sexta-feira, 10 de maio de 2019

Os dois irmãos e a mulher morta (Fábula), de Teófilo Braga


Os dois irmãos e a mulher morta

Eram dois irmãos, um rico, e o outro pobre; casaram, mas o pobre tinha muitos filhos, e o rico nenhum. Estavam de mal um com o outro, por intrigas da mulher do que era rico, que se envergonhava daqueles cunhados, e demais a mais compadres. Vai de uma vez o rico trazia umas manadas no campo, e uma rês transviou-se e foi cair num barrocal e lá ficou morta. Os filhos do pobre quando vieram do mato foram contar o caso à mãe:

— Pois ide lá ao barrocal buscar o novilho, porque assim sempre teremos que comer.

Os rapazes foram, fizeram-no em postas e trouxeram tudo para casa. A mulher do rico desconfiou, e disse ao marido que fosse a casa do irmão saber como aquilo era.

— Como é que hei de ir lá? Bem sabes que estou de mal com meu irmão, desde as partilhas. E de mais como é que se pode saber se foram os meus sobrinhos que espostejaram o novilho?

— Pois juro que foram os teus sobrinhos que roubaram a carne; foram, e sou eu que hei de pôr tudo em pratos limpos.

— Não sei de que feitio.

— Não sabes? Pois mete-me neste caixão, deixa-lhe um buraco para eu espreitar, e vai a casa de teu irmão pedir para o guardar.

— Com essa me rio eu. Pois com que pé hei de ir pedir a meu irmão para me guardar a caixa, estando nós desavindos?

— Tu não sabes da missa a metade. Vai ao compadre e dize-lhe que chegou tropa, e temos aquartelados em casa, e com medo do que der e vier lhe pedes para te guardar a caixa.

Dito e feito. O irmão pobre esteve por tudo e ficou muito glorioso de guardar a caixa das riquezas do irmão que sempre o desprezara; puseram-na junto da lareira. Como era já de noite, o rico despediu-se, e nisto começam os rapazes seus sobrinhos a fazer-lhe figas nas costas, e a gritar:

— Hoje há carne assada! hoje há carne assada! O novilho chega para todos tomarem uma barrigada.

A mulher do irmão rico deu um estremeção dentro da caixa, com raiva. Os rapazes calaram-se e disseram uns para os outros:

— Estão ratos na caixa.

— Deixá-los, vamos nós comendo; a estas horas a mulher de meu irmão está roendo as unhas de perra que ela é.

Nisto a comadre deu outro estremeção de furiosa.

— A caixa está cheia de ratos, com certeza.

— Bota-se-lhe água a ferver.

— Mas por onde?

— Aqui está um buraco. Foi por onde eles entraram.

Vão à panela da água para os pés e despejaram-na para dentro da caixa. A comadre e tia, que estava dentro dela, morreu sem tugir nem mugir.

O irmão rico estava com curiosidade de saber da experiência e foi buscar a caixa; o irmão pobre entregou-lha logo. Pelo caminho já lhe perguntava:

— Sempre foram eles que roubaram a carne?

Nada. Chegou a casa e quando abriu o caixão deu com a mulher morta, e negra com as escaldaduras.

— Ai, que ela morreu excomungada! Foi castigo de levantar esse aleive a meu irmão.

Tratou-se do enterro, e a mulher foi depositada na igreja para se lhe fazerem os ofícios no outro dia. Disse então o irmão pobre para a mulher:

— Se eu fosse de noite á igreja, tirava as joias que a excomungada leva para a cova.

— Lá isso faz pena ver estragar dinheiro.

O homem lá se introduziu conforme pôde na igreja, e fez uma trouxa de tudo o que pôde tirar à comadre excomungada. Não contente pegou no corpo e foi encostá-lo no altar-mor com o missal aberto diante. Quando o sacristão veio de manhã, ficou de queixo caído e correu a dar parte ao pároco da freguesia. Este foi entender-se com o marido da defunta que pagou bem os exorcismos, e o corpo enterrou-se logo depois de vestido e enfeitado com mais joias. O compadre pobre lembrou-se de ir furtar tudo isto ao cemitério. De noite, quando estava desenterrando a excomungada, ouviu vozes ao pé do cemitério. Pôs-se a escutar, e pelo que pescou, viu que eram uns estudantes que vinham de furtar um porco, e o tinham pousado em cima do muro do cemitério. Diz agora um deles:

— Falta-me o relógio! E esta? vou por ele.

— Eu vou contigo. Não há perigo que ninguém nos venha aqui tirar o porco.

O pobre assim que não sentiu ninguém foi ao lugar onde pousaram o porco, e tirou-o de dentro de um saco, onde estava, meteu dentro a excomungada, deixou-a ficar e safou-se com o porco para casa. Quando os estudantes vieram, pegaram no saco, e foram ter a casa de uma taberneira para lhes arranjar uma ceia; vão para abrir o saco e dão com a mulher morta. A estalajadeira berrou logo:

— Ai, que ela é a excomungada!

— E agora? como nos havemos de livrar desta? É a excomungada que se enterrou esta manhã.

— Vamos pô-la aí à porta de qualquer figurão da terra.

Pegaram nela e foram pô-la inteiriçada a uma porta; o corpo foi escorregando, escorregando, até que embarrou na aldraba da porta e fez barulho. Fanaram de dentro, mas como ninguém respondia vieram à janela. Viram um vulto, e pensando que estava a gazuar a porta, abriram-na de repente e deram-lhe muita pancada. O corpo caiu. O dono da casa pensou que o tinha matado, e para se ver livre da justiça, montou o corpo em cima de um burro e pô-lo a caminho para a feira. Ao passar pela porta do compadre pobre, diz ele para a mulher:

— Ainda aqui me aparece a excomungada. Desta vez sempre se ganha um burro.

E pegou no corpo e foi pô-lo num cerrado do padre. Quando o padre o soube foi exorcismá-lo montado na burra do sacristão, porque este o tinha avisado de que a excomungada andava no cavalo que pastava no cerrado. Assim que o cavalo viu a burra, correu atrás dela; o padre foge, a burra segue o caminho de casa, e ao entrar pela estrebaria dentro, o padre bate com a cabeça na padieira ao tempo que o cavalo chega com o corpo da excomungada. O padre quebrou a cabeça e morreu, e todos disseram que tinha sido a excomungada que lhe caiu em cima. O irmão rico pensou que a alma da mulher andava penada, e para a despenar foi ter com o irmão e deu-lhe os bens que lhe tinha roubado e ainda muito dinheiro.

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