6/18/2019

A Figa de Azeviche (Conto), de Pedro Ivo



A Figa de Azeviche

CAPÍTULO 1
Tome fôlego, leitor!... Olhe que ainda temos a subir mais dois lanços de escada. Até que afinal!... Faça favor de entrar.
Não se canse; estão à vista todas as riquezas do inquilino. Ora diga: não é verdade estar lá por dentro a perguntar: "Como se pode viver aqui?!..."
Pois pode, sim senhor. Vive-se aqui; vive-se ainda em muito pior morada! A míngua que nota, seria o supérfluo para milhares de famílias.
Analisemos estas águas-furtadas.
Quatro paredes mal caiadas, tendo por únicos adornos uma imagem colorida da Senhora das Dores, a vera efígie do Senhor Jesus de Matosinhos e a patente que prova ser Maria Rosa da Silva irmã da Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade — todas três em caixilhos de vinhático, com cantos de pau-preto. Além destes caixilhos, não se veem senão pregos, muitos pregos: são os guarda-roupas dos pobres. A um canto, uma cama de ferro; aos pés da cama uma cadeira; entre esta e o canto fronteiro um lavatório, também de ferro, com uma bacia rachada e um jarro esbeiçado. Daquele lado nada mais se vê, nem há espaço para mais coisa alguma.
Do lado oposto ocupa o centro uma cômoda, entre duas cadeiras. Depois de abertas as gavetas daquela cômoda, não há memória de terem elas consentido que as fechassem, sem oporem vigorosa resistência! Felizmente, as donas já lhes conhecem a balda, que não passa de rabugem da idade, e sabem que é preciso empurrá-las, primeiro de um lado e depois do outro. Praticando-se esta operação três ou quatro vezes, é raro não se deixarem convencer.
Junte-se a isto uma mesa de pinho, com uma gaveta que contém uma velha toalha de mesa, alguns garfos e facas, com os cabos amarelos e rachados, quatro ou cinco côdeas e muitas migalhas de broa; veja-se o que encerra aquele armário encravado na parede e caiado de branco — porém, quase que posso afirmar que encerra meia dúzia de pratos, dois ou três copos de quarteirão e duas canecas de quartilho — e está feito o inventário deste pequeno aposento, alumiado por um postigo que dá sobre o telhado, e pela luz que côa por entre as telhas, que, além da luz, dão passagem ao calor no Verão, às nortadas no Inverno, à água sempre que chove.
Não há mais nada?... vejamos bem... Decididamente, não há.
Passemos da morada aos moradores.
Ela aqui está, a Sra. Maria Rosa da Silva, viúva de um honrado municipal vítima das consequências do serviço de patrulha, feito numa noite de Dezembro na Rua do Wellesley.
A Sra. Maria tem uma destas caras que não enganam; é uma santa! Solteira-era o descanso dos pais e a segunda mãe dos irmãos; casada — era a confidente e a enfermeira do marido; viúva — é o anjo que vela pela filha. Pode escrever-se-lhe a vida em duas palavras: abnegação e sofrimento. A Sra. Maria, enquanto pôde, nunca consentiu que a filha fosse sozinha para casa da modista; infelizmente, há um ano, quebrou uma perna, tem dificuldade em andar e é isso hoje, talvez, o que mais a amofina. Não que ele, também, por esse mundo, há cada malvado mais atrevido!... E depois, a sua Rosa é... é tão bonita!
— Valha-me Deus!... — diz a pobre velha, quando pensa nisso.
E a Rosa?... Que é dela, a Rosa!... Escute...
Ela aí sobe a escada; ela aí está! — A sua bênção, minha mãe. — Deus te abençoe, filha.
Que formosa rapariga! Eu, por mim, não sou dos tais malvados atrevidos, mas confesso que por um olhar daquelas duas amostras do céu, era capaz de fazer asneiras como qualquer rapaz de vinte anos!
Não que eu nunca vi coisa assim! Se ela até aos doze anos nunca deixou de ir de anjinho em todas as procissões!...
Já se viu cabelo louro como aquele?... Onde há outros olhos como os dela?... E aquelas duas covinhas das faces, onde os risos e os amores jogam às escondidas?... E a cinta, capaz de fazer morrer de inveja a vespa mais espartilhada?!... E... Basta ou fico até amanhã a enumerar-lhe as perfeições.
A Rosa, porém, tem hoje um não sei quê, que a torna menos bonita. Que será?... Sigamos o olhar da mãe, que logo descobrirá o que é. É a ligeira ruga traçada entre as sobrancelhas; é uma vaga expressão de luta interna; é um certo ar de desassossego, que lhe não é próprio!
Rosa dobrou e pousou a capa sobre a cama; tirou a manta azul da cabeça; alisou o formoso cabelo diante de um mesquinho espelho, destes espelhos de papelão, forrado de papel encarnado, e sentou-se, deixando pender os braços com gesto de desânimo. A Sra. Maria, depois de lhe interrogar debalde o rosto, aproximou-se dela, agarrou-lhe a cabeça com as mãos, e, cravando os olhos nos — de Rosa, perguntou-lhe com uma destas inflexões de voz, que são segredo privativo das mães:
— Tu que tens?... Tu andas doente?
— A mãe está a brincar! respondeu a filha, desviando os olhos. — Eu que hei de ter?... A mim que me falta?
Havia tanta amargura envolta nesta última frase, e tão manifesta, apesar do sorriso que a acompanhou, que a velha não pôde reprimir um gesto de aflição.
— Não!... Tu tens alguma coisa que te aflige!... Ora diz-me o que tens, Rosa! — insistiu a pobre mãe, ajoelhando, para melhor ver o rosto da jovem.
— Olhem que cisma!... — respondeu esta, forçando os lábios a sorrir. — Eu que hei de ter?... Se me calo cinco minutos, logo a mãe começa a imaginar que estou doente!... Não tenho nada... Acredite... — continuou ela.
— Bem... Não tens confiança em mim... Paciência! — replicou a mãe, erguendo-se.
— E a mãe a dar-lhe! — observou Rosa, com visível impaciência.
Aqui para nós, o maior defeito da rapariga era estar perdidinha com mimo. Mas, como não havia ela de o ter, se a mãe não tinha outra e ela... era tão bonita?!...

CAPÍTULO 2
Duas horas depois, descia Rosa a Calçada dos Clérigos e dava lugar ao seguinte diálogo:
— Acredite, Senhor Conselheiro. Vossa excelência não tem estudado, como eu, o viver desta gente. São felizes, creia... Mais felizes do que eu, mais felizes do que vossa excelência!... Ora veja aquela pequena que ali vai... Veja que riso aquele, que alegria!... Uma manta, uma capa, um vestidinho de chita, uma botinha que lhe estreita o pé, um conversado... Aí tem o necessário para ela viver mais feliz, com oito vinténs por dia, do que a filha de vossa excelência, a quem sobejam todas as comodidades da vida!... Não tenha pena desta gente, Senhor Conselheiro!... São felizes, creia!
Isto dizia um sujeito grave, que se penteia para ser deputado, a outro que já o foi, e que, julgando-se ainda na câmara, lamentava, da boca para fora, que se não pudesse melhorar o viver das camadas inferiores, bordão estafado de quase todas essas velhas raposas, que a indiferença dos eleitores parece mandar a cortes... justificar essa indiferença.
Se não causasse nojo, faria morrer de riso a filosofia rançosa destes vendedores de água chilra.
Então com que, é feliz aquela rapariga? Tem a manta, a capa, o vestido, os oito vinténs, o conversado talvez... logo é feliz?!... É feliz, hem?... Então ali não há aspirações, não há faculdade de comparar, não há inveja; há apenas a necessidade do pão de cada dia, o desejo de que hoje seja igual a ontem e amanhã igual a hoje?!... Valha-te Deus, homem!... Que círculo te escolherá para o representares?!...
Há tudo isso, míope! E como poderia deixar de haver? Como, se tu, homem grave por fora, mas corrupto por dentro, és o primeiro a dizer-lhe, quando ninguém te pode ouvir, que Deus a talhou para duquesa, que não há pele mais fina, mão mais aristocrática, pé mais distinto, do que a pele, a mão e o pé que fazem o desespero de todas as outras mulheres?... Como, se, além de ti, lho dizem o janota, o estudante travesso, o sargento hiperbólico e — o mais perigoso de todos! — o caixeiro que lhe vende o retrós, esse Lovelace de chinelo de liga e pena na orelha, que lhe deslumbra a vista com um arco-íris de peças de seda e lhe ajuda a combinar a cor que melhor se aliaria ao preto ou ao louro dos cabelos, se ela pudesse trajar sedas?!...
Ora anda cá, psicologista de lareira... Fala-me sério!... Crês que entre essa aluvião de raparigas pobres, que trabalham para raparigas ricas, haverá uma tão indiferente à vaidade, tão despida de curiosidade, que, ao ver-se só entre as quatro paredes do seu quarto, depois de dar o último ponto num vestido de seda, tenha resistido à tentação de experimentar em si esse vestido?!... E, se a sua boa ou má sorte quis que ela fosse bela e o espelho lhe disser que, assim vestida, é mil vezes mais bonita, será para estranhar que a pobre criança diga: "Assim... quem não há de ser amada, quem não há de ser formosa?!"Custará a compreender que ao enfiar de novo o modesto vestido de chita, o suspiro, que não pode conter, seja a primeira manifestação de uma surda inveja, o gérmen de outras paixões más, produzidas por aquela?!... Valha-nos Deus! Compreende-se...
Mas... ainda eu agora reparo!... Eu estou pior do que o tal candidato a deputado!... Olha que maçada eu preguei ao leitor!
Perdão, amigo... Era preciso. Eu só tive em vista i-lo guiando, insensivelmente, para onde me convém. Sem este longo aranzel, ficávamos ambos como a Sra. Maria, pasmados diante da Rosita, sem sabermos o mal de que ela sofre, e tentando em vão descobri-lo.
A Rosa sofria de — que nome tão feio! — sofria de... inveja!... Perdão! Não era bem inveja o mal dela; era um desejo irresistível de ir passear às tardes, reclinada nas almofadas de um landau, encadernada em moire e veludo, e ver, com os seus olhos, se o Teatro de S. João, mirado de um camarote da segunda ordem, produzia melhor efeito do que visto das varandas, de onde ela se lembrava vagamente de o ter visto, havia muito tempo, uma vez que o pai estava de guarda ao teatro, e a levara a ela e à mãe a ver "A Degolação dos Inocentes".
Este desejo, este aspirar ao impossível, não poderia ela explicar como germinara. Tinha aparecido espontaneamente, a contrastar com a candura e modéstia que lhe ornavam a alma, como estas parasitas que o zéfiro maldoso se compraz em deixar cair, na passagem, entre as mimosas plantas dos vergéis e que fazem raivar o horticultor.
O caso era que Rosa sentia em si o fermento de um mal, que tem feito tropeçar e cair milhares de anjos cândidos e puros, como ela. Havia cerca de um mês, começara a perder as cores e a alegria, e visões, a um tempo tristes e risonhas, a perseguiam em sonhos, que lhe traziam aos lábios palavras sem nexo, em que o ouvido atento da mãe buscava em vão descobrir o segredo da filha.
A leitora, a quem a sua posição independente torna, por assim dizer, fácil a santa tarefa materna, e que, apesar disso, estremece ao notar a insistência com que qualquer mancebo lhe contempla as janelas e a segue, quando sai em companhia de uma filha jovem e formosa, compreende decerto as torturas da pobre mulher, obrigada a afastar de si e a entregar ao próprio arbítrio uma filha, diante da qual surgem, a cada passo, todas as tentações do luxo, todas as ciladas de um amor que o coração, aos dezessete anos, considera sempre puro e sincero.
Rosa, além das aspirações que já lhe conhecemos, tinha encontrado um tentador perigoso na pessoa do Sr. Augusto, caixeiro de uma loja de objetos da moda, mimoso alfenim dos arredores de Braga, proprietário de duas rosadas faces e senhor de luxuriante floresta de cabelos pretos, atravessada por um carreiro, aberto a pente, a começar na testa e a findar na cova-do-ladrão.
Não havia em toda a rua outro caixeiro, que lhe botasse água às mãos na meiguice do gesto, na elegância com que cortava uma peça de seda, ameaçando cortar também os dedos mimosos da freguesa. No que ele então era inexcedível, era no rolar dos olhos e nas lisonjas alambicadas, a que o uso do v dava subido realce. Rosa — e mais uma dúzia de Rosas — era capaz de se esquecer horas inteiras a ouvi-lo, e posso asseverar que nenhum bem lhe vinha de tão agradável conversa.
No dia em que o leitor me acompanhou a casa da Sra. Maria, não sei o que se tinha passado entre ela e o Sr. Augusto; o que sei é que a rapariga trazia o ânimo em rija peleja entre a indignação e a vontade de perdoar. Conhecia-se que lhe faltava o ar, que lhe tardava ver-se outra vez longe daquele ninho de amor materno, cujo sossego não convinha ao agitado espírito da rapariga. Engoliu o bocado à pressa, como se costuma dizer, pretextou umas compras de que a incumbira a mestra, e saiu deixando a pobre velha a braços com a incerteza e o receio.

CAPÍTULO 3
São nove horas da noite. Rosa, sentada ao pé do pequeno postigo das águas-furtadas, com os formosos cabelos louros soltos em vagas pelas costas abaixo, contempla, cismando, a Lua e as estrelas. O vinco entre as sobrancelhas, de fundo que está, dá-lhe ao rosto uma expressão de desafio ao mundo, à sorte, ao Criador talvez, daqueles mundos de luz que rolam no espaço; o peito arfa agitado; as asas do nariz fremem e dilatam-se; os lábios cerram-se teimosos, desenhando aos cantos duas rugas de supremo desdém e íntima amargura. Rosa sofre, escutando assustada e ao mesmo tempo curiosa a voz irônica e incisiva do espírito do mal, que lhe está pintando em ridícula caricatura o porvir que a espera, sob a forma resignada e prosaica da santa da mãe, que vai erguendo preces a Deus e deixando cair as malhas da meia de algodão azul que está fazendo.
— Olha, olha para tua mãe — diz o delegado do Inferno. — Olha para ela!... Não procures a tua estrela no espaço,!... Os pobres não têm estrela; têm sina... Tira os olhos do céu, volvemos para ali, que só ali acharás resposta à pergunta. Estuda bem tua mãe e ficarás conhecendo o futuro: miséria, um marido que talvez te maltrate, filhos que te peçam pão, Primavera sem flores, Verão sem fruto, Outono sem folhas, Inverno sem calor!... Trabalha, sofre, sacrifica-te e morre!... Anda, rapariga!... A quem assim faz não recusa Deus, ao cabo de uma vida despida de alegrias, um lugar na vala comum e... talvez que um cantinho no Céu!...
E o monstro ria, revolvendo o coração da pobre criança!
O calor, que tornava quase inabitável o aposento, o ruído das ruas que o vento lhe trazia, e a luta íntima atuaram, finalmente, tão de chofre nos nervos de Rosa, que as lágrimas saltaram-lhe, ardentes, dos olhos abrasados, e toda aquela ânsia do seio se exalou em soluços.
A Sra. Maria, dando fé do estado da filha, interrompeu um padre-nosso, tirou apressadamente a linha do gancho, pousou a meia sem se dar ao trabalho de espetar as agulhas no novelo, e correu — coitada! nem correr podia! — para junto da filha.
— Rosa, Rosa! — dizia ela, sacudindo carinhosamente o braço da jovem. — Rosa, tu que tens?... Ora fala, anda!... diz-me o que tens! — insistia ela, que já então chorava tanto como a filha. — Diz-me o que sentes, Rosinha!... Ora não sejas ruim!... Fala, menina... Então?...
Rosa continuou a chorar sem proferir palavra. A mãe, reconhecendo a inutilidade — dos seus rogos, contemplava-a, chorando, com as mãos apertadas uma na outra, o olhar assustado, e a mente cheia de sinistras hipóteses.
Pouco a pouco a jovem foi — sossegando, e àquela intempestiva explosão de pranto sucedeu o enleio, filho da necessidade de a explicar à mãe.
— Estás melhor? — perguntou esta, vendo-a mais sossegada.
— Eu não sinto nada — balbuciou a jovem.
— Então por que choravas?
— Eu sei lá, minha mãe! — replicou a filha. — Acho que adormeci... e sonhei... e acordei a chorar...
— Havia de ser isso... Foi talvez o ar da noite... — disse a Sra. Maria, fingindo acreditar a desculpa. — É melhor ires-te deitar... Vai-te deitar, vai... — continuou ela.
Rosa deu-lhe um beijo, despiu-se e deitou-se. A mãe, que se sentara de novo a trabalhar, ouviu-lhe ainda os suspiros por mais de uma hora, até que, chegando-se à cama, pé ante pé, conheceu que ela adormecera e veio sentar-se outra vez a fazer meia.
Nunca o padre-nosso foi rezado com mais unção, embora cortado pelas perguntas que aquele atribulado coração materno formulava mentalmente!
— Que terá ela?... Alguma zanga com a mestra?... Se fosse isso, tinha-mo dito... Algum mexerico das companheiras?... Também mo dizia... Andará a chocar alguma doença?... Mas ela não se queixa... Será namorico?
A esta última pergunta, a santa mulher ficou sem pinga de sangue.
— Pois não é outra coisa!... Mas com quem será?... Valha-me Deus!... E esta minha perna, que me não deixa sair!... Ó minha Mãe Santíssima! Pela vossa dor vos peço que não desampareis a minha rica filha!...
E a salve-rainha foi imediatamente recitada pela aflita velhinha. Ainda não tinha acabado a oração, quando ouviu palavras entrecortadas, proferidas em sonho pela filha. Ergueu-se, e, caminhando sem fazer barulho, sentou-se na beira da cama com o ouvido atento e o coração a bater apressado.
Ao cabo de alguns instantes, a jovem mexeu os braços e murmurou:
— Cale-se, Sr. Augusto!... Não torne a dizer isso!... Se a minha mãe soubesse...
E calou-se. Pouco depois continuou:
— Não quero, não preciso dos seus favores!
Bem se demorou a mãe à espera de mais alguma revelação; Rosa, porém, nada mais proferiu. Não havia, contudo, que duvidar. Aquele Sr. Augusto, que dizia coisas que não eram para repetir e que uma mãe não devia saber... a recusa de favores oferecidos, e, sobretudo, a indignação com que palavras e obras eram repelidas pela jovem, eram indícios mais que suficientes.
A Sra. Maria voltou para o seu lugar; mas, em vez de pegar na meia, escondeu o rosto nas mãos e entrou a chorar.
Lastimai-a, mães!... Lastimai-a vós que sabeis os cuidados que dá uma filha!
Largo espaço de tempo se conservou a boa mulher naquela posição, entregue a dolorosas meditações. Erguendo-se por fim, ajoelhou, pôs as mãos e cravou os olhos na imagem da Senhora das Dores, como que a pedir-lhe conselho. Parece que lho não recusou a Mãe de Deus, porque, quando a Sra. Maria se ergueu do chão, lia-se-lhe no rosto que tomara uma resolução qualquer.
Caminhando nos bicos dos pés, dirigiu-se para a cômoda, abriu cautelosamente uma das gavetas pequenas e tirou de lá um objeto. Em seguida, erguendo a tampa de um cesto, tirou um novelo de cordão branco, do qual cortou um pedaço com uma tesoura. Enfiando o objeto, que tirara da gaveta, dirigiu-se para a cama, passou com mão sutil uma das pontas do cordão por baixo do pescoço da filha, deu um nó e assim deixou um ponto negro pousado sobre o colo alvíssimo de Rosa. O objeto era... uma figa de azeviche!
***
Quando Rosa acordou, ia alto o sol. Procurou a mãe com os olhos: não estava no quarto.
A Sra. Maria não tinha querido presenciar o enleio da filha, ao descobrir a figa de azeviche, símbolo quase tão eficaz contra as tentações do inimigo, como o da cruz onde foi remida a cristandade.
Rosa levou finalmente a mão ao pescoço, e achou o milagroso esconjuro. Reconhecendo a égide, que, enquanto criança, nunca deixara de usar, sentou-se de salto na cama, com as faces rubras de pejo, e exclamou, desatando a chorar:
— Jesus, que vergonha!
A jovem compreendera a tácita censura e amorável previdência da mãe.
Ia-se fazendo tarde e a jovem não saía daquela posição, nem cessava de chorar. Afinal assaltou-a o receio das observações maternas; ergueu-se, vestiu-se e saiu, sem ao menos se lembrar de almoçar.
Quando voltou para jantar, mãe e filha apenas trocariam meia dúzia de palavras. À noite Rosa não se atrevia a encontrar os olhos da mãe, ao passo que esta, aparentando indiferença, prestava os seus sete sentidos ao revesilho da meia azul. Opressa por aquele silêncio, a jovem levantou-se, deu um beijo na fronte da mãe e disse:
— Vou-me deitar.
— Pois vai, filha... Deus te abençoe! — respondeu a Sra. Maria.
Rosa deitou-se, mas movimentos agitados e suspiros, provavam que chamava em vão o sono.
A Sra. Maria, que mais de cem vezes volvera os olhos para a cama, levantou-se, e, acercando-se da filha, deu-lhe um beijo e murmurou-lhe ao ouvido:
— Dorme, filha... Lembra-te de mim e pede a Nossa Senhora que te dê juízo...
Rosa, cedendo a um impulso irresistível, voltou-se, e, lançando-lhe os braços em roda do pescoço, puxou para si a cabeça encanecida da santa que lhe dera o ser, e quedou-se assim a chorar. A mãe, não menos comovida, deixou passar aquela explosão de lágrimas, salutar aguaceiro que nos minora o sofrer da alma calcinada pela dor, desprendeu-se brandamente dos braços da filha, e, afagando-lhe o cabelo, murmurou:
— Está bem, está bem!... Reza e dorme... Dorme, filha!...
Rosa andou alguns dias triste e enleada, mas ganhou juízo. O Sr. Augusto perdeu a freguesa e só teve, em troca, as graçolas pesadas — dos companheiros.
Entre a mãe e a filha nunca houve a mínima alusão ao passado. Para que serviriam alusões, se, para aquela, era indício seguro da cura a alegria da filha, se esta tinha severo censor na figa de azeviche, que nunca mais deixou de trazer ao pescoço?...
A mãe, quando pensava em tal incidente, nunca deixava de volver olhos de gratidão para a Imagem da Senhora das Dores, e dizia mentalmente:
— Foste tu, minha Mãe Santíssima!...
A filha, quando se lembrava do — que sofrera, levava a mão ao pescoço e murmurava: — Se não fosse a figa!...
E assim se dissipou a nuvem que ameaçava trazer consigo medonha tempestade.

CAPÍTULO 4
Haverá coisa de quinze dias, entrava eu na loja do Sr. Manuel Francisco, acreditado sapateiro desta cidade, para ver se, interpondo o seu valimento, conseguíamos chamar a uma conciliação — para evitarmos demandas — as botas, que ele me fazia, e os calos que vão começando a apoquentar-me.
Tudo apoquenta os velhos!
O Sr. Manuel Francisco não estava em casa; guardava a loja naquele momento uma velhinha, muito velha, que me disse ser sogra dele. Neste momento entrou na loja, beijando um pequerrucho de dois anos, que trazia ao colo, uma formosa mocetona de vinte e cinco anos.
Sabem quem eram aquelas duas mulheres?... Eram as nossas conhecidas... a Sra. Maria e a loura Rosa!
Esta parecia, se é possível, mais bonita e fresca do que quando pela primeira vez a vimos! As alegrias da maternidade fazem às vezes destes milagres!
Estava eu esperando pacientemente a vinda — do dono da casa, quando se abriu a porta envidraçada, ao fundo da loja, e apareceu uma linda rapariga de dezesseis anos, que trazia os olhos vermelhos de chorar.
— Até logo, Sra. Rosa... Boas tardes, Sra. Maria — disse ela e saiu.
— Até logo, Julita — responderam as duas.
— Tu ralhaste com a Julita? — perguntou a Sra. Maria à filha, mal a gaspeadeira saiu.
— Ralhei — respondeu Rosa.
— Então ela que fez?-insistiu a velha.
— Não fez nada — retorquiu a jovem.
— Essa agora!... Não fez nada... e tu ralhaste-lhe?...
— Sabe o que é? — redarguiu Rosa, fazendo-se corada. — Precisa que a mãe lhe dê uma figa!... Aí tem o que é!
Eu abri olhos curiosos e perguntei pela causa de tão extravagante necessidade. Da explicação que a Sra. Maria me deu, nasceu este conto.

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