quarta-feira, 8 de maio de 2019

Revelação de um caráter (Conto), de Teófilo Braga




Revelação de um caráter

Como eu, ele também vivia ignorado, ocioso, distraído, fumando sempre, debruçado de uma janela que deitava sobre o mar. Passava horas esquecidas assim, a contemplar as ondas no seu eterno refluxo, imagem dos pensamentos recônditos, das aspirações impossíveis, que tempestuavam na solidão da sua alma. Muitas vezes me disse ele, quando a indiscrição da amizade o ia interromper do quietismo contemplativo que o absorvia, e lhe perguntava que ideias misteriosas o afastavam para tão longe da realidade e da vida:

— Se fosse possível exprimir, estenografar na palavra tudo o que se revolve na mente, o homem mais sábio pareceria um tolo; se fossem coercíveis todos os sentimentos, que passam e sucedem no coração, o homem mais santo e simples aparecer-nos-ia com a hediondez da infâmia.

E continuava, embebido num sonho indefinível, estranho a tudo o que se passava em volta dele, como na reconcentração de um grande desgosto. Outras vezes mostrava uma alegria irrepressível, impaciente, louca, sem motivo; mas cada riso era o prelúdio de imprecações e ironias pungentes, que vibrava dos lábios acerados: o enunciado breve e incisivo de uma grande verdade, mas triste, horrenda, incrível, e infelizmente verdadeira, que a sua lucidez de doente descobria. Não sei qual o torturara primeiro, se a dúvida ou o sarcasmo. Ele submetia à análise fria os sentimentos mais puros e íntimos, volatilizava-os pelos processos de uma dialética irretorquível, e por fim o último cânon da sua lógica era uma gargalhada irritante que fazia gelar de medo. Ele mesmo se doía da sua crueldade, era o primeiro a acusar-se e a procurar corrigir-se. As linhas da sua fisionomia davam-lhe ao rosto uma forma angulosa, de energia; o olhar incerto não repousava, como quem observa nas sombras de um abismo insondável, nunca o fitava, temendo talvez que lhe surpreendessem na expressão fugitiva que o animava o ridículo, que sabia admiravelmente descobrir.

Deixei de procurá-lo longo tempo; repugnava-me aquele caráter incompreensível; para monomaníaco era insuportável, para excentricidade desprezível. As contradições tornavam-no absurdo. Custava-me vê-lo na consumpção dessa apatia, criança e foragido do mundo, sem ter a comoção dos grandes sentimentos que nos prendem à vida, e que são o conforto nas horas vagarosas do desalento. De uma vez encontrei-o a ler com uma voracidade, como a de Isaías ao revolver as páginas dos arcanos imperscrutáveis. Procurei ver se a sua imaginação viva o tornava iluminado, se era a consciência da segunda vista, da percepção imediata que o tornava ocioso e inerte:

— O que lês? Que livro é esse que um dia te prendeu a atenção inconciliável?

— Uma terrível obra prima, uma perigosíssima e espantosa maravilha de arte! É um romance de Diderot, que contém em si o gérmen de uma revolução moral, o Neveu de Rameau. Nunca o leste? É impossível observar mais profundamente o coração do homem, isolar-lhe os sentimentos e reproduzi-los numa criação mais brilhante. Somos todos como ele. Rameau é a grande contradição da nossa natureza, com a diferença que obra segundo essa força, não se contrafaz pelas conveniências da sociedade, obedece-lhe fatalmente, e é por isso que horroriza; as máximas do cinismo mais revoltante e abjeto, as doutrinas mais subversivas de toda a ordem, vêm-lhe no diálogo animado, seguidas de sentimentos puríssimos, intenções boas e justas, de um modo abrupto, que espanta. Os seus paradoxos são os da humanidade, com a diferença que a educação os abafa no íntimo da nossa consciência, e ele, o parasita, o músico, o bandido, o desgraçado Rameau, tem a infelicidade de pensar alto; deixa ver, através da sua ingenuidade, todas as paixões despertadas por desenfreados instintos, que existem igualmente em nós, mas que os refreamos e os detestamos, como se fossem a degradação nos outros. Este livro é a síntese da filosofia do século XVIII; ela avançou princípios de uma verdade inconcussa, de razão profunda, a razão universal, de todos os tempos, mas que foram combatidos e ainda hoje não são completamente admissíveis, por esta maldita necessidade de transigirmos com as conveniências.

Esquecera-se naquele dia do habitual silêncio; falava com uma verbosidade febril; observações penetrantíssimas, rasgos de uma intuição pasmosa lampejavam brilhantes, no decurso da conversação. Expressando-se sempre com dificuldade, então, jorravam-lhe as palavras fáceis e prontas, com uma nitidez que acompanhava as mais delicadas análises.

A este tempo, assomou a uma janela fronteira ao seu quarto uma vizinha, que vivia honestamente na desgraça, irmã daquela flor de Magdala, calcada aos pés pelos que não compreenderam o impulso dos sentimentos que a transviaram. A pobre trabalhava e distraía-se a ver os que passavam; cantava e ria esquecida do seu opróbrio. Estava vestida com uma cor triste, que lhe realçava a expressão dolorosa. Ele viu-a; cumprimentou-a com um sorriso leve, que traduzia um epigrama, que fora compreendido. Depois voltou-se para dentro:

— Há uma afinidade íntima entre a mulher e as cores; a escolha, a preferência, a sedução por uma, é a linguagem de um sentimento recôndito, que ressoa dentro em si, e que ela não sabe exprimir, é o símbolo na sua forma mais poética e simples. A mulher é sempre uma criança, chora e ri ao mesmo tempo; como sente mais do que pensa, quer mais do que pode. A grande contradição, que faz com que realize as nossas aspirações vagas e ideias! Como uma criancinha que tem sede, e, não sabendo ainda pedir água, aponta para ela e exulta, assim a mulher não podendo revelar o sentimento indefinido que a eleva, que a faz sofrer e amar, serve-se da linguagem simbólica das cores, para completar a expressão que lhe transluz no rosto. Raphael, na sua inspiração divina, entreviu este mistério quando ao determinar o ideal da Virgem na arte moderna, tomou a cor do azul etéreo para colorir-lhe o manto. O ideal da mulher no mundo antigo, menos espiritual, mas igualmente belo, mostrava-a como uma flor, a criação mais aprimorada da natureza, a planta mimosíssima e lânguida; é assim Sacuntala, na poesia da Índia; a fraqueza, que pode tanto como a constância heroica, quase impossível, da sua irmã Griselidis na Idade média; ela confidência com as aves, os arbustos choram na despedida, as flores amam-na como uma irmã gémea, um carpelo tenuíssimo animado à luz do sol brilhante, perfumado com todas as essências de uma atmosfera límpida e serena. É por isso que do Oriente veio aquele modo de falar de amores pelo salem, um ramilhete alegórico das paixões que perpassam na alma. Há rostos de mulher arcangélicos, sublimes, realçados pelas cores; a cor é a expressão da luz, como a luz uma expressão do espírito. Quantas mulheres perdidas, com um ar de inocência que ilude! a preferência pelas cores, que as fazem realçar tanto, é por certo o desejo mais íntimo da sua alma, que os lábios não se atrevem a proferir. Como para cada zona há uma analogia com as cores luxuriantes da vegetação, pelas cores das roupagens se pode conhecer a mulher; a oriental voluptuosa, enlevada num tropel de pensamentos de alegria, sentindo o coração a trasbordar-lhe desejos, que desconhece, orna-se com as cores que mais falam aos sentidos, as mais vivas, as que mais seduzem. Não é isto assim?

— É; porque o gênio pode dizer tudo impunemente. Dá vida às criações que inventa, sofre com elas, que são a alma da sua alma.

— Se assim fosse, não andaria no mundo travado este antagonismo do senso comum, positivo e costumeiro, inflexível nos seus juízos práticos, com aqueles que procuram realizar na vida os sentimentos superiores e eternos com que animaram a argila frágil, que procura constantemente elevar-se acima da matéria a que está presa. É a lenda do cego de Esmirna, corrido, perseguido de terra em terra; não lhe compreendem a vocação. Aferem-lhes as ações pelos fatos vulgares, de todos dias, e a disparidade faz com que se lhes chame um desgraçado, um extravagante, um doido.

— Revoltas-te contra o senso comum?

— Revolto-me contra toda a generalidade, que procura absorver o individuo, assimilá-lo, confundi-lo. Quero que a individualidade se constitua e imprima o seu caráter, de modo que o tempo e o espaço atestem a passagem do grande homem.

— Revoltas-te contra a natureza?

— O que é a natureza diante da obra d’arte? — e elevando-se num hegelianismo de sectário, ele próprio respondeu: Um verbo insignificativo, que apresenta todas as formas de que o belo pode revestir-se, o arquétipo material que só se espiritualiza no tipo, que é um fato da consciência humana. Quando na imitação do arquétipo a verdade é tão exata, que o tipo se confunde com ele, o sentimento que então desperta é incompleto, porque não deixou perceber que à determinação do fato presidiu uma consciência. O belo é uma criação toda subjetiva; é despertada pela natureza, mas não existe lá; escolhemos as imagens em que melhor a podemos manifestar nas suas multíplices e variadas realizações, as características que a traduzem fora de nós. O belo é absoluto. Não existe o feio, que é apenas uma hipótese negativa em que se funda a síntese das realizações artísticas; o belo! o ponto onde convergem todas as evoluções da forma, incluídas na polaridade do bonito e do feio, e gravitando em volta desse princípio único, eterno, é o ideal que as faz tender para ele. O bonito e o feio são as duas relações que nos levam à compreensão da ideia do belo. O bonito desperta-nos esse sentimento espontâneo por inspiração intuitiva; o feio leva ao mesmo resultado pela reflexão. O Sapo, de Victor Hugo, asqueroso, repelente, depois de idealizado, é  profundamente belo. Quando se espiritualiza a imagem, e é esta a missão da arte, o espírito há de amar a sua criação. O estatuário delira com o amor da Galateia. Não posso deixar de obedecer a esta fatalidade do meu caráter; deixo-me arrastar pela contradição. O belo tem algum tanto de convencional; assim admiramos uma iluminura da Idade média, os arabescos de uma janela gótica. O que parece convenção não é mais do que a reflexão, que nos faz descobrir naquilo que contemplamos um progresso do espírito, e nos mostra a tendência da natureza a ser espiritualizada. Pelo sentimento do belo se obtém o desenvolvimento e elevação que podem prestar-nos na vida a religião e o direito; o verdadeiro e o justo não são mais do que as manifestações do belo no mundo moral. Há só uma religião, é a da arte! O panteísmo é a suprema criação poética, a identificação dos sentimentos do belo e do verdadeiro. Mesmo o direito primitivo teve um caráter panteísta, a natureza é animada, é testemunha na acusação, é pura como no ordálio, firma o contrato, submete-se também à penalidade, tem personalidade; os animais compareciam também em juízo. A arte sobretudo! ela supre a ciência e a observação, pela intuição viva; a realidade é contingente, variável; o ideal, a criação pura do homem, é intangível, eterno, enquanto a obra de Deus se converte em pó. Sacrifiquemos-lhe tudo na vida.

— Mesmo o amor?


— O amor? Rio-me da tua credulidade. Ainda fazes uma religião desse sentimento egoísta, que procuras elevar acima da animalidade. Querem aferir as afinidades eletivas pelo que veem nas paixões descritas pelos poetas. O amor como o imaginas, só existe nas obras d’arte; fora de lá é uma falsificação, uma loucura, um impossível. Eu explico o egoísmo olímpico de Goethe recusando o beijo de Frederica, a dedicação simbolizada no que a mulher tem de mais apaixonado e expressivo. Pede ao amor a paixão, como pedes à natureza a paisagem; depois de te possuíres de todos esses sentimentos, eleva-te acima da passividade pela reflexão fria, calculada, e terás a consciência das formas com que hás de fazer sentir os outros, dominá-los, possuir os segredos das suas emoções, e és grande! Não falo mais nisto; só fica bem na boca de Diotima.

E começou a assoviar uma ária caprichosa, passeando vagarosamente; depois voltou-se para mim:

— Há ainda que descobrir na música; falta-lhe realizar o princípio da ironia, como há em todas as formas particulares da arte. A poesia tem a sátira; a pintura a caricatura e o grotesco; só a música precisa atingir a antítese do patético. O patético e a ironia são os dois polos de toda a evolução estética. Todas as criações na arte saem destas duas paixões opostas. Uma é o natural, a outra é o não natural como natural; uma sustenta o sublime, a outra o ridículo. Ao patético eleva-se todo o que sofre; só o riso é a força das grandes individualidades. Ri-te de tudo; o riso denota sempre uma superioridade.

Não o compreendia; o seu riso pungente de ironia desarmava-me. O gênio é uma nevrose, uma disformidade; o que nos outros me parecia egoísmo, nele não sabia como chamar-lhe. Para ele a gratidão era a justificação do servilismo; o sentimento religioso uma tradição da ignorância primitiva; o amor de mãe uma impertinência, que só se dá entre os animais da classe dos mamíferos, pela conversão do habito em instinto. Explicava tudo assim. Parecia uma alma devastada por longas abstrações, que andava errante no mundo, à busca de uma fórmula impossível. A análise contínua dava-lhe uma certa malvadez, tornava-o intratável.

O caráter faz-se. Quais seriam as circunstâncias que o transformaram até aquele ponto? Indagava-o como um problema interessante. Fui por deduções pequeninas. Muitas vezes me falava ele da harmonia plástica das formas. Contou-me uma história original: uma menina engraçada, cuja beleza realçava com uns dentes alvíssimos de jaspe; a vaidade de mostrá-los tornara-a jovial. Infelizmente tropeçou numa escada e quebrou um dente. Perdera o seu melhor encanto. Daí em diante, procurando encobrir esse defeito, tornou-se taciturna, melancólica, apreensiva, até que se foi definhando e morreu de desgosto. Contava-me isto como uma grande verdade, como doutrina que professava. Admirava o costume de Esparta, que mandava despenhar de uma rocha as crianças disformes. Pobre rapaz! Como uma circunstância pequeníssima lhe influiu no caráter e na existência. Ele era aleijado de um pé, como Byron, e era este o seu desgosto íntimo, que o trazia solitário e o tornava agressivo, porque se via amarrado a um ridículo.

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