quarta-feira, 29 de maio de 2019

O sonho de um sabiá (Fábula Brasileira), de de Visconde de Taunay


O sonho de um sabiá

Uma velha e suja gaiola de taquara, suspensa à parede de uma taverna, vivia, há longos meses encerrado, feio, desditoso e melancólico sabiá.

Tédio mortal e agras tristezas metia-lhe tudo quanto o cercava.

Em vez do teto azul-celeste, recamado à noite de nitentes estrelas, que servia de majestoso dossel à mata virgem em que passara até então feliz e descuidosa a existência, só via por entre as grosseiras lascas da acanhada prisão a telha escura da repugnante vivenda, a que o levara um dia a imprudência ou a desgraça. 

Em lugar das auras suaves e perfumadas da serena madrugada, que tantos cânticos lhe haviam inspirado, ou da brisa cálida dos dias tropicais que fizera palpitar de amorosa ânsia o ardido e juvenil coração, respirava agora um ar violento e impuro, misto de todos os nauseabundos cheiros, que enchiam a lôbrega bodega.

Em vez do ramo débil e flexível em que, tomado de loucas e inexplicáveis alegrias, se balançava bem no seio das frondosas moitas; em vez dos harmoniosos folíolos das palmeiras entre os quais costumava, à hora do crepúsculo, ocultar a sua modéstia para cantar mais a gosto, tinha que ficar, noite e dia, trepado no grosseiro e comprido prego que sustentava a gaiola, e cujas asperezas férreas lhe magoavam as delicadas patinhas.

De semana em semana atiravam-lhe umas talhadas de laranja azeda ou uns restos de banana a meio apodrecida, que importuno enxame de moscas e mosquitos vinha de tropel devorar, com mil zumbidos discordes e aterradores. Quanto à água com que tinha de saciar a sede, criava no púcaro lascado em que a punham uma crosta de esverdeado limo, antes de ser renovada.

Impossível é aquilatar as amarguras e angústias que curtia a pobre da avezinha nas vinte e quatro horas do dia! Nem sequer podia dormir, tão forte era a dor que lhe estortegava o peito.

Também em breve lhe caíram todas as penas; mirrou-se magro, pelado, horrendo, como um desses espectros de pássaro, que Salvator Rosa pinta em suas fantásticas composições. Pareceu ir-se-lhe a vida toda concentrando em dois olhos minazes a fuzilarem ódio e indignação, olhos esbugalhados, fixos e como que acocorados em cima de um bico pontiagudo e provocador.

Cuidou deveras no suicídio; mas não soube o como realizá-lo. Se, num ímpeto de desespero, batia com a cabeça de encontro às grades da prisão, escalavrava-se dolorosamente a pele, sem nunca conseguir a menor brecha no duro crânio, invólucro de tão negros desígnios.

Deixar-se morrer à míngua... era, decerto, um meio; mas nestes casos extremos é que a filosofia, malgrado nosso, insinua no imo da alma o seu doce bálsamo e aos poucos vai dobrando os mais rebeldes espíritos à mansa lei da resignação.

Por isto ia o merencório sabiá, embora a custo, disputar, de quando em quando, às vorazes moscas uns bocados do asqueroso alimento. Às vezes por engano aconteceu-lhe até engolir algumas mais assanhadas e intrometidas.

Uma vingança, porém, sabia tirar do bárbaro que lhe roubara a liberdade.

—_ Não canto, nem cantarei nunca para ti! dizia ele consigo mesmo lavrando um protesto solene e inquebrantável.

E justamente era o que mais incomodava o lorpa do vendeiro.

— Então, perguntava este levantando o nariz para a gaiola e encarando o prisioneiro com fisionomia torva, quando pretende dar um arzinho da sua graça? Boa vida a sua, encher o pandulho sem fazer coisa que preste!

Por dignidade, nada respondia o coitado à verberação do bruto, cujo olhar contestava com valentia.

E assim iam, uns após outros, lentamente se arrastando os dias, sem que o sabiá discrepasse um só instante da estudada mudez. Quando se sentia mais abalado pelo desgosto, mais ansioso de desabafo, mais cheio de razão contra o seu tirano, atirava lhe à cara por escárnio uns gritos dissonantes e agudos que faziam o gato da venda abrir de espantado os sonolentos olhos e franzir as esparsas sobrancelhas.

***

Uma feita, em quadra de rigoroso verão, houve um calor devorador.

Ondas de luz intensa e ofuscante iluminavam a natureza nas mais recônditas furnas, levando-lhe por toda a parte o enlanguescimento e o cansaço.

Na estrada geral batia o sol de chapa, reverberado com tal força, que da terra se levantava um vapor subtil e incandescente.

Nas planuras torcia-se requeimada a relva miúda, ao passo que as alterosas e copadas árvores contraíam a folhagem, para darem menor campo aos raios do desapiedado astro.

De prostradas se haviam até calado as cacarejantes seriemas e as estrídulas cigarras.

Deserta de freguesia estava a venda, e nem havia quem por tal ardentia e nessa hora do dia se animasse a procurá-la.

Bocejou o alarve três ou quatro vezes ruidosamente; olhou distraído para a alva fita do caminho que rutilava; distendeu os musculosos braços e, afinal, vencido pelo sono, deitou-se a fio comprido num tosco banco à sombra do alpendre de sapé, digno peristilo daquele templo da sórdida ganância.

Não tardou muito, e roncava como um perdido.

Ficou então só o nosso sabiá.

Quis resistir à modorra que por seu turno o invadia e não pôde. Não dormiu de todo, mas, com a pálpebra lateral corrida como um véu translúcido que lhe deixava a meio lobrigar o mundo exterior, pôs-se a cochilar e por tal modo que, três ou quatro vezes, esteve a cair do seu prego, levado pelo peso da cabeça e do bico.

Aí sonhou...

Sonhou que a todo o dar de asa atravessava extenso e árido chapadão em busca de vistoso capão de mato que vira ao longe, lá bem no fundo. Alcançou-o não sem canseira e, ofegante de tão inopinada viagem, refrescou com algumas gotas de pura linfa o corpo que queimava.

Alisou as poucas penas que tinha e, já mais descansado, correu os olhos pelo lugar à que chegara.

Achou-o, com razão, todo de delícias.

Orlando denso e virente bosque, serpeava um límpido e travesso regato, a cuja borda se alinhavam, simetricamente espaçados, os tão saudosos buritis a alternarem com grupos de lisas e vistosas imbaúbas.

Se em torno sopravam pesadas e afogueadas auras, ali ciciava uma aragem fresca e insinuante como o hálito da aurora nas primeiras horas da manhã. Nem lhe faltavam as fragrâncias das flores, pois nos ares se expandiam, como borboletas presas por invisíveis fios, odoríferas orquídeas, e na terra as espirradeiras silvestres e os roxos manacás desabotoavam as olorosas pétalas.

Que fazer em mataria tão amena e sedutora, senão cantar?

Também o nosso sabiá abriu a maviosa garganta e — sempre em sonho — despejou torrentes de harmonias.

Sem quase tomar respiração, contou todas as histórias que dos seus pais e velhos mestres aprendera na vida de liberdade.

Primeiro que tudo, exaltou as glórias da criação.

Na sua canora linguagem, ora com canto largo e pausado, ora por meio de trinados e volatas ou ledas modulações, descreveu a hora que precede o nascer do dia; imitou, como melhor pôde, as pancadas intervaladas da vigilante anhumapoca, a que de longe responde a grita cromática das aracuãs nas margens dos rios; pintou as gradações da luz que vem subindo, o júbilo da terra que acorda, o burburinho da vida em suas primeiras agitações, o chilrar dos insetos, o gazear dos pássaros a lembrar o murmúrio discreto das águas; numa palavra, esse concerto uníssono que proclama o emergir do sol, a princípio abafado e místico, pouco depois a mais e mais forte, afinal pujante como brado saído de peito valente e sôfrego de viver.

Figurou em seguida, o correr do dia. Inspirado pela ocasião, ninguém melhor do que ele, com mais concisão e verdade, lembrou a languidez que quebra as forças da criatura nas horas enervadoras em que estua o calor. Seu cantar teve quedas tão bem sentidas, que parecia por vezes ir-se-lhe sumindo a voz nas fauces com o desprender da existência.

Eis, porém, que assoma a tarde. À lei fatal tem também que ceder o astro da vida. Descamba cheio de majestade, e não tarda que desapareça. Esquecidos os agravos de há pouco, touca-se a natureza inteira de gaze roxeada, que breve vai mudar-se em negro e funéreo manto. Começa o império da saudade e da meiga tristeza. A custo prendem as cumeadas das serras uns últimos raios de sol. Foge a luz. A passos largos se adiantam as trevas; apossam-se dos plainos, sobem os declívios; galgam os cabeços, como que perseguindo raivosas e implacáveis a claridade, que busca nos céus o derradeiro refúgio.

É então que a jaó, na mata alagadiça, solta os seus pios, verdadeiros soluços de dor, e que nos chapadões as medrosas perdizes amiúdam os angustiosos chamados.

É então que nas copas das macaubeiras se congregam os barulhentos chopins, e todos a uma dizem estrepitosos adeuses aos fugazes clarões do dia que já foi.

Em bandos passam as pombas torcazes a voltarem aos pousos de querência; passam também nuvens de periquitos e papagaios, por exceção silenciosos: é que se atrasaram, e o receio das trevas que vêm chegando tira-lhes a habitual loquela e petulância.

É noite.

Solta a onça da tétrica lapa em que se acouta um rugido....

E o nosso sabiá parou.

Acordara espantado com o grito que dera. Descerrou as pálpebras... e estremeceu.

Diante dele viu, com terror e raiva, o vendeiro, que, extático e boquiaberto, o estivera largo tempo ouvindo.

— Oh! exclamou com vagar, como canta! É um mestre! E eu que pretendia hoje à tarde abrir-lhe a porta da gaiola e mandá-lo passear!

Aí o coitadinho do pássaro sentiu uma pontada tão pungente que julgou morrer. A comoção apertou-lhe o peito; por instantes o sufocou. Depois... nem sequer pôde chorar.

Era um simples sabiá; e o consolo supremo das lágrimas, a bondade divina só o concedeu ao homem, que dobra a criação em peso aos seus caprichos e ao seu jugo de ferro.
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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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