sexta-feira, 21 de junho de 2019

O Filho (Conto), de Fialho de Almeida



O  Filho
Cinco e meia da tarde.
A corneta do guarda-agulhas soou ao longe, anunciando o comboio que vinha de Lisboa.
Na gare, o chefe da estação já estava a postos, com os maços de guia na mão, o boné do uniforme na cabeça; e para a direita e para a esquerda, barafustando conforme o seu costume, dava uma ordem ao fator que ia passando, interrogava o faroleiro acerca da iluminação das salas de espera, ou conferia à pressa a grande nota da expedição de mercadorias a embarcar. E o surdo ruído do trem, gradual, poderosíssimo, cada vez mais crescente, e que parecia vir ululando da goela dum subterrâneo profundo, o surdo ruído avolumou-se, decompôs-se, foi-se definindo em outros ruídos mais dispersos... jogos de válvulas da máquina, bruscos vômitos de fumarada na chaminé, e tracs-tracs da ferragem, que faziam estribilho à grande estrupida das rodas no coleamento escorregadio dos rails. Toda aquela tarde, uma velha estivera acocorada no chão da sala comum, vestida de negro, com os cabelos brancos sobre os olhos, o xale esfiado pela cabeça, uma taleiguita de estopa no regaço... Tinha chegado essa manhã da Vacariça; era uma velha pequena, chata de cara, amarelenta, lesta e descalça de pé e perna, como em geral andam as mulheres pobres da Bairrada. Ninguém reparava nela, por certo, e quase era certo que também ela não houvesse reparado em ninguém.
Da Vacariça ao entroncamento da Beira, em Pampilhosa, vai uma travessia talvez de légua e meia. Logo de manhãzinha ela viera, a pobre velha, por esses córregos verdes dos pinhais, que a urze borda, e o feto grosso do mato, e a gilbarbeira espinhosa, naquele tempo, em dezembro toda bordada de baçasescarlates. Ao aproximar-se da estação, gritou-lhe o guarda brutalmente que se desviasse da linha; ela estacara medrosa, a taleiga de estopa no quadril, caído o xale, e sob o chapéu de feltro chato, o seu lenço negro de viúva, enrolado até a boca, como um toucado tunesino. E titubeante, às recuadelas nos rails, a pobre mulher acenava para o guarda, a lhe explicar que era de fora, não sabia; e que trazia no saco o farnelzinho prô-filho — porque o tiozinho não sabe? o filho dela devia chegar no comboio de Lisboa...
Aí se desenruga essa pobre cara de mártir, essa boa cara ressequida e cor de cera, que desde viúva perdeu o riso, emurchecendo e mirrando na solidão dum casebre, com a esperança porém no dia em que o rapaz, tornado do Brasil, lhe fizesse passar sem fome os derradeiros poentes da velhice. Mísera e descalça em setenta anos de labuta, ai pobre velha! conhecera a fome, o abandono, a viuvez e o egoísmo; e vai em trinta anos sem marido, sem proteções, nem parentes... — Ah! mas o tiozinho não sabe? O filho dela devia chegar no comboio de Lisboa!
Na estação correu os olhos banda a banda, pelas salas de espera, pelas gares, nos armazéns, nos fourgons, pela cantina, perguntando se estaria por lá um rapazote a modos encorpado, barba nenhuma, uma cicatriz no queixo, dum carbúnculo... o filho dela; porque o tiozinho não sabe? o filho dela devia chegar no comboio de Lisboa.
Alguns nem a escutavam. Outros passageiros sorriam-se da sua papalva ingenuidade. E o mais bondoso era um soldado em transferência do 23 para o Buçaco, parvo e sozinho, que havia chegado de Coimbra, e na Pampilhosa aguardava o trem da noite, para a Beira, que o desembarcasse no Luso. Esse era um pobre tarimbeiro, um cavador roubado às bouças pátrias, e que ao ver a velha, coitado, se recordava talvez de sua mãe. Ouviu-lhe tudo, o pobre diabo, a história dum porco que morrera à velha antes da Páscoa, o filho no Brasil vai em dez anos, cartas saudosas, infelicidades, doenças... e agora, não tendo feito fortuna, o filho torna para convalescer um pouco em Vacariça.
O soldado porém, não sabe dizer se o filho da velha chegou, ou não chegou. Dá-lhe o pão duro da sua sacola de linho — ela recusa, Deus lho pague! — e vão ambos indagar se o colono doente chegaria... um rapazola a modos encorpado, barba nenhuma, com uma cicatriz no queixo, dum carbúnculo... Lentamente os dois passeiam pela gare, metendo as cabeças ávidas pelas portas entreabertas; a velha trêmula e lacrimosa, sentindo o seu coração reverdecer nessa amargurada ausência de dez anos, durante os quais a sua oração todos os dias intercede ao Santo Cristo do Buçaco, pelos que mourejam lá longe em terra estranha e acaso possam voltar um dia, reconduzidos à paz do lugarejo em que nasceram. Mas todas as fisionomias lhe são estranhas!
Na sala de espera da terceira classe, entre bagagens e cobertores de lã, dormem aos montes, rabuzanos que vão trabalhar para o Alentejo, os varapaus de castanho atravessados, os tamancos ao lado, os pés descalços, e um cheiro a lobo que se evola das sisas saragoças montanhesas. Nostalgicamente, alguns tasquinham um pão de milho horrível, com sardinhas assadas entre as pedras.
E os mais novos, quinze anos, dezesseis, dezoito anos, todos alegres daquela primeira migração às sementeiras de lá baixo, esses não param, examinando tudo pelos cantos, espantados, deslumbrados, fulvos e bonitos como bezerrinhos de mama; e ei-los estacam diante dos relógios, dos aparelhos do telégrafo, a sala do restaurante cheia de flores, os "chalets" de hospedagem e os pequenos jardins dos empregados da estação... Dois ou três arranham nas bandurras fados chorosos, melodias locais duma tristeza penetrante, em cujos balanços, gemidos, estribilhos, se acorda o murmúrio dolente das azenhas, vozes da serra, risotas da romagem, balidos do pulvilhal que entra no ovil, todas as indefinidas virgindades dessa sagrada terra da Beira, núcleo de força, e ainda agora a mais impoluta ara da família portuguesa.
Nenhum vestígio do moço eles descobrem, e a velha resolve-se a aguardar o trem da tarde.
— A que horas virá? — pergunta ela para um fator que vai passando.
— Mas virá quem?
— O meu filho.  Porque o tiozinho não sabe...
— Eu, não; senhor.  De onde vem ele?
— Vem do Brasil, saiba o senhor.
— Trem de Lisboa, às cinco e meia.
— É amanhã, Jesus Maria!
— Às cinco e meia desta tarde... desta tarde! mulher de Deus!
— Há de perdoar. A gente é uma pobre de Cristo... Muito obrigada!
— Às cinco e meia — diz o soldado. — Tem vossemecê d'esperar inda quatro horas.
E a pobre velha suspira! Emaranhados, os cabelos caem-lhe ainda mais por sobre os olhos, e dir-se-ia vai estando mais pequena, tanto a fadiga da marcha a acocora, e o sobressalto lhe emacia aquelas suas carnes dessoradas. De roda, a paisagem de dezembro enche-os de bruma. É um daqueles dias pardacentos, enormes, tristes, sem horizonte, o céu muito baixo, que até os pássaros detestam, e nevoeiros, dentro de cuja fumarada todas as formas se alargam e atenuam. Dos eucaliptos da via escorre uma aguazinha turba e languinhenta, lama de argila e pó de carvão, lúgubre e infame, como um símbolo do tédio dessa tarde.
Ao longe, em cinza-escuro, num fundo de cerraceiro mais lavado, perfilam-se as colunatas do pinhal, em gradações difusas, delicadas como um desenho a carvão sobre que alguém tivesse sacudido um lenço de assoar. Os verdes do centeio mal aveludam a terra com a hesitante pelugem das suas folhas transidas de geada, a vinha seca, dormente, na hibernagem das plantas outoniças, emaranha pela terra as suas varas lassas da vindima, meses antes; e em turbilhões funéreos, gralhas se abatem por cima das lavouras, rolando na névoa fusca, como papéis queimados à procura de jantar nos húmus do salão gradado de fresco, ou debandando em espirais pró-arvoredo, quando algum homem passa, que elas apupam, diabólicas comadres, com as suas ladainhas roucas de presságios.
Deu uma hora. O soldado tira do bornal o pão de milho, queijo de cabra e bacalhau cozido, numa marmita velha de folha.
— Vá de jantar! — diz ele alegremente.
À palavra jantar, os dorminhocos levantam a cabeça, os rapazolas vêm aos seus farnéis, todos se apressam a sacar dos alforjes alguma bucha com que enxugar a fome que os cocega. Longe da gare, meia dúzia tratou já de acender lume para as sopas, um outro corre à cantina a comprar vinho... e os tamancos soam, as palavras crepitam, cascalham os xx, e a pronúncia beira veste de graças uma língua cortada de termos antiquados, fina e poética, que se nos afiguraria cinge a ideia com os pitorescos estofos da montanha.
— Vá, tiazinha! — diz o soldado.
A velha recusa-se: não tem vontade. Ela trazia ali farnel para o seu filho... Quando ele chegar, cearão juntos... Um rapazinho a modos encorpado, barba.nenhuma e uma cicatriz... foi-se há dez anos!
— Em dez anos o moço há de estar muito mudado.
Ela, surpresa: mudado!   O filho dela, mudado!
Afizera-se a ideá-lo tal qual ele partira, de manta às costas, olhos azuis, gorro nos olhos, os sapatos na ponta dum bordão... Vinte e três anos, solteiro: um mocetão da altura da Cruz Alta.
Era o seu filho! Logo ao chegar ao Brasil teve fortuna, uma tanoaria dera-lhe trabalho... depois, o desejo do ganho levara-o para o interior, e desde então foram as cartas rareando; era lá longe, o clima mau, muito trabalho... E em vez de palavras de esperança, reveladores dos progressos da fortuna, eram lamentações à mãe por todos os paquetes, pedidos de rezas para que Nosso Senhor lhe conservasse a saúde, grandes saudades da Vacariça, tristezas...
Nenhum daqueles homens a escutava, cada qual tasquinhando a broa de olhos baixos, o rabo de sardinha assada à altura do faro, o navalhoz aberto nos joelhos.
O próprio soldado mudara de feição: o seu enternecimento agora era o bacalhau no fundo da marmita, com seu fio de azeite aperitivo, um dente de alho...
— Vai uma golada, tiazinha?
Ela falava sempre, por uma necessidade impulsiva de se ouvir e ter presente o filho na memória, o seu rico filho que ia chegar dali a pouco, para ajudá-la na vida.
— Ah!  Deus o traga melhor, pobre rapaz!
— E com um taleigo de soberanos bem pesado.
— Pouco ou muito ele trouxesse, tudo é riqueza — disse a velha — para quem não tem senão a noite e o dia. Uma campainha elétrica retine; ela levanta-se.
— É o comboio!
Riem os moços todos: comboio? Isso há de ser cedo, tiazinha.
Duas horas, três, quatro, cinco horas. Lá desce a noite, as gralhas debandaram, cada vez o tom dos céus é mais lutuoso, e lenta, diáfana, a luz do ar já mal contorna as formas hesitantes.
O Buçaco sumiu-se, foram tragados na bruma os pinheirais, e a chula que os rabuzanos, depois de comer, sapateavam, também a chula se extingue, ao som das bandurras fatigadas, último adeus do montanhês aos casarelhos beirões que vai deixar.
Enfim as luzes acendem-se na estação, as lanternas dos guardas avançam sobre a linha, bruxuleiam na bruma os faróis das quatro vias, e uma após outra, as cornetas dos guarda-agulhas dão sinal dos comboios estarem à vista. Primeiro é o da Beira, que ao longe silva entre os pinhais do Valdoeiro; seguidamente silva o da Figueira; depois Lisboa, e por último o expresso do Porto fuzila na névoa os seus olhos de boi, vermelho e branco.
Num instante as duas gares atulham-se de gente, malas, bonés de viagem, sujeitos de óculos — as portas batem, rolam carros de mão com mercadorias, e sob as luzes dos vagões, vultos agitam-se, trocando os últimos adeuses, vozes gargalham, as mesas dos restaurantes debruam-se de famintos — e no trasbordo das malas e das gentes, os passageiros acotovelam-se, o plaid ao ombro, sacos na mão, bilhetes nos chapéus...
A velha vira chegar os carros de Lisboa, ir afrouxando o impulso da máquina, abrirem-se as portas de repente...
Ela, entretanto, cada vez mais pequena, azougadita, e sentindo renascer-lhe a alma na alegria desse filho restituído aos seus braços, ela corria ao encontro duns e de outros, confundia o seu vulto entre a gentana, sofria os tropeções dos indiferentes, pedindo informações, chamando o filho e revisando as caras uma a uma.
Nas terceiras classes era uma confusão medonha de vozeios, risos, guitarras, os que saíam, os que entravam, o homem da água, o homem dos pastéis, os revisores; e desse filho, nem uma só feição reconhecida, nem um grado sequer, uma notícia!
Mas a sua alegria é intraduzível, inexplicável — ele por força deve ter chegado, ele adorava-a, deve lembrar-se então da sua pobre velha, deve ali estar, tomando à pressa os sacos de viagem, dizendo adeus à pressa aos companheiros... e assim doente sob a frialdade da noite, permita Deus não vá cair de cama!
— Eh, tia Rosa!
Afirma-se no homem que lhe pousou a mão no xale roto.
— Sou o Clemente, vim do Brasil ontem à tarde... Eh, pobre velha, aqui me tem outra vez nas vossas terras!
Clemente ria, com o chapéu de coco à Zamparina, um grilhão de ricaço no colete.
— Ninguém me espera, vou daqui dar um alegrão à minha gente.
— Mas o meu filho? — diz ela. — Onde está o rapaz que me não vem falar?
Clemente cala-se.
— Venha daí comer alguma coisa.
— Onde está ele? — pergunta a velha alvoroçada. — Que escusa de mercar comida na cantina, e você venha também... trago-lhes aqui a ceia neste saco. E ela procura — onde se meteu agora o diacho do rapaz?...
Clemente hesita, e pálido, sinistro, ele atirou o chapéu mais sobre os olhos. Aquele silêncio, a princípio a velha não o entende. Encara-o um momento, os olhos fixos, pendente o lábio...
— Mas o meu filho?  O meu filho?
Então o homem correu-lhe os dois braços à roda do pescoço, olha-a um instante, apenas um instante.
— O seu José, tia Rosa, o seu José... morreu na viagem.
Nem um grito de espanto, um queixume, uma lágrima, nem sequer um único suspiro. Aconchega mais o xale sobre os ombros, baixa a cabeça trêmula e gelada, e pequenina, acocorando-se mais por entre o tumulto daquela gente alegre, ei-la a caminhar, a cambalear como um bêbeda.
Deixa a estação, as luzes, as árvores, entra na névoa úmida da noite, e os seus passos deslizam sem ruído — caiu-lhe o saco do farnel da ponte abaixo, ela não sente, ela não ouve, avança! avança!
No Valdoeiro, já longe, ouve-se silvar a máquina da Beira. Descalça, ela caminha naquele chão passado da umidade — é possível que o xale tenha escorregado, e a cabeça lhe esteja descoberta — ela não sente, ela não ouve, avança! avança! Já o trem abalou da estação, por sobre o aterro, e a terra treme, como domada sob a correria horrisona do monstro.
Ele aproxima-se. Veem-se os olhos da máquina luzindo laterais, como os dos peixes e os dos grandes sáurios; e o faulhar da máquina sobre a via, e o penacho do fumo, que a labareda doura, como uma crina de cavalo danado e formidando. Ele aproxima-se, e a sua carreira dir-se-ia tocada duma instantânea fúria de vingança, quando de súbito, na curva do caminho, desenrola o corpo de anelado, feito de vagões de ferro que se chocam, fosforejam, zumbem, fumando, bramindo num hausto de relâmpago que atravessa a noite lôbrega das matas. É neste instante que a velha vai passando: ela não sente, ela não ouve, avança! avança! E a máquina chama-a a si subitamente, dá-lhe um encontrão para dentro do caminho, enovelou-a bem nas saias de viúva, e sem trepidar fá-la num bolo, passa-lhe por cima, e continua a correr à desfilada.
Viu-se um dos pés da mulher escrever na terra o quer que fosse, protesto, súplica, epitáfio... E ao outro dia, quando os trabalhadores foram levar o corpo ao cemitério, o cura da Pampilhosa recusou-se a enterrá-la em sagrado, sob o pretexto da velha ter morrido sem confissão!

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

3 comentários:

  1. Este conto é da autoria de Fialho de Almeida, incluso no livro O País das Uvas.

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    1. Caro António,

      De fato. Obrigado pela gentileza. Revemos o equívoco...

      Abraços!

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  2. Este conto é da autoria de Fialho de Almeida, incluso no livro O País das Uvas.

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