quinta-feira, 16 de maio de 2019

Os peixes do guardião (Fábula Portuguesa), por Teófilo Braga


Os peixes do guardião

De uma vez estavam os frades comendo no refeitório, e coube a um deles um peixe muito pequenino; este então reparou e viu que no prato do guardião estava um muito grande, e que o comia à boca cheia. O frade era ladino, e para se vingar do jejum a que o obrigavam, abaixou a cabeça sobre o seu peixinho que tinha no prato, e começou a momear, como quem estava a conversar em segredo. O guardião reparou nisto, e pergunta de lá da cabeceira da mesa:

— Oh irmão frei fulano, então o que é isso que está fazendo?

— Reverendo padre mestre, estava perguntando a este peixinho se de alguma vez teria encontrado meu pai, que morreu afogado no mar; mas ele respondeu-me que como é muito pequenino não soube disso, e que quem o poderá saber é o peixe que está no prato de vossa reverencia, que é muito grande, e pode bem dar fé de tudo.

(Ilha de S. Miguel)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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