sábado, 22 de junho de 2019

A Noiva do Conjurado (Conto), de D. João de Castro


A Noiva do Conjurado
 (Século XVII)
Ao anoitecer do último dia de novembro de 1640, na mais estreita das casas sobradadas que se arrimavam à cerca dos jardins do Marquês de Marialva, em Lis­boa, uma donzelinha cerrava sem ruído as adufas da única janela rasgada na frontaria, a par dum registro de azulejos, quando julgou ouvir o seu nome no brado de carinho e de súplica que nesse mesmo instante subiu da sombra da rua:
— Guiomar!
Indecisa, ficou alguns segundos sem movimento, a mão esquecida na branqueia; depois, de mansinho, tor­nou a abrir as adufas e, pela fisga assim entreaberta, espreitou receosamente.
Em baixo, na calçada, um homem envolvido em larga capa, que a ponta da espada levantava, tranqui­lizou com uma exclamação de ternura o seu olhar in­quieto. A sombra de uni largo feltro de mosqueteiro tomava-lhe quase indistintas as linhas do rosto, mas não conseguia apagar inteiramente o brilho de mocidade que esplendia nos seus olhos.
Guiomar reconheceu-o logo — e um nome, mais beijado que murmurado, saiu dos seus lábios:
— João!
Para diminuir a distância que os separava, ele subiu lesto os dois degraus exteriores que davam acesso à porta da casa.
— Vim para te falar sem tardançal — disse.
A sua voz, embora fosse cariciosa, revia impaci­ência. Guiomar assustou-se.
— Que sucedeu? — inquiriu ela. E logo em seguida, sem esperar resposta: — Vou pedir a minha mãe que te receba.
Desassossegada, cerrou de novo as adufas e correu a uma câmara interior onde sua mãe, à tênue claridade de uma lâmpada de azeite, orava de joelhos em frente de um crucifixo.
Guiomar devia ter vinte anos. A sua beleza, de linhas puras, não colhia de sobressalto os olhos que facil­mente admiram. Havia nela alguma coisa de seme­lhante a certas flores preciosas que, desabrochadas à sombra, como almas doentes, escondem sempre ria delicadeza da coloração ou na suavidade do perfume uma obscura saudade da luz. Esbelta, possuindo essa es­pontânea graça de movimentos que, entre formosas e feias, virgens e cortesãs, acusa as mulheres da estirpe de Eva, seduzia pela doçura que aveludava os seus olhos escuros e pelo encanto do sorriso melancólico que, às vezes, mal alvorecendo nos seus lábios, logo se lhe delia e difundia no rostozinho pálido de noviça namo­rada como uma máscara de luz.
Ao seu inesperado aparecimento no oratório, a mãe ergueu-se logo, alarmada, como se esperasse alguma notícia trágica:
— Que aconteceu?
— Não sei... — respondeu a filha, sem ocultar também a sua perturbação. — João está ali, com grande pressa de nos falar.
— Ah!... E ele não disse...?
— Nada!
— Que sucederia? Que sucederia?... — murmurou a velha dama, absorta, saindo a receber o visitante.
João do Rego Beliago, moço nobre da província, tinha vindo dois anos antes para Lisboa, na companhia de seu pai, e com ele fora iniciado, pouco depois, nos, segredos da conjuração que lentamente se urdia para libertar a pátria de Afonso Henriques das imprevidentes mãos de Filipe de Castela. Um dia, perdido entre a multidão que festejava os momos e as danças carna­valescas da procissão do Corpo de Deus, tinha visto Guiomar — e tudo nela o enfeitiçara, desde o recato senhoril da compostura à suavidade do olhar, um pouco alheado e triste. Terminada a festa, seguira-a de lon­ge, com reserva, até o alto do Loreto; mas quando mais tarde, afervorando-se na simpatia nascida no primeiro instante, procurou saber qttem ela era, apenas pôde obter informações sem consistência nem verossimilhança, meias palavras de intenção duvidosa que velavam de mistérios a origem da linda criatura. A mãe, D. Isabel Pacheco, era uma dama bem nascida, segundo se dizia, afilhada do velho conde de Cantanhede, e com parentes poderosos em Lisboa; mas no tocante ao pai, ninguém sabia se ele era mouro ou cristão, mecânico ou filho de algo. Apenas D. Agostinho Manuel de Vasconcelos, cuja mordacidade era proverbial, lhe havia dito:
— Em minha opinião, a mocinha é filha de algum crúzio. Aquilo é obra muito perfeita para não ter sido acabada com devoção e vagar em cela de frade rico!
Estas ambiguidades e incertezas combateram du­rante alguns dias, no pensamento de João Beliago, a recordação da linda Guiomar; mas depois, pouco a pou­co, como a água duma levada que perenemente corre sobre a mesma penha, o amor gerado em meio de tan­tas impressões contraditórias acabou por pulir as últi­mas arestas da sua indecisão, desembaraçando-o por fim de escrúpulos e temores. Guiomar, pela primeira vez cortejada, pela primeira vez amou. O casamento, vencidas todas as dificuldades, tinha-se patuado em agosto daquele ano; mas João Beliago, que logo con­fiara à noiva o segredo da conspiração e receava perder a vida ou a liberdade nessa aventura, impôs a condição de se adiar a cerimônia até que a revolução tivesse res­tituído Portugal aos portugueses.
Por isso, sabendo que o golpe preparado pelos conspiradores estava iminente, foi com o maior alvoro­ço que as duas mulheres acolheram a imprevista visita do moço patriota naquela noite de novembro. E am­bas estremeceram de esperança, ou talvez de receio, quando ele, cerradas todas as portas, lhes segredou:
— É amanhã!
— Jesus! — exclamou D. Isabel, juntando as mãos. Mas Guiomar, com um clarão de fé nos olhos sú­bito umedecidos, logo reanimou o noivo.
— Enfim! — disse, confiadamente.
— Eu pertenço ao grupo que tem de atacar a guar­da castelhana — continuou João Beliago. — Tudo está bem concertado. A vitória deve ser nossa!
— Quem sabe?!... — murmurou a mãe de Guio­mar, que escutava aturdida, com os lábios agitados por um contínuo murmúrio de orações.
— Se não for, Deus se amerceie de nós! — respon­deu resignadamente o conjurado. Depois, com maior mágoa na voz: — Será o fim: o fim da vida, o fim da pátria, o fim de tudo!
— Deus não pôde permitir tal! — clamou Guiomar, insurgindo-se varonilmente contra o receio de ver o seu sonho de felicidade amortalhado num perpétuo luto.
O olhar de João Beliago reacendeu-se.
— Não! — confirmou ele. — Deus não pode permi­tir tal! Amanhã, a estas horas, já estrebuchará nos in­fernos a alma negra de Miguel de Vasconcelos!
Um movimento de ira sacudiu a dorida apatia de D. Isabel:
— Quê?! Ides matá-lo?!
O moço inclinou à cabeça enérgica, num gesto de confirmação.
— Está condenado! — disse, simplesmente. — Foi o único. Devia acompanhá-lo o arcebispo de Braga, mas a esse salvou-o o sagrado do seu ministério.
— Matar! Matar! — tornou a mãe de Guiomar. — Que mal nos fez esse homem?
— Oh, mãe!...
— Que mal nos fez Miguel de Vasconcelos? Aca­so o ignorais vós?... Ninguém há em Portugal que não tenha sentido na vida, na honra, nos haveres, a sua mão do carrasco!
— Outros fizeram o mesmo a Pedro Barbosa, para lhe darem em seguida morte afrontosa... — discorreu ainda D. Isabel, com acrimônia. — Miguel de Vascon­celos não é um mau homem; é um filho que vinga seu pai!
— Atentai, senhora, que estais defendendo um trai­dor!
João Beliago, quando urna hora depois deixou a casa da sua noiva, levava oculto em si, como pápula de lepra, um receio que debalde tentara separar. O fer­vor de ânimo com que D. Isabel tinha defendido o se­cretário do Estado, era de molde a inquietá-lo naquela hora crítica. Abafada embora pela generosa confiança do seu coração namorado, uma voz interior segredava-lhe que essa criatura misteriosa, vivendo talvez do bem-fazer da casa de Marialva, podia muito bem ser uma das espias que o odiento renegado mantinha nas ante­câmaras da nobreza, à custa de vexatórias exações. E, apartando-se de Guiomar, algumas palavras indiscretas se insinuaram, mau grado seu, nas efusões do último adeus:
— Vela por tua mãe!
Velar por sua mãe!... Guiomar, a princípio não atingiu o alcance desta prevenção singular. — Sua mãe estaria ameaçada por algum perigo?... Dilacerando incertos pensamentos nas arestas daquele brado, reen­trou na quadra principal, onde D. Isabel tinha ficado — e, já entreabria os lábios para lhe pedir a explicação dos estranhos dizeres de João Beliago, quando ao aten­tar nela, que jazia em uma velha marquesa, abatida, sombria, como vergada ao peso de irremediável desgra­ça, teve subitamente a intuição da verdade. João, aquele que ela amava, cria sua mãe cana/ de o atraiçoar!
Este pensamento revoltou-a; todavia, confortando D. Isabel, procurando minorar com piedade de filha uma dor que não compreendia, notou que, ao cabo de alguns instantes, uma obscura apreensão a alheava das pala­vras que entre os braços de sua mãe estava balbucian­do. Lentamente, como serpente crespa de escamas, a dúvida ia-lhe apertando em torno do coração os seus anéis de morte. A coroa de rosas do seu amor bem fadado aparecia-lhe de súbito eriçada de espinhos...
— Será possível? — interrogava o pensamento insaciado e cruel, enquanto os seus lábios desfolhavam beijos e consolações sobre a enigmática mágoa daquela que até então julgara invulnerável.
Mais tarde, já no leito, em vão procurou, durante longas horas, o refúgio do seu tranquilo sono habitual; a suspeita maldita não cessara de a atormentar, com a tenacidade de um remorso.
Já a sineta dos frades da Trindade tocava a ma­tinas, quando conseguiu adormecer. Mas foi breve como um desmaio esse sono em que apenas o corpo que­brantado pela vigília achou repouso — e ao despertar, sobressaltada como se fugisse a uni pesadelo, logo ou­tro pesadelo a empolgou. Sua mãe, envolvida num lon­go manto escuro, atravessava naquele momento a câ­mara comum, encaminhando para a porta do corredor os passos cautelosos... A surpresa estonteou; mas quando o vulto de D. Isabel, mais esguio e quase si­nistro sob os negros panos talares, desapareceu entre os batentes da porta mal aberta, o pressentimento dum perigo de morte arrancou-lhe da garganta opressa um grito que tanto podia ser de socorro como de ameaça:
— Minha mãe!
Descalça, apenas resguardada a sua nudez de vir­gem pelo alvo linho duma camisa de noite, insensível ao frio da manhã, um fulgor de demência nos olhos, correu no encalço da velha dama. Ansiada, aloançou-a quando ela, no fundo da escada estreita e cheia de som­bra, já fazia girar com precaução a chave da porta da rua.
— Minha mãe!... Minha mãe, aonde ides?...
O assombro paralisou D. Isabel. Furtando os olhos ao olhar da filha, onde a suspeita, embora fundida em lágrimas, já ousava acusar, perguntou, aturdida.
— Onde vou?...
Mas, após uni breve silêncio, vencida a perturbação do primeiro instante, acrescentou com severidade:
— Que despropósito é esse? Que vens aqui fazer, tão desatinada e quase despida?
Sem lhe responder, d domar juntou as mãos, num fervoroso gesto de súplica:
— Minha mãe, senhora, não façais tal! Vós ides perdê-lo! E se o perdeis, matais-me! É a vossa filha que matais!
A velha empalideceu, como se um sopro de morte lhe tivesse gelado o sangue; e ereta, desenhada na sombra como uma sombra mais forte, a mão alvejan­do, imóvel, na chave da porta, tinha a grandeza dum réu a quem uma sentença iníqua dignificasse.
Fora, sob o céu cristalino da linda manhã de inver­no, um sino começou a tocar. A mãe de Guiomar corno que despertou então do seu sonho de dor e assombro; lentamente, numa voz que procurava abrir caminho atra­vés de emaranhadas comoções, murmurou:
— E à missa que eu vou... orar por todos!
Rápida, ainda dominada pelo terror que, como um vento de procela, a tinha arrastado até ali, a filha vol­veu:
— Levai-me convosco, como costumais! Por todos orarei também, ao vosso lado!
— Sim, por todos... — repetiu D. Isabel, absorta. Depois, sem fitar a filha, acrescentou: — Veste-te e vem. Que a vontade de Deus seja feita!
***
Já o sol brilhava, em plena glória, livre das névoas matinais, quando as duas mulheres entraram juntas na igreja do Loreto. No altar, um padre erguia a hóstia consagrada. Assim surpreendidas pela cerimônia, logo se prosternaram nas lajes da entrada, em uma contrita e apaziguadora renúncia de Iodos os seus pensamentos e desejos.
Quando a missa findou, subiram lentamente, por entre os devotos que saíam, até junto do altar-mor; e aí, sem trocarem uma palavra, longo tempo oraram, de joelhos, com redobrado fervor. Uma nova missa prin­cipiara já O celebrante, imobilizado na posição do ritual, meditava o Evangelho, quando subitamente um confuso rumor de vozes encheu toda a igreja. Perto das duas mulheres, uma velha, alçando sobre a gola do ca­pote um horrendo carão de bruxa alucinada, gritou:
— Jesus! O Senhor nos valha, que anda fogo na igreja!
Esse brado, logo repetido, alarmou instantaneamen­te toda a multidão que se premia e marulhava entre as grossas paredes do templo. A confusão teve, por mo­mentos, a violência e a bruteza dum regresso ao caos. O padre, atingido também por aquele tufão de pavor, interrompeu a missa e abandonou o altar, a correr, sofraldando a alva. Quando a quando, por meio da tur­ba que se comprimia, escoando-se entre lutas atrozes pela porta principal, um grito irrompia: era a onda hu­mana que esmagava inexoravelmente crianças, velhos, mulheres, todos os fracos, nessa ferina ânsia de salva­mento. Alguns conheciam talvez a verdadeira causa do alvoroço — mas, sob a pressão daquele ambiente de catástrofe, duvidavam de si próprios; outros, mais cal­mos, não vendo indício algum do sinistro anunciado, pe­diam ordem, clamavam que o perigo era imaginário, mas não cediam o passo aos que atropeladamente saíam.
Guiomar e sua mãe acharam-se na rua, quase invo­luntariamente, arrastadas pela onda popular. Perto, so­bre um poial, um frade borra arengava; mas as suas pala­vras já mal se ouviam entre o vozear do povo que se acardumava na calçada. O movimento de peões e ca­valeiros era extraordinário. Um alvoroço festivo, contrastando com a truculenta desordem da igreja, reju­venescia a cidade, que o sol, já alto, inundava. de luz. As palavras "liberdade", "rei", "castelhanos", cruzavam-se incessantemente no espaço — eram como que a espu­mas crespa e brilhante daquele revolto mar de vozes,.
Guiomar aproximou-se mais de sua mãe.
— Que terá sucedido, meu Deus?... — murmuro» ela.
D. Isabel não respondeu; lívida, tinha a rigidez duma estátua de bronze erguida no meio de frágeis, movediços arbustos.
Naquele momento, um grande magote, quase todo-composto de mulheres e crianças, tendo saído prova­velmente pela porta do Duque de Bragança, subia em festa a nova rua que vinha da ribeira ao longo da cerca gritando sem cessar:
— Viva el-rei D. João IV! Viva o nosso rei! Abai­xo os castelhanos! Morte aos traidores!
O povoléu que se apinhava junto da igreja deu a estes brados um eco em que algumas centenas de vozes se fundiram na mais admirável consonância; e quando o rancho, depois de ter atravessado o largo entre mal abertas alas, enfiou pela porta de Santa Catarina, um novo clamor se ergueu, que dominou todos os outros:
—— Ao Terreiro do Paço! Ao Terreiro do Paço!
Sem se consultarem, ambas atormentadas de diver­so modo pela mesma curiosidade, Guiomar e sua mãe seguiram também irresistivelmente a turba desacaudelada. Quando passavam em frente da igreja do Espíri­to Santo da Pedreira, um calafate que acabava de sair duma taberna limpando ao canhão da vestia os beiços aguardentados, clamava com entono de borracho para um camarada que o seguia de perto:
— É assim mesmo! A regente já está presa e o Vas­concelos morto! Só falta dar cabo dos castelhanos!
— Misericórdia! — gemeu a mãe de Guiomar, esmo­recida por uma vertigem.
De todas as travessas, de quase todas as casas, saía gente alvoroçada. Os mais tímidos, desorientados pelo alarido de tão grande; tropel de povo, hesitavam a prin­cípio, acolhidos nos umbrais das portas ou nas gargan­tas dos becos; outros, mais animosos, inquiriam dos su­cessos com desconfiança; mas por fim, rarefeita a sur­presa do primeiro instante, todos iam engrossando a mul­tidão que em alegre grita descia para o Terreiro do Paço. Na rua Nova dos Mercadores, uma virago de cabelos grisalhos, a célebre Bernarda Soares, à frente do exér­cito feminino que levantara e armara nos becos de Alfama, anunciou a capitulação dos castelhanos que de­fendiam o Castelo de São Jorge.
— Ouvistes, minha mãe?... — perguntou Guiomar, reanimada. — O céu protegeu-nos!
A velha ficou muda, absorta, como se nada ouvisse. Ao lado da filha, caminhava em meio da multidão en­capelada, como um condenado a quem a visão do su­plício aboliu já urna parcela de vida...
Quando chegaram à porta da Ribeira, um vivo mo­vimento arrepiou de súbito a marcha dos populares ovan­tes. Um fidalgo cujas armas resplandeciam à generosa claridade da manhã, montando um cavalo coberto dos mais ricos jaezes, saía naquele momento da sombra do arco, em meio das aclamações dum numeroso séquito. A bandeira da cidade erguida pela sua mão, tremulava livremente no ar. Era D. Álvaro de Abranches que par­tia a anunciar ao povo de Lisboa o milagre da sua libertação.
— Viva D. João IV, legítimo rei de Portugal! — bradou ele, quando viu na sua frente toda aquela mul­tidão já embriagada pelo triunfo.
— Viva! Viva! Liberdade! — responderam, como se partissem duma só boca, centenas de vozes.
Algum tempo depois, entrando no Terreiro do Paço, Guiomar e sua mãe logo notaram que a imensa praça, despovoada desde o Arco dos Pregos até a Ribeira do Peixe, tinha sido invadida em larga extensão, no ângulo que o palácio real limitava, por grande e rumorosa chus­ma de povo miúdo. Era a escumalha humana dá cida­de, homens, mulheres, crianças, que tinham vindo de roldão dos bairros miseráveis, excitados pela esperança de se contentarem em morticínios, pilhagens e devasta­ções, os seus mal domados instintos de feras cativas. Em alguns pontos daquele perigoso arraial, havia já altercações, pugilatos bárbaros; mas o grosso da turba premia-se então, com risos, palmas e brados de toda a sorte, em torno dum escravo mouro que, meio embria­gado, cantava e trejeitava como negro em batuque, des­figurando a miúdo o carão tismado com esgares de símio, que a canalha regozijada aplaudia.
Quando as duas mulheres se acercaram do grupo, atraídas por invencível curiosidade, o mouro, cuja ca­beça bamboleante e truanesca se elevava acima de todas as outras, interrompeu de improviso o seu cantar; e, li­sonjeado talvez pela atenção daquelas damas de apa­rência nobre, estendeu para elas, apertada como o pu­nho duma adaga na mão disforme e tinta de sangue, uma grande mecha de cabelos grisalhos.
— Só um patacão, senhoras! Só um patacão! Li­vra do mau olhado! Cura o quebranto! Tem mais virtude que o signo-saimão!
A matulagem, que se tinha desagregado em busca do alvo de tamanhas deferências, vendo essas, duas da­mas que sem soberba nem temor se associavam ao seu folgar de vilões, deixou-se vencer momentaneamente por um impulso de simpatia, quase de confraternização, — e com mesuras não isentas de ironia, logo se afastou, abrindo-lhes passagem até o centro do grupo, donde o mouro continuava a visá-las com o seu lamuriento pregão:
— Só um patacão de cobre! Só um patacão ve­lho!
As duas avançaram, quase constrangidas, através do magote clamoroso; mas logo aos primeiros passos D. Isabel, que ia na frente, recuou com um grito de pavor, como se encontrasse de súbito, apontado ao seu peito sem defesa, o punhal dum inimigo. Acabava de ver, sob os pés nus do escravo, mal coberto de farrapos encodeados de lama e sangue, o corpo de um homem, que a vida abandonara já, sem dúvida, porque apenas o patear desumano do mouro dava movimento aos seus membros lacerados por atrozes feridas. Em volta, a corja insen­sível, vendo quase desfalecida aquela mulher que lhe parecera forte como Judite, rosnou longamente, com desprezo e mofa.
— Quem é? — perguntou Guiomar, com a voz quase delida pela comoção, a uma alentada megera em cujo olhar creu divisar alguns lampejos de piedade.
— É o renegado! É Miguel de Vasconcelos!
O mouro, que ouvira estas palavras, recomeçou com maior alegria o seu infernal bailado sobre o cadáver já meio desmembrado:
— É o meu senhor! — regougava ele, na toada mo­nótona de certos cantos das selvas. — É o meu senhor! Já me não açoita! Perdeu a peçonha! Estamos ambos forros!
Este perverso cantochão, festejado com palmas e risos por toda a assistência, provocou uma deflagração de ódios.
— Não torna a mandar-nos para o tronco! — voci­ferava um.
— Nem a matar-nos de fome! — bramia outro.
— Nem a vender a nossa pele aos castelhanos!
— Cão!
— Traidor!
Excitando-se a si própria com esse gritos de sanha, que mais pareciam uivos, toda a matilha humana arre­meteu de novo contra o cadáver. Um cão latiu, atro­pelado pelos mais impacientes — e logo um moço da ribeira, colhendo-o pelo cachaço, o lançou contra o mor­to, entre brados de ferino incitamento:
— Fila, Dragão! Css! Css! Aboca, que é caça brava! As duas mulheres, apavoradas, fugiram entre as vaias e os risos da turbamulta.
— A canalha! A canalha! — exclamou D. Isabel, revoltada, emergindo daquele pesadelo com os olhos cheios de lágrimas.
Guiomar conteve-a, intimidada:
— Vede que não vos ouçam, minha mãe!... Aquilo é horrível; mas Deus o quer... É a expiação!...
O olhar da velha faiscou.
— Tu defendes os algozes! Tu?! — invectivou ela, com a mais acerba violência. E depois, adelgaçando a voz num sopro que procurava como um estilete em brasa o coração da filha, acrescentou: — Sabes quem é aquele homem trucidado e injuriado pela populaça?... Sabes quem é o renegado, o traidor, o vencido!... Sa­bes?...
E como Guiomar a fitasse, já assustada pelas mis­teriosas ameaças que empeçonhavam aquele falar de de­mência, concluiu:
— É teu pai!
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Do livro: "Portugal Amoroso".

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