segunda-feira, 3 de junho de 2019



O leão e o bicho homem

Era uma vez um leão, soberbo mais que nenhum outro, que, não se contentando com usar da força de que a natureza o dotara para caçar as presas de que se alimentava, queria também saber-se Rei de todos os animais e por eles ser tido nessa conta.

Com todos os bichos, os mais valentes e aguerridos, experimentara, sempre vitorioso, o seu poder. Estava por isto muito satisfeito consigo próprio. Mas um dia deu em pensar que lhe faltava medir forças com o bicho homem.

— Assim (dizia o leão soberbo de si para consigo), não tenho o a certeza de ser o Rei de todos os bichos, embora tenha submetido ao meu poder os que conheço. Vou-me à procura do bicho homem, para experimentarmos forças.

Pôs-se a caminho e, depois de muito andar, encontrou um rapazito a quem perguntou:

— Olha cá, ó amigo, tu é que és o bicho homem?

— Não, senhor, ainda o não sou (respondeu o rapaz).

Foi o leão andando, até que encontrou um velho, muito velho e cansado, a quem disse logo:

— Ouve bem e não me enganes. És tu, na verdade, o bicho homem?

— Já o fui, já não o sou (respondeu o velho com tristeza).

O leão continuou a sua jornada, a ver se encontrava o bicho homem. Foi andando e pesquisando, até que, ao atravessar uma floresta, deparou com um caçador, novo e forte, a quem se dirigiu, perguntando:

— Serás tu, por acaso, o bicho homem?

— Sou eu, sou (respondeu o caçador).

Que queres tu de mim?

— Quero bater-me contigo, a ver se porventura és mais forte do que eu.

— Ah, queres? Pois então vamos a isso! E o caçador, pondo a arma à cara, fez fogo.

O leão, espantado e aflito, deu dois pulos e, deitando a correr, só parou muito longe, gritando então:

— Já não quero nada com o bicho homem! É mais forte do que eu, pois que só com um espirro me fez fugir.
 

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Fonte:
Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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