sábado, 8 de junho de 2019

Ladislau Ventura (Conto), de Mário de Sá-Carneiro



Ladislau Ventura
(A Milton Machado de Aguiar)
Ladislau Ventura, quando eu o conheci, era um rapaz de dezenove anos, magro, trigueiro e de faces encovadas. Os seus olhos negros – como negros eram sempre o fato, o chapéu e a gravata que trazia  brilhavam como dois carbúnculos e neles transparecia claramente o gênio ou a loucura. Tinha uma paixão: as "letras". Fazia versos, escrevia romances, arquitetava peças que eu e mais dois amigos íntimos ouvíamos sempre com pachorra e às vezes com prazer. A sua única ambição era a glória e a celebridade. Para as alcançar não recuaria diante de nenhum obstáculo. Foi isso mesmo que mostrou mais tarde:

Um dia, cansado de percorrer os teatros para ver se algum lhe representaria uma peça, farto de entrar nas livrarias sem conseguir que lhe editassem um romance, sentiu-se desanimado. Em breve, porém, recuperou o ânimo: é que se lembrara do conhecido adágio "querer é poder" e, cheio de coragem, pôs-se em busca do meio de "poder". Achou um magnífico:

Com uma atividade febril, em três ou quatro meses, manufaturou dois novos dramas e três novos romances, enviou-os pelo correio a um livreiro. Passados alguns dias comprou um camarote no D. Amélia, muniu-se de um revólver e  o leitor por certo que ainda não esqueceu essa emocionante tragédia  quando decorria o último ato dos Amordaçados!, desfechou-o sobre a formosa Ester Valdez, que desempenhava a protagonista dessa  peça, atingindo-a em pleno coração. Depois voltou a arma contra si...

Numa das suas algibeiras foi encontrado um papel que dizia apenas o seguinte:

"Chamo-me Ladislau Ventura. Não sou ninguém. Amo loucamente uma mulher pela qual nunca me poderei fazer amar. Por isso, morro. Não consentirei, porém, que outro alcance aquilo que eu não posso alcançar. No mesmo dia em que abandonar a vida, arrebatarei também a dessa mulher."

Todos os jornais transcreveram estas linhas chamando ao crime "espantosa tragédia vivida", "horrível drama d’amor", etc., e muita menina romântica chorou e se apaixonou pelo "sombrio herói de tão comovedora tragédia"...

***

Pouco tempo depois, os teatros anunciavam as peças do "poético criminoso" e as livrarias os romances do "terrível amoroso". Que magnífico reclamo!! As edições esgotaram-se, os teatros encheram-se e hoje ninguém desconhece o nome de Ladislau Ventura...

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