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5/05/2019

Temas Poéticos: MÃE - XIX




MINHA MÃE

MARIA CÂNDIDA DE JESUS
(1958)


No rútilo santuário da memória
Vejo de minha Mãe o doce vulto,
Narrando-me, sereno, a fiel história
De sua vida, e ao recordá-la exulto:

— Extrema singeleza, em vanglória
De homenagens do mundo. Ardente culto
As leis divinas igualando a glória
A caridade em exercício oculto.

Em tais lições os filhos instruía
Com bondade, ternura e complacência
Sob o encanto intangível da poesia;

E, se amava o labor prezando a ciência,
Julgava a religião — sol que a alma guia,
Sublime graça — a paz da consciência.

 ***

SONETO À MAMÃE

GONZAGA DA FONSECA

Mamãe! embora estejas tão distante,
penso e imagino ver-te a toda hora:
vejo sempre ante mim o teu semblante,
numa doce expressão comovedora...

Mãe! vejo aquela unção impressionante
de quando o pranto tua face irrora,
gota a gota, por mim, e a cada instante:
de ti saudoso, em versos choro agora!

E sabes, Mãe, que é que, gradualmente,
deste teu filho o coração definha?
— É o medo de perder-te agora ausente...

É o medo de que, um dia, a fala minha
sobre um túmulo, embalde te lamente:
como viver sem ti, doce Mãezinha?!

***

OH, DOCE OLHAR DE MÃE!

CORREA JÚNIOR
(1958)

Oh, doce olhar de Mãe!
Olhar que nunca ilude!
Meigo e piedoso olhar que,
Sempre ao bem nos guia!
Brilham sóis —se ele ri —
Em nossa solicitude;
Sucumbe —ao choro seu —
Toda a nossa alegria.
Olhar que tem do Céu
A profunda quietude,
Quando no imenso azul
Desponta a flor do dia.
Olhar de cuja luz mal,
Nesta vida, pude
Sentir a suave unção
A ternura, a Magia
Oh, doce olhar de Mãe!
A quantos —loucos, poetas,
Condenados e heróis,
Desleixados e estetas —
Dá ela a calma, o bem,
A harmonia, a coroa!...
Oh, doce olhar que foi
Na angústia do calvário,
O supremo consolo
O grito extraordinário,
Daquela que, a sofrer, ainda
Em pranto perdoa!

 ***

SAUDADE MATERNAL...

MANOEL GREGÓRIO
(1930)

I
Minha mãe,
És o anjo que mais adoro,
Por quem vivo e por quem choro
Neste mundo de ilusão!
Minha mãe.
De ti não me esquecerei,
Pois teu nome eu guardarei
Dentro do meu coração!

II
Minha mãe tão carinhosa
Eu te adoro com fervor!
Pois tua alma dadivosa,
Cheia de amor e ventura,
É tão pura e tão bondosa,
Que seu verdadeiro amor,
Cheio de tanta doçura,
É um amor ideal,
Porque não tem rival!

III
Minha mãe,
O teu lar é tão sagrado,
Que se eu vivesse a teu lado,
Oh! como feliz seria!
Minha mãe,
Teu regaço é um paraíso,
Onde eu com prazer diviso
Meu refúgio de alegria!...

 ***

QUEM AMO
(À minha mãe)

ISMAEL COSTA
(1930)

A mulher mais formosa idealizada,
Que é para mim a imagem da candura,
Que a sorrir desabrocha uma alvorada,
Que é toda divinal, — santa criatura!

Que nos olhos minh'alma desenhada
Tem na retina casta que fulgura,
Que a voz é poesia bem ritmada
Ao som da lira encantadora e pura...

A mulher que me prende e me cativa,
Que me devota o mais sincero amor,
Que vejo quase sempre pensativa,

Por mim entregue a firme adoração,
É minha mãe, a melindrosa flor
Que tenho no jardim do coração.

---

Temas Poéticos: MÃE - XVIII




A MÃE E O FILHO MORTO

BULHÃO PATO

A pobre da mãe cuidava
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertava!
O coração que batia
Era o dela, e não do filho
Que lá do sono da morte
Havia instante dormia.

Olhei e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha, sem o saber,
Nos braços o filho morto!
Rezava, e do fundo d'alma!
E enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfriava!

Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus! —que dor expressou!

Pensei então: — A mulher
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração
Basta que possa dizer:
— Tive um filhinho. Senhor.
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!?

 ***

MEU FILHO

ANNA AMÉLIA CARNEIRO
(1932)

Tomo entre as minhas mãos tua cabeça,
filho querido, e esqueço tudo mais.
Quem há que não esqueça
a vida, as coisas vãs, convencionais,
tendo entre as duas mãos a cabeça querida
de um filho que nasceu da nossa vida?
Corro os olhos, e penso na grandeza
que esse pequeno cérebro resume:
espírito em botão, que hoje presume
ser o centro de toda a vida humana,
de toda ã natureza.
Que para lhe sorrir de flores se engalana,
uma cabeça de criança,
que encontra a providência
como um deus tutelar no carinho dos pais,
e cuja enorme ciência
é contar até dez e dizer as vogais.
Dentro em pouco, porém, esta cabeça frágil,
que começa a reter as imagens e as cores,
será como um vulcão de pensamentos vário,
vibrará no esplendor de auroras interiores,
conhecerá sonho e dores,
abrangerá, sutil, indefinível, ágil,
todas as sensações em surtos tumultuários.
............................................................................
Só quem é mãe pode saber esta emoção
íntima e original,
de sentir entre as mãos, no ser que acaricia
o fruto do seu ser, hoje aurora e poesia,
que há de ser algum dia,
vida em plena eclosão,
uma força a vibrar na vida universal.
............................................................................
E eu sonho, e acaricio o teu cabelo fino.
Em êxtase profundo,
sentindo ter nas mãos, num globo pequeno,
a síntese do mundo.

 ***

MINHA MÃE

GUILHERME DE ALMEIDA
(Tradução)

Se eu fosse enforcado no mais alto morro,
eu sei que um amor me viria em socorro;

se eu fosse afogado no mar mais profundo,
eu sei que uma lágrima iria até o fundo;

se eu fosse maldito de corpo e alma, um dia,
eu sei que uma prece me redimiria.

Tu,minha mãe! Ó tu, minha mãe!

***

O AMOR DE MÃE É DIFERENTE DE OUTRO AMOR

ALZIRA BITTENCOURT
(1958)

Como é humilde e manso o amor de mãe!
E como é diferente de outro amor.
Senti-lo é aspirar eternamente,
O suavíssimo perfume de uma flor!

Há tal ternura e tal delicadeza,
É todo feito de clemência e de perdão,
Um misto de inocência e de pureza,
Amor-angelical! Amor-beleza!
Amor que é perfeição.

É um amor silencioso e concentrado!
Tem mais doçuras que outros amores não tem,
Tem a magia desses sons velados
Dos divinais Noturnos de Chopin...

 ***

MINHA MÃE

ADEMAR TAVARES
(1958)

Era Maria, minha mãe, e tinha
A santidade que esse nome encerra.
Viveu, — nada pesando sobre a terra
Morreu, — como num voo de andorinha.

Quando a sombra da noite se avizinha
E o mistério dos seres descerra,
Fica um resto de poente sobre a serra,
Tal como a tênue vida que a sustinha...

Minha mãe foi um sonho de inocência,
Foi a bondade que se fez essência,
E o sofrimento que se fez perdão.

E Deus quando a levou ao seio amigo,
Vi uma estrela abrir no seu jazigo.
E asas brancas cobrirem eu caixão...


Temas Poéticos: MÃE - XVII




MÃE!

BASTOS TIGRE

Mãe! Que nome haverá de igual doçura
Assim, tão breve e de harmonia tanta!
É a primeira oração que se murmura,
Vêm-nos do coração para a garganta.

Ao dizê-lo, a nossa alma se levanta
Em demanda dos céus, de infinita altura.
Mãe! Palavra tão leve, etérea e pura
Que ao próprio Deus ouvi-la apraz e encanta.

Mãe! Beija-flor, se a criança balbucia;
Depois é auxílio, proteção, confiança,
Como a estrela polar que aos nautas guia.

E sempre amor, que de sofrer não cansa;
Mãe! Nome-luz que a Mãe das mães-maria,
Na terra nos deixou coro lembrança.

 ***

SONETO PARA MINHA MÃE

CORREIA JÚNIOR

Quero beijar-lhe o rosto, bem de leve,
assim como no altar se beija a santa;
afagar-lhe os cabelos cor de neve;
ouvir-lhe a voz brotando da garganta.

Quero dizer-lhe, num momento breve,
que o seu amor de mãe o meu suplanta.
E então minha alma ao seu olhar se eleve,
como a estrela na tarde se levanta!

Quero gozar o amor puro e materno,
e ao sol poente dos seus olhos baços,
aquecer as manhãs do meu inverno.

Quero, livre de mágoas e fadiga,
adormecer chorando nos seus braços,
como quem reza numa igreja antiga.

 ***

ACALANTO

JOSÉ LANNES

Sobre alvo berço num coração palpita,
Para o seu amorzinho adormecer,
a mãe lhe conta a história mais bonita,
de Jesus, que só as mães sabem dizer.

Mas o filho, ao final, todo se agita
numa curiosidade, por saber
Se alguma vez Nosso Senhor visita
as crianças que muito o querem ver.

E a mãe: — “Jesus tem um trabalho enorme,
Só alta noite, quando tudo dorme,
pôde Ele vir... Então, envolto em luz,

Nos sonhos das crianças resplandece
Dorme... Daqui a pouco ele aparece.
Dorme, filhinho, que verás Jesus.

***

MÃE E FILHO

JOÃO DE DEUS
"Campo de Flores" (1896)

Primícias do meu amor!
Meu filhinho do meu seio
Tenro fruto que à luz veio
Como à luz da aurora a flor!

Na tua face inocente,
De teu pai a face beijo,
E em teus olhos, filho, vejo
Como Deus é providente;

Via em lâmina dourada
O meu rosto todo o dia,
E a minha alma não havia
De a ver nunca retratada?

Quando o pai me unia à face
E em seus braços me apertava,
Pomba ou anjo nos faltava
Que ambos juntos abraçasse!

Felizmente Deus que o centro
Vê da Terra e vê do abismo,
Que bem sabe no que eu cismo,
Na minha alma um altar viu dentro:

Mas com lâmpada sem brilho,
Sem o deus a que era feito...
Bafeja-me um dia o peito,
E eis feito o meu gosto, filho!

Como em lágrimas se espalma
Dor íntima e se esvaece
De alma o resto quem pudesse
Vazar todo na tua alma!

Mas em ti minha alma habita!
Mas teu riso a vida furta...
Mas que importa! (morte curta!)
Se um teu beijo ressuscita!

***

AS MÃES

MÚCIO TEIXEIRA

Ó Mães! da Mãe de Deus vós despertais lembranças,
Nessa augusta missão — tão cheia de poesia;
Quando embalais ao colo as tímidas crianças,
Eu penso ver Jesus nos braços de Maria!

Vós sois uns anjos bons! de amor e de piedade
Tendes um ninho em flor nos seios virtuosos;
— Nos filhos refletis a vossa felicidade,
Como em límpido espelho os corpos luminosos.

Vós sois a inspiração primeira dos poetas,
Vós sois o pensamento extremo dos doentes.
Quem antes osculou a fronte dos profetas,
Vindo a cerrar mais tarde os olhos dos videntes?...

Ó Mães! de minha Mãe vós me trazeis lembranças...
Encheis-me de saudades!... Eu amo-vos por isto,
Quando embalais, cantando, aos seios as crianças,
Eu sonho ver Maria acalentando o Cristo!...

Meu Deus! não sei dizer o que há de mais ungido
De bálsamos do céu, se há mais sublime coisa
Que a Mãe que embala ao berço o filho adormecido,
Ou se o filho que reza ante a materna lousa!...


Temas Poéticos: MÃE - XVI




DA GENTE E DA VIDA
(De Ghiaroni)

ANA MARIA
(1971)

Mãe! Eu volto a te ver na antiga sala
onde, uma noite, te deixei sem fala,
dizendo adeus como quem vai, morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina,
amar, cuidar, criar, depois perecer.

Perder o filho é como achar a morte!
Perder o filho, quando grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante, uma mulher bonita,
sorrindo o rouba... E a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la!

Assim parti e nos abençoaste!
Fui esquecer o bem que me ensinaste;
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste, num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar!

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte... e não me atrevo!
Quero acordar-te, mas não sei se devo!
Não sinto que me cabe esse direito!

O direito de dar esse desgosto
de te mostrar, nas rugas do meu rosto,
toda a miséria que me aconteceu!
E quando vires a expressão horrível
da minha máscara irreconhecível
minha voz rouca murmurar: Sou eu!

Eu bebi nas tavernas dos cretinos!
Eu brandi o punhal dos assassinos!
Eu andei pelo braço dos canalhas!
Eu fui jogral em todas as comédias!
Eu fui vilão em todas as tragédias!
Eu fui covarde em todas as batalhas!

Eu te esqueci! As mães São esquecidas!
Vivi a vida, vivi muitas vidas.
E só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança;
e só agora, quando a dor me alcança,
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas... que foi? De repente ouço um ruído!
A cadeira rangeu! É tarde agora!
Minha mãe se levanta, abrindo os braços!
E me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz: “Meu filho”... e chora!

E chora! E treme, como fala e ri!
E parece que Deus entrou aqui,
em vez do último dos condenados!
E o seu pranto, rolando em minha face,
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados!

Mãe, nos teus braços eu me transfiguro!
Lembro que fui criança, que fui puro!
Sim! Tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa.
O filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beijas, como agradecendo
toda a dor que par mim te foi causada!
Dos mundos onde andei, nada te trouxe!
Mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.

 ***

MINHA MÃE

CLAREL GAVIRAGHI
(1979)

Sentado na soleira da porta
Neste entardecer calmo de melancolia
Recordo-te mamãe com saudades
Do carinho e ternura de passados dias.

Lembro do que me ensinaste
Da verdade, do amor e bom exemplo
Me indicaste sempre o caminho certo
Quando íamos juntos orar no templo.

Mãe és refúgio de bondade e afeição
Não te esqueço nem sequer um segundo
Por seres dedicada, terna e amável
E possuíres o coração maior do mundo.

Recebe a homenagem neste dia
Deste a quem lhe deste a vida
Que no seio do convívio familiar
Continuarás sendo sempre a mais querida.

***

MINHA MÃE

ÚRSULA TRAPP
(1978)

Com três letrinhas apenas
se escreve a palavra MÃE:
E das palavras pequenas
A maior que o mundo tem.

Mãe — sinônimo perfeito
De sacrifício e de amor
Tendes espinhos no peito
E aos vossos filhos dais flor.

Ó Mãe, canta-me as cantigas,
Com que outrora me mimavas!
Quero que alegres meu túmulo
com o riso que ao berço davas.

Mãe! Acima de tudo, acima
do céu, te devemos pois
O teu nome não tem rima
Nem limite o teu amor.

*** 

DIA DAS MÃES

ÚRSULA TRAPP
(1978)

Mãe! A primeira palavra
Que pronuncia a criança;
São as letras de seu nome:
Martírio — Amor — Esperança

Mãe! Palavrinha que encanta;
Com três letrinhas somente,
Lembra o nome de uma santa,
Louvado por toda a gente.

Você me chamou de pobre,
No que disse, pense bem.
Sou mais rico que você,
Tenho mãe, você não tem.

***

MÃE, MINHA MÃE! MAMÃE!

MARTINS FONTES

Beijo o teu nome quando o leio, quando
O escuto, e, por milagre, ao seu solfejo,
Com os olhos ouço a sílaba cantando,
Ou, pelo ouvido, iluminante, a vejo!

Sinto, ao seu surdinar, límpido e brando
Qualquer coisa ideal, como o branquejo
De uma chuva de pétalas, em bando,
De milhares de pombos, em voejo!

Mãe! Minha mãe! Mamãe! Beijo-te a face,
Mas sem nunca te amar, quando desejo,
Quanto me amas, por muito que sonhasse!

Tenho sempre a ilusão, se te festejo,
De que é o teu beijo que beijasse
O meu beijo, beijando-se em teu beijo!


Temas Poéticos: MÃE - XV



DE JOELHOS

FLORBELA ESPANCA
“Livro de Mágoas” (1919)

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer...
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

 ***

À MINHA MÃE

ÁLVARES DE AZEVEDO
"Poesias Diversas"

És tu, alma divina, essa Madona
Que nos embala na manhã da vida,
Que ao amor indolente se abandona
E beija uma criança adormecida;

No leito solitário és tu quem vela
Trêmulo o coração que a dor anseia,
Nos ais do sofrimento inda mais bela
Pranteando sobre uma alma que pranteia;

E se pálida sonhas na ventura
O afeto virginal, da glória o brilho,
Dos sonhos no luar, a mente pura
Só delira ambições pelo teu filho!

Pensa em mim, como em tu saudoso penso,
Quando a lua no mar se vai dourando:
Pensamento de mãe é como o incenso
Que os anjos do Senhor beijam passando.

Criatura de Deus, ó mãe saudosa,
No silêncio da noite e no retiro
A ti voa minh'alma esperançosa
E do pálido peito o meu suspiro!

Oh! ver meus sonhos se mirar ainda
De teus sonhos nos mágicos espelhos!
Viver por ti de uma esperança infinda
E sagrar meu porvir nos teus joelhos!

E sentir que essa brisa que murmura
As saudades da mãe bebeu passando!
E adormecer de novo na ventura
Aos sonhos d'ouro o coração voltando!

Ah! se eu não posso respirar no vento,
Que adormece no vale das campinas,
A saudade de mãe no desalento,
E o perfume das lágrimas divinas,

Ide ao menos, de amor meus pobres cantos,
No dia festival em que ela chora,
Com ela suspirar nos doces prantos,
Dizer-lhe que eu também sofro agora!

Se a estrela d'alva, a pérola do dia,
Que vê o pranto que meu rosto inunda,
Meus ais na solidão lhe não confia
E não lhe conta minha dor profunda,

Que a flor do peito desbotou na vida
E o orvalho da febre requeimou-a,
Que nos lábios da mãe na despedida
O perfume do céu abandonou-a!...

Mas não irei turvar as alegrias
E o júbilo da noite sussurrante,
Só porque a mágoa desnuou meus dias,
E zombou de meus sonhos delirantes,

Tu bem sabes, meu Deus! eu só quisera
Um momento sequer lhe encher de flores,
Contar-lhe que não finda a primavera
A doirada estação dos meus amores;

Desfolhando da pálida coroa
Do amor do filho a perfumada flor
Na mão que o embalou, que o abençoa,
Uma saudosa lágrima depor!

Sufocando a saudade que delira
E que as noites sombrias me consome,
O nome dela perfumar na lira,
De amor e sonhos coroar seu nome!...

***

À MINHA MÃE

ÁLVARES DE AZEVEDO
"Lira dos Vinte Anos" (1862)

"Se a terra é adorada, a mãe não é mais
digna de veneração."

Digest of hindu law

Como as flores de uma árvore silvestre
Se esfolham sobre a leiva que deu vida
A seus ramos sem fruto,
Ó minha doce mãe, sobre teu seio
Deixa que dessa pálida coroa
Das minhas fantasias
Eu desfolhe também, frias, sem cheiro,
Flores da minha vida, murchas flores
Que só orvalha o pranto!

***

MINHA MÃE

CASIMIRO DE ABREU

Da pátria formosa distante e saudoso,
Chorando e gemendo meus cantos de dor,
Eu guardo no peito a imagem querida
Do mais verdadeiro, do mais santo amor:
— Minha Mãe! —

Nas horas caladas das noites d’estio
Sentado sozinho com a face na mão,
Eu choro e soluço por quem me chamava
— “Oh filho querido do meu coração!” —
— Minha Mãe! —

No berço, pendente dos ramos floridos
Em que eu pequenino feliz dormitava:
Quem é que esse berço com todo o cuidado
Cantando cantigas alegre embalava?
— Minha Mãe! —

De noite, alta noite, quando eu já dormia
Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?
— Minha Mãe! —

Feliz o bom filho que pode contente
Na casa paterna de noite e de dia
Sentir as carícias do anjo de amores,
Da estrela brilhante que a vida nos guia!
— Uma Mãe! —

Por isso eu agora na terra do exílio,
Sentado sozinho com a face na mão,
Suspiro e soluço por quem me chamava:
— “Oh filho querido do meu coração!” —
— Minha Mãe! —

***

A MÃE DO CATIVO

CASTRO ALVES
"Os Escravos"

Le Christ à Nazareth, atix jours de son enfance
Jouait avec Ia croix, symbole de sa mort;
Mère du Polonais! qu'il apprene d'avance
A combattre et braver les outrages du Sort.

Qu'il couve dans son sein sa colère et sa joie
Qu’il ses discours prudents distillent le venin,
Comme un aime obscur que son coeur se reploie
À terre, à deux genoux, qu'il rampe comme un nain.


Mickiewicz — A Mãe Polaca

I
Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.

Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.

Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo...

E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da esperança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria!...

II
Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra que há de sondá-lo... Que morra sem luz.

Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho — desonra, misérias,
A vida nos crimes — a morte na dor.

Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptil.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.

Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida — só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte — só cabe-lhe o roto lençol.

Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.

Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça com o sono de um cão.

Criança — não trema dos transes de um mártir!
Mancebo — não sonhe delírios de amor!
Marido — que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor!...

São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.

III
Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.