quarta-feira, 8 de maio de 2019

O Evangelho da desgraça (Conto), de Teófilo Braga



O Evangelho da desgraça

Era uma criança linda, linda como os amores. Os movimentos impensados da infância davam-lhe a cada instante uma nova expressão de candura, faziam amá-la, beijá-la. Ela não sabia que estava sozinha no mundo; a pomba não tinha a asa maternal sob que se ocultasse, quando viesse o abutre pairando para arrebatá-la. Ria, descuidada.

A graça com que saltava! Parecia um pequeno gato quando brinca.

Faltava-lhe pai e mãe que lhe soubessem interpretar todos os requebros, a meiguice das palavras apenas balbuciadas, adivinhar seus medos, aspirar-lhe os risos, unir-se às suas alegrias, beber-lhe as lágrimas sem motivo.

Era uma florzinha nascida à beira da estrada, exposta aos ventos da noite, ao rigor das calmas, ao tropel dos que passam, banhada de perfumes que ninguém vem respirar, derramados ao capricho das virações. Pobre filha! Como estas plantas que se estiolam e secam, mal rebenta o gomo que as há de substituir, a mãe morrera ao trazê-la à luz; com ela se foram para a cova todos os carinhos que nos embalam e fazem esquecer as dores por onde se nos dá a conhecer a vida.

Sem mãe!

Ninguém sabe o que é ver descer a noite negra, e as crianças que brincavam connosco caírem de cansadas num regaço que acalenta, ouvir as cantigas que as adormecem e lhes afastam o medo; e não saber porque não temos aquilo também, não haver quem nos chame, nos fale e nos conte maravilhas, e nos esconda no calor benigno de um seio que bate por nós. A orfandade! E depois quando os primeiros alvores da mocidade começam a dourar-nos a existência, a acordar a um tempo todos os sentimentos bons e santos, não ter quem nos descubra e faça pressentir as sarças que nos podem prender, as torrentes que nos podem levar, os abismos em que se pode cair. Uma mãe! Ela nos ensina a amar e nos faz bons com o seu amor.

E se o amor inconsiderado da glória nos arrasta, se a vertigem de alcançá-la dá coragem para afrontar o impossível, sacrificar a vida por um fumo que o tempo dissipa, feliz de quem tem uma lágrima na vida que nos ensine o que ela vale, para não dala por tão pouco.

Mas a pobre criança na sua ignorância ditosa não sabia disto; brincava sozinha, aprendia a ser mãe. Que afagos perdidos com a boneca que embalava ao seio, que beijava, vestia e despia, falando com uma ternura que ela adivinhava, porque nunca no mundo ninguém lha tinha dado, ensinado.

Aos sete anos perdeu o seu pai; era pescador. Ele e a sua barca desapareceram numa noite de temporal. Costumada a vê-lo poucas vezes, a criança não deu pela falta; esqueceu-se de que tinha pai, como se acostumara à falta dos desvelos da sua mãe. O pescador, quando ia para a costa deixava-a sempre em casa de uma vizinha, com quem distribuía os diminutos ganhos que apurava. Esta vizinha era como todas as pessoas que rezam muito com a mira no céu, e de tal forma se tornam refratarias a todo o sentimento, sem afeição a ninguém, incapazes de uma generosidade; então para as crianças, que não compreendem, são mais aterradoras que um mestre de meninos. Quando a vizinha soube da morte do pescador, carpiu, deplorou, sem saber como subtrair-se ao encargo da abandonada criança. Se até ali o nímio descuido e desmazelo eram providências, porque ao menos não vinham atrofiar os impulsos expansivos da infância, dali em diante a vizinha arrogou-se a autoridade absoluta, expressa nesta máxima popular — quem dá o pão dá o ensino. Mas a criança tinha um dom que a defendia de todas as atrocidades brutais da prepotência irresponsável, era linda, linda!

Quantas vezes não passou pela cabeça da desalmada vizinha ampará-la até à idade em que pudesse auferir um lucro criminoso daquela formosura angélica. Beleza funesta que vem acumular a desgraça à indigência, dar uma cor mais sinistra à miséria. Tinha sete anos apenas! custava tanto esperar. Lembrou-se então a vizinha — uma ideia luminosa que a livrou de escrúpulos de consciência e lhe asserenou o ânimo alvoroçado por uma caridade que a sorte lhe impusera — a criança tinha ainda um avô do lado materno, feitor de uma rica propriedade. Era a algumas léguas de distância; num domingo, depois da missa da madrugada, pôs-se a caminho com a pequena e foi entregá-la ao avô.

Nada mais comovente do que a infância e a velhice quando se amam e se compreendem; tem ambas uma frescura juvenil, o frescor dos orvalhos doirados da alvorada e da geada noturna, a luz e sombra formando um brando crepúsculo em que se pensa sonhando alegrias por vir e ilusões que não tornam.

Não se descreve a loucura de júbilo que o velho sentiu ao ver a criança, carne da sua carne, uma parte da sua alma, que reflorescia viçosa no engraçado renovo. Ria, chorava no seu transporte, doido, doido de contente ao beijá-la. Fitava-a, esquecia-se a ver-se naquele retrato, a menina dos seus olhos, como lhe chamava quando os soluços lhe não embargavam a voz.

— Eu não podia morrer, sair deste mundo, sem te ver, minha filha! Tu bem sabias isto; foram os anjos que to disseram, por isso quiseste vir. Trazes-me o dia mais alegre da minha vida. Quando a tua mãe nasceu foi num dia como este, e eu não me alegrei tanto; não me lembrava que uma filha é o melhor encanto da velhice! Estava longe da minha aldeia, muito longe, andava na guerra há quase um ano, e ainda não era bem um que estava casado. Quando voltei, já a tua avó e a tua mãe tinham morrido. Não te importam estas coisas! Queres brincar? Vai correr, anda à tua vontade. Como ela é tão bonita! Eu choro sem saber porquê! Tinha pedido tantas vezes ao pai que a trouxesse cá um dia. Eu não devo deixá-la ir; ela é minha agora.

Quando o velho soube que a criancinha estava completamente órfã no mundo, deu graças ao céu por lhe haver poupado a vida de tantos riscos que atravessara. Julgava-se o roble secular que protege o arbusto flexível, quando as rajadas retouçam na floresta. Queria penetrar os desígnios da providência, que o destinara no declinar dos anos para a guarda deste tesouro de candura.

O velho, à noite, sentava-a sobre os joelhos, falava como a uma pessoa desenvolvida, contava-lhe histórias do passado, até que adormecia, e se esquecia velando ao pé dela, horas inteiras. O que lhe não contaria o velho na sua simplicidade de justo? Mutilado como estava das longas batalhas em que entrara, perguntava-lhe a criança a história de cada cicatriz. Ela nunca vira estas disformidades nas outras pessoas e tinha medo; o velho distraía-se de contínuo pintando-lhe os recontros, as contraminas, as cargas; às vezes não falava para ela, falava consigo, veemente, exaltado, por fim ria-se de si, e acabava por beijá-la muito. Isto repetido quase sempre ao fim da tarde, quando o sol dardejava na aresta da montanha, e vinha de longe a toada dolorida e plangente da sineta de uma freguesia próxima.

A aparência do velho infundia consolação; a falta de dentes dera-lhe uma disposição aos beiços desbotados de modo que parecia ter sempre um riso de mofa, inofensivo, divertido, comunicativo. Sobretudo, o que era mais simpático na sua fealdade eram uns olhos, de pequenos, tão alegres e vivos, que pulavam, como no vigor da idade e das paixões, num as orbitas encovadas, maceradas pela senectude. As cicatrizes das balas e espadagadas, misturando-se com as rugas da velhice, em vez de o tornarem repulsivo, davam-lhe um aspecto atraente, em que o bom humor que o animava deixava refletir um fundo de bondade, que tem quase sempre as pessoas que sofreram bastante.

E quanto não tinha ele sofrido? Noivo, casado de um ano, viu-se forçado a abandonar seu lar, deixar a roupa de campônio pela farda apertada, a choça pela caserna, o nome por um número, o leito fresco, cheiroso com roupas de linho, pela tarimba, e sobretudo a vida santificada da família que acabava de formar em roda de si, pela guerra em que se ia confundir.

Fora no tempo da guerra peninsular. Uma estrela funesta o acompanhou sempre, amparando-lhe a vida para sofrimentos inauditos. Nunca entrou em ação donde não voltasse ferido; todos galardoados sempre, dele ninguém se lembrava! A jovialidade dava-lhe forças para resistir à opressão da injustiça. De uma vez levaram-lhe os dedos quase todos, porque numa carga de cavalaria teve de fazer das mãos capacete. Retalhado, calcado aos pés do esquadrão, ainda ali a sorte acintosa o guardou para novas provações. O pobre soldado não sabia queixar-se; por fim como não pudesse dar ao gatilho, passaram-no para a artilharia.

Aí subiu de ponto a sua infelicidade numa investida a peça que descarregava esteve quase nas mãos do inimigo; era um magnífico apresamento. Exasperado de raiva encravou-lhe o busil, para não fazer mais fogo. Depois, que a levassem os contrários! Nisto o pelotão foi distraído para outro lado. Julgaram então o misero soldado traidor aos seus, e descarregou-lhe o general um golpe que o estendeu por terra numa nova investida dos contrários conheceram a prudência do artilheiro, mas deixaram-no estendido por morto; as carretas passaram por sobre ele e fraturaram-lhe as pernas. Pediu debalde aos inimigos, que iam de avançada, que o acabassem de matar. Ninguém o ouviu, com o estrepito das descargas e do rodar dos trens, o ruído da cavalaria e o eco dos clarins. Depois da batalha, quando iam atirá-lo à vala, pediu que lhe poupassem a vida. Doeram-se dele e levaram-no.

Passados longos anos, depois de percorrer alheias terras e ter afrontado a fome e a solidão de estrangeiro, pôde voltar à sua aldeia, desacompanhado de felicidade, sem um único sinal de reconhecimento pelos serviços. A esposa que deixara um ano quase depois de casado, tinha já morrido, deixando uma filhinha na orfandade. Ela mesma fora crescendo, fizera-se mulher; humilde, há dias que se casara também com um pobre pescador. O velho soldado não quis ir aguar com a sua presença a sociedade dos dois esposos; restava-lhe um antigo amigo, que ouviu atento as suas calamidades, e o convidou para tomar conta de uma rica herdade que possuía. Ao menos encontrava no fim da vida a suavidade dos campos, e a tranquilidade da solidão.

Quando se tem sofrido muito, cada momento está cheio de saudades da vida, porque o sofrimento é o sinal mais certo de que se tem vivido.

Estava pois nesse remanso o velhinho quando no desejo de ver a criança, filha da sua filha, passara anos e anos na doce expectativa. Só quando lha trouxeram e a beijou com a loucura de quem se sente duas vezes pai, é que soube dos novos desastres que o saltearam. Que havia de fazer senão resignar-se! Aquela planta débil e mimosa era o que lhe restava na vida; protegia-a com gosto, solícito, esmerado, como um amante, cioso de que um átomo impalpável de pó a maculasse.

Em todos os momentos, em qualquer parte o velho e a criança agrupavam-se tão bem, que a natureza, por mais bela e surpreendente, era sempre acessória, o fundo do quadro em que realçavam. Neste idílio encantador a criança passou a infância mais descuidada e feliz; a liberdade dos campos, a serenidade do espírito deram-se as mãos no desenvolvimento dela.

Estava uma rapariga!

Linda, linda como os amores!

Quem a via esquecia-se a olhar, contemplava.

Era mais um serafim do que uma criatura.

Os olhos tremeluziam-lhe com um fulgor metálico; pareciam nunca terem sido empanados pelas lágrimas. Cantava a toda a hora como um passarinho das balsas; mas as cantigas que modulava distraída, eram a expressão do segredo mais recôndito da sua alma. Lavando na ribeira ao som da água corrente, ouviram-lhe uma vez cantar:

Os meus olhos são dois peixes
Que nadam numa lagoa;
Choram lágrimas de sangue
Por uma certa pessoa.

E quem seria essa pessoa, a primeira que soube arrancar uma lágrima destes olhos tão puros e meigos? Maior que todos os poetas, mais do que Deus talvez, quem soube dar forma ao sentimento daquele coração virginal numa gota de água, uma lágrima caída, irmã gémea das que os anjos andam pelo mundo aparando nas suas urnas cristalinas, para as engastarem como estrelas da noite saudosa no vácuo do firmamento. E ela cantava:
O coração e os olhos
São dois amantes leais,
Quando o coração tem pena,
Logo os olhos dão sinais.

Ela espalhava ao vento os seus pesares, mas ninguém os percebia; o avô alegrava-se ao vê-la sempre entrar em casa cantando; mal sabia que a harmonia sonorosa era o ruído de uma grande tormenta. A pobre criança sofria muito, amava! Há na vida do coração um momento em que todas as emoções, impulsos e sentimentos se alevantam a um tempo, e vão após o primeiro que os acorda. São como os perfumes derramados pela primeira brisa que chega. É como um estado nascente da paixão.

Don Juan sabia por certo este segredo, conhecia o momento em que todas as mulheres se perdem, porque se dão ao primeiro que aparece.

Nem ela conhecia porque amava, nem tampouco o impossível que se erguia entre o seu amor e o nascimento desigual daquele que a endoudecera com as palavras balbuciadas tremendo. Amava o filho do antigo amigo do seu avô, dono da herdade em que habitava; estúpido, uma dessas almas boçais, nascidas para deturparem tudo, porque não veem, nem sonham senão o mal, mesmo no instante em que a linguagem mais íntima da candura vem afagar-lhes o deserto em que o seu egoísmo as esconde. Demais, ele tinha esta regularidade de feições, de uma monotonia que enfada, chata, insignificativa, mas que dizia bem com a alma que o animava, incapaz de qualquer ato generoso, de instintos vis, mas julgando-se digno de todos os respeitos diante da sociedade. Tanto mais criminoso parecia, quanto era ainda novo, também criança, em quem se espera a ingenuidade dos primeiros anos que tudo perdoa.

Aquele que a inocente rapariga amava, não pensava senão em perdê-la. Era tão fácil! Estava desprevenida, não via a traição da onça refalsada, onde esperava uma atração irresistível! Mal haja quem não fala verdade neste episódio mais santo e verdadeiro de toda a existência.

A pobre pequena não sabia estas sutilezas do pecado; foi após os seus sentimentos, deixou-se adormecer ao som da voz que a iludia, para acordar com a gargalhada fria e insultante no fundo de um abismo onde fora atirada para sempre. A alegria que até ali tivera, e era a sua principal beleza, perdeu-a com a inocência.

Já não cantava; andava silenciosa, desolada, como na aflição de uma dor que se não exprime. A única pessoa que a amara verdadeiramente no mundo, seu avô, não tinha alma para perguntar-lhe o que a trazia assim opressa.

Ela envergonhava-se das lágrimas, represava-as, bebia-as! Uma vez, pela volta das trindades, o velho voltava do trabalho; pousou a enxada ao canto da choça. Sentaram-se à mesa frugal; não comiam, preocupados por uma angústia que se não atreviam a confessar um ao outro.

No final o avô perguntou-lhe com uma doçura inexcedível:

— O que tens?

Ela prorrompeu neste instante numa torrente de lágrimas irrepressíveis; ia para falar, os soluços entrecortaram-lhe a voz; atirou-se ao pescoço do velhinho, estreitou-o a si, sem poder falar.

Era o maior golpe que o desgraçado soldado experimentava, o último que lhe abalava a vida.

Compreendeu tudo.

Traduziu as meias palavras da queixa dolorida, e soube que o filho do seu protetor fora o seu algoz.

Não podia acusá-lo, vingar-se; era uma horrível colisão de deveres!

Ficou com a imobilidade do espasmo; hirto, como Bonifácio VIII diante da multidão que ia para despedaçá-lo. Sentado à mesa, com a mudez do assombro, assim permaneceu a noite toda, até que ao outro dia deram com ele regelado, cadáver!

***

O desespero das imprecações do desgraçado da terra de Hus, deitado sobre o monturo, coberto de lepra, envergonhando-se da luz, desejando haver tido o sepulcro por berço e por seio que o escondesse a podridão e os vermes da terra, todo este cicio da imensa agonia da alma que se alevanta até Deus e na sua fraqueza lhe exproba a desigualdade da luta, é uma das mais completas, a primeira manifestação do poema eterno da agonia.

Acorrentado sobre os fraguedos que te serviram de leito, Prometeu vencido, a Força e a Violência guardaram os sarcasmos para a hora em que as extorsões convulsas não amedrontam os algozes; deixaram-te aos abutres famintos, fustigado dos ventos, mas ao menos o turbilhão erguia o grito da ameaça; o orvalho das noites refrescava-te o ardor da raiva, e o Oceano consolava-te porque te dizia: Prometeu, mesmo pregado contra essas rochas, sabes falar ainda com liberdade! Deus banido, os outros deuses feriram-te porque nos alentaste a vida com a esperança; se é de força o sofrimento cumpra-se a fatalidade! Eles não conheciam as dores fundas, que se não veem, que matam lentamente, as dores da alma, não as conheciam por isso não as infligiram. As grandes obras da arte, Jó e Prometeu, foram os que fizeram sentir no mundo as maiores dores; mas a dor moral, que os deuses antigos desconheceram, a dor muda, essa é uma criação do homem, o maior inimigo do homem.

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