domingo, 2 de junho de 2019

O compadre do Diabo (Fábula), de Ana de Castro Osório



O compadre do Diabo

Um pobre trabalhador de enxada tinha um compadre muito rico.

Ora esse compadre era nem mais nem menos do que o senhor Diabo, mas o homenzinho não sabia quem ele era, e estimava-o bastante.

Um dia veio o Diabo ter com o compadre e disse-lhe:

— Tu és muito pobre e eu tão rico e poderoso que nem sei o que possuo de meu. Tenho dó de ti e lembrei-me de entrarmos a meias num negócio. Eu dou-te um grande campo, tu arroteias e cavas, e semeias o que entenderes, mas com a condição de ser meu o que ficar debaixo da terra e o que ficar por cima ser teu.

— Está dito, senhor compadre. Para a colheita venha buscar o seu ganho.

O homem percebera, ou lhe disse o coração que, por aquele contrato, o compadre o queria enganar. Foi para o campo, arroteou-o, cavou-o, e fez uma grande sementeira de trigo.

A seara cresceu e produziu que foi uma lindeza. Chegado ao tempo próprio, chamou gente, fez a ceifa, malhou, debulhou, secou e recolheu o seu grão, ficando muito satisfeito com a colheita do ano.

Passados dias, quando o Diabo chegou para levar a sua parte, disse-lhe o homenzinho:

— Olhe, compadre, vamos lá ao campo, que a sua parte ninguém lha tira.

Foram, mas quando o Diabo viu o restolho muito amarelo e as raízes secas ficou muito zangado e gritou que o compadre o tinha enganado.

— Ora essa! Então o senhor compadre não me disse que tudo quanto ficasse por cima da terra era meu e que as raízes eram para si?! Não faltei ao combinado.

— Bom, o que está feito, feito está. Mas agora já me não serve o contrato. Se queres ser meu sócio, há de ser às avessas. O que crescer para cima da terra é que será para mim, e as raízes serão para ti.

O campônio aceitou o negócio e tratou de arranjar o seu campo para a sementeira seguinte. Combinou com a mulher, e dessa vez foi batatas o que eles semearam. Chegou o tempo e o batatal pôs-se de modo que era a inveja de toda a gente.

Quando chegou a época própria de arrancar as batatas, era cada uma que enchia um prato. E tantas, tantas, que não se cansavam de medir alqueires.

Veio o compadre buscar a sua parte dos lucros e o lavrador entregou-lhe a rama seca e inútil dizendo:

— Aqui tem o seu quinhão, senhor compadre.

O Diabo, vendo-se enganado, ficou furioso e disse-lhe:

— Ai tu estiveste a mangar comigo? Pois então havemos de nos bater às unhadas, para vermos quem fica senhor do campo e das colheitas. Prepara-te, pois, para quando eu voltar.

O homem, que já sabia então com quem falava, ficou varado de susto e foi para casa contar à mulher o sucedido.

— Não te rales, deixa-o comigo, que eu o ensinarei (disse-lhe a mulher).

No dia em que devia aparecer o seu compadre, agora inimigo, escondeu-se o homem muito bem e ficou a mulher só em casa. Nisto o Diabo que bate à porta com toda a fúria, gritando:

— Aqui estou eu para irmos à luta! — Responde a mulher de lá:

— Ah, é vossemecê, senhor compadre? Entre, entre, e sente-se aqui para conversarmos antes que venha o meu homem. Ele foi amolar as unhas para quando forem a essa luta. Eu, senhor compadre, não lhe queria estar na pele. O meu homem sempre dá cada unhada que é da gente ficar com cicatriz para toda a vida. Olhe, a primeira que ele me deu foi esta...

E mostrou tal ferida que o senhor Diabo fugiu pela porta fora com medo das unhas do compadre, e nunca mais voltou.

Os dois ficaram-se a rir, ricos e satisfeitos, à custa do grande espertalhão que se julga capaz de enganar todos os mortais.

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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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