sábado, 4 de maio de 2019

Temas Poéticos: MÃE - XIV


CHORANDO

Quem por acaso me vir chorar,
Por Deus, não queira zombar de mim.
Também não queira me consolar
Pois o meu pranto não terá fim.

Eu choro a perda da mãe querida
Que somente me sabia amar.
Seus carinhos me davam vida
Seus conselhos vinham me animar.

No entanto, morres e oh! Mãe bondosa,
Mas no meu peito tu viverás.
Mesmo na campa silenciosa
Todos meus passos tu guiarás.

Fugiu já de mim toda alegria
No mundo jamais terei prazer.
Uma fé me resta nesta vida
É ver minha mãe quando eu morrer.

E. J. OLIVEIRA
A Cruz, 8 de abril de 1922.

***

ALGUÉM

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos
E tenho as formas ideais do Cristo,
Para alguém sou a vida, a luz dos olhos
E, se na terra existe, é porque existo.

Esse alguém, prefere ao namorado
Cantar das aves, minha rude voz,
Não és tu, anjo meu idolatrado,
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando alta noite reclino e deito,
Melancólico, triste e fatigado,
Esse alguém abre as asas no meu leito,
E meu sono desliza perfumado.

Chovem bênçãos de Deus sobre a que chora
Por mim além dos mares! Esse alguém
É de meus dias a esplendente aurora
És tu, doce velhinha, oh! minha mãe!

GONÇALVES CRESPO

***

QUANDO MORRERES

Quando morreres, minha mãe querida,
Quando vencer-te o derradeiro sono.
A minha vida, após teu abandono,
Verei, também, por certo, sucumbida!

Mas, imutáveis são as leis da Vida
E, embora eu rogue a Deus não vir o Outono
Vencer-te, enfim, num derradeiro sono,
Sucumbirás, ó minha mãe querida!

Porém, se acontecer tão cedo
Que te libertes deste vil degredo
Sem te despedires de mim sequer,

Falo confiante em que há de honrar teu nome
— Esse Bem a que o Tempo não consome —
O fruto de teu ventre de Mulher:

PERY GUANABARA
Revista Excelsior, outubro de 1930.

***

MÃE?!

E negas ao teu filho o próprio leite,
Alma de rude e brônzeo coração...
Brutal assim, não há quem desrespeite
Tão pura e tão singela condição.

A pedra o musgo cria, sem que enjeite
O pesado labor da criação;
Do ser pequeno ao grande, o só deleite,
Mas no produto está que na paixão...

Só tu te abrasas, firme no furor
De eternamente amar, deixando em flor
O sentido carnal apercebido.

Olha, toma o teu filho; e os teus desejos
Se resumam em pô-lo envolto em beijos,
No teu carinho quente adormecido.

HEMETÉRIO DOS SANTOS
"Frutos Cadivos", 1919

***

SAUDADES
(Á minha mãe)

Atra saudade o coração me oprime
Com a dor intensa de meus tristes carmes.
Sentidos ais
Há já dois lustros que proscrito, errantes,
Incerto os passos nesta senda trilho
Sem ver meus Pais
Se a lira tomo, mais o pranto excita
Quede meus olhos incessante corre
Por minhas faces;
Já não encontra bonançosas brisas
Que noutros tempos a beijar-me vinham
Ledas fugaces

O quanto é doce minha mãe querida,
Após da lida que suporto atroz.
Nas curtas horas em que o céu me inspira
Pegar na lira, me lembrar de vós.

Então me sinto transportado a um mundo
Novo, fecundo de feliz magia,
E nele vejo radiante e pura,
Maga ventura, que gozar queria.

Dentre mil flores dum odor fragrante
Vejo brilhante, deslizar-se um véu,
A pouco a pouco remontar-se às nuvens
Das mãos de Rubens, o retrato teu.

Nesse momento de ilusão tão casta
Ele se afasta, que mais vejo! — Deus —
Que lá do Empíreo, rodeado de anjos;
A par de arcanjos o conduz aos céus!

O quanto é doce minha mãe querida
Após da lida que suporto atroz,
Nas curtas horas em que o céu me inspira,
Pegar na lira me lembrar de voz.

Aos dois lustros e dois anos
Minha mãe, que te deixei,
Não sabia,
Prezar teus doces carinhos
Que tão cruel desprezei
Num só dia.
Nem as lágrimas piedosas,
Que de teus olhos brotavam
Só de amor.
Nem os suspiros magoados
Que de teu peito manavam
Pela dor.

Nem os queridos abraços
Que a teu colo me cingiam
Com ternura
Nem as frases maternais
Que teus lábios desprendiam
De candura.

Nem teus amorosos beijos
Que com transporte me davas
De mãe triste
Nem o teu último — Adeus —
Quando de mim te apartavas
E fugiste.

Aos dois lustros e dois anos
Minha mãe, que te deixei,
Não sabia.
Prezar teus doces carinhos
Que tão cruel desprezei
Num só dia.

Parti: e deixei-te sofrendo mil dores,
Deixei os frescores das brisas sem par:
O seu ciciar: E por quê? por tremendos
Bramidos horrendos das ondas domar.

O tempo mudou-se da minha ventura,
A voz da natura em meu peito ecoou,
Mas tarde chegou... e mui longe senti
O bem que perdi, o meu pranto o mostrou.

Cresceu a saudade no meu coração
A luz da razão me animou a sofrer,
Para um dia te ver, uma vez abraçar-te.
Mais nunca deixar-te, contigo viver.

E então a teu lado
Libando as delícias
De tuas carícias
Minha mãe, sem par:
Eu quero cantar
No meu alaúde
Um hino que mude
Teu agro penar.

Quero ver teus olhos
De chorar pisados
Pela dor magoados
De tanto sofrer;
Ah! sim, queremos ver
De novo brilhar
Seu júbilo mostrar
Fulgir de prazer.

Depois que me importa!
Que a Parca sedenta
De meu sangue, intenta
Meus dias torcer,
Me vinha dizer
 — Teu fim já chegou
Agora aqui estou... —
 — Já posso morrer —

FRANCISCO COELHO MARTINS DA COSTA
(1856)

***

MAMÃ

Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade,
Toda a Ternura que de ti me vêm,
Amparam-me esta triste mocidade
Como nos tempos em que tinha Mãe.

Quanto eu te devo! Ódios, impiedade,
Indignações e raivas contra alguém,
Loucuras de rapaz, tédios, vaidade,
Tudo isso perdi— e ainda bem!

Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperança!
Nunca ma tires não, linda criança,
(Linda e tão boa não o farás, talvez!)

Pois que perder-te, meu amor, agora,
Ai que desgraça horrível! isso fora
Perder a minha Mãe, segunda vez.

ANTÔNIO NOBRE
"Despedidas", 1902

***

SOBRE O TÚMULO DE UMA MÃE

Se alguém compreende a mágoa que te oprime
Não n'a compreende mais do que a compreendo.
Mágoa que o pranto, às vezes, não n'a exprime
Mas que num riso, às vezes, se está vendo!...

Deixa, porém, que paire a alma sublime
Daquela santa sobre o mundo horrendo!
Que ela te ampare contra o mal e o crime,
Ao teu futuro bênçãos estendendo.

Vejo-te a rir, amigo, mas no brilho
Do teu olhar eu leio todo o inferno
Do teu celeste coração de filho!

Ri comigo! Eu também num riso eterno
Sigo da vida o doloroso trilho,
Sem o guia imortal do amor materno!

EMÍLIO DE MENEZES
"Últimas Rimas"

***

MÃE E FILHO

Menino, que ao céu revoa
Levado por mão de santa;
Junto a Deus a luz o espanta,
Quer chorar e Deus sorri...
Neste abandono celeste,
No vago de uma lembrança,
Mãe!... balbucia a criança,
E um anjo canta: ei-la aqui!

Súbito o triste inocente
Se lança meigo e choroso
No branco seio amoroso
Que ali outra mão conduz;
A mãe e o filho abraçados
Se prostram na imensa alfombra,
Ela... com medo da sombra
Ele... com medo da luz!!...

TOBIAS BARRETO
"Dias e Noite", 1881

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