordos de encher o olho, e que se derreava na sela com o chicote de couro cru apoiado na coxa, abria o peito à inspiração e lá ia por essas estradas de Cristo, cantando alto e afinado, contente como um ricaço e cheio de si como se tivesse o rei na barriga.
Debalde o vento levantava uma polvadeira imensa que lhe avermelhava a camisa e lhe grudava o cabelo ao casco da cabeça, debalde a chuva o molhava até os ossos, debalde o sol parecia querer-lhe assar a cara e as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um nadinha, o seu gênio brincador, nem fazia parar a sua força de trabalho e expediente.
Chegado que fosse ao pouso e não havia um só nesses fundões de Goiás e Mato Grosso que ele deixasse de reconhecer como se em cada um deles houvera nascido e lá passado anos inteiros — chegado ao pouso e acomodados os seus animais, se havia matalotagem farta, comia que metia gosto, se não havia, lá tomava uns bochechos de água e ferrava num sono gostoso como tudo.
Mas ninguém se fiasse muito nesse sono. Qualquer barulho, por menor que fosse, o punha logo de pé: nisso vencia o cachorro mais desconfiado e podia até dar sota e basto a gansos, que são bichos de natural vigilante.
Também, se era preciso, passava muito a gosto a noite em claro: e no dia seguinte estava lépido e bem disposto, como se não houvera novidade.
Quantas vezes tinha ele deixado de fechar os olhos a contar aos camaradas histórias do sertão ou a fazer gemer a viola em cantorias e cateretês?
Nem havia conta.
E com tal não padecia o serviço: nem capataz nenhum se gabava de o haver pilhado a cochilar.
Nem era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se ao respeito e se não andava com os chefes e superiores a mostrar os dentes em risotas, nem por isso era carrancudo e malcriado.
Na sua guaiaca havia sempre alguma pratinha de sobressalente para não parecer unhas-de-fome e mofino quando tinha de pagar a pinga aos companheiros da carreira.
Nunca se metia em pândegas grossas, nem em jogatinas de estouro; mas ninguém o podia alcunhar de enjoado, porque nos dias de mareta era boa perna para o pagode.
Engraçado e farsola nisso fazia figas, tanto assim que as raparigas dos povoados, quando chegava alguma tropa, iam perguntar notícias de Jucá Ventura, pelo que não faltava quem levasse a mal àquelas falas de pura amizade.
É porque neste mundo de Deus há muita língua maldizente que quer botar malícia em tudo, malícia que só existe no juízo enviesado e falso dos faladores.
Jucá Ventura, é certo, brincava com as moças das vilas e povoações, algumas até bem bonitas; mas era negócio de simples palavreado, e nenhuma delas poderia com verdade dizer que o ouvira falar de amor, ou fazer alguma promessa.
Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como um perdido.
Se o tropeiro era estimado, não eram só raparigas novinhas que lhe mostravam agrado e simpatias; as velhas também lhe queriam bem e quando ele cruzava por diante de qualquer casa da estrada, não havia quem deixasse de o saudar com boas maneiras e franqueza.
E a razão era uma.
É que não se passava uma viagem ou do sertão para o mar ou de lá para cá, em que ele viesse de mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança para as suas conhecidas, ora uma coisa, ora outra, e houve até ocasião em que deu de presente uns cortes de fazenda fina e algumas jardas de fita muito vistosa e larga.
E depois não queriam que fosse estimado!
Fizessem os invejosos como ele: tratassem a todos conforme os seus merecimentos. Mas por estes mundos afora não falta quem meta a catana nos mais sem ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas até igual.
E porque havia Jucá Ventura de andar pelos caminhos a arrastar a asa e a fazer pé-de-alferes pelos pousos, como se fora algum rufião mal-intencionado que botasse a perder as coitadinhas sem experiência?
Nada, Jucá o tropeiro havia já dado o coração a uma pessoa; e quando um homem de vergonha estima deveras uma mulher, esse amor não consente outro: é o único na vida.
Nem havia mais segredo.
Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é que morava aquela moça, que se chamava Balbina do Canto, porque o pai, sapateiro de ofício e já falecido, havia morado numa esquina de beco, que ela era rapariga de truz, morena, mas corada, de muito propósito e composição e de quem língua nenhuma tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena coisa.
Quem é que não sabia disso?...
Quem é que não conhecia a mãe dela, D. Gula, senhora capaz de revidar com um peteleco o patife que quisesse vir se engraçar com a filha?
Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha cabelos pretos como asa de graúna e tão compridos que passavam além do quadril talvez um palmo, olhos que mexiam com a gente só no revirado, nariz pequeno, boquinha como se acabasse de comer pitangas, fosse dizer que a sua cintura era de maribondo, o seu andar engraçado e faceiro como andar de moça da corte, e havia de ter que fazer com a velha, boa pessoa no trato quando estava para conversas, mas zangada de uma vez nos dias de seus azeites.
E querem ver?
Uma tarde, a menina estava tomando fresco numa janela e D. Cuia cosendo perto de outra, por detrás da rótula fechada, porque a casa tinha duas janelas e uma porta, por sinal que tão juntinhas que não davam para um portão largo. Nisto passa um mocinho, filho de um capitão da guarda nacional e, tirando-se de seus cuidados, pediu, nem mais nem menos, um beijinho ao jambo corado — assim chamou o desavergonhado a carinha da moça.
Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como uma suçuarana foi D. Cuia.
Sem pensar no que fazia, passou a mão num cabo de vassoura, escancarou a porta e caiu de pauladas no costado do engraçado que não foi um brinquedo.
Em vão o moço quis fugir, em vão resistir; só parou a sova quando o pau se quebrou e por cima levou ele com os pedaços na cara.
E lá se foi o gaiato sem chapéu e com a nizia rota, acompanhado de uma vaia de conta que lhe passaram uns meninos da vizinhança e três camaradas de tropa que assistiram àquele merecido castigo.
Também depois desse, ninguém mais se lembrou de dizer graçolas a Babita, bem que todos os dias ela fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de pôr água na boca.
Tinha nesse tempo dezessete anos, e já dera de tábua a três pessoas de consideração.
D. Cuia lhe falara com verdade e muito assento, mostrando que era preciso tomar estado, que ela nem sempre havia de estar neste mundo para dar-lhe amparo, que enfim mais valia uma rapariga mal casada do que bem requestada.
Por que não havia ela de aceitar o Chico Luís, que estava já arranjado em seus negócios, tanto assim que tinha sociedade com o Tinoco, de quem a princípio fora caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura, procedera sempre como pessoa de bem que merece dos outros amizade e confiança.
— Mas, mamãe, objetava Babita, ele é emboaba.
— E que tem isso, filha de minha alma? Dessa gente saem bons maridos. Depois há tanto tempo que está na terra, que nem parece filho de outra banda.
— Não quero este, murmurava a rapariga.
— Pois bem, continuava D. Cuia, você não quis este por ser português. Mas porque disse não ao João Grande, lá da Casa Branca?
— Ora, um soco... e depois zarolho...
— Zarolho, sim, mas é apalaçado. O pai tem botica e ninguém dirá que seja moço feio de todo. Outras mais pintadas do que você, Babita, não hão de torcer o nariz, quando ele as procurar para casamento. Agora me diga o Mané Quetano, também é zarolho? Rapaz tão bom, tão sossegado e de família limpa! O pai, que Deus haja, era aqui nesta cidade, quando ela não passava de vila, um graúdo, um tatu. Esperto como ele só...
— Então o filho não saiu do pai... é um bocó. D. Cuia costumava então abanar a cabeça.
— Minha filha, dizia ela sentenciosamente, permita Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, que você não tire de tudo isso motivos de se arrepender. Querer fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne seca para comer, são coisas que não vão juntas. Cada um deve pedir a Deus aquilo que basta para a sua posição. Não vá depois lhe acontecer como à Maria do Frajado, a coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada e, afinal, quando quis casar, já não achou com quem. Morreu velha e levou palma e capela em cima do caixão. E não foi das mais infelizes, porque têm se visto muitas coisas que fazem a gente ficar sem pinga de sangue nas veias, só em pensar nelas.
Babita rematava tais conversas que muito se repetiam com este estribilho:
— Deixe estar, mamãezinha, eu hei de me casar.
Quando Jucá Ventura procurou travar conhecimento na casa, D. Cuia se mostrou meio carrancuda. O rapaz tinha modos direitos e a sua fama era boa; mas ela não era mulher de se fiar em aparências e na voz dos outros.
Fez cara de poucos amigos e observou de parte a filha.
Viu que Babita corava de cada vez que o moço, todo asseado e faceiro, passava por diante da janela e cumprimentava com muito respeito as pessoas que lá estivessem: viu que ele cruzava por demais naquelas paragens, e ficou aborrecida, não por ser ele tropeiro, mas por poderem as suas passadas dar na vista dos outros e trazer falatórios.
Jucá ventura não vinha francamente tocar em negócios de casório, e a menina parecia estar se inclinando muito por ele.
D. Cuia, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos o tropeiro por entre as frestas da rótula, chamou-a a contas, mas com toda prudência, porque era pessoa de experiência e bem sabia que com mulheres enrabichadas não se deve apertar muito.
— Vem cá, filha, disse ela, parece que por esta rua anda muito um sujeito que quer se engraçar com você.
— Eu não sei, respondeu Babita com susto que pareceu de mau agouro à mãe.
— Ah! estou que você não reparou, mas eu cá ainda tenho bons olhos. Quando um moço gosta seriamente de uma rapariga que lhe pode servir de mulher diante de Deus e dos homens, sem ter que se avexar de ninguém, deve vir com sinceridades e não fazendo modos de inquietar o descanso dos outros...
— Mas ninguém me anda desinquietando, interrompeu Babita meio arrufada.
— Mau, pensou lá consigo D. Cuia, a menina está mordida-...
E alto continuou:
— Eu não me refiro a você: falo no geral... e, já que estou com a mão na massa, quero lhe dar alguns conselhos. Os homens, minha filha, são muito enganadores e do que menos se importam é da honra e do sossego das mulheres. Deitam uns olhos de peixe morto, reviram o coração de uma pobrezinha e, quando não a atiram de uma vez no caminho da perdição, metem na boca do mundo que ela é assim, é assada e não sei mais o quê. A coisa começa sempre por brincadeira: a gente olha sem pensar em mal: acha graça no namoro e depois, minha cara, quando menos se cuida sente-se cá dentro no peito uma aflição, um tormento que não para nem de dia nem de noite. Então se a mulher não tiver juízo, não sabe mais o que há de fazer. Tudo é sofrimento, tudo é enjoo e desgosto, menos a vista do tentador. E ele a se rir e como cobra traiçoeira esperando de longe com a boca aberta, que a rãzinha se chegue por si mesma...
Babita durante todo esse sermão em que a mãe contava talvez uma história do que outrora se havia dado com ela, estava sem saber onde pôr os olhos, toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que nem bagas de aroeira.
Afinal, sem dizer palavra, mas abrindo num pranto de choro, atirou-se ao colo da mãe, escondendo a cara com as mãos.
D. Cuia não mostrou a menor admiração: pelo contrário beijou com muito carinho a testa da filha.
— Eu bem sabia, disse ela, que você já não era como dantes. Mas não se aflija. Aquele moço tem bom nome, e eu vou me entender com ele. O pior era você querer esconder que o seu coração já tinha acordado.
— Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... foi... Mas ninguém desconfia.
— É sempre assim, secundou D. Cuia. A gente está desprevenida e da noite para o dia fica-se presa para toda a vida. O tal rapaz é tropeiro: não digo que seja bom ofício, mas também não é de fazer vergonha a ninguém. Quem trabalha é sempre merecedor. Nós por nosso lado não somos filhos de capitão-mor, nem de juízes de fora; o que podemos desejar é que seja de família limpa, porque graças a Nossa Senhora Santíssima, e a São Joaquim avô de Nosso Senhor, você conheceu o seu pai, que Deus lhe dê a glória, e nós dois, ele, hoje no reino do céu e eu, cá neste vale de lágrimas, também tivemos esta felicidade, tudo assentado nos livros do Reverendíssimo Vigário; daí para cima não posso dizer mais, mas enfim nem todos podem dizer tanto...
Foi então que D. Cuia se meteu num cipoal de palavreado, de onde só saiu quando lhe faltou a respiração.
Em todo o caso, ela no dia seguinte se embrulhou na sua manta de sair, uma manta cor de fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na altura dos ombros umas espécies de dragonas de retrós preto, fincou um pente alto no cocuruto da cabeça, e lá foi ter ao rancho onde estava de pouso a tropa de Jucá Ventura.
Justamente tinha este de madrugadinha partido com o seu lote de bestas para esperar os companheiros daí a vinte léguas no caminho de Goiás.
— E quando estará de volta? perguntou meio descorada D. Cuia.
— Quem sabe se daqui a dois pares de semanas, respondeu um outro tropeiro.
A voltar para a casa, a coitada da mãe ia remexendo no seu espírito coisas bem tristes. Havia sido o que ela supunha: o tal sujeito era como os outros. E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada, não ia sofrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem podia dizer o que mais?
Malditos homens que vêm bulir por maldade com as mocinhas e pôr as casas de família em dobadoura!
D. Cuia não disse à filha a verdade.
Contou que Jucá Ventura tinha partido, com efeito, mas não sem que ela lhe dissesse duas palavrinhas.
— Então? perguntou a moça com receio.
— Então ele ficou muito admirado e meio corrido, quando viu que eu estava corrente com as suas passadas, mas, falando com franqueza, não pude saber se ele quer bem ou não a você.
— Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando logo fogo. Tenho toda certeza.
— É bom não pensar assim... Enfim ele há de voltar, e saberemos então se é o que você julga dele, ou se não passa de um mariola que hei de pôr a tinir como aquele filho do capitãozinho.
Nisto parou a conversa, e durante muitas e muitas semanas não se falou naquela casa em Jucá Ventura.
A mocinha estava um pouco macambúzia: não chegava à janela e não queria sair, mas comia com vontade e não parecia começar a ficar magra.
Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu caminho, jururu e abatido. Se cantava, era com uma voz abafada que fazia ainda mais triste a solidão.
Estava apaixonado às direitas, e a casa de D. Cuia e o rosto da namorada não lhe saíam da memória.
Quantos suspiros lhe rebentavam do peito! Era uma coisa sem conta, e se no serviço não afrouxava é porque só no trabalho achava algum consolo.
E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê:
Babita, meu bem Babita,
Habita do coração,
Tem pena de minhas penas,
Se não morro de paixão.

Passarinho que tem asa
Depressa voa ao seu bem.
Asa não tenho, nem tenho
Quem me possa querer bem.

Desgraçado do tropeiro,
Minha sina é só gemer:
Meu destino caminhar,
Caminhar até morrer.

Chaga viva em mim abriu
Teu olhar, mulher querida.
Mas de ti eu não me queixo,
Pois adoro essa ferida.

Tenham os "rezes" seus palácios
Ouro e mais prata infinita,
Eu só quero deste mundo
Ser querido de Babita.

Mas, coitado, por que choro?
"Quem me ouvir pode neste ermo?"
Se o meu canto não tem eco,
Meu tormento não tem termo.

Ó rochedos, montes, vales
Ó campinas tão floridas,
Compaixão deveis sentir
Dessas mágoas tão crescidas!...

Nessa versalhada é que Jucá Ventura desafogava o peito, de modo que todos sabiam por quem ficara preso o tropeiro modelo.
À noite, ao redor da fogueira, ele espantava os seus males, e a viola chorava nos dedos do namorado. Os companheiros ficavam caladinhos a ouvir o cantor, cuja voz ia longe que era coisa de pasmar.
Ventura me chamam todos,
Desgraça devem chamar.
Pois aquela a quem adoro
Não me quer a mim amar.

Sou tropeiro, não sou rico
Casas não tenho, nem ouro;
Mas no peito tenho honra,
E não sou filho de mouro.

No braço tenho talento
Na cara tenho vergonha,
Não vivo de comer bichos
No lodo como cegonha.

Ah! se apaga em mim a vida!
Sinto já que vou morrer.
Mas não sei se chore ou não
Por agora merecer.

Pois embora eu seja moço,
Por efeito da paixão
Com certeza hei de findar
Nas funduras do sertão.

Nestas cantigas passava Ventura a noite e já o braseiro se apagara, e já as barras do dia riscavam os lados do nascente, e ele ainda ficava de viola na mão, tocando e verseando.
Também a primeira coisa que fez, quando se apeou em Uberaba, foi logo procurar ver a quem lhe tinha inspirado tanta quadrinha bonita.
O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se a ronda com a patrulha.
Mal ele apontava na rua, saiu-lhe pela frente D. Cuia com um ar muito agradável e cheio de riso.
Ventura quis voltar, não pôde e parou.
A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado com muito boas maneiras, perguntando notícias da saúde e da última viagem e mais outras coisas.
Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou passado de uma vez quando, conversa puxando conversa, D. Gula o convidou para descansar em sua casa.
O moço no ato de se sentar já não estava muito em si, mas quando viu entrar na sala a rapariga por quem suspirava tanto, perdeu de todo a cabeça.
Não soube mais dizer uma palavra.
Se queria falar, sentia um nó na garganta; se queria ficar calado, vinha-lhe a comichão de falar.
Então passou-se uma coisa de deixar a qualquer pasmado. Foi que no fim de sua visita, uma visita de médico, ele pediu a mão de Babita, que Babita ficou muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita chorou algumas lágrimas e que consentiu e pôs-se a falar muito e a contar casos e mais casos, dando de língua que era de pôr tonto a um homem de juízo, quanto mais a um namorado!
Ele levantou-se cambaleando.
Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!...
A notícia correu logo à cidade, como se fosse novidade chegada do Rio de Janeiro. Uns aprovaram muito, outros acharam a coisa má, outros enfim nada disseram, no que fizeram melhor do que os que se metiam a abelhudos.
Os que aprovaram, mostravam que as idades dos noivos estavam muito combinadas e achavam direito que um pobre casasse com uma pobre e outras coisas mais.
Os que empurravam a tesoura, diziam que o ofício de tropeiro era baixo e por demais andejo, sendo assim o casal obrigado a viver sempre separado. E afinal em que mãos ia cair uma menina tão bem parecida? Nas de um camarada de tropa...
Alto lá, minha gente! Falem quanto puderem, intrometam-se na vida e nos interesses dos outros como melhor quiserem, mas por amor à verdade não digam que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca!
Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 anos, olhos rasgados, cor morena, bigodes finos, boca bem feia, e barba sempre penteada? Não. tinha ele cabelos cheios de anéis? Eram grossos, é certo, mas isso era do pó da estrada, e esse pó dava sinal de que ele trabalhava para ganhar honradamente o pão de cada dia.
Falassem, uns por bem, outros por mal, de sua pobreza, mas não tivessem susto de qualidade nenhuma. A sua família, sua sogra, mulher e; filhos, se Deus lhos olhasse, nunca haviam de ser pesados a ninguém. Graças aos céus, braços não lhe faltavam para sustentar a sua gente, e, se até então ainda não tinha ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava fora tudo que ganhava e não fazia conta do futuro.
Agora o caso mudava de figura, e para provar é que ele tratou logo de preparar um montezinho de prata já com vista nos gastos dos papéis de casamento e tudo o mais, além de presentes que se dão naquela ocasião.
Enfim quer os moradores quisessem, quer não, Babita e Ventura eram noivos, tinham já o sim de D. Gula, a única que podia naquele negócio serrar de cima, e com o favor de Deus e das leis deste Império do Brasil que Sua Majestade D. Pedro I nos deu, estavam contentes como se tivessem ganho o reino do céu.
O casório ficou marcado para daí a três meses, quando o tropeiro voltasse de uma viagem que tinha de fazer até a cidade de São Paulo e que já estava paga.
No momento da despedida os noivos choraram como dois perdidos; mas no coração lhes ficava a quentura da felicidade.
Daí a três meses.
 CAPÍTULO 2
No tempo marcado voltou Ventura mais amorudo do que quando partira e com as mãos cheias de presentes. D. Cuia ganhou um vestido de muito boa seda e Babita uma joia de ouro verdadeiro.
Sim, senhor! não era falsificado. O boticário que entendia de ourives o disse, e o que saía da boca dele era que nem palavra de Evangelho, pelo menos ninguém o tinha pilhado ainda em mentiras.
Enquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou de mãos abanando. Tinha cosido todo o seu enxoval e arranjado com os dedinhos o vestido do casamento, que a mulher do comandante superior da guarda nacional fez o favor de cortar e acertar, porque era uma senhora muito estimável. Também a coisa parecia uma maravilha de feitio e assentada.
Mas o que é o destino da gente!
Foi senão quando por este tempo Uberaba pôs-se numa dobadoura que ninguém na terra se lembrava de coisa igual. Uberaba tão sossegadinha! Longe de tudo e de todos no meio de seus sertões!
Não se falava senão em guerra!
Jucá Ventura desde São Paulo viera ouvindo contar que o Império do Brasil estava numa pendência muito grossa com uma república chamada do Paraguai, que havia muito fogo de parte a parte, gente e mais gente partia para fora, que muitos iam por gosto, outros a pau e corda, que o recrutamento roncava feio e forte e os rapazes andavam disparando para os matos, mas como ninguém veio mexer com a vida dele e lhe perguntar quantos anos tinha, seguiu sossegado o seu caminho do interior, sem se ocupar com as novidades, a vir se casar, única coisa que lhe importava neste mundo.
Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução, o mesmo rebuliço.
Parece que os negócios não iam bem. O governo da corte tinha posto nos jornais que todos deviam combater, que a guarda nacional havia de marchar, que era a ocasião da gente mostrar a sua coragem e uma lengalenga muito grande, tudo para levantar voluntários.
Minas Gerais, só Minas devia dar seis mil soldados. Imaginem!
Ora Minas é muito grande e tem bastante gente, mas onde é que se ia buscar tanto povo de uma vez para pôr de arma ao ombro! Esses homens lá de cima que governam os outros às vezes não pensam com juízo. Era uma exigência por demais.
Além disto todos sabiam que tinham marchado de São Paulo e de Ouro Preto duas forças grandes para se juntarem em Uberaba, e daí seguirem para os lados de Mato Grosso, que os inimigos tinham tomado à força e onde estavam fazendo selvagerias sem conta nos brasileiros que cortava o coração só de ouvir falar.
Tudo isto não bastava.
Dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se na cidade que os guardas nacionais iam ser reunidos, que muitos haviam de seguir com a expedição, que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de histórias capazes de assustar os mais valentes.
As famílias andavam com o coração na mão e com toda a razão, porque não tardou muito e aí chegaram uns oficiais da lª linha para juntar tropa e ensinar o manejo de arma.
Então é que foi susto!
No meio de todo esse barulho, Babita não tinha um momento de descanso. Jucá Ventura era guarda nacional, ainda solteiro: estava na flor dos anos e podia ser chamado.
— Ah! meu Deus, dizia ela toda em pranto, e se você tiver de marchar?
— Não marcho, não, respondia o tropeiro para lhe dar algum sossego.
A mocinha perguntava abaixando a voz:
— Então você deserta?
— Isso nunca! retrucava Jucá, nunca fugi de coisa nenhuma! Mas tenho certeza de que não vou. Não me chamam. Você verá...
Esta certeza durou pouco tempo.
Um belo dia o comandante superior da guarda nacional mandou-lhe por um cabo de esquadra aviso, ordenando que chegasse naquela mesma hora ao palácio da câmara municipal, e aí, não só a ele, como a mais quinze companheiros fez uma fala meio gaguejada em que disse que era preciso ir acabar com o inimigo, que os brasileiros nunca tinham sido vencidos, que a gente de Uberaba ia ganhar um nome ilustre, que todos haviam de voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que o Brasil contava com os seus filhos, etc., etc., e depois de toda essa perlenga acabou dando vivas ao Imperador e à Constituição, no que foi apanhado com muito barulho por outros homens de casaca reunidos a um lado da sala.
Mas aí é que cabia bem uma pergunta.
Por que é que aquele comandante superior não marchava também para a guerra? Então só lá deviam ir os pobres soldados para chuchar bala como terra em pó, e os coronéis e mais oficiais de dragonas cheias a se deixarem ficar muito a gosto e só enchendo as bochechas com patriotadas?
Nada: isso era mau, deveras. Se havia essa necessidade, como diziam, então que todos se sacrificassem.
O pequeno quando vê o grande sair de seus cômodos e mostrar boa vontade, suporta tudo com cara alegre, não assim a empurrar-se gente para obedecer ao governo e metido na toca caladinho!...
Assim também pensava Jucá Ventura, mas ele não disse patavina, e sem demora foi mandado para o quartel, uma casa de paredes altas e vigiada que parecia uma cadeia.
Ali já estavam reunidos uns sessenta homens meios assarapantados que todos os dias ouviam falas e mais falas do comandante daquele depósito — um major de linha, mandado de propósito da corte para ensinar recrutas.
Mas o major debalde punha os bofes de fora: não havia influência nenhuma.
Jucá Ventura só viu caras muito jururus.
Quando Babita teve conhecimento do que sucedera ao noivo, caiu num desmaio que pôs D. Cuia tonta; depois as duas choraram juntas até não terem mais lágrimas nos olhos.
Uma carta do coitado ainda mais agravou as dores. Via-se bem que ele queria se fazer de forte, mas que estava por seu lado desanimado.
Então D. Gula pôs o seu capote comprido e lá se foi ao quartel para ver se trocava alguma palavra com o rapaz, mas não pôde entrar, porque na porta estava um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido que passeava como um rei, de um lado para outro, segurando na mão uma espada desembainhada. Quando a boa da velha foi se chegando para mais perto, ele gritou — Passe de largo! — com uma voz de lobisomem.
Isto contou ela à filha, mas não lhe disse que ouvira o cabo falar numa guerra que houve no tempo de dantes em que ele com mais dois companheiros tinha destroçado catorze castelhanos, que não era homem de brincadeira e que cortaria pelo meio todos aqueles que quisessem sair do quartel sem passe do senhor major.
Foi o que ele prometeu fazer e quando falava alisava o bigode com raiva e rangia os dentes como porco-do-mato.
Homens assim é que deviam ir para a guerra, já que gostavam tanto da história, e não uns pobres moços sossegados que tinham suas famílias ou estavam em vésperas de formar casa. Fosse lá o três contra catorze, mas não uns guardas nacionais que nunca haviam feito mal a ninguém.
Eram estas as reflexões de D. Cuia, reflexões, que ela não passou a ninguém, porque não gostava de meter o bedelho nos negócios gerais, entendendo cora razão que as mulheres, quando se atiram a discursar nestas e noutras coisas, dizem por força desacertos.
Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora pudesse trocar língua com Jucá o tropeiro. Ele estava sossegado, e entretanto bastante murcho, não que o dissesse, mas pela cara logo se via isso.
O recado que ele deu para Babita não se acabava de tão comprido, mas em duas palavras queria dizer amor para sempre.
Por esse tempo os guardas nacionais fechados e trancadinhos no que se chamava quartel e que já continha uns centos de pessoas, receberam uma bandeira novinha em folha, toda bordado a ouro, coisa enfim muito rica e vistosa.
Houve muita pancadaria de música, muito foguete do ar, estouros de bombas, e falatórios compridos cheios de entusiasmo.
O comandante superior tomou novamente a palavra e disse que com o contingente mineiro a guerra havia por força que acabar, que Uberaba ia dessa feita para a história, que todos deviam marchar com a maior alegria e que aqueles que desertassem haviam de receber castigo de Deus e dos homens. Mas o espertalhão não prometeu dar o exemplo e tomar parte nos perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino.
Falaram em seguida o major de lª linha e o cirurgião, ambos com muito fogo, e no fim do seu palavreado, todos romperam em vivas ao Brasil, e morras ao Paraguai, que a casa parecia querer vir abaixo.
O cabo três contra catorze já com algumas garrafas de cerveja no bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos e fazia com os dentes tal barulho que semelhava não um caititu, mas uma vara inteira de porcos. Ele pedia a um recruta, vindo na véspera da bagagem e que estava tremendo de susto, que fosse buscar oito ou dez castelhanos, armados de lança e espada, para ver como num instantinho os havia de cortar em pedaços miúdos.
Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado por uma lista de nomes, veio jurar por baixo da bandeira e com a mão aberta sobre os santos evangelhos em como havia de defender até a morte o imperador e a constituição e nunca desamparar o seu posto de honra.
Quem disse o juramento foi Jucá Ventura e, a falar a verdade, nesse momento o coração lhe tremeu dentro do peito. Os companheiros diziam, sim, sim, mas eram uns sim muito chochinhos que em muitos parecia mais um soluço do que uma promessa que que só Deus podia quebrar.
Depois retiraram-se os convidados; apagou-se a iluminação — meia dúzia de lanternas de papel — e o quartel ficou todo às escuras, guardado por uma sentinela que chorava baixinho e pelos roncos de três contra catorze.
O valente cabo de esquadra ao entornar os últimos copos deixou-se cair na porta estirado a fio comprido, como que para impedir com o seu corpo a escapula de algum medroso.
Na grande sala que servia de tarimba tudo era silêncio e trevas.
Jucá Ventura, depois de dar um suspiro arrancado do fundo da alma, pegou a dormir e a sonhar com Babita. De repente alguém o puxou por um braço.
— Que há de novo? perguntou o mineiro ainda tonto de sono.
— Fale baixo, murmurou alguém.
— Mas o que há? replicou o outro abaixando a voz.
— Somos nós, responderam quase que ao mesmo tempo cinco ou seis mas tão baixinho que parecia um sopro.
Eram alguns guardas nacionais, todos filhos de Uberaba.
— Jucá, continuou um deles, nós viemos convidar vancê para abrir campo. Parece que o negócio vai ficando sério e que chegou a hora de cada um cuidar de si.
Ventura respondeu com um gemido abafado.
— Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas agora...
— Agora, o quê?
— Agora não posso.
— E por quê?
— A sorte não quis. Jurei com a mão posta no livro sagrado, e decididamente hei de ir por estas terras a fora. Deus Nosso Senhor me dê coragem...
Houve silêncio no grupo.
— Mas... então, disse com hesitação um deles, vancê... não vá... dar parte de nós...
— Deus me livre! respondeu Ventura. Cada qual tome o rumo que quiser. Eu não jurei que havia de guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a defender o Brasil.
E, cobrindo a cabeça, voltou-se para o outro lado.
De manhã viu-se que haviam desertado quinze guardas nacionais e que a sentinela do portão tinha também batido a linda plumagem.
Mas eis que na cidade entraram num dia de sol claro, umas máquinas esquisitas, canos feitos de bronze, assentes em grandes rodas e acompanhadas de um trem pesado, tudo puxado por muitas juntas de bois.
Essa maquinada vinha com muito barulho e pôs em rebuliço todos os moradores.
— Que é isto? Que não é? perguntavam eles porque nunca tinham visto artilharias.
Babita com os olhos rasos d'água, viu passar pelas janelas da casa aquela procissão capaz de meter medo aos mais valentes e soube que aqueles canudos iam para Mato Grosso para fazer fogo nos paraguaios.
— Meus santos do paraíso, exclamou D. Cuia pondo as mãos de admirada, que pecado atirar em cristãos com bacamartes desses!
Na noite da chegada da artilharia desertaram de pancada quarenta guardas nacionais, e ninguém mais lhes pôs o olho em cima.
Três contra catorze andava danado e gritava, no meio da praça da matriz, que aquilo era uma pouca vergonha e que ele só com um cacete curto era bastante para dar conta de todos os moradores de uma cidade tão medrosa e — com perdão da palavra — safada, assim dizia o cabo de esquadra.
Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada mineira que foi acampar no Cachimbo, a uma légua de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz de influir a preás do campo... mas qual!... de noite fugiram mais vinte dos aquartelados.
Só ficaram Jucá Ventura e dois companheiros.
Ah! Quanto custará a tropeiro resistir à correnteza do exemplo e deixar-se estar quietinho quando os mais abriam pernas e iam cuidar da vida! Quanta coragem para dizer "não" à Babita que todos os dias, todos lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo, que ela não podia mais viver assim e era noiva de um ingrato, e não sei o que mais, e mil coisas e ditos de fazer sangrar o coração.
Mas ele tinha jurado!
Quando no quartel não restaram senão três homens, o comandante superior, não se fiando neles, mandou trancafiá-los sem crime nem culpa na cadeia. Queria ao menos segurar bem esses últimos.
Ventura baixou a cabeça e lá foi indo.
Já então haviam chegado umas forças de São Paulo e estava marcado o dia 4 de julho de 1865 para a partida de toda expedição que devia se internar pelo sertão bravio à procura do inimigo.
Na véspera daquele dia terrível, Babita veio despedir-se do noivo que estava como um desgraçado galé encostado às grades da cadeia.
— Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe na mão, isto é que é ser desinfeliz de uma vez!...
— A culpa é de vassuncê, respondeu a moça soluçando.
— Mas se eu pus a mão no livro sagrado e jurei!... Foi destino...
— Eu não posso, interrompeu D. Cuia, dizer que vassuncê faz mal... entretanto...
— O que devemos fazer, disse o coitado depois de uma pausa em que todos os três choravam, é não perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade; mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de voltar com toda a certeza, e então seremos felizes para sempre... Tenho o meu amor para me salvar. Agora, Babita, eu lhe peço uma coisa: seja sempre fiel ao seu noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo que, na batalha ou no descanso, não haverá uma só hora que eu deixe de pensar em quem tanto quero.
E, voltando-se para D. Cuia, acrescentou:
— Agora a senhora leve a sua filha, porque não parece bem me verem chorar como se fosse um fracalhão. Tenham fé no que digo: eu hei de voltar...
Babita soluçava como uma criança.
No dia seguinte, as forças da expedição abalaram do acampamento do Cachimbo.
Foi uma coisa bonita.
Os batalhões estavam unidos uns aos outros, todos bem fardados; o bronze das peças de artilharia faiscava aos raios do sol; as músicas tocavam o hino nacional, e as cornetas faziam uma charamelada de pôr surda uma pessoa.
D. Cuia e sua filha tinham ido dizer adeus a Jucá Ventura e para isso caminharam a pé e de madrugadinha, ainda escuridão, légua e meia, distância da cidade ao acampamento.
O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira, já estava metido numa grande blusa militar e às costas uma mochila que havia de ter bom peso, além da espingarda e do mais.
Quando ele apertou pela última vez Babita nos braços, disse-lhe a modo de consolo:
— Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me no batalhão mineiro: estou rodeado de patrícios e conheço bem o sertão. Não é isto que me assusta.
E, com um suspiro, concluiu baixinho:
— Ah! se eu não tivesse jurado! O sinal da marcha soou, e Jucá Ventura partiu de arma ao ombro e com passo dobrado.
 CAPÍTULO 3
Contar tudo o que o tropeiro sofreu na expedição de Mato Grosso, fora contar o que todos, desde o comandante das forças até o último soldado, sofreram, e é coisa de encher livros e livros.
Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se a padecer de fome, que desde então acompanhou sempre e sempre toda aquela gente, como se fizesse parte da bagagem, e fosse coisa indispensável, ora apertando deveras, ora menos forte, mas ali pronta a toda a hora para aparecer, quando menos se cuidasse.
Agora falando com o coração na mão, foi preciso muita paciência, muita confiança em Deus para não se desanimar de uma vez e querer antes morrer do que aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão de Voluntários de Minas é que dava o exemplo ao resto da expedição. Era uma rapaziada toda limpa; oficiais muito bons, amigos de seus soldados, e comandante meio zangado mas justiceiro e cheio de disciplina. Deveras fazia gosto servir nesse corpo.
Jucá Ventura tinha sido bom camarada de tropa; foi excelente soldado, porque, antes de tudo, era um homem que queria sempre cumprir com a sua obrigação. Logo na saída de Uberaba foi feito cabo de esquadra e como sabia ler e escrever corrente, no Coxim, passou a furriel.
Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além dele ser pouco inbicionciro, não se ajeitava em riscar mapas do dia e relações de mostra.
No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrair os outros, do que por gosto de galhofa. Na verdade não se esquecia um minuto de sua bonita noiva: escrevia a ela cartas muito compridas e, enquanto houve correio, recebia, lá de vez em vez, respostas muito amorudas do punho de D. Cuia, mas do coração de Babita.
Depressa, porém, desse gostinho devia se desmamar, porque não houve mais estafetas e até oficiais de posto graúdo ficaram seis e mais meses sem poder receber uma só letra de suas famílias, todas moradoras na corte do Rio de Janeiro, de muita consideração e apalaçadas.
Lá nos pântanos de Miranda, quando a expedição foi se meter no tijuco até o pescoço é que houve dias da gente duvidar da bondade de Deus.
Cruz! Foi o diabo. Cristãos ficaram atolados no lodo que de lá nunca mais saíra.
Morria goianada aos punhados, não que sejam mofinos de ânimo, pelo contrário no fogo são bons deveras, mas, fanadinhos de corpo, saíam da fartura para cair na miséria, e isto lhes clava na fraqueza.
Para mostrar o que foi aquela travessia, 50 léguas de alagadiços e tremedais, que era mesmo um mar de Espanha, basta dizer que do Coxim saíram mais de 3.000 homens sadios e ao Taboco só chegaram pouco mais de dois mil, quase todos agorentados.
Jucá Ventura não tivera a menor moléstia, não que se poupasse ao trabalho, mas porque era de seu natural resistir às epidemias. Isso para o serviço foi sempre dos melhores e de machado em punho para derrubar árvores e fazer pontes ou de foice para a faxina era um grande.
Também os oficiais o tinham em muita estimação e nos acampamentos só se ouvia gritar: "Furriel Ventura, vai fazer isto. Furriel Ventura, vai fazer aquilo." E ele de boa vontade sempre, quando os companheiros estavam quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores, não só do seu corpo, como de outros batalhões.
O comandante de sua companhia, o Sr. capitão Jucá Duarte, que morreu, coitado, em Miranda todo inchado, moço tão bom que até os soldados choravam quando o iam carregando no caixão, queria muito ao furriel, assim como o Sr. major Jucá Borges, que depois veio a comandar o batalhão e era muito valente e, segundo a gazeta, se afogou há pouco no Araguaia de Goiás.
Era um homem muito alegre esse major e tratava bem os soldados, e também um capitão, quase criança, chamado Sr. capitão Enoc, e mais o Sr. tenente Tobias, senhor tenente Raimundo e outros muitos.
Por isso fazia gosto servir naquele batalhão. O comandante Enéias era homem sério e meio carrancudo, mas não deixava perecer a sua gente de maus tratos e injustiças.
A força de Mato Grosso entrou na vila de Miranda onde sofreu muito de moléstias esquisitas que levaram uma máquina de oficiais e soldados ao cemitério; depois foi para Nioac, que outros chamam Anhuac, e é lugar bonito e sadio; desceu para a colônia de Miranda; desceu ainda para o Apa e aí entrou no Paraguai, assim com ares de quem queria engolir aquela terra toda.
Quanto tempo já se tinha passado desde a saída de Uberaba! Mais de dois anos...
E carta de Babita, nem sombra. Também só chegava uma ou outra, isso mesmo para a gente lá de cima, e saída do Rio de Janeiro e outras cidades que valem alguma coisa.
Ventura não desanimava, mas, para falar a verdade, já não escrevia mais. Que é de papel para no fundo de sertões brutos estar riscando finezas, quando muitas centenas de léguas separam os namorados?
Se a expedição tinha sofrido para chegar ao Apa, quando ela se viu sem gado nem mantimentos e teve que recuar de um lugar chamado Invernada de Laguna, parece que tudo quanto é desgraça se juntou para fazer a gente ter saudades dos tempos de dantes.
Que calamidade, meu Deus!
Inimigo era o menos, e Jucá Ventura fez pagar caro a muito castelhano de blusa vermelha o incômodo de vir os procurar tão longe, mas o cólera, mas a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas, os aguaceiros, o sol de rachar, os rios todos cheios, a falta de caminhos, cruz! era de quebrantar a coragem de um Roldão.
Tanto sofrimento ao mesmo tempo só se vê uma vez em cem anos, e quem escapou daquela feita pode dizer que tomou passagem para a eternidade, mas não embarcou por ser afilhado da sorte.
Jucá Ventura nos dias de maior desespero ainda achava ocasião de dizer a sua gaiatazinha, mas já a sua prosa não alegrava a ninguém: tudo andava muito jururu e murcho, porque se via quase a morte estar voando por cima da cabeça da gente, matando este, matando aquele, aquele outro e assombrando a todos.
Daí a pouco até nem houve outro remédio senão deixar jogados no meio do campo como carniça mais de duzentos companheiros a morrerem de cólera e de ferimentos.
E os ouvidos ouviam aqueles gritos sem ficarem surdos, e o coração batia, mas parecia pedra ou pau porque nada sentia.
Ë que naquela hora cada qual cuidava em si e só tratava de salvar o vulto.
Os bons e fortes se encostavam aos bons, e a expedição vinha rolando as suas misérias, caminhando quanto podia.
Lá se foi o Sr. coronel Camisão que comandava aquela tropa toda, lá se foi o Sr. tenente-coronel Juvêncio, e de nada lhes valeram as divisas de ouro bem grossas que tinham no braço.
Era mesmo um despotismo da morte, e nem se livrou quem estava já afeito a aqueles lugares malvados e de pestes e foram batendo a bota o prático Francisco Lopes e o filho dele, por sinal que iam deixando os brasileiros no sertão que ninguém conhecia, nem tinha ainda cruzado, e donde não havia de escapar um só ao menos para vir contar onde é que paravam os ossos dos outros.
Mas Deus foi servido mandar que morressem, um no dia, o outro na hora em que a coluna pisou terreno conhecido. Olhe que foi um milagre!
Afinal, depois de toda aquela barulhada, morre daqui, morre dacolá, chegou-se a salvamento, tudo muito porco, muito magro e esfarrapado, mas enfim ainda com. vida e vontade de saber o que era passar um pouco melhorzinho do que naquela desgraça.
Foi no Canuto.
Os paraguaios nos deixaram de cansados e voltaram lá para as suas tocas: nós então, fizemos acampamento perto de um rio grande, o Aquidauana, que só uma força assim de água é que podia acabar com a sujidade que todos, soldados e oficiais, traziam no corpo e na roupa.
Aí o major José Tomás, que tinha tomado o comando, disse numa ordem do dia que os inimigos estavam anarquizados com a nossa retirada, que os batalhões tinham feito maravilha e que a história havia de falar nos soldados de Mato Grosso e um bando mais de coisas.
Quando Jucá Ventura ouviu o sargento da companhia estar lendo toda aquela escrita, disse para os outros:
— Olhe, gente, custou caro este recado, mas afinal chegou.
E os outros se riram, porque já estava passado o perigo, mas deveras o furriel tinha razão. Mais de mil e seiscentos homens foram ao Apa cheios de vida e talento, e, em menos de mês e meio, de lá voltaram só uns setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados que parecia uma tropa de ladrões do mato.
Não, aquilo foi demais!
Depois dessas passadas, Jucá Ventura foi um o batalhão para Cuiabá, daí desceu para o Paraguai, ainda entrou em fogo e foi acampar no Humaitá, que outrora fez barulho no mundo, mas que era então uma barranca de rio.
Cinco anos lá se tinham ido depois que ele saíra de Uberaba, e, há mais de quatro, não recebera uma cartinha de Babita, uma notícia sequer.
Mas porém o rapaz era de palavra e não houve, neste tempo todo, um só dia, uma só hora, em que o seu pensamento não fizesse viagem até a cidade em que morava a namorada.
Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a guerra acabou.
O batalhão nº 17 voltou para o Rio de Janeiro: houve muita festa; discursos como terra, gritaria, e, o que valia mais, cada voluntário recebeu uma boa bolada de cobres na pagadoria da corte.
Jucá Ventura que tinha uns fardamentos atrasados e certas diferenças de soldo, de uma assentada meteu no bolso trezentos mil réis do prêmio de voluntário da pátria e setecentos e picos do resto.
Mais de um conto de réis em notas, saídas fresquinhas da caixa do governo.
Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz de Fora, e, por toda a parte onde passava havia muito discurso, havia festa a valer e tudo o mais.
Um dia, enfim, cada um teve licença de tomar o rumo de sua casa.
Foi um grande dia aquele!...
Jucá Ventura montou a cavalo para voltar a Uberaba, assim com modos de passarinho que achou a porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares a fora, tonto de alegria e cantando como um maluco. A saúde do tropeiro era sempre a mesma: pouca diferença fazia no rosto, mas nas maneiras era mais compassado e orgulhoso.
Também estava com o peito cheio de medalhas de campanha e ganhara até o hábito da Rosa.
Tinha honras de capitão!
Oh! como ele foi rápido por aquelas estradas! Não perguntou notícias a ninguém.
O coração lhe batia sossegado e só o que queria era chegar, chegar depressa...
Foi num dia de sol bonito que entrou em Uberaba, a 15 de julho de 1870 e frechou direitinho para a casa da noiva.
À porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha no colo.
Quando Jucá Ventura parou defronte, ela deu um grito forte, levantou-se e correu para dentro como uma doida.
Era Babita!
 CAPÍTULO 4
Jucá Ventura apeou do cavalo trêmulo e assombrado.
Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos escuros.
Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria parecer alegre, mas não estava:
— Ó de casa, ó minha gente!
Ninguém lhe respondeu.
Ele entrou na sala.
Nada estava mudado: eram as mesmas cadeiras, o mesmo sofá velho, uma imagem do Menino Jesus entre dois vasinhos com flores, tudo como há cinco anos passados.
Ventura bateu palmas.
Ninguém lhe respondeu ainda.
Oh! Era caso de pensar.
O nosso homem assarapantado empurrou a porta do interior... nem viva alma na varanda: correu a casa toda, nada.
Mas estava claro que ali há pouco tinha estado gente que havia fugido às carreiras.
Decididamente sucedera alguma novidade graúda.
Jucá Ventura sentiu a boca lhe amargar. Padecia que nem um condenado à forca, mas como não era precipitado em seus juízos, não quis logo cuidar em mal.
— Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou ele, e tomasse um susto.
Nestas ideias saiu de casa.
Lá fora fazia um sol valente. Um sujeito passava rente com as casas para apanhar um pouco de sombra.
Jucá perguntou-lhe se conhecia D. Cuia.
— Cheguei há pouco da Formiga, lhe respondeu o cujo, por isso não conheço, mas sei que a filha dela é casada com o Chico Luís, o Emboaba.
Como Jucá Ventura não saltou às goelas do sujeito que lhe deu aquela notícia, ou como não caiu no chão morto para todo e sempre, é o que ele mesmo não sabe.
Sentia mil sofrimentos, maiores a um tempo do que todos os de Mato Grosso e por cima uma vergonha tão grande que a sua cara ardia como se fosse uma fogueira.
Tudo estava perdido!
Tudo!
Ele que só tinha vivido com a lembrança, daquela mulher, ele que vinha cheio de amor, limpo de misérias, depois de ter dado conta de sua obrigação, ele que tinha ganho as suas medalhas, as suas gitas para enfeitar a noiva, e agora vinha encontrar o lugar que lhe pertencia já tomado, e em vez de um coração para o afagar e estimar, a traição e o pouco caso?!
Ah! por que a sorte não o atirou como tantos outros nos campos do Apa para ser degolado pelos paraguaios? De que lhe servia a vida?
A sua felicidade caía toda em pedaços, como casa velha de taipa em dia de furacão.
Que restava fazer?
Nada... nada mais!
E vingar-se?... porque é que o valente que vinha da guerra não havia de tirar despique do desprezo de uma mulher?
Isso lá, não. Babita podia dispor de si, dar o corpo e o coração a quem quisesse; mas ele o bravo do 17º de Voluntários de Minas precisava se desafrontar.
Tremessem os desalmados que haviam brincado com a honra do tropeiro!
Com isso tudo a lhe ferver no sangue, amontou Jucá a cavalo e foi sestear num rancho fora da cidade.
Não se tinha espalhado a notícia da chegada dele, senão é de crer que se fizessem em Uberaba alguns festejos e que o comandante superior da guarda nacional o viesse abraçar à vista de todos.
Mas para abraços não estava ele.
Parecia uma onça que acaba de cair num fojo.
Não tocou no prato que lhe puseram na mesa, mas, com o queixo encostado na mão, estava carrancudo como um tigre preto, e os seus olhos faiscavam. Na cintura tinha uma garrucha de dois canos carregada e um facão-punhal.
Quando o sol vinha caindo, vermelho e grande, Jucá saiu do rancho, mas as pernas lhe tremiam.
Queria pisar firme não podia.
É que nunca fora assassino e agora ia matar!
Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve que se sentar à beira da estrada pela afrontação em que vinha.
O coração quase que lhe saltava pela boca.
Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquele homem para você o tratar assim? Pois não pode haver uma só mulher no mundo que tenha felicidade?
E o certo é que lá ia Jucá Ventura, já com ares de matador, quando podia entrar no lugar de seu nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o peito em que estava escrita a sua história de soldado! E todos haviam de festejar e até adular!...
Mas não... O destino assim não quis.
Apareciam as primeiras casas da cidade quando o pobre coitado sentou-se num matacão de barro duro a um lado da estrada, à espera que a noite fechasse.
Do sol já só se via uma beiradinha e estava um calor de rachar. Lá no nascente umas nuvens cor de chumbo pareciam estar ameaçando a terra, e de quando em quando um relâmpago fuzilava no meio delas.
Jucá Ventura olhava para aquele lado e pensava que assim estava o seu coração, faiscando, faiscando mas que também daí a bocadinho um raio havia de ferir a quem menos cuidava.
Um barulho de passos lhe chamou a atenção.
Era um homem branco, de meia idade e bem limpo, que tinha um ar sério e muita composição no andar.
Quando Jucá Ventura lhe pôs os olhos em cima, como que virou-se em pedra.
Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, sacou da cintura a pistola e pulou para a frente do outro como uma onça pintada.
A sua boca deu um uivo.
— O emboaba!
Se Chico Luís, pois era ele, não tivesse a tempo lhe agarrado no braço, era um homem morto.
E ficaram os dois, um olhando para o outro, bons pares de minutos: Jucá Ventura com os olhos de engolir um cristão vivo, Chico Luís muito senhor de si e de sangue-frio.
— Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com o braço preso, você sabe quem eu sou?
— Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um soldado brasileiro, não é um matador.
O modo por que estas palavras caíram da boca de Chico Luís e o seu propósito fizeram um abalo tão forte no voluntário que ele ficou branco como cera.
— Sim, retrucou ele, nunca fui assassino, mas agora vou ser...
— Ao menos deixe eu me defender. Na guerra você fazia assim...
— Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. Todos... porque cuspiram na minha cara.
— Jucá Ventura, você tem o direito de me matar, isso eu reconheço: mas a mais ninguém, ouviu? O único culpado sou eu.
A cada palavra que Chico Luís dizia, o tropeiro como que sentia o coração ficar frio. Quis puxar pelo braço, mas a mão do português se não apertava com força, segurava com firmeza.
— Sim, continuou ele parando a todo instantinho e com os olhos pregados nos do seu inimigo, eu vim até cá ter com você, sem armas, sem um pau sequer, e lhe dizer atire em mim, porque nesta história desgraçada ninguém mais pode ser acusado... Agora...
E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou o peito:
— Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua vingança!
O modo era de quem estava preparado para morrer naquele instante mesmo.
Jucá levantou a pistola, mas depois recuou uns passos, como que vexado e murmurando:
— Eu nunca matei ninguém assim...
— Pois bem, secundou Chico Luís dessa feita muito depressa, eu quero defender não a mim, mas a uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa como Nossa Senhora da Conceição...
E como ventura fizesse um gesto de raiva:
— Sim, exclamou ele com força, eu juro pela minha salvação eterna, Babita é inocente; Babita resistiu quanto pôde a este casamento. Babita não se esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas as lágrimas do seu coração; foi fiel quanto pôde à sua promessa.
O português falava com sotaque lá da sua terra, mas falava como quem diz a verdade. Cada um de seus ditos era uma punhalada em cheio no peito de Ventura.
— Mas então, bramiu ele, ela foi enganada?
— Não, respondeu com energia Chico Luís.
— Que aconteceu pois?
— Se você quiser me ouvir, eu lhe abrirei o meu coração; se não, dispare já esta garrucha que está engatilhada, mas tenha certeza que há de vir dia em que o sangue que hoje cair se levantará a gritar: Sua mão deu cabo de gente inocente!
E a voz de Chico Luís ficou de quem estava pedindo uma coisa muito grande.
— Você me ouve? perguntou ele ainda.
Houve um silêncio de meter medo. A sorte daquele homem estava se decidindo.
— Fale, disse por fim Jucá Ventura muito abatido e pondo ao cinto a garrucha depois de ter abaixado devagarinho o cão.
— Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. Você partiu para Mato Grosso e só houve notícia certa de sua pessoa por uns seis meses. Depois passaram-se anos inteiros, e ninguém sabia onde parava e qual o seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de um e de outro, escrevia muita carta, punha tudo no correio e a chorar dia e noite que era uma coisa por demais. No fim de três anos chegou, parece que desertado, a Uberaba um soldado do 17 de Voluntários que disse que conhecia muito a você, que você tinha morrido há mais de um ano e até ele tinha carregado o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa por sua alma, e Babita esteve entre a vida e a morte um mês inteiro. Correu muito tempo. Nisso chegou outro soldado que também deu a você por morto e enterrado. Já ninguém tinha dúvida. Foi então que eu, apesar de ter levado de tábua uma vez, me apresentei de novo para casar com ela. Nesse tempo D. Cuia estava de cama; pedia muito à filha que aceitasse; ela resistiu, eu insisti; todos os dias ia lá; fiz muitos quartos quando a minha sogra ficou a sair deste mundo. Então Babita, para obedecer, eu sei bem, a quem todos já faziam na cova, casou-se comigo haverá uns dez meses. Esta é a verdade. E acrescentou:
— Agora estou às suas ordens.
Jucá Ventura, enquanto Chico Luís falava no tempo em que um gato passa por cima de um braseiro, estava calado e mais sombrio do que a noite que vinha chegando.
As suas sobrancelhas estavam tão apertadas que formavam uma só linha na testa.
Ele via que tudo aquilo era certo, mas queria poder não acreditar.
— Ah! já sei, retrucou ele como que chasqueando, vocês todos enganaram a Babita. Foi você quem inventou a embromação da minha morte.
— Pela alma de minha mãe eu lhe juro que não! Caia ela no inferno se eu estiver mentindo. A cidade inteira ouviu aqueles soldados... E depois olhe para mim, e veja se sou capaz disso...
Sem querer, Jucá Ventura levantou os olhos e fitou o português.
O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção entrou no fundo do coração do tropeiro: mas ele ficou mudo com a cabeça caída sobre o peito...
Já era quase noite fechada, e se não escurecera de todo é que no céu havia umas nuvenzinhas vermelhas que aos poucos iam perdendo as cores.
Os dois homens estavam calados.
De repente Chico Luís disse com voz muito suave.
— Você me perdoa?
Jucá Ventura estremeceu todo.
— Ah! exclamou ele com a boca encrespada de amargura, não bastou a você, portuga de desgraças, me tomar a minha noiva, me arrancar o coração, pisar com pé de chumbo na minha felicidade, matar para sempre a minha alegria, quer também o meu perdão?...
— Quero, atalhou Chico Luís com força. Você é homem de honra, é homem de bem, eu também sou. Da conversa de hoje é que vai sair o futuro da mulher que nós dois amamos, da mulher que ainda ama a você, Ventura, mas que me pertence a mim. Eu falo aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de joelhos...
— Não, não!
— Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, ou que você me dê o seu perdão. Nossa Senhora abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher, tem pena de meu filho!...
E Chico Luís, no meio da estrada, se atirou de joelhos aos pés de Jucá Ventura, mas com tanta dignidade que ninguém havia de ver naquele ato, não uma baixeza ou medo, mas uma mengagem à desgraça do tropeiro.
— Levante-se, homem, disse enfim com muita pausa Ventura... Eu... vou pensar.
E depois de novo silêncio, acrescentou com esforço.
— Se... amanhã eu... aparecer na... sua casa... então... é sinal que... para mim... o passado, passado. Se... eu não for lá... é que parti para nunca... mais ouvir falar... em Uberaba... e na gente que aqui mora.
E acenando a mão, sumiu-se, sem dizer mais palavra, na escuridão da noite...
No dia seguinte Jucá Ventura fez às claras a sua entrada na cidade de Uberaba.
Isso foi um alarme nunca visto e pelo ar com que todos olhavam para ele, conhecia que era a pura verdade tudo o que Chico Luís lhe tinha dito. Pareciam encarar alguém que saía da cova para fazer coisas do arco da velha.
Tudo botava uns olhos arregalados, e espantadiços. Muitas velhas já faziam cruzes pelo que ia suceder sem falta, e alguns que muito à toa tinham raiva do português, só porque os negócios lhe corriam bem, lá no coração sentiam certa alegria, apesar de estarem a dizer por toda a parte que o delegado de polícia devia estar alerta se não quisesse ver uma desgraça feia.
Os modos de Ventura puseram os bisbilhoteiros de queixo caído. Começou a falar que já sabia desde muito que a Babita tinha se casado, mas que não se admirava disso, porque tinha corrido a rodela de sua morte, e mais isto e mais aquilo e tanta coisa com sossego tão grande que não se sabia o que pensar se era disfarce ou não.
Mais ainda cresceu o espanto, quando, depois do furriel ter-se apresentado, como militar, às autoridades que o receberam muito bem, o abraçaram e o fizeram sentar, foi ele com sol alto para a porta do emboaba.
Chico Luís estava então no balcão de sua loja de negócio, e nem de propósito, a casa estava cheia de freguesia que nada lhe comprava, é preciso notar.
Jucá Ventura desapeou meio branco. O outro ficou um tanto amarelo, mas se adiantou a encontrar quem vinha entrando.
— Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo que o traz a esta casa, disse o portuga estendendo a mão. O tropeiro mal a tocou.
— Para sempre seja louvado, respondeu pausado e muito sério.
E acrescentou:
— Eu venho visitar a sua família, D. Cuia e a filha dela.
Houve um silêncio grande.
Chico Luís desviou o corpo, e apontando para dentro:
— Pode entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A minha sogra e a minha mulher hão de ver com gosto um conhecido antigo e amigo.
E deixou que Jucá Ventura entrasse sozinho.
Na salinha junto à loja estavam D. Cuia e ao lado Babita, a bela e corada Babita, com o filhinho no colo, como se fosse bandeira de misericórdia.
Ventura ficou de pé, branco como cera. As duas mulheres, que de tudo sabiam, tinham os olhos pregados no chão e choravam sem fazer barulho.
— Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro parando em cada palavra. Ninguém lhe respondeu.
— D. Gula, disse de repente Ventura, eu perdoo a vocês todos... No meu coração só guardo uma coisa: é tristeza para sempre.
Babita deu um soluço de desespero.
Ventura chegou-se para ela.
Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:
— E você é feliz?
— Chico... Luís... é... o... pai do meu filho.
— Babita, D. Cuia, disse por fim o tropeiro, não fiquem me querendo mal... Adeus, adeus!
As duas coitadas abaixaram a cabeça e choraram até não poder mais.
Já então Jucá havia saído e, ao despedir-se do português, lhe apertou uma outra vez a mão.
Dois meses depois o tropeiro tinha tornado a tomar o emprego do outro tempo, mas já não era o mesmo de dantes. Calado sempre, só achava gosto no trabalho.
A ninguém mais contava histórias, a ninguém fazia festas e mostrava amizade. Não se metia com pessoa alguma, nem queria que se metessem com a vida dele.
Uma vez, porém, saiu do sério.
Desafiado por um camarada, que tanto tinha de forte como de malcriado, e que se lembrou de falar da Babita, foi acima dele e lhe deu tanta pancada que por pouco não o mandou para o outro mundo.
Desde esse dia, não há quem se lembre de mexer com Jucá Ventura.
Uma só coisa ainda lhe agrada um tanto: é cantar alto quando vai tocando o seu lote de bestas, mas essas mesmas cantorias são tão tristes que a gente vê bem claro que alguma coisa o está consumindo e minando por dentro.
"Longes" terras viajei
Padeci muito na vida.
E o Deus de compaixão
Não me quer findar a lida.

Faço força para ter
Paciência, meu senhor:
Mas debalde aperto o peito
Através rompe-me a dor.

Coração, meu coração,
À razão porque não cedes?
Se não há poder no mundo
Que te dê o que tu pedes...

Por que, pois, tanto afligir?
Palpitar com violência?
O destino já falou
E foi fala sem clemência.

Golpes duros contra mim
Desfechou sorte perjura,
Mas cruel, deixou-me o nome,
por chacota, de Ventura.

Sim, ventura hei de enfim ter
Quando a morte aparecer.
Sim, ventura sentirei,
Quando me sentir morrer.


---
Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...