terça-feira, 4 de junho de 2019

O doutor grilo (Fábula), de Ana de Castro Osório



O doutor grilo

Um homem, que se chamava Grilo, vivia muito pobremente com a sua mulher. Vai uma vez disse-lhe:

— Sabes que mais, vou-me fazer adivinhão!

— Como há de ser isso? Tu, que não sabes o que se passa, como hás de adivinhar o que está para acontecer?

— Espera, vou esconder a vaca do nosso compadre, e depois, quando ele andar muito aflito a procurá-la, vou-lha buscar e digo que adivinhei. Assim é que se faz para ganhar fortuna.

A mulher começou a rir-se da sua ideia; mas ele não quis saber, e foi a casa do compadre, tirou-lhe a vaca e esperou os acontecimentos. O compadre, quando deu pela falta do animal, arrepelou-se e gritou, perguntando a toda a gente se teriam visto a sua vaquinha.

— Olhe, compadre (disse o Grilo), eu tenho uma voz cá por dentro que adivinha tudo. E então eu vou pensar e depois lhe direi onde está a sua vaca escondida. —

Fingiu que estava a pensar e de repente gritou:

— Tate! Já sei onde está.

Disse o sítio em que a tinha guardado. Foram lá buscá-la, e o compadre deu-lhe boas alvíssaras. Começou a correr logo a fama de que tinha aparecido um novo doutor, chamado Grilo, que era um grande adivinhão.

A notícia correu mundo, até chegar ao palácio do Rei.

Ora acontecia que do Tesouro desaparecera uma grande riqueza. Foi logo chamado o doutor Grilo para dizer quem fora o ladrão, no prazo de três dias, sob pena de ser morto se o não adivinhasse.

O homem dizia mal à sua vida e dava ao demônio a ideia que tivera de se fazer adivinhão, mas era tarde para reconsiderar. Já agora tinha que se calar e resignar-se a morrer.

Levaram-no para um quarto, fecharam-no a sete chaves, e disseram-lhe que pensasse até saber o nome do ladrão.

No primeiro dia mandaram-lhe o jantar por um criado de toda a confiança do Rei. O pobre Grilo, muito triste, pensando somente na sentença de morte, disse:

— Um já lá vai! Não me faltam senão dois!

Referia-se aos dias que tinha de vida, mas o criado, que tinha culpas no cartório, ficou atemorizado e foi dizer a dois companheiros seus:

— Sempre é certo. O homem é adivinhão, pois quando me viu, disse que um dos ladrões já ele conhecia e só lhe faltavam dois.

No dia seguinte veio o segundo criado trazer-lhe o jantar, e o doutor Grilo suspirou com mágoa vendo que lhe ia fugindo o tempo:

— Dois já eu cá tenho! Agora só falta o terceiro!...

O criado correu espavorido a prevenir os companheiros.

Ao outro dia foi o terceiro criado levar-lhe o comer, e o pobre doutor gritou, quando o viu:

— Ai, o terceiro, o terceiro, que já eu cá tenho!...

O criado, ouvindo isto, caiu de joelho diante dele, pedindo por todos os Santos e Santas da corte do Céu que não os denunciasse senão com a promessa do Rei lhes poupar a vida, pois tinham sido eles três os ladrões do tesouro real.

O doutor Grilo, contentíssimo como pode imaginar-se duma pessoa que já contava morrer e se vê salva, prometeu o que lhe pediam aqueles desgraçados, e no dia seguinte apresentou-se muito soberbo diante do Rei e de toda a Corte reunida.

— Então (disse-lhe o Rei) quem é o ladrão do meu tesouro?

— Não é um. São três os ladrões. Já sei os seus nomes, Senhor, mas só os direi com a condição de que os deixareis ir em paz. — O Rei prometeu, e então apresentou-lhe ele os três criados infiéis, que tudo confessaram, entregando o que lhes não pertencia. Foram expulsos da Corte, mas, para cumprimento da palavra real, não tiveram mais castigo.

O Rei mandou entregar uma boa soma de ouro ao doutor Grilo que muito queria voltar para a aldeia onde era esperado pela mulher e pelos filhos, e onde estaria muito mais seguro. Mas o Rei, querendo experimentar melhor a sua habilidade, não deixou que ele se fosse logo embora.

Um dia levaram ao Palácio, de presente, uma porca dentro de um saco, e o Rei mandou chamar o adivinhão e perguntou-lhe se era capaz de saber o que estava ali dentro.

Olhou o doutor Grilo, por um lado e por outro, mas, como não podia tocar no saco e

o animal não dava sinais de si, voltou-se para o Rei e disse muito atrapalhado:

— Aqui é que a porca torce o rabo!

— Adivinhaste, é uma porca. És de fato, um sábio adivinhão!

Mas o Rei ainda não ficou desta vez convencido completamente da esperteza do homem, e um dia em que andava no jardim, apanhou um grilo, fechou-o na mão e disse para o famoso doutor:

— Se me disseres o que eu tenho aqui dou-te muito dinheiro.

O homem, que mal podia imaginar o que era, deu tratos e mais tratos ao juízo sem ser capaz de adivinhar. Muito descoroçoado, disse para si mesmo:

— Ai Grilo, Grilo, em que mão estás metido!

— Adivinhaste (bradou o Rei, muito contente) é um grilo.

E abrindo a mão deixou fugir o pobre animal.

Então acreditou na sabedoria do doutor Grilo, deu-lhe grande soma de dinheiro, e deixou-o ir para casa, mas com a condição de que viria à Corte sempre que desconfiasse que alguém o roubava ou lhe era infiel.

O homenzinho viu-se livre daquela aflição constante, e ainda lhe parecia mentira.

Afinal não foi preciso voltar à Corte, porque dali em diante todos tinham receio de que se soubessem os seus crimes e todos se portavam com muita honradez.

E assim o doutor Grilo viveu contente e rico o resto dos seus dias, na companhia da mulher e dos filhos que muito estimava, e muito bem educou e colocou na vida.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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