quinta-feira, 16 de maio de 2019

Linda Branca (Fábula Portuguesa), por Teófilo Braga



Linda Branca

Havia um homem muito rico, que era viúvo e tinha uma filha muito formosa chamada Linda Branca; tinha ela muita pena de ser tão bonita, porque todos a queriam. Pediu ao pai que lhe desse um vestido azul e cinzento; o pai deu-lho. Depois pediu lhe desse um vestido azul e prateado. Teve logo o vestido. Tornou a pedir outro azul e dourado; o pai fez-lhe a vontade. Tinha Linda Branca uma vara de condão, e ela pediu-lhe que a fizesse feia naquele mesmo instante. Ela vestiu uma peliça e uma máscara muito feia, e foi dali para fora servir de criada. Chegou a um palácio aonde naquele tempo morava um rei, que era solteiro, e ficou por criada. Os moradores da cidade juntaram-se para fazerem uma grande festa que durava três dias. Linda Branca pediu à rainha licença para ir àquelas festas. A rainha disse:

— Pede ao rei meu filho, que ele só governa.

Ela foi pedir licença ao rei quando estava calçando as botas. Ele lhe disse:

— Olha que te atiro com esta bota.

Depois que o rei foi para a festa, Linda Branca disse:

— Minha vara do condão, põe-me pronto um carro e preparos para ir à festa.

Vestiu-se de azul e cinzento e foi. Acabou-se a festa e ela tratou de fugir. O rei e os outros senhores seguiram atrás dela, e só o rei lhe apertou a mão, e perguntou:

— De que terra é?

— Sou da terra da bota.

E fugiu. Chegando o rei a casa, ela estava como de costume. No seguinte dia foi outra vez pedir licença ao rei, que lhe disse:

— Olha que te dou com esta verdasca.

Linda Branca foi outra vez de azul e prateado. Chegando lá, todos gostaram muito mais de a ver. No fim da festa o rei chegou ao pé dela e disse:

— A senhora donde é?

— Sou da terra da verdasca.

Chegou-se ao último dia, ela foi pedir licença para ir à festa. O rei tinha a toalha na mão, e respondeu:

— Olha que te dou com a toalha.

Linda Branca foi desta vez de azul e dourado. Ao sair, o rei lhe apertou a mão e lhe perguntou:

— De que terra é?

— Sou da terra da toalha.

Não compreendeu o rei isto, e ficou doente de pena de não saber donde era aquela formosura. Chegou a ponto que quis que os seus amigos viessem passear à roda do palácio. Linda Branca, que sabia da doença do rei, vestiu-se com o primeiro vestido com que tinha aparecido e chegou a uma janela. Um amigo do rei viu-a:

— Oh que linda cara vi numa janela do palácio!

O rei olhou, mas não viu nada, e seguiu a toda a pressa para o palácio, chegou ao lado da rainha sua mãe, e disse:

— Quem está cá de fora?

— Ninguém, senão a gente do costume.

Segundo dia, ele com os olhos a espreitar, mas descuidado, ela chegou com o segundo vestido e só os amigos do rei a viram. Correndo à maior pressa ao palácio, a rainha mãe disse-lhe o mesmo que no dia antecedente.

Terceiro dia, o rei espreitou e então viu a mesma senhora da véspera, com o vestido azul e enramado de ouro. Correndo com grande pressa apanhou Linda Branca com uma pequena borda do vestido dourado de fora e diz:

— Eu te ordeno que dispas este fato.

Ela obedeceu, e então o rei pôde ver a senhora de que tanto gostava no dia da festa. Linda Branca contou o motivo de tudo aquilo, e três dias duraram as festas do casamento.

Quem o disse está aqui
Quem o quer saber vá lá,
Sapatinhos de manteiga
Escorregam mas não caem.


(Ilha de São Miguel—Açores)

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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