segunda-feira, 3 de junho de 2019

A finura da raposa (Fábula), de Ana de Castro Osório



A finura da raposa

No tempo em que os animais falavam, cada espécie tinha o seu Rei ou Rainha. E viviam em sociedades, organizadas tão bem ou melhor do que hoje são as dos homens. Quase todos escolhiam para seus governantes, não um animal da sua natureza e feitio, o que não imporia respeito a brutinhos daqueles, mas sim Feiticeiras e Fadas, Lobisomens e Gênios, conforme os seus gostos mais ou menos apurados.

Quando alguma coisa havia a discutir de interesse geral reuniam-se os Soberanos no palácio do Rei dos leões, o Rei dos Gênios, porque também o leão é o Rei dos animais. E acontecia às vezes que entre os reis e rainhas se levantavam graves questões, porque todos queriam apregoar a superioridade natural do seu povo.

Assim, um dia que estava reunido o conselho para tratar de negócios importantes, deu-se um fato de que iam resultando graves transtornos. A Rainha das raposas, uma Fadazinha gentil, muito viva e esperta, com o focinhito aguçado, sempre pronta a saborear a carne das galinhas, tomou, sem mais cerimônias, o primeiro lugar.

Vem de lá a Rainha dos lobos, uma Bruxa muito feia e velha, só amiga de andar de noite, de olhos chamejantes e dentes agudos, e gritou e berrou que aquele lugar lhe pertencia, pois os lobos valiam mais do que as raposas.

Nisto chegou a Rainha das Cegonhas e disse que, de direito, o lugar lhe pertencia a ela, por serem as aves coisa muito superior aos quadrúpedes.

O caso complicava-se de forma que, para as acalmar, o Rei dos Gênios interveio dizendo:

— O mundo é dos mais finos, e no conselho terá o primeiro lugar aquela das três Rainhas que na próxima reunião prove governar o povo de maior esperteza.

Postas as coisas neste ponto, levantou-se a sessão e as três Rainhas despediram-se furiosas, mas aparentando cortesia. A das raposas subiu para um carrinho de vime e, cumprimentando graciosa, foi um instante enquanto desapareceu, puxada por duas das suas espertas vassalas. A das cegonhas deitou-se numa rede que foi levada por ares e ventos, segura nos bicos daquelas pensativas aves. A dos lobos, montada num desses feios animais, lá foi, mais arreliada que nenhuma outra, mostrando os dentes ameaçadores, feia como a peste.

Por indicação da sua Rainha, passados dias a Cegonha foi ter com a Raposa e disse-lhe, com toda a gentileza que a sua gravidade permitia:

— Comadre Raposa, venho aqui convidar-te, porque tenho lá umas papas de milho para a merenda. Como gostas muito desse acepipe, lembrei-me de o partilhar contigo.

Gulosa, a Raposa respondeu:

— Ó comadre Cegonha, da melhor vontade te acompanho, e desde já te agradeço tanta delicadeza.

Dirigiram-se as duas a casa da Cegonha, que já tinha deitado numa almotolia o precioso manjar. Metia o comprido bico e comia à vontade, enquanto a pobre Raposa apenas podia lamber do chão o que a Cegonha deixava cair.

A Raposinha estava furiosa, mas não confessou o seu desprazer, agradecendo até à comadre Cegonha a sua amabilidade, com muitas vénias da cauda e sorrisos amarelos. Lá no seu íntimo jurava vingar-se. Passados dias, foi ela a casa da Cegonha dizendo:

— Bons dias, comadre, então como tens passado? Venho aqui convidar-te para jantares hoje comigo.

— Pois não, comadre Raposa, da melhor vontade!

Foram as duas a casa da Raposa, que logo deitou numa laje, bem espalhadas, grande porção de papas. Ora ela tinha boa língua e lambia tudo, enquanto a triste Cegonha com a ponta do bico mal lhe tomava o cheiro. E fugiu envergonhada porque a Raposa soubera ser mais fina.

A raposa tanto comera que, de farta, se deixou adormecer. Passou por ali um sardinheiro que andava com um burro carregado a vender sardinha pelas aldeias. E, vendo a raposa, imaginou-a morta, e lembrou-se de a levar para ganhar algum dinheiro mostrando-a a donos de galinhas.

A finória acordou, mas, achando-se bem, continuou a fingir-se morta, comendo a sua sardinha de quando em quando, para abrir o apetite. O homem, adiante, puxava pela corda do burro e de vez em quando ouvia:

— Raposinha gaiteira, farta de papas anda à cavaleira.

Olhava para trás e não via ninguém. Admirava-se muito, mas nem por sombras supôs ser a Raposa quem isto dizia, pois a julgava morta e bem morta. Voltava a caminhar, e tornava outra vez a ouvir:

— Raposinha gaiteira, farta de papas anda à cavaleira!

Assim foi todo o caminho, até que, chegados a uma casa onde o homem ia fazer negócio, ela saltou de cima do burro e fugiu.

Bem gritou o homenzinho que estava desgraçado, que a patifa lhe tinha comido as sardinhas, mas a bela da raposa onde estaria já! Foi atrás dela, campos fora, até que se cansou. A Raposa, que esperava isto mesmo, foi andando até encontrar o Lobo que lhe disse:

— Olá, comadre Raposa, então vens a fugir?

— Ai, amigo Lobo, tudo por tua causa! Venho aqui morta de cansaço, para te prevenir que uns homens muito maus te querem matar. É preciso fugir!

— Então fujamos depressa.

— Pois sim, mas tu hás de levar-me às costas, porque eu estou estafada por tua causa.

O Lobo pô-la às cavalitas e partiram. Chegaram a um rio, e fingindo-se aflita, disse a Raposa:

— Ai, compadre Lobo, que não podemos atravessar! Tens que beber a água toda; não há outro remédio!

O brutinho bebeu, bebeu e depois quase não se podia mexer. Foram porém andando até que chegaram a uma eira onde um rancho de homens estava a malhar. Mal viram o lobo e a raposa, fizeram grande alarido. Então ela disse:

— Olha, compadre Lobo, são aqueles os homens que te querem matar. Lança-lhes o rio.

O Lobo assim fez, mas os homens vieram de lá com os mangoais e, como ele não podia correr por estar ainda muito cheio de água, deram-lhe pancadaria basta.

A Raposa fugiu, a rir. E foi contar à sua Rainha as partidas que tinha feito aos dois adversários. Ficou muito contente a Soberana, e no primeiro conselho apareceu triunfante, tendo desde esse dia o primeiro lugar, o que aumentava a fúria da Bruxa, Rainha dos lobos, e tornava cada vez mais triste a Fada, Rainha das cegonhas.


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Fonte:
Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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