sábado, 8 de junho de 2019

Maria Augusta (Conto), de Mário de Sá-Carneiro



Maria Augusta
(A José Mântua)

No primeiro andar do prédio nº 57 da Rua Augusta, vê-se uma tabuleta com os seguintes dizeres:

"AU NOUVEAU PARIS"
CONFECTIONS POUR DAMES
Mme. ROSA SILVA.

Era nesta casa que, ainda há dois meses, trabalhava Maria Augusta... Hoje, não; hoje já não trabalha...

***
História vulgar e banal, a desta rapariga.

Filha dum pedreiro e de uma criada de servir, que o seu nascimento transformara em "mulher a dias", viera ao mundo apenas como preço dum prazer...

Aos quatro anos, sua mãe, "para se ver livre dela" durante o dia, metera-a na mestra. Saíra aos oito, sabendo o alfabeto: "— Nada, que numa modista já podia ganhar um tostãozito por semana."

Por isso, entrou para casa duma vizinha que trabalhava para as mulheres dos operários do bairro. Passava todo o dia a fazer recados: ia comprar dez reis de chá, pôr o caixote do lixo à porta, levar um vestido, ouvir a descompostura inevitável: "— Faça favor de dizer lá que a saia ficou uma porcaria! Os forros não prestam para nada! Assim não me serve! O que não falta é modistas!"

Passados seis meses, saíra desta casa e fora para outra; depois para outra, para muitas mais, até que aos 17 anos se encontrara no "importante atelier "Au noveau Paris" — mal parecia que um estabelecimento frequentado pela sociedade elegante, tivesse um nome português – ganhando 17 vinténs diários: tantos vinténs quantos os seus anos...

***

Era muito formosa. Os seus sedosos e abundantes cabelos negros, coroavam um rosto encantador. Os seus lábios vermelhos e viçosos, pedindo beijos ardentes, serviam de cofre a uns pedacitos do mais puro marfim. A sua pele, branca e acetinada, era o invólucro dum corpo escultural e exuberante de vida...

***

Um dia, na rua, um homem murmurou-lhe ao ouvido a seguinte frase:

— "Como é linda!"

Maria, ao chegar a casa, pegou no seu pequeno espelho, colocou-o diante dela e, passado um quarto de hora, estava finalmente convencida de que lhe haviam dito a verdade! Sim, não havia dúvida, era "muito bonita"...

***

Como todas as mulheres, adorava os vestidos e as joias.

Uma vez um sujeito, idoso já, ofereceu-lhe, diante duma ourivesaria, um anelzito de dois mil réis. Ela aceitou entusiasmada. O sujeito idoso pediu-lhe, em paga, um beijo. Ela deu-lhe vinte.

Passados dias, um garboso mancebo convidou-a para o acompanhar ao teatro. Havia de recusar semelhante gentileza? Por certo que não...

Findo o espetáculo, o seu companheiro meteu-se num trem com ela e, Maria, como não podia negar coisa alguma àquele que lhe proporcionara três horas tão agradáveis, deu-lhe tudo quanto ele lhe pediu...

***

Vertiginosamente foi caminhando para o terrível e irremediável "fim"...

Os seus lábios, hoje, já não são tão vermelhos, embora os cubra com carmim; a sua pele já não é tão fina e tão branca, embora a esfregue todos os dias com glicerina, cobrindo-a depois com pó d´arroz. No entanto, Maria Augusta, hoje, já não trabalha...

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