domingo, 2 de junho de 2019

O homem que andou vinte e sete anos por fora (Fábula), de Ana de Castro Osório



O homem que andou vinte e sete anos por fora

Era uma vez um homem casado. Vivia muito pobre, e tanto que, por fim, resolveu sair da terra e ir ganhar meios para continuar a viver com a mulher, sem passarem necessidades. A mulher chorou muito, mas, como tinham já um filho, não havia remédio senão resignarem-se.

Partiram em duas a aliança de casamento e cada um ficou com sua metade.

O homem foi correr mundo. Andou lá por fora muito tempo, serviu inúmeros patrões, viajou por toda a parte e, ao fim de vinte e sete anos, vendo que já tinha o bastante para viver descansado com a mulher e o filho, resolveu regressar a casa.

As saudades apertavam e então, embora estivesse muito bem na casa que servia, despediu-se, dizendo porquê. O patrão, que o estimava muito, deu-lhe quanto dinheiro ele quis, e aconselhou-o:

— Vai sempre por caminhos direitos; livra-te das encruzilhadas e dos atalhos.

O homem pôs-se a caminho, e seguiu sempre esta recomendação. Mas um dia perdeu-se numa grande mata, e logo encontrou um homem que lhe perguntou para onde ia e se levava dinheiro.

— Levo algum, mas é só para fazer compras ao meu patrão. E logo volto por aqui.

E, para provar que não mentia, entregou-lhe o cajado. O homem deixou-o passar. Mais adiante encontrou outro, que lhe fez a mesma pergunta. Ele respondeu a mesma coisa e acrescentou:

— Olhe, aqui lhe deixo a minha capa, só para provar que hei de voltar.

Foi andando pela mata fora, e lá muito longe deu com um magote de homens, em volta de uma fogueira, junto duma grande casa. Logo que o viram, agarraram-no e levaram-no ao capitão da quadrilha de ladrões, porque esse era o seu modo cruel de vida.

O capitão olhou-o dos pés à cabeça, e, como o viu sem mostrar medo, disse-lhe:

— Tens boa cara; parece-me que te hás de dar bem conosco. Vou mandar-te mostrar a casa. Se não te admirares com coisa nenhuma, serás dos nossos; se te assustares, serás logo morto. 

O homem que era muito corajoso, respondeu logo:

— Decerto, não me admirarei, porque tenho visto muito, desde que saí da minha aldeia!

Levaram-no então a uma sala toda cheia de cofres abarrotados de joias. Braceletes, anéis, colares, tudo ali havia, a esmo. Eram tantas e de tal riqueza, que outro ficaria logo de boca aberta. Ele apenas disse, com ar de pouca importância:

— O que vocês me vêm mostrar! Mais do que isso tenho eu visto!...

Dali foram com ele à sala onde tinham as armas. Era um verdadeiro arsenal. Havia-as de todos os feitios e tamanhos, desde o punhal à espingarda.

— Oh (disse o homem), muito mais armas tenho eu visto!

Foram com ele a outra sala cheia de roupas, tantas, tantas, que vestiriam um povo inteiro. Também não se mostrou admirado. Levaram-no então a uma grande casa rodeada de pias cheias de sangue, da gente que os bandidos tinham morto. Sem se desconcertar, disse:

— Pouca coisa! Mais sangue tenho eu visto. Nem me admiro por sangrarem tanta gente, porque era capaz de fazer o mesmo...

Foram dali com ele a outra casa, toda cheia de cadáveres e ele impassível:

— Ora que tem isto de admirável, não me dirão? Para que somos nós homens? Mais mortos já eu vi.

Por fim mostraram-lhe uma casa cheia de ossos de gente. E ele tudo via com a mesma coragem e sangue frio.

Os ladrões ficaram contentíssimos com o novo companheiro, e foram outra vez apresentá-lo ao capitão. Deram-lhe de comer, e ficou na companhia. Nos primeiros dias só lhe davam a obrigação de enterrar as pessoas que assassinavam. E porque a floresta em que dominavam fazia caminho para muita parte, não era pequeno serviço. Depois, como o viram mostrar tanto zelo e boa vontade, foram-lhe dando lugares de confiança.

Punham-no de sentinela para espreitar os viandantes, e ele, logo que os via, prevenia-os que fugissem por outro caminho. Mas os ladrões nem sonhavam que ele fazia isto, pois o homem se mostrava, ao contrário do que era, ladrão e cruel como eles.

A mentira é uma grande covardia. Nem se deve nunca usar deste meio, senão em casos extremos. Mas às vezes é também prova de coragem sustentá-la longo tempo, se necessário, para bem dos outros.

Assim foi o homem ganhando a confiança dos companheiros até o mandarem para os postos mais avançados. Quando isto fizeram, ele meteu o seu dinheiro no bolso, e fugiu.

Quando se apanhou na terra, nem queria acreditar.

Foi procurar a mulher e já não a encontrou. Disseram-lhe que tinha ido para a cidade com o filho.

Dirigiu-se à cidade. Perguntava, perguntava e ninguém lhe sabia dizer o que ele queria!

Até que um dia calhou estar na loja dum sapateiro, quando viu passar uma mulher com um Padre. Pareceu-lhe que, embora velha, dava ares da rapariga que deixara havia vinte e sete anos, e perguntou ao sapateiro. Este respondeu logo:

— Não sei quem é aquela mulher. Veio para aí muito pobrezinha e tanto trabalhou, tanto labutou, que conseguiu fazer o filho Padre. Não se sabe mais nada, porque não conta a sua vida a ninguém.

Foi então o homem, vestiu-se de pobre e bateu à porta do Padre, pedindo um copo de água. A mulherzinha mesmo lho veio dar, sem o reconhecer. Mas ele, vendo metade do anel que ela trazia, teve a certeza que era a própria, e deitou a sua metade no copo. Ela, quando isto viu e reconheceu o marido, ia morrendo de alegria e, sem se importar de saber se vinha pobre ou rico, levou-o para dentro, chamou o filho, e ambos o trataram como se fosse um deus. O homenzinho contou então a sua vida e lá ficaram juntos e felizes, por muito ano, recordando os trabalhos passados para melhor agradecerem a felicidade conquistada.

Isto só prova que, sabendo esperar e querer, tudo se consegue no mundo, ou mais tarde ou mais cedo.

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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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